sábado, 24 de abril de 2010



À Maria Belo, minha madrinha de Abril, pelo 25, dedico As Portas que Abril abriu, de Ary dos Santos.
Era uma vez um país onde entre o mar e a guerra vivia o mais infeliz dos povos à beira-terra. Onde entre vinhas sobredos vales socalcos searas serras atalhos veredas lezírias e praias claras um povo se debruçava como um vime de tristeza sobre um rio onde mirava a sua própria pobreza.
Era uma vez um país onde o pão era contado onde quem tinha a raiz tinha o fruto arrecadado onde quem tinha o dinheiro tinha o operário algemado onde suava o ceifeiro que dormia com o gado onde tossia o mineiro em Aljustrel ajustado onde morria primeiro quem nascia desgraçado.
Era uma vez um país de tal maneira explorado pelos consórcios fabris pelo mando acumulado pelas ideias nazis pelo dinheiro estragado pelo dobrar da cerviz pelo trabalho amarrado que até hoje já se diz que nos tempos do passado se chamava esse país Portugal suicidado.
Ali nas vinhas sobredos vales socalcos searas serras atalhos veredas lezírias e praias claras vivia um povo tão pobre que partia para a guerra para encher quem estava podre de comer a sua terra.
Um povo que era levado para Angola nos porões um povo que era tratado como a arma dos patrões um povo que era obrigado a matar por suas mãos sem saber que um bom soldado nunca fere os seus irmãos.
Ora passou-se porém que dentro de um povo escravo alguém que lhe queria bem um dia plantou um cravo.
Era a semente da esperança feita de força e vontade era ainda uma criança mas já era a liberdade.
Era já uma promessa era a força da razão do coração à cabeça da cabeça ao coração.
Quem o fez era soldado homem novo capitão mas também tinha a seu lado muitos homens na prisão. Esses que tinham lutado a defender um irmão esses que tinham passado o horror da solidão esses que tinham jurado sobre uma côdea de pão ver o povo libertado do terror da opressão. Não tinham armas é certo mas tinham toda a razão quando um homem morre perto tem de haver distanciação uma pistola guardada nas dobras da sua opção uma bala disparada contra a sua própria mão e uma força perseguida que na escolha do mais forte faz com que a força da vida seja maior do que a morte.
Quem o fez era soldado homem novo capitão mas também tinha a seu lado muitos homens na prisão.
Posta a semente do cravo começou a floração do capitão ao soldado do soldado ao capitão.
Foi então que o povo armado percebeu qual a razão porque o povo despojado lhe punha as armas na mão.
Pois também ele humilhado em sua própria grandeza era soldado forçado contra a pátria portuguesa. Era preso e exilado e no seu próprio país muitas vezes estrangulado pelos generais senis.
Capitão que não comanda não pode ficar calado é o povo que lhe manda ser capitão revoltado é o povo que lhe diz que não ceda e não hesite - pode nascer um país do ventre duma chaimite. Porque a força bem empregue contra a posição contrária nunca oprime nem persegue - é força revolucionária!
Foi então que Abril abriu as portas da claridade e a nossa gente invadiu a sua própria cidade.
Disse a primeira palavra na madrugada serena um poeta que cantava o povo é quem mais ordena. E então por vinhas sobredos vales socalcos searas serras atalhos veredas lezírias e praias claras desceram homens sem medo marujos soldados «páras» que não queriam o degredo dum povo que se separa. E chegaram à cidade onde os monstros se acoitavam era a hora da verdade para as hienas que mandavam a hora da claridade para os sóis que despontavam e a hora da vontade para os homens que lutavam. Em idas vindas esperas encontros esquinas e praças não se pouparam as feras arrancaram-se as mordaças e o povo saiu à rua com sete pedras na mão e uma pedra de lua no lugar do coração. Dizia soldado amigo meu camarada e irmão este povo está contigo nascemos do mesmo chão trazemos a mesma chama temos a mesma ração dormimos na mesma cama comendo do mesmo pão. Camarada e meu amigo soldadinho ou capitão este povo está contigo a malta dá-te razão.
Foi esta força sem tiros de antes quebrar que torcer esta ausência de suspiros esta fúria de viver este mar de vozes livres sempre a crescer a crescer que das espingardas fez livros para aprendermos a ler que dos canhões fez enxadas para lavrarmos a terra e das balas disparadas apenas o fim da guerra.
Foi esta força viril de antes quebrar que torcer que em vinte e cinco de Abril fez Portugal renascer.
E em Lisboa capital dos novos mestres de Aviz o povo de Portugal deu o poder a quem quis.
Mesmo que tenha passado às vezes por mãos estranhas o poder que ali foi dado saiu das nossas entranhas. Saiu das vinhas sobredos vales socalcos searas serras atalhos veredas lezírias e praias claras onde um povo se curvava como um vime de tristeza sobre um rio onde mirava a sua própria pobreza.
E se esse poder um dia o quiser roubar alguém não fica na burguesia volta à barriga da mãe.
Volta à barriga da terra que em boa hora o pariu agora ninguém mais cerra as portas que Abril abriu. Essas portas que em Caxias se escancararam de vez essas janelas vazias que se encheram outra vez e essas celas tão frias tão cheias de sordidez que espreitavam como espias todo o povo português.
Agora que já floriu a esperança na nossa terra as portas que Abril abriu nunca mais ninguém as cerra.
Contra tudo o que era velho levantado como um punho em Maio surgiu vermelho o cravo do mês de Junho.
Quando o povo desfilou nas ruas em procissão de novo se processou a própria revolução.
Mas eram olhos as balas abraços punhais e lanças enamoradas as alas dos soldados e crianças.
E o grito que foi ouvido tantas vezes repetido dizia que o povo unido jamais seria vencido.
Contra tudo o que era velho levantado como um punho em Maio surgiu vermelho o cravo do mês de Junho.
E então operários mineiros pescadores e ganhões marçanos e carpinteiros empregados dos balcões mulheres a dias pedreiros reformados sem pensões dactilógrafos carteiros e outras muitas profissões souberam que o seu dinheiro era presa dos patrões. A seu lado também estavam jornalistas que escreviam actores que se desdobravam cientistas que aprendiam poetas que estrebuchavam cantores que não se vendiam mas enquanto estes lutavam é certo que não sentiam a fome com que apertavam os cintos dos que os ouviam.
Porém cantar é ternura escrever constrói liberdade e não há coisa mais pura do que dizer a verdade.
E uns e outros irmanados na mesma luta de ideais ambos sectores explorados ficaram partes iguais.
Em tanto não descansavam entre pragas e perjúrios agulhas que se espetavam silêncios boatos murmúrios risinhos que se calavam palácios contra tugúrios fortunas que levantavam promessas de maus augúrios os que em vida se enterravam por serem falsos e espúrios maiorais da minoria
que diziam silenciosa e que em silêncio fazia a coisa mais horrorosa: minar como um sinapismo e com ordenados régios o alvor do socialismo e o fim dos privilégios.
Foi então se bem vos lembro que sucedeu a vindima quando pisámos Setembro a verdade veio acima.
E foi um mosto tão forte que sabia tanto a Abril que nem o medo da morte nos fez voltar ao redil.
Ali ficámos de pé juntos soldados e povo para mostrarmos como é que se faz um país novo.
Ali dissemos não passa! E a reacção não passou. Quem já viveu a desgraça odeia a quem desgraçou.
Foi a força do Outono mais forte que a Primavera que trouxe os homens sem dono de que o povo estava à espera.
Foi a força dos mineiros pescadores e ganhões operários e carpinteiros empregados dos balcões mulheres a dias pedreiros reformados sem pensões dactilógrafos carteiros e outras muitas profissões que deu o poder cimeiro a quem não queria patrões.
Desde esse dia em que todos nós repartimos o pão é que acabaram os bodos - cumpriu-se a revolução.
Porém em quintas vivendas palácios e palacetes os generais com prebendas caciques e cacetetes os que montavam cavalos para caçarem veados os que davam dois estalos na cara dos empregados os que tinham bons amigos no consórcio dos sabões e coçavam os umbigos como quem coça os galões os generais subalternos que aceitavam os patrões os generais inimigos os generais garanhões teciam teias de aranha e eram mais camaleões que a lombriga que se amanha com os próprios cagalhões.
Com generais desta apanha já não há revoluções.
Por isso o onze de Março foi um baile de Tartufos uma alternância de terços entre ricaços e bufos.
E tivemos de pagar com o sangue de um soldado o preço de já não estar Portugal suicidado.
Fugiram como cobardes e para terras de Espanha os que faziam alardes dos combates em campanha.
E aqui ficaram de pé capitães de pedra e cal os homens que na Guiné aprenderam Portugal.
Os tais homens que sentiram que um animal racional opõe àqueles que o firam consciência nacional.
Os tais homens que souberam fazer a revolução porque na guerra entenderam o que era a libertação.
Os que viram claramente e com os cinco sentidos morrer tanta tanta gente que todos ficaram vivos.
Os tais homens feitos de aço temperado com a tristeza que envolveram num abraço toda a história portuguesa. Essa história tão bonita e depois tão maltratada por quem herdou a desdita da história colonizada.
Dai ao povo o que é do povo pois o mar não tem patrões.
- Não havia estado novo nos poemas de Camões! Havia sim a lonjura e uma vela desfraldada para levar a ternura à distância imaginada.
Foi este lado da história que os capitães descobriram que ficará na memória das naus que de Abril partiram das naves que transportaram o nosso abraço profundo aos povos que agora deram novos países ao mundo.
Por saberem como é ficaram de pedra e cal capitães que na Guiné descobriram Portugal.
E em sua pátria fizeram o que deviam fazer: ao seu povo devolveram o que o povo tinha a haver:
Bancos seguros petróleos que ficarão a render ao invés dos monopólios para o trabalho crescer.
Guindastes portos navios e outras coisas para erguer antenas centrais e fios dum país que vai nascer.
Mesmo que seja com frio é preciso é aquecer pensar que somos um rio que vai dar onde quiser pensar que somos um mar que nunca mais tem fronteiras e havemos de navegar de muitíssimas maneiras.
No Minho com pés de linho no Alentejo com pão no Ribatejo com vinho na Beira com requeijão e trocando agora as voltas ao vira da produção no Alentejo bolotas no Algarve maçapão vindimas no Alto Douro tomates em Azeitão azeite da cor do ouro que é verde ao pé do Fundão e fica amarelo puro nos campos do Baleizão.
Quando a terra for do povo o povo deita-lhe a mão! É isto a reforma agrária em sua própria expressão: a maneira mais primária de que nós temos um quinhão da semente proletária da nossa revolução.
Quem a fez era soldado homem novo capitão mas também tinha a seu lado muitos homens na prisão.
De tudo o que Abril abriu ainda pouco se disse um menino que sorriu uma porta que se abrisse um fruto que se expandiu um pão que se repartisse um capitão que seguiu o que a história lhe predisse e entre vinhas sobredos vales socalcos searas serras atalhos veredas lezírias e praias claras um povo que levantava sobre um rio de pobreza a bandeira em que ondulava a sua própria grandeza!
De tudo o que Abril abriu ainda pouco se disse e só nos faltava agora que este Abril não se cumprisse.
Só nos faltava que os cães viessem ferrar o dente na carne dos capitães que se arriscaram na frente.
Na frente de todos nós povo soberano e total que ao mesmo tempo é a voz e o braço de Portugal.
Ouvi banqueiros fascistas agiotas do lazer latifundiários machistas balofos verbos de encher e outras coisas em istas que não cabe dizer aqui que aos capitães progressistas o povo deu o poder!
E se esse poder um dia o quiser roubar alguém não fica na burguesia volta à barriga da mãe!
Volta à barriga da terra que em boa hora o pariu agora ninguém mais cerra as portas que Abril abriu!

"Honra a Ribeiro Santos!"



José António Leitão Ribeiro Santos contava 26 anos de idade quando foi morto, a tiro, por um esbirro da PIDE, durante um "meeting" contra a guerra colonial, no ISE (actual ISEG). Estava um fulano a tirar apontamentos dos cartazes, e, suspeitando-se que era um PIDE, apanhou um correctivo dos estudantes. A Direcção da AE do ISE, conotada com o PCP, foi chamar a PIDE para confirmar se o tal indivíduo pertencia ou não aos seus quadros. Com a chegada da PIDE, houve confrontos, de que resultou a morte de Ribeiro Santos e o ferimento de José Lamego (com um tiro numa perna), então também ligado ao MRPP e à FEML e hoje militante do PS, o qual ficou internado no Hospital de Santa Maria, sob prisão, rumando, após alta médica, para o forte de Caxias. A Direcção da AE do ISE, liderada por um tal Pedro Aranda, não está isenta de culpas na morte daquele estudante.
O funeral de Ribeiro Santos foi uma jornada histórica contra a ditadura, tendo a PIDE impedido os estudantes de conduzirem aos ombros o seu camarada ao cemitério da Ajuda. Houve cenas de pancadaria no trajecto do funeral, desde a casa do jovem vítima da polícia política, em Santos, até ao cemitério e dentro deste, registando-se inúmeras prisões. Por todo o País, estudantes levantaram-se em luta, denunciando aquele crime do regime e das suas forças repressivas. O tiro que tirou a vida a Ribeiro Santos foi mais um tiro no pé do próprio regime. O PIDE que o assassinou fugiu de Alcoentre em 1975, tendo desaparecido, nunca sendo julgado pelo crime cobarde que cometeu.
Ribeiro Santos tem a sua foto na frente do Plenário 1 da Faculdade de Direito de Lisboa e constitui ainda hoje um forte exemplo de coragem e determinação para os que ali estudaram e viveram ali uma parte dos melhores dias da sua juventude. Numa escola de Legalidade, a Liberdade não pode ser esquecida. Direito deve ser um curso vocacionado para a Democracia e para a defesa dos homens democratas. Incomoda-me saber que a Faculdade nada tenha feito para punir o assassínio de um dos seus pupilos. Este crime cobarde cujo autor ficou sempre impune, mesmo após o 25 de Abril de 1974 (!), e é certo que representou um dos últimos estertores do regime fascista que, não obstante todo o seu arsenal repressivo, nunca mais recuperou do profundo abalo que então viria a sofrer. Na verdade, no próprio dia do assassinato (uma 5ª feira), no dia seguinte e sobretudo no dia do funeral (Sábado), em que a PIDE e a polícia de choque, à força de bastonada, arrancaram a urna dos braços dos camaradas, colegas e amigos de Ribeiro Santos para tentar levá-la à surrelfa para o cemitério da Ajuda, toda a cidade de Lisboa foi sacudida por contínuas manifestações de revolta contra aquele crime hediondo. Um dos meus amigos recorda-se de, logo a seguir ao almoço, ter apanhado a carreira de autocarros nr. 27 (Apeadeiro do Areeiro- Cemitério da Ajuda), e que passava pelo Largo de Santos, onde Ribeiro Santos morava com os pais e de onde estava previsto que partiria o funeral. O autocarro, que começou a sua viagem quase vazio, foi-se enchendo gradualmente durante o percurso, de homens, que se viam seus pais, de mulheres, que se viam suas mães, de jovens, que se viam seus irmãos, e que trocavam olhares cúmplices entre si, como se soubessem “ao que iam”. Apesar das ameaças propagandeadas desde a antevéspera pelo Governo e de todo o aparato repressivo e policial distribuído pela cidade, com maior incidência no Largo de Santos e no Cemitério da Ajuda, dezenas de milhares de cidadãos acorreram ao apelo da luta pela Liberdade e pela Democracia, enfrentando horas a fio as sucessivas cargas da polícia de choque, os tiros, os ataques com cães. Tornaram assim clara a sua firme disposição de acabar com um regime de ditadura e tirania que ao invés do que precisamente alguns oportunistas e derrotistas sempre pregavam não era invencível e que tinha afinal os dias contados.
Ribeiro Santos era jovem de uma firmeza inquebrantável na defesa dos princípios. Não lhe terá servido de consolo que o regime que o assassinou tenha caído ano e meio depois.
Em tempo de recordar Abril, os jovens, e talvez mais os estudantes de Direito, deveriam lembrar-se que, se, durante a sua vida profissional constatarão que Justiça nem sempre coincide com Direito, é desejável que, pelo contrário, nas suas vidas pessoais, se erguam como paladinos da Liberdade, porque a sua específica formação a isso recomenda e isso impõe.
Sempre tive ideias de esquerda e sempre tentei defender a Justiça. Orgulho-me de ter uma filha com ideias mais à direita e que igualmente o faz. Talvez uma das coisas que lhe tenha deixado de herança cultural tenha sido a força dessa visão diária dos corredores da Faculdade de Direito. Talvez, ainda que imperceptivelmente, 5 anos de passagem por aquela casa, lhe tenha ensinado, como me ensinou a mim, que a aprendizagem das Leis é mais do que decorar articulados, é compreender que o Direito Natural nos obriga a ser incorruptíveis na defesa dos nossos valores e princípios. Esta é uma responsabilidade que nós, como pais, temos: deixar em testamento esse magnífico património que é a história e o exemplo de homens corajosos, como este estudante de Direito, que o eram numa altura em que viver como democrata podia custar a própria vida. Preservar essa memória colectiva impõe que os avós e os pais que tiveram sob os seus olhos a imagem daquele Justo erguam a voz num só grito“Honra a Ribeiro Santos!”.”

25 de Abril: mutações sociais no feminino



Razão tem o Manuel Villaverde Cabral. "Uma das mais notáveis das transformações sociais operadas silenciosamente pelo 25 de Abril foi a que se verificou na condição das mulheres portugueses. Uma mudança que trouxe alterações profundas nos padrões demográficos, cuja origem material se situa no novo lugar que mulheres conquistaram, após a revolução, nos sistemas de trabalho e de ensino. Não que as elas não trabalhassem antes do 25 de Abril, mesmo como assalariadas. O que mudou foi a percepção do lugar da mulher na sociedade, sendo simbólica a queda brusca do número de mulheres que passaram a declarar-se como domésticas nos Censos e nos inquéritos sobre o emprego. Foi tudo isto que fez com que Portugal seja hoje um dos países da UE onde a percentagem de mulheres activas é mais elevada.
A alteração do lugar da mulher na sociedade trouxe consigo, portanto, uma mudança drástica dos comportamentos familiares e demográficos tradicionais, desde a taxa de natalidade até ao casamento e ao divórcio, fenómenos que têm nas mulheres, evidentemente, o seu grande protagonista. E quando as mudanças culturais trazidas por uma revolução se inscrevem, como de facto se inscreveram, no próprio tecido demográfico – alterando as relações entre homens e mulheres, entre pais e filhos e entre gerações – isso mostra não só a profundidade do movimento político, como também a sua capacidade para modernizar uma sociedade conservada no frigorífico, por assim dizer, por uma ditadura arcaica.
Em combinação com esta alteração radical dos padrões demográficos, que colocou a taxa de fecundidade das mulheres portuguesas entre as mais baixas do mundo, a virtual universalização do sistema público de saúde após o 25 de Abril contribuiu decisivamente para reduzir de forma igualmente drástica a mortalidade infantil e, ao mesmo tempo, para aumentar a esperança de vida, indicadores estes que se contam hoje entre os mais favoráveis do mundo, sobretudo a mortalidade infantil. São dimensões, por assim dizer subterrâneas, do processo de modernização societal encetado pela revolução social associada à democratização do sistema político. É importante não o esquecer, como agora tende a acontecer por vezes.
Porém, esta modernização entra frequentemente em contradição com instituições cuja adaptação ficou manifestamente aquém da evolução verificada a nível demográfico e familiar. O exemplo mais evidente, porventura, de uma instituição que ficou para trás é o sistema de crenças religiosas, no nosso caso predominantemente católicas; outro é o das estruturas judiciais, para citar apenas dois domínios cuja evolução não acompanhou as transformações sociais e culturais. Neste contexto, é particularmente chocante, mas paradigmático, o manifesto atraso da legislação respeitante à interrupção voluntária da gravidez em Portugal, o qual se deve, como é bem conhecido, à pusilanimidade das autoridades políticas ante o controlo que a igreja católica pretende manter sobre a orientação da sociedade aos valores morais.
Algo de equivalente sucede com as estruturas judiciais, que não acompanharam, por exemplo, o reconhecimento jurídico expedito do divórcio por mútuo consentimento, mostrando-se incapazes de garantir a execução de medidas tão básicas quanto as pensões alimentares, como se desconhecessem o facto de, hoje em dia, cerca de um terço dos novos casamentos estar destinado ao divórcio num prazo de cinco anos. A relutância ou incapacidade judicial para defender as crianças das mães separadas podem estar a contribuir de forma perversa para a diminuição da natalidade, em contradição com a ideologia natalista prevalecente a nível do Estado e da própria sociedade."

Primeiro comunicado do MFA - na voz de Joaquim Furtado



Acabo de ver na RTA-Memórias, o Joaquim Furtado, Inevitável ligá-lo ao som da Revolução dos Cravos. No dia anterior a rádio foi a “senha” para o arranque simultâneo dos militares que decidiram acabar de uma vez por todas com uma ditadura que matava o País com uma morte que não se via mas matava.
5 minutos antes das 23h do dia 24 de Abril de 1974, nos estúdios da Rádio Alfabeta dos Emissores Associados de Lisboa, o locutor de serviço - João Paulo Dinis – “lançou” a música “E depois do adeus” de Paulo de Carvalho. Era o sinal para as tropas avançarem.
A "senha", constituída pela canção Grândola, Vila Morena, de José Afonso, foi gravada por Leite de Vasconcelos e posta no ar por Manuel Tomás, no âmbito do programa Limite da Rádio Renascença, à meia-noite e vinte, antecedida da leitura da sua primeira quadra.
“Grândola, vila morena Terra da fraternidade, O povo é quem mais ordena Dentro de ti, ó cidade”
Esta segunda “senha” transmitida pela Rádio Renascença, estação de cobertura nacional, serviu para informar todos os quartéis e militares que aderiam ao golpe, de que tudo estava preparado e a correr conforme o previsto.
Era o arranque sincronizado e irreversível das forças do MFA (Movimento das Forças Armadas).
4 horas mais tarde a rádio era já o eco da liberdade e augúrio de que tudo iria correr bem.
A Rádio Clube Português é ocupada por militares e transformada no posto de comando do «Movimento das Forças Armadas» - por este motivo a emissora fica conhecida como a “Emissora da Liberdade”.
Às 04h26 o locutor Joaquim Furtado fazia a leitura do primeiro comunicado do MFA, aos microfones do Rádio Clube Português: “Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas. As Forças Armadas portuguesas apelam para todos os habitantes da cidade de Lisboa no sentido de recolherem a suas casas, nas quais se devem conservar com a máxima calma. Esperamos sinceramente que a gravidade da hora que vivemos não seja tristemente assinalada por qualquer acidente pessoal, para o que apelamos para o bom senso dos comandos das forças militarizadas no sentido de serem evitados quaisquer confrontos com as Forças Armadas. Tal confronto, além de desnecessário, só poderia conduzir a sérios prejuízos individuais que enlutariam e criariam divisões entre os portugueses, o que há que evitar a todo o custo.”
Na manhã do dia 25, nascia a liberdade e morria a ditadura. Jazia podre nos seus 50 anos. Caía sem criar resistência. Dos canos das espingardas não saíam ecos de tiros, neles floriam cravos vermelhos.

Percursos anónimos de Abril


(Maria Manuela Cruzeiro, Rui Bebiano, Anos Inquietos. Vozes do Movimento Estudantil em Coimbra (1961-1974)). No panorama dos estudos relativos ao movimento estudantil português — e em particular coimbrão — uma interessante contribuição de Rui Bebiano em colaboração com Maria Manuela Cruzeiro. Ambos os autores têm dedicado grande parte do seu trabalho à análise da oposição à ditadura e aos seus protagonistas.
Nos relatos dos protagonistas das vozes do movimento estudantil é a vivência do «algures», quer se trate do «além-mar», quer de outras cidades portuguesas ou ainda de outros países europeus, para os quais vários protagonistas viajaram com uma bolsa de estudo, com o grupo do teatro ou para fugir ao serviço militar e à guerra. Este «algures» surge como um aspecto fundamental no percurso de evolução e de tomada de consciência política dos protagonistas, pelo contacto com ideias, situações e pessoas que o meio de Coimbra, ainda sufocado pelo estrito controlo social, político e cultural do regime, nunca teria veiculado.
Anos Inquietos não é uma obra analítica ou o resultado de uma investigação, mas é uma narração em que as vozes dos protagonistas descrevem percursos de vida nos quais a universidade, mas sobretudo a crise académica, constitui o epicentro. Trata-se de 7 entrevistas conduzidas por Maria Manuela Cruzeiro entre 2004-2005, feitas a protagonistas do movimento estudantil de Coimbra desde 1961 até 1974, um período de tempo que abrange as três grandes crises académicas de 1962, 1964-1965 e 1969. A primeira parte de cada entrevista é dedicada a fornecer um perfil do entrevistado antes do seu contacto com a realidade académica e com o movimento estudantil, através de questões relativas às suas origens sociais e vida familiar, passando depois ao ingresso na faculdade e, para os que não nasceram em Coimbra, o embate com a cidade.
A parte relativa ao associativismo estudantil é a mais desenvolvida, sobretudo no que respeita à análise dos percursos de socialização política que levam ao activismo, os quais talvez constituam o objecto de estudo da obra. Trata-se de um processo que, nalguns casos, é coerente com a tradição de oposição familiar, noutros representa algo de completamente inovador quanto às próprias raízes. Fundamental é o exemplo das grande figuras, quase míticas, da resistência portuguesa (como Álvaro Cunhal), e a exigência de abertura do espaço cultural e social — sufocado pela permanência de códigos de comportamento conservadores e pela rigidez das normas autoritárias, a par da influência dos acontecimentos e da literatura política internacional.
As entrevistas aprofundam ainda as consequências pessoais da participação política — sempre mais dramáticas para os rapazes, que, além da prisão, podiam sofrer a guerra colonial — e, por último, os percursos profissionais e políticos depois do 25 de Abril, evidenciando os elementos de continuidade quanto às escolhas ideológicas feitas durante os anos do activismo estudantil.
Os critérios de selecção dos entrevistados não são explicitados, mas é evidente que os autores procuraram incluir no grupo figuras muito diferentes entre si — quer quanto à própria actividade política, quer quanto às origens familiares e à proveniência —, conseguindo reconstruir, através de uma abordagem qualitativa e da metodologia da história oral, algumas das possíveis trajectórias de formação política dos protagonistas do movimento estudantil.
Os entrevistados têm origens familiares e provêm de lugares diferentes, com uma idade entre os 56 e os 60 anos, e só em alguns casos participaram na mesma fase da crise. É natural que a idade pessoal tenha uma influência no foco da entrevista, pois a luta académica em Coimbra mudou durante toda a década de 60 e, ainda que os elementos comuns sejam muitos, a crise de 1962 foi algo de diferente, por exemplo, da de 1969. Entre os elementos de continuidade emerge claramente a repressão, quer através de cargas de polícias contra manifestantes, quer através de verdadeiras invasões do espaço universitário e da prisão dos activistas. Comuns são ainda algumas formas de luta, como o «luto académico» e a greve aos exames, assim como a constante da exigência de defesa da autonomia dos organismo associativos dos estudantes, em primeiro lugar da Associação Académica. Quase em todos os casos é a limitação desta autonomia por parte do governo a desencadear a crise. Ocorreu em 1962, quando a contestação — que já tinha começado nos últimos meses de 1961, com a prisão de vários estudantes por terem manifestado posições contra a guerra colonial — eclodiu em Março depois da proibição do Dia do Estudante. A violenta opressão exacerbou e ampliou o movimento, que, em Junho, chegou a pôr em causa o DL n.º 40 900, de 1956, o qual determinava um controlo do governo sobre a eleição dos dirigentes associativos.
Voltando à obra, são duas as mulheres entrevistadas: Eliana Gersão e Fátima Saraiva.
A primeira, originária de Coimbra, licenciou-se em Direito numa altura em que os estudos jurídicos ainda eram considerados uma questão masculina. Participou na crise académica de 1962 e na sua formação teve bastante importância o meio familiar, caracterizado por uma grande abertura cultural, ainda que não directamente política. Como muitos outros representantes do movimento estudantil, começou o seu percurso numa associação católica, no seu caso a JUC, afastando-se depois para entrar no conselho feminino da AAC e para integrar o Centro de Iniciação Teatral da Universidade de Coimbra.
Fátima Saraiva, geógrafa, provém de uma família bastante conservadora de Castanheira de Pêra. Frequentou o liceu em Lisboa, onde ampliou os seus horizontes culturais, uma abertura importante no seu percurso de adesão a valores e ideais políticos opostos aos do seu meio familiar. No ambiente coimbrão, destacou-se por ir contra as regras «adequadas» para uma rapariga — como, por exemplo, não «frequentar os cafés» — e participou nas crises de 1964 e de 1969.
Os relatos de Fernando Martinho e Carlos Baptista são significativos pelo esboço da África que trazem. Nascidos em famílias, de meio social diferente, de colonos portugueses, ambos sublinham a maior abertura cultural das colónias, onde o controlo do regime, pelo menos até ao começo da guerra colonial, não chega a ser tão eficaz como na metrópole. Esta abertura e a experiência diária do racismo e da discriminação dos negros foram fundamentais para a formação política, assim como o contacto com militantes dos movimentos de libertação.
Em Coimbra, onde chegou em 1961, Fernando Martinho integrou uma célula do MPLA que tinha como objectivo recrutar jovens angolanos para o movimento de libertação e organizar uma rede de deserção. Empenhado nas actividades da Associação Académica, foi preso pela PIDE durante alguns meses. Como outros dois entrevistados, Pio Abreu e José Cavalheiro, sofreu a experiência da guerra colonial, embora tenha conseguido evitar um envolvimento directo nas acções militares graças a sua profissão de médico.
Médico, no seu caso psiquiatra, é também Pio Abreu, originário de Santarém, onde nasceu, numa família bastante católica e conservadora, em que a política era uma coisa proibida. Chega a Coimbra em 1962, em plena crise académica, e liga-se, como Fátima Saraiva, ao Conge, uma estrutura que será fundamental na crise de 1969. Também nesta entrevista a experiência da guerra na Guiné ocupa um lugar essencial, em que se salienta a forte contradição entre a formação política do entrevistado e a participação num conflito que se baseava em fundamentos completamente opostos. Assim como Fernando Martinho e José Cavalheiro, Pio Abreu descreve a sua atitude de «boicote passivo» das acções militares, favorecida pela sua formação de médico, que sempre desenvolver segundo a sua própria ética contra a do exército.
José Cavalheiro, engenheiro, nasceu no Porto, numa família de esquerda que contribuiu para a sua formação política, no sentido do desenvolvimento de um espírito crítico face à verdade imposta pelo regime. Chegado a Coimbra em 1968, teve um papel de destaque na crise que eclodiu no ano seguinte, durante a qual foi preso e enviado para a tropa, primeiro em Mafra e depois em Moçambique.
Na crise de 1969 participou o pediatra Luís Januário, o mais jovem entre os entrevistados. Nasceu em Coimbra, numa família com uma tradição de oposição ao Estado Novo - o avô materno, anarquista, morreu no Tarrafal, e o pai, compagnon de route do PCP, sofreu alguns meses de prisão em 1962. A actividade política de Luís começou no liceu e continuou na Faculdade de Medicina, onde pertenceu, antes de aderir ao PCP, aos grupos mais radicais, sobretudo trotskistas, apelidados de «contestas» pelos outros estudantes. Interessante é a visão que o entrevistado traz dos organismos estudantis, fundamentais nas outras crises, como o Conselho das Repúblicas, que, em 1969, já aparece como um grupo de «veteranos dos copos, uma coisa arcaica».
É com esta entrevista que nos apercebemos da clivagem geracional que separa os protagonistas das crises de 1962, 1964-1965 e 1969, em que todas as temáticas são renovadas também à luz dos acontecimentos internacionais e sobretudo do Maio francês. Diferente é a vivência do dia a dia do activismo, a dimensão quase «lúdica», festiva, da política, que não se conhecia antes. Entre os protagonistas das crises anteriores há quem defina o movimento de 1969 como «uma bolha», um acontecimento folclórico, contestando-lhe o abandono da luta de classe e a ingénua confiança na força revolucionária do «estudantariado». Mas, se o movimento mudou, a repressão continuava a mesma, e Luís Januário, preso pela PIDE, no dia em que o homem chegou à Lua estava numa cela, uma situação que, significativamente, também outros entrevistados lembram. Esta imagem de forte carga simbólica resume o conteúdo mais profundo das várias experiências dos entrevistados, a luta contra o obscurantismo social, cultural e político que o regime perpetuava, procurando bloquear o poderoso e irreversível processo de mudança e modernização que estava a envolver também a sociedade portuguesa.

Mulheres antes de Abril: Um silêncio ainda ruidoso!


Em Que força é essa, Madalena Barbosa constatou a inexistência de grupos feministas actuantes em Portugal antes de Abril.1974. Sem descurar a acção de algumas mulheres, como Elina Guimarães – ou a actividade de estruturas como o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas (1914-1947) ou a Associação Feminina Portuguesa para a Paz (1936-1952), dissolvidas na sequência da repressão levada a cabo pelo regime na conjuntura política do pós-guerra. Referia-se à ausência de colectivos centrados na imbricação entre o público e o privado, na linha daquilo que ficou conhecido, a partir da década de 1960, como “feminismo de segunda vaga”.
Conhecem-se as razões que fizeram com que o Portugal do Estado Novo fosse um terreno árido para a emergência das temáticas feministas: o investimento ideológico do regime na criação de organizações apostadas em identificar a mulher com as funções de “mãe”, “esposa” e “fada-do-lar” e um edifício jurídico que entendia a mulher como ser tutelado, o cerco cultural produzido pela censura e a extensão aos mais variados domínios do quotidiano de uma moral católica conservadora.
O protagonismo feminino na oposição ao Estado Novo condensou-se em posturas “antifascistas”, em detrimento da problematização das relações sociais entre sexos, como se ilustra já no marcelismo, na acção e no discurso do Movimento Democrático de Mulheres, criado em 1969 na orla do PCP, e das Comissões Eleitorais Femininas, estruturadas em torno da CDE. Tal não significa que o 25 de Abril tenha aberto caminho largo aos feminismos. Demonstra-o a vida difícil e precária de um grupo como o Movimento de Libertação das Mulheres, do qual Madalena Barbosa fez parte. Seguir por aqui seria embarcar numa outra história, uma história de incompreensões datadas que tem o seu exemplo maior na evocação de uma não comprovada queima pública de soutiens na manifestação realizada em Jan.1975 no Parque Eduardo VII. Mas a “questão da mulher” adquiriu um protagonismo crescente na intervenção estudantil durante o Estado Novo sem que, no entanto, se desbloqueassem em efectivo os limites à irrupção de um discurso explicitamente feminista. Desde meados da década de 1950 que se davam nos meios académicos sinais evidentes de desencontro com o governo e com a ideologia oficial do regime. Destaque-se, no ano lectivo de 1956/57, a contestação ao decreto 40.900, projecto-lei que cerceava a “autonomia” das associações de estudantes, e a ampla e entusiasta participação juvenil em 1958 na campanha presidencial de Humberto Delgado. Pouco depois, em 1960, a Direcção-Geral da Associação Académica de Coimbra é conquistada por uma lista de esquerda, que introduz uma série de alterações qualitativas no discurso associativo, cuja face mais visível seria precisamente o conflito que então deflagra acerca do papel da mulher na sociedade.
As mulheres ocupavam um lugar de subalternidade no ambiente estudantil. Constituíam ainda uma minoria, apesar de durante os finais da década de 50 e inícios da década de 60 a percentagem de elementos do sexo feminino ter aumentado. Também a nível simbólico era evidente o seu lugar secundário, lembrando que, apenas a partir da década de 1950 lhes é permitido envergar a capa e batina, até então destinada exclusivamente a uso masculino. Dando cobertura jornalística ao assunto, a "Flama" questiona: “há ou não diferenças no tratamento e no convívio social entre rapazes e raparigas em Coimbra? A mulher que estuda é, principalmente, mulher ou estudante?”.
Olhando para o que se escrevia no jornal estudantil Via Latina, a resposta é clara: a “mulher que estuda” era, em primeiro lugar, mulher, constantemente remetida para o seu lugar na esfera privada. Maria Adelaide Calado (1956) afirma que a mulher se encontra, no essencial, “destinada para a família e para o Lar”, “capacitados ambos para exercer uma profissão, o homem pode e deve exercê-la sempre; a mulher só se a organização familiar em que está integrada não ficar lesada sem a sua presença”.
Assim se compreende o escândalo causado pela publicação na Via Latina da “Carta a uma Jovem Portuguesa”, assinada por um anónimo A., e posteriormente reivindicada por Artur Marinha de Campos. Nela, o autor escreve a uma genérica “jovem portuguesa”, mostrando-se perturbado com a sua situação social, marcada por um “determinismo” que a “oprime e define”. Afirma que aos rapazes coube “viver do lado de cá, onde temos uma ordem social que em relação a vós nos favorece”, enquanto às raparigas se encontra destinado “o lado de lá desse muro: o mundo inquietante da sombra e da repressão mental”. O autor exorta-as a “lutarem pela libertação através de uma mútua liberdade” e termina mencionando a “concretização sexual do amor”. O texto provocou uma onda de indignação nas faixas mais conservadoras, para quem a Carta erigia “a imoralidade em princípio orientador da juventude”. Ardentes tomadas de posição desdobraram-se em panfletos, abaixo-assinados, cartas e textos de maior ou menor fôlego que extravasaram o perímetro coimbrão. Esta confrontação político-moral não é alheia ao debate em torno da validade do “Convívio” entre elementos dos dois sexos e de Academias diferentes, a que se vinha desenvolvendo há já algum tempo. Na Via Latina, e já na “Carta” de Marinha de Campos se fazia eco desta problemática. Apesar do tom cauteloso de boa parte deles, houve posições menos consensualizadoras, como a de Eveline Nicolau, na qual se afirmou como necessária uma atitude de “recusa” do ambiente conservador dominante. Tratava-se de eliminar os “vestígios de um passado em que homem e mulher eram dois estranhos, de vidas inteiramente compartimentadas, em que para ele havia a rua, a boémia… o galanteio, a piadinha apimentada… e para ela o recolhimento do lar, a tímida admiração pela irreverência e liberdade dele, o rubor perante as pilhérias de certo tom muito ‘masculino’”.
A noção de “Convívio”, aparentemente pueril, mais não era do que a reivindicação simultânea de uma abertura moral e da adopção tácita da perspectiva sindicalista. Com a consciência disso, publicações conservadoras como o jornal Novidades aconselhavam “Cautela com os convívios!”, enquanto no Encontro, jornal oficial da JUC, dois estudantes advertiam: “Cuidado, quando falamos de igualdade entre os dois sexos, ao mesmo tempo que falamos de convívio”. Esta questão prolongou-se por todo este período e constituiu uma autêntica barreira divisória entre os campos académicos. Já no rescaldo da “crise de 62”, o Centro Académico da Democracia Cristã censurava, na "Estudos", a “atitude de muitas raparigas, que passaram a noite ao edifício da AA juntamente com os rapazes, onde as circunstâncias fariam diminuir para com elas o respeito de que sempre se devem rodear”.
Se os sectores católicos se foram aproximando das posições contestatárias, em termos morais, estavam sintonizados com aquilo que era, na massa estudantil, a imagem dominante acerca da mulher. Nos inquéritos à população universitária, promovidos pela JUC em 1964/65, no capítulo do comportamento sexual, a virgindade é tida como importante para a felicidade do casamento por uma ampla maioria dos inquiridos (77% nos rapazes e 83,4% nas raparigas), situando-se em perto de 90% a percentagem de raparigas universitárias que encaram como “repreensível” ou “perigosa” a actividade sexual antes do casamento. Por sua vez, a maioria dos rapazes (63,6%) consideram o sexo pré-matrimonial, para si próprios, um comportamento “sem gravidade” ou “por vezes útil”, ainda que apenas 26,2% o entendam da mesma forma para as raparigas. No que concerne aos métodos anticoncepcionais, 7,2% das raparigas aprovam o uso de todos os meios conhecidos e de resultados comprovados (contra 20,4% de rapazes), enquanto 50,9% apenas concordam com o uso de métodos naturais, como o método da contagem ou das temperaturas. Mais de 40% das raparigas não responderam ou não tinham opinião sobre este assunto.
Na parte relativa ao trabalho da mulher, a maioria considera que a mulher casada só deve empregar-se “se conseguir um horário de trabalho compatível com as exigências da vida familiar” ou “em caso de extrema necessidade”. Apenas 6,4% dos inquiridos consideram que “a mulher deve ter um emprego durante toda a vida”. Esta posição é mais frequente nas raparigas do que nos rapazes e mais marcada em Lisboa (8%) do que no Porto (5,2%) ou em Coimbra (4%) (Situação e Opinião dos Universitários, 1967).
No último decénio de existência do Estado Novo, a presença das mulheres na Universidade sofre um acréscimo considerável. No ano lectivo de 1970/71 chegam a estarem matriculadas mais mulheres do que homens nas universidades de Coimbra e Lisboa, tendo a taxa de feminização duplicado relativamente aos 20 anos anteriores. Este aumento é fruto dos reflexos da emancipação feminina, visíveis um pouco por todo o mundo ocidental, e das mobilizações masculinas para os conflitos armados em África e da forte vaga emigratória que assola o país, e que se reflectiu mais no sexo masculino. A entrada em força das mulheres nas universidades alterou significativamente as características do movimento estudantil. No entanto, as lutas estudantis da época nunca tiveram como bandeira a emancipação feminina, o que se justifica pela urgência de todas as outras causas que a montante se colocavam: a liberdade de expressão, de associação, a autonomia da universidade, a reforma e democratização do ensino. Se, na curva da década de 60-70, se acrescenta a guerra colonial no corpus contestatário estudantil, as questões relativas à sexualidade, à violência sobre as mulheres ou às desigualdades, jurídicas e de facto, mantêm dificuldade em ser integradas no discurso reivindicativo.
A análise do percurso de um organismo como o Conselho Feminino da AAC (CF) demonstra-o. Embora não o visse como uma secção "feminina", a esquerda académica também não lhe encontrava um lugar definido. Em 1964/65, o programa de Candidatura da Lista de Colaboradores e Conselho de Repúblicas (CF), aferia a sua legitimidade por dois modelos possíveis: 1) partir da ideia de que existem certos interesses específicos de um e outro sexo ou 2) funcionar em torno de objectivos que visassem a integração da estudante universitária na vida associativa. Em 1968/69, a lista vencedora do Conselho das Repúblicas reafirma, em programa eleitoral, a mesma posição e propõe-se fazer uma “revisão da problemática suscitada pela existência de um CF”, chegando a afirmar que “uma diferença de sexos não nos parece poder justificar a existência de uma parte especializada na AAC sob pena de se ter de criar uma outra especializada para homens”, embora, como o que “está previsto nos Estatutos”, o funcionamento do CF se deveria orientar “num sentido que negue todo e qualquer tipo de discriminação tendente a dar à mulher um papel subalterno face ao homem”. Por alturas da “crise de 69”, a larga maioria das estudantes universitárias participava já com assiduidade nas realizações do movimento associativo, partilhando com maior informalidade os espaços comuns. Celso Cruzeiro evoca a votação na ordem dos 80% na lista do CR na Faculdade de Letras, onde o índice de concentração feminina era bastante elevado e fala mesmo de uma mudança corporizada neste período. Pio de Abreu reconhece que a libertação feminina nunca foi uma “preocupação”, já que “o que importava não era a libertação deste ou daquele grupo, mas sim a libertação total”, e salienta o papel activo das mulheres durante a “crise”. Apesar disso, é possível encontrar na época, em círculos restritos, uma abordagem política de temáticas dominantemente entendidas como pertencentes ao âmbito do privado. Interessam alguns textos produzidos pelo grupo Quem somos e o que Queremos, compilados no volume Igualdade Radical para a Mulher. Problematiza-se o casamento, a virgindade, a pornografia, os concursos de beleza, a moda, o nudismo, a homossexualidade, a paz, o papel das mulheres perante a guerra colonial, a segregação sexual no desporto e o machismo. O grupo era composto essencialmente por estudantes universitários de Coimbra, oriundos dos sectores católicos e que se haviam debruçado sobre estas questões no ano lectivo de 1969/70. Alguns textos publicados entre 1968-1971 na Capa e Batina criticam o lugar subalterno da mulher. Maria Margarida considera a posição da mulher na sociedade como de “submissão e subordinação incondicional ao homem”, afirmando que “a mulher inteiramente válida e consciente não vê no casamento um meio de subsistência ou amparo”. Noutro texto, com intenções de ressoar numa Coimbra estudantil onde os resquícios da “tradição académica” iam sendo eliminados, aponta-se o dedo ao “marialvismo” como manifestação social que leva à apreciação da mulher como “serva do homem e objecto de satisfação das suas necessidades”. A fundação, em 1972, da República Rosa Luxemburgo, rompeu com um universo até então confinado ao sexo masculino e mostrava como estas mudanças tinham expressão nas estruturas típicas do mundo estudantil. A identificação de um episódio como a ocupação da sala das alunas do Instituto Superior Técnico, em Dez.1968, permite perceber momentos de exemplar radicalidade. Pouco antes, é publicado no Binómio o texto “Mulher no Mundo”, que fala da “emancipação da mulher” e da prática do aborto, e propõe uma “relação sexual durável, que não precisa da existência da reprodução para ser justificada”, em oposição ao “casamento instituição”, apoiado na “família autoritária, que é a célula base da sociedade capitalista”. Entretanto, no contexto de uma reivindicação de subsídios para a cantina autogerida do Técnico, os estudantes ocupam o Pavilhão Central e efectuam um piquenique de protesto. O director do IST impediu a entrada de alunos no pavilhão mas alguns alunos entram pela janela da sala das alunas no espaço, o que fez com que o director a mande encerrar. Os alunos que permaneciam no exterior entram pela porta principal e a seguir ao almoço ocupam a “sala das alunas” cuja placa é substituída por “Sala de Convívio 4 de Dezembro”. Aprovada uma proposta de greve a iniciar a 9.Dez., o edifício e a Associação de Estudantes do IST são ocupadas pela polícia no sábado. É instaurado um processo disciplinar à direcção, o que motiva uma greve geral em toda a Universidade de Lisboa.
O que estava em causa era a persistência de códigos morais não coadunáveis com as posturas descontraídas e igualitárias que animavam o movimento associativo estudantil. O que explica porque é que o feminismo permaneceu, no meio estudantil destes anos, uma reivindicação bloqueada. Ou, para utilizar uma expressão alternativa, um silêncio ainda assim ruidoso. (Olhares sobre uma ausência: o movimento estudantil no Estado Novo e o feminismo, Miguel Cardina, Ensaio)

D. António Ferreira Gomes e a sociedade portuguesa, ao tempo de Salazar


Nunca um «pró-memória» foi objecto de tanta investigação como aquele que D. António Ferreira Gomes escreveu a António de Oliveira Salazar, a 13.Julho.1958. À carta-denúncia das injustiças sociais, Salazar respondeu, 1 ano depois, com o exílio do bispo do Porto.
Depois das eleições de 1958 (vencedor: Américo Tomás), o bispo do Porto remeteu a Salazar a missiva que referenciou como «pró-memória» para um seu eventual encontro com o Presidente do Conselho (PC). “Cumpre-me, antes do mais, agradecer a V. Exª o ter manifestado a boa disposição de me ouvir” – início do documento de D. AFG ao PC. Depois de explicar as razões da sua vinda a Portugal para votar – estava “legitimamente ausente em Barcelona” -, D. AFG considera que o pedido que lhe foi feito, “por forma tão extraordinária e pública, não poderia deixar de considerar-se propaganda da situação” – realça o «Pró-Memória». A «história» dessa carta começou, no exacto momento, em que o bispo do Porto se recusou a servir de bandeira do regime nas eleições para a Presidência da República no mês transacto. “Em tais condições e forçado a ser, diametralmente ao contrário do meu desejo, uma bandeira, eu não podia deixar de fazer uma declaração de voto. Como a não deveria fazer ao público, requeri fazê-la a V. Exª” – escreveu no documento.
Após as explicações iniciais, o prelado natural de Milhundos mostrou-se preocupado pelo facto da Igreja em Portugal, como a “campanha eleitoral revelou de forma irrefragável e escandalosa”, estar “perdendo a confiança dos seus melhores” – sublinha. Com o intuito de esclarecer a sua afirmação, D. AFG apresenta 2 casos ao PC. No Minho - “coração católico de Portugal” – “mal os padres começavam a falar de eleições, os homens, sem se importarem como sentido que seria dado ao ensino, retiravam-se afrontosamente da igreja”. Nas juventudes da Acção Católica, os dirigentes “mais responsáveis saltam fora dos quadros e da disciplina, para manifestarem a sua inconformidade e desespero, fugindo ao conhecimento dos assistentes (que, apesar de tudo, lhes aconselhariam paciência)”.
Estes dois factos causam preocupação ao bispo do Porto. “Está-se perdendo a causa da Igreja na alma do povo, dos operários e da juventude; se esta se perde, que poderemos esperar da sorte da nação?” – lê-se no «Pró-Memória.
A missiva recorda também alguns pontos caricatos da imagem que Portugal tinha no estrangeiro. “Há trinta anos estava eu, em Roma, sob o esplendor do sol ascendente do fascismo”, e um jornal humorístico mostrava Portugal “mendigando à porta da S. D. N. e obtinha esta resposta: - aqui não se entra «a la portoghesa»”. Como a imagem da Pátria no exterior não era muito abonatória, D. AFG confessa: “lembro bem a comoção e o entusiasmo, o sobressalto de esperança com que acompanhámos os inícios da carreira” de Salazar. E acrescenta: “mais do que para todos, era para nós, afastados da Pátria, uma espécie de resgate e reabilitação perante o estrangeiro desprezador”.
Nos primórdios do Estado Novo, D. AFG guardava “religiosamente” as palavras ou as referências que eram feitas ao PC. Reconhecia-lhe “competência profissional” e as “actividades no campo católico”. Passados os anos, o Bispo do Porto frisou que “não diminuiu a minha estima e respeito pela personalidade de V. Exª nem a admiração pela sua inteligência”.
A “tremenda crise nacional” que a campanha eleitoral “pôs a nu” merecia umas palavras de Salazar. Depois de ouvir e ler o discurso do PC, a 31 de Maio de 1958, o bispo do Porto lembra no documento: “enquanto trata das políticas externa e ultramarina e do problema económico, salvas pequenas diferenças, não pude senão admirar a lucidez do raciocínio e o bem fundamentado das posições”. Não deixou, porém, de discordar das suas doutrinas relativamente ao problema social. “Tudo começou a ser difícil” – lê-se na carta.
Após fazer um exercício lógico – “o qual depois segui conscientemente” -, D. AFG procurou “a exacta contraditória das posições expressas” pelo PC. Após analisar o discurso de Salazar, o bispo do Porto escreve que crê “bem-estar com a doutrina da Igreja ao discordar de doutrinas que, sendo de V. Exª, são da situação”. Como gosta de explicar as suas posições e fundamentá-las, D. AFG alinha algumas dessas oposições “com um mínimo de aclarações”.
Depois de Salazar referir que “a greve é entre nós um crime”, o bispo do Porto lamenta tal posição do Chefe de Estado. Fazendo referência às reivindicações da campanha de Humberto Delgado – “a reclamação de ser reconhecido o direito à greve” -, o prelado do Douro afirma: “eles estão com a doutrina da Igreja”.
D. AFG sentia o pulsar da sociedade portuguesa e reflecte-o no «pró-memória». Apesar da sua formação filosófica, o «celebre bispo do Porto» olha para os problemas sociais com preocupação. “Não poderei dizer quanto me aflige o já hoje exclusivo privilégio português do mendigo, do pé-descalço, do maltrapilho, do farrapão; nem sequer o nosso triste apanágio das mais altas médias de subalimentados, de crianças enxovalhadas e exangues e de rostos pálidos” – sublinha na missiva. Um documento que analisa a sociedade da época. As tensões sociais e políticas não paravam de subir. Antes de D. AFG colocar o dedo nesta ferida social, já o Pe. Abel Varzim, Joaquim Alves Correia e outros tomavam posições críticas em relação ao regime. O bispo do Porto só avançou com a «carta» ao PC porque a Conferência Episcopal Portuguesa não publicou, 3 anos antes, um texto sobre a situação dos trabalhadores no nosso país e, nomeadamente a situação do corporativismo. Como os seus colegas do episcopado não deram o passo fundamental para denunciar os casos, D. AFG viu-se «obrigado», mas em consciência a escrever o que lhe ia na alma. Com este documento exerceu o seu múnus de pastor. A missiva dá a conhecer as misérias da época e aponta soluções fundamentadas nos documentos pontifícios.
A conversa entre os dois Antónios não chegou a realizar-se devido a vários factores, mas o bispo condensou em 4 questões o que pretendia perguntar a Salazar. “Tem o Estado qualquer objecção a que a Igreja ensine livremente e por todos os meios, principalmente através das organizações e serviços da Acção Católica e da Imprensa, a sua doutrina Social?”; “Tem o Estado qualquer objecção a que a Igreja autorize, aconselhe e estimule os católicos a que façam a sua formação cívico-política, de forma a tomarem plena consciência dos problemas da comunidade portuguesa, na concreta conjuntura presente, e estarem aptos a assumir as responsabilidades que lhes podem e devem caber, como cidadãos católicos?”; “Tem o Estado qualquer objecção a que os católicos definam, publiquem e propaguem o seu programa ou programas, politicamente situados, em concreto hic et nunc, o que evidentemente não pode ir sem o despertar de esperanças de mutações ousadas e substanciais e do seu clima emocional?” e “Tem o Estado qualquer objecção a que os católicos, se assim o entenderem e quando entenderem, iniciem o mínimo de organização e acção políticas, a fim de estarem aptos, nas próximas eleições legislativas ou quando julgarem oportuno, a concorrer ao sufrágio, com programa definido e com os candidatos que preferirem?”.
As questões chegaram aos nossos dias. Como resposta teve um exílio de dez anos.