segunda-feira, 8 de março de 2010

Assessores que não assessoriem!

No blog jugular, de 17.Fev, o artigo A ética do bufo, do Rogério da Costa Pereira. Tudo a propósito da notícia de "que um dos membros do Simplex mostrou ao Correio da Manhã documentos enviados ao longo de meses por João Galamba". Passando os olhos pela blogosfera, Carlos Santos, Professor de Economia e Analista de Política Internacional afirma, num dos seus blogues, que por uma questão de "ética pessoal" não comenta este texto de Eduardo Dâmaso. Este, na sua coluna —, o tal texto que professor e analista não comenta(m) — fala em violação dos "valores da ética republicana". Depois de tanto falar ouvir falar em ética, o autor sai disparado à procura do jornal, e preocupadíssimo porque, ele próprio que esteve no Simplex, constata que perdeu tudo o que supostamente por lá de interessante se passou, isto fazendo fé no texto do Dâmaso. Na "investigação do CM", dizia, em subtítulo, que “Sócrates foi apoiado por blogues alimentados em informação e argumentários feitos por assessores”. O autor espanta-se com o espanto dos ditos jornalistas. Realmente, onde foi que se já se viu tamanho impropério? 3 jornalistas, pelo menos ... ficaram absolutamente estupefactos por "descobrirem" que assessores do PM terão fornecido informação para blogues de campanha. E repara até o autor que "estivesse o garganta funda que lhes forneceu o texto um pouquinho mais atento e até teria reparado que com ele integraram o blogue de apoio alguns assessores. Ou seja, havia assessores a escrever no blogue. Só isto já seria, pelos vistos, notícia. Dito por outras palavras, a notícia vira notícia. E a nova notícia é que um assessor não pode assessorar." Para mim, que fiz parte de dois gabinetes governamentais, um do tempo de Cavaco Silva e outro de Barbosa de Melo (PR da AR), é realmente de pasmar. Que coisa espantosa! Há mesmo quem acredite que, naqueles tempos, ninguém dizia nada a ninguém?! Bom, é certo que o temor reverencial que todos tinham à actual Primeira Dama da Nação e ao actual Presidente da República, e às decisões que resultavam de um fim-de-semana na Mariani (Boliqueime), mas acreditem que, ainda assim, juro!, todos sabiam de tudo por fonte própria: pelos assessores. Bons tempos, pelo visto, em que os assessores assessoravam. Depois de tanto se falar do enorme número de assessores contratados pelo actual Governo e de se dar a entender que pouco ou nada fazem, conclui-se, finalmente, que a culpa é, não dos próprios, seguramente, mas de um factor exógeno: o de a sociedade, dado o grau esperado de neutralidade, exige que estes nada façam, sob pena de lhes ser apontado o dedo, finda a nomeação, e pôr fim a uma carreira. Os assessores devem agora manter-se de tal forma imparciais, que não devem escutar, falar nem fazer rigorosamente nada. Não fossem os meus 47 anos e até ía já pôr uma bela de uma cunha para voltar ao cargo por onde comecei a minha carreira: assessora. Que péssimos tempos esses em que se esperava que fôssemos incansáveis! Agora, ai de quem assessorar. Façam-nos o favor de se limitar a esperar que, ao fim do mês, se transfira o montante correspondente à remuneração que, por despacho, lhes foi atribuída, e deixem-se de peneiras! Aqui nem se aplica o "Deixem-me trabalhar", porque hoje, definitivamente, a oposição não quer que se trabalhe. Só posso perceber isto se a seguir me explicarem que existe um esquema montado de contra-espionagem para que sejam os assessores do Governo-sombra-PSD a assessorar. Será força de hábito, talvez! Foram tantos anos a assessorar que estão, ainda hoje, convencidos de que lhes compete a eles e não aos assessores da (então) oposição dar-se a estas pretensões.
OK. Continuando a seguir o autor, avançemos para aquela parte em que este tinha acalentado a esperança de ver um novo escândalo de jeito rebentar. Título — “Campanha com meios públicos” — e parte do texto, que alega que os tais assessores (os que têm o desplante de assessorar) “usaram o seu tempo, pago pelo erário público, meios informáticos e informação privilegiada para produzir propaganda”. Notável. É realmente inacreditável. No meu tempo, eram competências genéricas de todos os gabinetes fazer tais coisas e de alguns, concretamente, eram até competências específicas. Diz o autor que "Quanto a esta coisa, que é sumariamente grave, pouco adiantarei, que seria dar pérolas a porcos. Apenas digo que dos mails que foram divulgados, que terão sido parte do todo ao qual eu, como membro do Simplex, tive acesso, não se pode retirar tal conclusão. O facto de o dia ter 24 horas talvez explique alguma coisa, mas quem sou eu para andar a desmamar meninos?"
Confessa depois o autor que, a meio da campanha foi jantar com o Galamba, "mas em vez de documentos, o gajo levou-me foi a um restaurante em Monchique (pagámos a meias)". Outro dado impossível nos belos tempos cavaquistas, em que as comezainas corriam por conta das despesas de repersentação e em que serviam para se jogar ao Verdade ou Consequência, Caio ou Não Caio depois deste fim-de-semana na Mariani? E onde foi que já se viu amigos de amigos de políticos irem apenas almoçar sem ter passado uma informaçãozinha senão secreta, pelo menos indiscreta? Que tempo fantástico o das congeminações ao almoço e das conspirações ao jantar! Saudades do tempo em que se esperava dos assessores que fizessem nada mais nada menos do que assessorar. Claro que agora com o pânico sobre de que partido é o cozinheiro? está uma escuta instalada na maionese? Conheces esta "senhora" aqui ao lado? Terá pinta de bófia? Ou será uma simples denunciante? que mais resta para se dizer que não Que bom está o pernil, O bacalhau é tão altinho. A galinha era do campo....
Voltando ao autor, ainda este se espanta pela forma como hoje se gera uma notícia. "Há pois uma mistura de pinguim — por certo um gajo sem qualquer resquício de "ética pessoal", ao contrário do professor atrás citado — que revela as entranhas de um blogue. Mostra os mails que se trocaram, as estratégias que se montaram. A razão só a figurinha com boca de megafone a poderá dar. Esperava uma gratificação e não lha deram? Queria ser ministro, secretário de estado? Queria ser assessor, tu queres ver? Não andou lá por crença mas à espera de recompensa? Por certo, teria muito — o naco de gente — a aprender com Carlos Santos, ético pessoal, analista e professor. Esse ensinar-lhe-ia que ética pessoal é reserva sim, mas não reserva mental." E vai daí até à suprema delícia de umas colunazinhas superiores, destacadas a vermelho, e, numa delas, êxtase!, sob o título “Blogues Depois do Simplex” diz-se: “Os mesmos protagonistas do Simplex criaram outros blogues, onde os conteúdos são também muito favoráveis ao Governo. Entre eles, o País Relativo, Valor das Ideias e a Regra do Jogo”. Vem-me novamente à cabeça a notícia principal, onde se diz que “O blogue Simplex criado em Junho de 2009 para apoiar a candidatura de José Sócrates a primeiro-ministro foi alimentado por meios públicos a partir do Governo”. O pobre do autor ainda lembra que o Valor das Ideias é da autoria do Carlos Santos e que a Regra do Jogo foi um blogue fundado, após as eleições, pelo tal ético pessoal, professor e analista. E solidariza-se o autor com o Carlos Santos e roga-lhe a praga de que encontre depressa o bufo-bufão que andou por aí feito alarve a assessorar.
Se nem dos assessores se espera que assessorem provavelmente não estariam à espera de um governo que governasse. Agora percebo tanto espanto! Que saudades daquele tempo em que todos esperávamos o mesmo de todos. Ah! E dos fins-de-semana abruptos da Mariani em que ministros caíam e só sabiam pela comunicação social que tal acontecera porque já estava marcado o dia da posse dos seus sucessores. Aquilo sim era ditaduracracia a sério. Ensinem esses assessores-mestre alguma coisa aos assessores-aprendizes de agora. E, já agora, porque não compra o PM uma vivendazinha lá para aqueles lados e arranja também uma Maria só para si que o ensine a passar rasteiras e a pôr na linha estes malandros! Porque, francamente, se os assessores do PS vêm com esta moda de assessorar, já os futuros assessores do PSD tremem de medo, que tal moda pegue. Magnifícios tempos de prepotência! De omnipresença! Em que tudo estava no lugar e em que a tradição era o que era.! Em que por tudo e por nada, e sem saber como nem porquê, um(a) assessor(a) perdia a cabeça, de forma tão previsivel! Quando não assessorava jornalistas ou quando se recusava a passar informações para o exterior, pumba, caía a dita, como a de João Batista, porque uma mulher (não necessariamente filha) ligada a Herodes o impunha. Isto de "novos tempos" "novas vontades" é realmente muito mais complicado. Como era simples, naqueles tempos, assessorar. Hoje é muito complexo. Querem os senhores fazer-nos o favor de seguirem a nova moda e de se deixarem de tradições? Não assessoriem. E pronto! - como dizia a outra.