sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Aposto em falhas de memória fraudulentas! Ou em fraudes consentidas! Ou em inverdades silenciadas!


Definitivamente, há dias em que já não suporto mais tanta aldrabice camuflada em falhas de memória. Carlos Costa, em resposta a João Galamba, garante (a partir dos 9 minutos e 16 segundos) que, na comunicação de domingo, não se referiu a "fraude". 
A confirmar que Banco de Portugal conhecia, desde setembro de 2013, a situação fraudulenta/operações de financiamento fraudulento [leia-se descapitalização do banco], confrontei o agora dito pelo dito e provado pelas gravações automáticas da tvi24. O que Carlos Costa disse exactamente foi isto:«por último, gostaria de deixar uma nota que me parece importante, eu diria mesmo muito importante, para perceber os desenvolvimentos do BES ao longo do ultimo ano. o GES, através de entidades não financeiras e não sujeitas à supervisao do Banco de Portugal e situadas em muitos casos em jurisdições que são de difícil acesso, desenvolveu um esquema de financiamento FRAUDULENTO entre empresas do grupo. a experiência internacional evidencia que esquemas deste tipo são muito difíceis de detectar antes de entrarem em ruptura, em especial quando a actividade é desenvolvida em várias jurisdições. repito: este tipo de esquemas normalmente só é identificado quando entra em ruptura. o BdP conseguiu identificar uma ponta do problema porque desenvolveu uma acção de inspecção que foi para lá do perimetro de supervisão, uma auditoria às empresas não financeiras que constituem os principais clientes do banco. (...) quando esta ponta do problema foi identificada em setembro de 2013, o BdP desenvolveu uma política de isolamento dos riscos do BES em relação às restantes empresas do grupo. esta politica foi progressivamente reforçada ao longo do último ano e foi no quadro do aperto do cerco que o BdP estabeleceu que as empresas do GES começaram a entrar em incumprimento.’»
Está, pois, claro que Carlos Costa, desde setembro de 2013, pelo menos suspeitava de fraude relacionada com o BES [financiamento fraudulento das empresas do grupo através do banco], única razão que justifica a "sua" acção (do BdP) isolando o banco que levou as empresas a soçobrar. Se isto não subsume uma fraude, deve andar por muito perto, ou será apenas uma inverdade ou uma inexactidão, ao estilo ministerial. Há todo um novo vocabulário a reaprender com esta gente. Camuflada a verdade pelos midia por razões que se compreendem, que haja um cidadão ou outro que escarafunche a verdade e a exponha. Fraude, sim, houve fraude. Pode ter começado pela "tentativa"! Mas a pergunta a colocar face à rápida solução a dar ao caso (os accionistas do BES foram expropriados, decorre da lei, sim, decorre até da lei europeia, mas não deixaram de ser expropriados!) só pode ser esta: foi fraude consentida? E aí restam as questões que ninguém coloca: como, quando, quem e porquê? AM

O Povo condenado aos trabalhos de Sísifo!


«.... Como Sísifo, estamos eternamente condenados a empurrar montanha acima um fardo insuportavelmente pesado para, chegados a cume, resvalarmos de volta ao ponto de partida e recomeçarmos o mesmo percurso. Em cada ciclo particular de esforço, não faltará quem nos assegure que estamos quase a chegar ao final das nossas penas. Porém, uma e outra vez, acabaremos por reconhecer a inutilidade dos sacrifícios. Do modo como as coisas se apresentam, não parece haver lugar para nós dentro do euro.» . Lisboa, 1 de Maio de 2013, OS TRABALHOS DE SÍSIFO, João Pinto e Castro, Economista. Professor Convidado da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

domingo, 3 de agosto de 2014

Caros accionistas/capitalistas fala do Director-Geral: visão do José Miguel Silva

«FALA O DIRECTOR-GERAL
 Caros accionistas, a eleição dos nossos candidatos veio demonstrar, uma vez mais, que a democracia funciona e nada temos a temer. Agora é atacar as derradeiras guarnições de mais-valia (como fundos de pensões e monopólios naturais), que a janela desta crise é preciosa, mas não dura, se até o CEO tem limites e o petróleo nos começa a falhar.
 A classe média continua a pernear no tapete rolante da dívida, mas os média têm feito uma excelente cobertura e ninguém desconfia de nada – é dar-lhe toda a corda de esperança que reclama, para que no momento certo o alçapão se abra sem alarde e suavemente nos livremos desta roda de bocas inúteis, que já só atrasa o andamento da economia.
 Resta o problema dos relapsos e dos enraivecidos, que vociferam pelas ruas “não pagamos” e motim.
 Mas são, convenhamos, conduzidos por gatinhos escaldados, sem crédito nem guizos nem projecto coerente. Nada que seduza o coração dos isolados,  como o provam as sondagens e o misto de admiração e inveja que continuamos a despertar nas cobaias.
 Mas nem tudo são rosas, cavalheiros, pois se o clima emocional da populaça é tele-regulável, o mesmo não se pode dizer da frente ecológica, onde poderosas forças de bloqueio se concentram como gases deletérios, esgotamentos, externalidades que ameaçam gravemente o nosso modo de vida. Em poucas palavras: não cabe mais ninguém na ratoeira do progresso industrial.
 Sete mil milhões de bocas engodadas pelo isco do consumo rivalizam por recursos limitados, que pertencem por direito natural aos nossos netos.
 Começou a grande dança de cadeiras, e nunca como hoje a presciência valeu tanto no mercado evolutivo. Felizmente, somos nós quem determina quando a música termina e a corrida começa.
 Temos na mão o queijo, a faca e o conto de fadas da modernidade, temos por nós a confusão do inimigo, o fantasma da desordem, a esperança e o vazio dos desesperados, além da nova lei de segurança interna. Assim, e embora seja cedo para celebrar (pois a história, mesmo de trela ao pescoço, não deixa de ser um animal imprevisível), hão de concordar, cavalheiros, que as coisas estão bem encarreiradas. Todavia, não podemos vacilar.
 O capital unido jamais será vencido! Há que pôr a compaixão na gaveta e no terreno uma vontade de ferro, pois avizinha-se a batalha decisiva desta guerra de classes. E, passada a turbulência, cá estaremos, accionistas do futuro, para herdar a Terra.» José Miguel Silva, Le Monde Diplomatique – Edição Portuguesa, Janeiro 2014

terça-feira, 15 de julho de 2014

Seguro - O Anjo da Morte!

Ana Drago afirma claramente o que todos sabemos. "Nestes três anos, o PS foi titubeante e fraco." E questiona as políticas do PS. Para além de admitir ter “alguma dificuldade em perceber o que vai ser” o partido rosa.
A afirmação patética de Seguro de que, voluntariamente, se teria anulado em abono de uma falsa podridão que acompanha toda a sua liderança frouxa no PS, é bem demonstrativa da sua incapacidade para gerar outra coisa que não se limite a jogos de bastidores e intrigas de faca e alguidar. Foi assim que chegou ao poder e é assim que insiste em lá se aguentar. Rodeado de um conjunto de inaptos estrategicamente colocados para acenarem as cabeças na hora e no sentido certos, Seguro espelha aquela esquerda arrogante, debilitada, desgarrada da realidade, feita de acomodados e avençados.dependentes. Não há no grupo segurista quem lhe reveja qualquer qualidade de liderança. Seguro é o "coitado", o "coitadinho", burro que carrega trouxa pesada demais feita das pedras que ele próprio escolheu e que, fora da faca, do alguidar e da alcova, não tem nada para dar ao partido nem ao País. Tudo o que havia de mau no Rato, como há nos demais antros de poder, Seguro aproveitou, maximizou, deu carta branca. As sanguessugas que lhe cobriam a pele e chuparam o sangue são já, na sua grande maioria, os mais fieis e visiveis apoiantes de Costa. O Titanic do Rato afunda mas afunda com (a falta de) norte que foi a opção do comandante incapaz que, dado como temporário, dado como o homem do "desenrasca" até Costa se decidir, fez mais estragos no partido do que todos os lideres juntos desde a sua criação. Ao invés de ser o Criador, ele anunciou-se como o anjo da morte, segregando, ostracizando, semeando ódios, recolhendo troféus [e são tantas as cabeças de socialistas de alma que lhe enfeitam o mandato!], cabia-lhe, profetizaram muitos, o papel de lebre a "segurar" as pontas até Costa se decidir. Mas os custos internos foram elevados demais. Seguro tem o toque de midas ao contrário, transformando almas patéticas em bestas e ideias absurdas em bostas. Se era esse o papel que lhe estava pré-destinado? Admite-se que sim. Seguro espelha tudo o que de pior o PS tem e o resultado só podia ser este: um partido que se quer ver livre da lebre que lhe deu tanto jeito para encenar três anos de inércia. Seguro reza o credo e muito terá de pedir perdão, pelas acções e pelas omissões. Mas para que o Titanic do Rato não afunde ainda mais resta-lhe sair airosamente: desarmado, desestruturado, desolado. O PS demorará a curar-se das feridas. Seguro colocou socialistas contra socialistas. Dividiu o partido. Cindiu caciques. Se serviu para alguma coisa? Para "aguentar" o barco quando havia que queimar alguém até o timoneiro esperado se assumir! Resta-lhe sair. Não tem já condições para sair em ombros! Uma larga maioria do partido só quer vê-lo pelas costas. Seguro é a prova viva de um partido que não cumpriu o seu papel de oposição. Fez oposição, sim. Dentro do partido. Que saia. E estou convencida que ou a matilha lhe dá cobertura para se atrever pelo portão da frente ou sairá desajeitado, com aquele ar desajeitado (que ou uma boa medicação disfarçou na aparição deste último fim de semana ou a tal dupla personalidade revelou a tempo) ou lhe resta a porta dos fundos. Inevitável é que saia. A sua presença nos corredores é tão triste quanto isto! Seguro é, hoje, um sem abrigo, no Rato, capeado por uma corja de aburguesados a quem distribuiu burgos mais ou menos recompensadores e que, até ao último tilintar de moedas, se manterá ao seu lado. Redistribuidos os burgos, nada mais resta que um período de três anos na história de um partido que se orgulhava de ser a rosa e que hoje, a ser ainda algo comparativamente floral, não é mais nada que um cacto. Acreditando que há cactos que dão flor. Mas serão já outras rosas. É hora da poda. Que só assim novas rosas salvarão o morto roseiral. O que sucede ao anjo da morte? Como se acomodará o seu exército e se realojará no novo mapa de Costa? Distribuem-se-lhe cargos e favores? Compra-se a sua reunificação? E os socialistas de alma e coração que foram expulsos por ousarem a lucidez e contrariar os impulsos suicidas de Seguro? Continuam à margem de um partido que sempre tiveram como o seu? Quantos partidos socialistas restam neste PS desmembrado? Muitos? Nenhum? Todo o caminho da esquerda alternativa passa pelo futuro PS que venha a sair destas lutas intestinais. O PS não tem condições para ser, no momento, uma alternativa credível à governação, mas continua a exigir-se-lhe que seja o que não foi até agora: uma útil, séria, competente oposição. Somos todos observadores. AM

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Muito há a dizer sobre a alternativa "agenda europeia" de Seguro: é cor-de-rosa!




Seguro, o alegado lider da oposição, esteve ontem em São Bento a conversar com o alegado primeiro-ministro da Nação, sobre a escolha do português a indigitar para a Comissão Europeia. Foi 1,5 h bem passada. Os scones não estavam no ponto. O café parecia ter surgido dos restos de uma maquineta de cabaret. Mas foi ao Palácio e isso é sempre uma forma interessante de alguém completamente desinteressante começar o dia. Seguro alimenta o desejo de pisar aquelas carpetes já numa outra posição, que, seja ela qual for, jamais será vertical. Não é homem de costas direitas, muitos anos a lamber botas deixam marcas irreversíveis e hoje Seguro tem uma coluna entre a de uma alforreca e a de um caracol. Mas voltando ... à saída da reunião, o alegado secretário-geral do PS dispôs-se a responder às perguntas dos jornalistas. Entre um e outro scone, garantiu que, na linha da sua verticalidade já definida, afirmou que não se discutiram nomes, nem perfis, apenas a definição das «pastas importantes», pelas quais o Governo deveria lutar. Adiantou ainda que foi analisada a «agenda europeia», sem especificar o seu conteúdo. 

Foi um dia em cheio, depois de são bento, seguiu-se a sua aparição diária na televisão, mas sem pastorinhos - esses degladiam-se com os lugarzitos que vão vagando no Parlamento e lá vão rezando para que morra um deputado de vez em quando para a voltinha rotativa da listinha de deputados que ficaram de fora do poleiro se dar, como prometido por Seguro. Caramba, a Isabel Moreira, tinha-se esperança que "aguentasse" uns mesitos mas a pequena tem calibre e não dobra nem cai!. 

Seguro, enfim, para além do café queimado e dos scones mal cozidos, tinha-se prestado a ir a são bento, para se ir acostumando aos ares (nos delírios dele, aquilo é muito medicamento à borla lá em casa!), supostamente teria de ter falado da «agenda europeia». Que ele crê ter sido um livrinho cor-de-rosa que a sua margarida comprou numa viagem a uma terriola lá para os lados dos nuestros hermanos. Miss Swaps rejeitara, na véspera, ao lado dos países do Norte da Europa, a flexibilização das regras do euro. Tinha aqui José Seguro uma oportunidade única para mostrar as ideias que, por certo, serão brilhantes, mas de que ainda não viu amostra do seu tão querido Laboratório de Ideias. Por exemplo, que alianças procuraria fazer na Europa para travar o empobrecimento dos países periféricos? 

Mas Seguro, o bonequinho sempre em pé do PS, preferiu brincar às escondidas -- que é algo que se faz muito pelo Rato! - sem nada dizer sobre nomes, perfis e pastas! Quanto à posição do Governo (assumida pela da Miss Swaps), e que outros paises já classificaram de anti-patrótica, nem uma palavra. Ouve-se sempre de Seguro aquele silêncio ensurdecedor que fere de morte o velho PS reivindicativo! Em que consiste a «agenda europeia» de Seguro? Então não é aquele livrinho cor-de-rosa que margarida, sua empenhada e esforçada esposa, usa para registar um a um os contactos do seu Cordeiro? O tal de Cascais, imposto ao aparelho, por razões que todos entendemos, e muito bem! Agenda cor-de-rosa?! Será o livro de receitas estrategicamente colocado ao lado do fogão pela sua margarida? É muita informação, p****, e o rapaz nunca foi de grande inteligência. Aquilo que fez toda a sua vida foi, como a alforreca e o caracol, moldar-se às "paredes" de encosto! Valeu pelo cafezinho e pelos scones, se bem que não chegam aos calcanhares dos da sua margarida! Está tudo nas receitas da agendinha! Afinal, scone é receita europeia! AM

segunda-feira, 30 de junho de 2014

As perplexidades do mapa judiciário - por José António Barreiros




O José António Barreiros tem sempre a acutilância elegante e destemida de dizer o que tem de ser dito, quando tem de ser dito. Paladino da Justiça, pena é que não se tenha disposto nunca a pagar o preço para ocupar um lugar de poder que lhe permitisse exequibilizar essas suas ideias tão justas daquilo que já não é a Justiça. Mas o apontamento aqui fica, trocado na força daquele enorme abraço.

«À mercê da retórica, o País assistiu à afirmação reiterada de que havia falta de juízes, sobrecarga no trabalho dos que serviam nos tribunais, na necessidade de o Centro de Estudos Judiciários habilitar a Justiça com mais magistrados, mesmo através de meios extraordinários e céleres de formação. Vem agora o "mapa judiciário" e os portugueses assistem à noção exactamente inversa, a de que, afinal, há juízes e procuradores a mais. E ficamos todos perplexos.

Tendo ouvido dizer que, em obediência às regras gerais de legitimação da Justiça, esta deve desempenhar uma função preventiva, sobretudo a penal, para que que, em função do julgamento, a comunidade aprenda que o crime não compensa e se abstenha de fazer o que nos tribunais se condenou, o País assistiu à noção da Casa da Justiça, o tribunal ao pé da porta, os juízes de fora que iam às comarcas, as NUTS, enfim, a Justiça de proximidade e assiste agora ao encerramento de tribunais, a julgamentos que vão ter lugar a dezenas e dezenas de quilómetros do local onde tudo se passou, essa forma da desaforamento encapotado em favor do tribunal de conveniência. E ficamos todos boquiabertos.

Tendo visto os políticos clamarem o imperativo da reforma judiciária e o consequente "mapa judiciário", como condição essencial ditada pela troika porque o País real, o produtivo, o empresarial, estaria bloqueado por causa do mau funcionamento dos tribunais, o País apercebe-se que só quando a troika se foi, enfim, embora, é que o dito "mapa" surge, e, afinal, com isso, estão suspensas as marcações de julgamentos, haverá milhares de processos que vão ser encaixotados, juízes transferidos, magistrados novos que vão ter pegar nos processos desde a estaca zero quando havia outros que já os conheciam de fio a pavio. E ficamos como parvos.

Tendo aprendido a não acreditar em coisa alguma, o País, não quer de nada saber. Problema é o Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol. E, em matéria de juízes, grave é o que se passa com os árbitros de futebol! O mais que se dane!

Viva, pois, tudo, e viva, por isso, nada! Tanto faz. 

O mapa judiciário, esse, será, assim, apenas um problema de camionagem, com polícias e soldados a alombarem com processos de cá para lá. 

Conclusão: sem os Ministérios da Defesa e da Administração Interna, que seria do Ministério da Justiça? E porque é que, já que de mapas se fala, não se pediu ajuda aos Serviços Cartográficos do Exército, e, ao Instituto Português do Mar e da Atmosfera, para se decidir o caso de tribunais nas Berlengas, no Farol do Bugio, e sobretudo nas Selvagens?» [publicado há momentos no seu blog "Patalogia Social"]

quinta-feira, 26 de junho de 2014

OS VELHOS TAMBÉM SE ABATEM! - Fernando Paulouro Neves


«Às vezes, um verso contém toda a emoção do mundo e impõe um silêncio absoluto de pura exigência de meditação. Essa experiência acontece-nos frequentemente quando lemos aquela arte poética que toca a essencialidade das coisas ou vivemos emoções estéticas tão fundas, porventura aqueles instantes em que Goethe dizia que o tempo devia parar. Um desses versos, que me emocionou, colhi-o na poesia de Jorge Luís Borges e diz: "Por Francis Haslam, que pediu perdão aos seus filhos/ Por morrer tão devagar". É uma metáfora terrível que hoje traduz o universo absurdo que a sociedade impõe aos mais velhos, quando a vida produtiva chega ao fim ou os donos dos países os tornam gradualmente descartáveis.
No mercadorismo social, no deve-haver do poder ultra-liberal, como acontece de forma miserável em Portugal, não há lugar para os idosos - ou, se há, são na maior parte dos casos armazéns antecipadores da morte -, os idosos são um segmento geracional que os detentores do mando, não poucas vezes, acusam (pelo crime de se ter prolongado a esperança de vida) de responsável por desequilíbrios orçamentais.
Lembrei-me do verso de Borges porque a questão dos idosos em Portugal (reformados e pensionistas), gente que viveu e vive, ainda, em muitos casos, uma precariedade humana aviltante, depois de duras vidas de trabalho e de desigualdades sem fim, e faz lembrar aquela caricatura (excessiva, como todas as caricaturas), tão feita de desumanidade: consideram-nos mortos - e gostavam de os ver morrer mais depressa.
Foi também o texto magnífico de José Tolentino Mendonça, no "Expresso", intitulado "A Velhice Ofendida", que me fez voltar à pulsão da escrita em tema tão inquietante e tão presente no quotidiano. O poeta começa lembrar que "nos primeiros quatro meses deste ano foram registados em Portugal 294 suicídios" e que "ocorrem no nosso país mais suicídios do que mortes em acidentes de estrada". E acrescenta: "Mas houve um dado que se cravou completamente na minha cabeça e não me abandona:quem mais é tentado pelo suicídio são os velhos, acima dos 75 anos de idade, com menos defesas perante a solidão, a pobreza ou o sofrimento". José Tolentino Mendonça cita um curioso texto do filósofo Norberto Bobbio, onde o autor, com sarcástica ironia, escreve que "quem elogia a velhice nunca a teve diante dos olhos", para relatar depois a seguinte experiência de Bobbio: "O tempo urge. Eu deveria acelerar os movimentos para chegar a tempo e, em vez disso, vejo-me obrigado, dia após dia, a mover-me cada vez mais devagar. Emprego mais tempo e disponho de menos tempo. Pergunto a mim mesmo, preocupado: será que vou conseguir? Sinto-me compelido pela necessidade... E contudo sou obrigado a marcar o passo, embaraçado nos movimentos, desmemoriado, e portanto obrigado a deter-me para anotar tudo de que preciso em folhas que, no momento oportuno, não encontrarei".
Esta é uma imagem fugaz do drama interior de muitos idosos. Mas depois, nas andanças do dia-a-dia o braço longo do drama estende-se à solidão do abandono, às agressões físicas de que os idosos são vítimas, dentro das quatro paredes de um eufemismo chamado lar, às vidas de miséria que são a linha final de muitos. Os velhos. Como diz José Tolentino Mendonça "ser velho no Portugal contemporâneo não é uma coisa bonita de ser ver".» - Fernando Paulouro Neves

quinta-feira, 19 de junho de 2014

A administração do Centro Hospitalar de São João, no Porto, solidariariza-se com os dirigentes intermédios - em causa a saúde dos doentes. Que pena a lei da rolha não ter vingado!

Compreendem agora a importância e a pressa da lei da rolha para o pessoal médico? A administração do Centro Hospitalar de São João, no Porto, anunciou que todos os dirigentes intermédios daquela estrutura se demitiram. O Conselho de Adminis...tração do CHSJ adianta que "os responsáveis pelas oito unidades intermédias de gestão do CHSJ e os 58 diretores de Serviços clínicos e não clínicos decidiram presentar o seu pedido de demissão", e manifesta-se "solidário com as lideranças intermédias", tendo "reportado esta situação à tutela" e esclarece as razões aduzidas pelos dirigentes para apresentarem a demissão.
A demissão conjunta justifica-se por "a qualidade na prestação de cuidados de saúde à população estar em risco", com "a desvalorização do CHSJ e da sua missão no contexto da região e do país" e com "a impossibilidade da implementação do desenvolvimento estratégico do CHSJ", tal como a apontado como motivo para a saída em bloco o "impedimento da ação gestionária do CHSJ e das estruturas intermédias de gestão do Centro Hospitalar, por via da centralização administrativa, no que concerne a políticas de recursos humanos, investimentos, manutenção estrutural, infraestrutural e de equipamentos e compras, que afetará gravemente a prossecução da sua missão e a atividade assistencial, apesar de, reiteradamente, o CHSJ apresentar resultados económico-financeiros positivos e resultados clínicos e assistenciais ao nível dos melhores da Península Ibérica". Ora, não é tão importante pôr uma rolha nestes gajos? Obviamente, falam demais. AM

As três sílabas do nosso remorso, por BAPTISTA-BASTOS, DN




«Vivemos de felicidades pequeninas, e inventamos esses instantes com a intuição secreta de que são precários e fugazes. Pouco temos a que nos pegar. Os amigos ou aqueles que estimamo...s vão-se embora, para outros sítios ou para sempre, encerrando o anel que parecia ligar-nos. Agarramo-nos, com o desespero de quem nada tem a perder e nada tem a ganhar, ao gosto de uma palavra, a um sonho ou, até, a um jogo de futebol, criando a ilusão de que somos felizes. Mas é sempre uma felicidade pequenina, e nós sabemo-lo com a noção dessa fatalidade irrevogável. Fomos alguma vez grandes? Inculcam-nos a ideia de que sim. Mas grandes para quem? Fomos nas caravelas, criámos um leito de nações deitando-nos com tudo o que era mulher. Talvez a nossa grandeza resida aí: no gosto e no apreço pela mulher.
Tudo o que trouxemos e roubámos foi para os outros. É sempre assim. Jorge Brum do Canto, aquele realizador de cinema de que já ninguém fala, sequer levemente, disse-me, um dia, no Botequim da Natália, que somos o mesquinho na mesquinhez: pequeninos e queremos e gostamos de o ser. Precisamos de ídolos, ídolos?, que completem a nossa incompletude. Agora, neste mesmo instante, é o Cristiano Ronaldo, que se passeia num Lamborghini para satisfazer a nossa inveja. Ele é a nossa vingança momentânea, também ela momentânea e precária, enchemos as praças públicas, transferindo para ele as nossas frustrações e as nossas derrotas. Perdemos. Levámos uma cabazada, e o inchaço da pequenina esperança, tudo pequeno sempre muito pequeno, esvaziou-se como um balão. Lá vamos, cantando e rindo, diz o hino mentiroso. Lá vamos.
Depois, esquecemos tudo. Até a miséria esfarrapada do nosso esfarrapado viver. Protestamos sem ira nem cólera. Protestamos com estribilhos e dizeres em cartazes, e vamos à vida que se faz tarde. Somos o Mundial! Gritam as televisões, todas as televisões, durante todo o dia, e enviados especiais embevecidos, comentadores severos, especialistas engravatados e graves ensinam-nos as razões por que perdemos. Lá vamos, cantando e rindo. Dizia o O"Neill: "Às duas por três nascemos/ às duas por três morremos/ e a vida?, não a vivemos." O O"Neill é como o Pessoa: serve para explicar o aparentemente inexplicável. Lemos os jornais, os que lêem, claro!, e o fastio é tanto que só sabemos de futebol: decoramos os nomes, os lances e as jogadas, nada de mais nada. Somos assustadoramente ignorantes, iletrados contundentes, fecham-se escolas, reduz-se o dinheiro para o ensino, os miúdos vão para as aulas em jejum, e temos, temos é como quem diz..., três jornais diários consagrados ao futebol, fora o que escorre, uma multidão de programas de, sobre e com futebol e adjacências; o mesquinho na mesquinhez elevado ao quadrado.
"Se fosses só três sílabas, Portugal..."»

terça-feira, 17 de junho de 2014

Que PS vai sobrar depois disto? Lutas intestinais e viscerais desconstroem o Rato.



Que PS vai sobrar depois disto? pergunta a Ana Sá Lopes.
«Nem a "traição" é um argumento político nem serve para conquistar corações.»
Só passaram 19 dias desde que Costa se anunciou candidato a SG do PS e o ambiente dentro do partido já está irrespirável. É impossível manter alguma racionalidade naquela que é já dada como uma das maiores guerras intestinais dentro do PS (e mais durável: contando o tempo que já vinha com o que há-de vir). "Calhaus, insultos, insolências, trocas de tiros virtuais, tudo a contribuir para que uma batalha que deveria ser estritamente política se aproxime a passos largos de um romance de cordel. Se o objectivo for o de rebentar com o partido mesmo antes das próximas legislativas, é capaz de estar a ser conseguido: se sobrar alguma coisa do PS depois do que se tem visto nos últimos dias, será uma alegria."
..... "é insustentável para o PS esperar até 28 de Setembro para o desenlace da guerra civil. O que se está a passar é uma versão aproximada de "irregular funcionamento das instituições". .... Há um problema político: o PS não funciona nem vai funcionar enquanto maior partido da oposição e partido mais votado nas eleições europeias pelo menos até Novembro (no caso de Seguro perder as primárias). E todos os dias os socialistas disponibilizam bom material de propaganda futura para os tempos de antena da coligação governamental - além de contribuírem vivamente para alegrar os discursos de Marinho e Pinto.
Já se sabia que isto ia correr mal, pelo menos tão mal como em 1991. Mas está a ser pior: felizmente para o PS, em 1991 não existiam redes sociais. Agora, a exposição pública do "debate" entre militantes é confrangedoramente triste.
... António José Seguro sente-se (é?!) frustrado e "traído", e como uma peixeira da ribeira (sem ofender as ditas) chama oportunista a Costa. Como se Seguro alguma vez na vida soubesse ser alguma coisa senão isso. Foi até hoje o político mais oportunista (retirando o calculismo de Portas mas esse estratégico, calculado, direccionado), queimando dentro da JS e já fora dela todos os que lhe pareciam susceptíveis de se perfilar como futuros opositores. Nunca um lider se rodeou de tantos compadrios e yes-man à sua volta, afastando qualquer massa crítica dos órgãos do partido. Tudo e todos os que lhe podiam fazer mossa foram colocados, um a um, de lado, em banho-maria, tal como lhe fizeram anos a fio a ele. Não sirvas a quem serviu .... Nem a "traição" é um argumento político nem serve para conquistar corações. Seguro pôs as garras de fora, apoiado por Maria de Belém, e, desprezando a tal politica dos afectos que tanto apregoou e que captou os apoios de algumas balzaquianas dentro do partido, joga o factor de sedução do "traído". De nada lhe serve. Tem até perfil de traído embora em muitas situações tenha sido ele o traidor. Um sonso. Olhos vazios e inexpressivos a esconder a ambição desmedida que alimentou anos a fio quando ainda todos o viam como um aprendiz de polichinelo.
Seguro sempre usou o truque dos ambíguos e dos sobreviventes: as meias-palavras. Se visa pressionar Costa a falar e a identificar-se com o passado do PS, enquanto número 2 do PS nos governos Sócrates, dispare com questões concretas e discuta a gestão dos anteriores governos. Enfim, talvez dessa discussão pudesse nascer alguma luz para o PS. "De discursos de faca e alguidar, mais habituais em processos de divórcio litigioso, não nasce nada." Mas, é precisamente nestas situações, que se revela a falta de perfil para lider, pódio a que chegou para desventura do PS e inglória da oposição. Perdeu-se muito com Seguro como SG: o partido fragmentou-se, os vendilhões já se vendem por menos do que um prato de lentilhas, os troca-tintas vomitam nas redes sociais sapos de "apoio" a Costa. Um partido que depois de Seguro nunca mais será o mesmo. Pelo caminho terão ficado socialistas de primeira linha e gente competente que muita falta faziam na construção de uma oposição sólida e credível. No melhor pano cai a nódoa. E por muita lexívia que se use, Seguro causou estragos irreparáveis dentro do PS. Resta a Costa entrar e começar com uma valente sabonária, ainda que leve à frente umas quantas sopeiras e controleiros que, até agora, lhe foram muito úteis. AM

domingo, 15 de junho de 2014

A ricofobia portuguesa - Os odiados novos ricos!


A ricofobia portuguesa, na visão do Nuno Abrantes Ferreira 
«Os portugueses têm uma neurose com o dinheiro dos outros. Nunca perguntam a ninguém “quanto é que ganhas?”. Porque acham isso uma indelicadeza. Mas não hesitam em lançar suspeitas e em emitir juízos de valor sobre os que vivem bem e exibem um estatuto social melhor que o deles. Há quem chame a isto inveja. Eu chamo ricofobia.
Quem nasce rico é um betinho que “não sabe o que é a vida”. Porque “teve a papinha toda feita” e beneficiou da “boa educação e influências da família”. O betinho até pode multiplicar por 100 o património que herdou. Ou descobrir a cura para o cancro. Mas o ricofóbico dirá sempre: “o gajo era rico e assim também eu”. Um betinho nunca tem uma história de vida. Porque nasceu rico. E isso explica tudo: o sucesso dele, o insucesso dos outros e até “o estado a que o país chegou”. Porque em Portugal, diz-se, “há muito dinheiro, ele está é mal distribuído”. E a culpa é sempre dos ricos.
Mas o clímax da ricofobia é atingido quando alguém que nasce pobre ou remediado, comete a desfaçatez de ascender a uma classe mais alta. Estes alpinistas sociais nasceram no mesmo bairro periférico e frequentaram a mesma escola pública que o ricofóbico. Mas a idade adulta trouxe-lhes destinos diferentes. Enquanto o ricofóbico ficou no bairro da Amadora, o alpinista foi morar para Campo de Ourique ou trabalhar na City de Londres. E é precisamente isso que faz comichão ao ricofóbico, que se questiona: “Como é que ele conseguiu e eu não?!”
Rodeado por tantos casos mediáticos de enriquecimento ilícito, o ricofóbico tende a julgar todos os alpinistas com a jurisprudência da trafulhice e das cunhas. Esquecendo-se dos infinitos exemplos de portugueses que construíram, do nada, carreiras justas e negócios limpos de sucesso. Mas para estes, o ricofóbico tem outro veredicto: “são uns fora de série”. É curioso que no julgamento ricofobiano não exista um meio termo. Não existem alpinistas normais. Ou são canalhas ou são geniais.
Resumindo, aos olhos do ricofóbico, um português bem na vida tem 3 hipóteses de currículo: ou já nasceu rico (betinho); ou recorreu a ilegalidades (alpinista canalha); ou estava predestinado (alpinista genial). Trabalho, educação, sacrifício e mérito são pouco relevantes. A explicação reside quase sempre no berço, na falta de justiça ou na justiça divina.
Na génese da ricofobia está a ricofilia (o desejo de ser rico). É natural, e até salutar, que todos os portugueses queiram ser ricos. Mas mais natural ainda, e não menos salutar, é que nem todos o consigam. É que o capitalismo pressupõe a existência de classes. De ricos e de pobres. De patrões e de empregados. E pressupõe também mobilidade social. Ou seja, a possibilidade de os ricos empobrecerem e de os pobres enriquecerem. E é quando a ricofilia esbarra na fraca mobilidade social portuguesa que a ricofobia emerge. Qual grito de revolta numa luta de classes.
Tenho para mim, que os justos vencedores são aqueles que evitam esta estéril luta de classes. E que não se deixam cegar pela ricofobia. E que se agarram à máxima de que o dinheiro é resultado do sucesso e que o sucesso é resultado do trabalho. E que negam a existência de dons ou genialidades. E que apesar de estarem conscientes que o berço é importante e que o sistema não é perfeito, sabem que isso não determina, nem deve resignar, o futuro de um Homem.
Afinal de contas, a mobilidade social fica mais fácil quando os mais ricos criam oportunidades para todos. E é normal que estes prefiram dar as oportunidades a quem os valoriza e não a quem os diaboliza." 

quinta-feira, 5 de junho de 2014

"Aclarando" o Acórdão do Tribunal Constitucional - Haja competência (ou criatividade, ao menos)!



Estalou o verniz entre o PSD e o Tribunal Constitucional. Ontem, a coligação "exigiu" que o Parlamento envie ao TC um pedido de aclaração do acórdão que chumbou três normas do Orçamento.
Face à hipótese de os juízes se recusarem a prestar esclarecimentos sobre a decisão, Montenegro lançou a primeira farpa, e afirma estar "em crer que o TC não irá fugir às suas responsabilidades de clarificar o sentido e o alcance" da sua decisão. "Estamos certos de que o TC não vai desertar, uma vez chamado a pronunciar-se", insistiu Nuno Magalhães.
Montenegro sublinhou, em tom de confronto e ameaça velada que está em causa "o relacionamento institucional entre três órgãos de soberania", argumentando que: está em causa o interesse dos cidadãos (todos os funcionário públicos); está em causa uma lei particularmente importante (o Orçamento do Estado); está em causa "o relacionamento leal entre órgãos de soberania". Nuno Magalhães acrescenta que o acórdão do TC contém "ambiguidades, incorreções e até alguns erros de facto". 
Quanto à alegação de que ao TC não compete esclarecer a forma de resolução das questões técnicas decorrentes dos acórdãos, Magalhães lembrou o precedente, de 1995, quando o TC aceitou responder a uma questão levantada, fora de tempo, por Mário Sores, estabelecendo o "primado da substância face à forma".
O Governo indaga de que forma serão pagos os subsídios de férias e de Natal, cujo direito se adquiriu no inicio do ano (antes de o TC decidir pela inconstitucionalidade do corte dos salários) e a questão da diferença de tratamento entre os funcionários que já receberam o subsídio de férias (com corte) e os que ainda vai receber (sem corte). 
Quando a teimosia se junta à incompetência a caldeirada entulha-se e entorna-se o caldo. E esta é uma questão que se resume ao problema de um analfabeto que, querendo brilhar ao fogão, tenta perceber os bonecos de um livro de receitas, que as letras só lá devem estar, segundo o seu pobre entender, para encher a folha. Fazer a folha a esta corja de analfabetos jurídicos é que era, mas falta gente que se apronte a fazer de fósforo. E assim nem se come a caldeirada nem se atiça a acendalha! Tudo uma enorme maçada! AM

O Palácio da Praia (sede ao Rato) declara guerra à Versalhes!


Enfim e por fim, alguma coisa de interessante se passa na nata esmorecida do Rato. Até os "pasteis" - o Rato lembra-me tanto a Versalhes! - mudam de cor. 
Ontem, a direcção do PS aprontava-se para dar música na salinha do Palácio Praia quando Eurico Brilhante Dias. Só que a pauta mudou quando, em vez de empatarem o espectáculo - como suposto, como habitual - com o relambório do “8º chumbo do TC”, desata tudo a cantarolar sobre as ilacções a retirar da derrota de Seguro nas primárias que propusera no Vimeiro.
Eurico esteve assim mais ou menos, como é do seu timbre, e lá foi mastigando os pastelinhos providencialmente colocados na sua bandeja "brilhante". As primárias aconteceriam “o mais cedo possível”, bradava o pequeno aos sete ventos. 
Mas os pasteleiros inquietavam-se! Correu mal a conferência - o que é sempre grave para quem sabe pouco da matéria e lhe saltam uns quantos power-points e uns parolos desatam a saltitar as folhinhas da pauta confundindo o maestro mal preparado! Mas os pasteleiros, vendo que a massa levadava a seu favor - decidem estragar o dia aos aprendizes. Já pensam os seguristas - onde estão? quantos são? - em ir à santinha da ladeira procurando paliativo que cale os ditos (categoria profissional também conhecida como "dirigentes distritais"). Uns quantos - demais! demasiado! - presidentes das federações distritais ficou desagradado com o anúncio feito no Vimeiro! É que alguém, ninguém, se tinha esquecido de os avisar dessa Comissão Nacional. Assomou-se um laivo de inteligência aos pasteleiros contrariados e viram neste esquecimento um laivo de esperteza saloia. Ora o que está sempre em causa é a "receita"! E, ideia luminosa!, perceberam que o chefe de cuisine Seguro adoptara uma tática de sobrevivência política - só tática que estratégia há muito tempo que não existe no Rato! caciqueiros, controleiros e seus acólitos são meros soldadinhos de chumbo que a tanto não chegam! - servindo-se, para tal, dos seus mandatários selectivamente postos à frente das distritais.
O episódio desta novela de terceira acaba com a proposta de uma reunião entre líderes distritais à revelia da direcção nacional. “Á revelia" é das expressões mais fantásticas da vida! Mas haverá rebeldes suficientes? Entretanto, os pasteis da direcção do quartel apresentavam uma proposta para uma reunião na sede, hoje, às 18 horas.
Para um partido que não mexeu um c* nos últimos anos isto é que foi dar à perna nas últimas semanas! A ideia era convencer os outros presidentes que a proposta do membro do secretariado nacional vencia a ideia do encontro em Leiria. Mais uma idiotice vinda directamente do laboratório de ideias, não?! Instala-se a controvérsia - coisa a que nos últimos anos também não se deu azo (é ver o número de militantes adormecidos, dissidentes, expulsos e afins!) - e 8 dos 21 presidentes das federações batem o pé: façam-se ambas as reuniões. Os seguristas, sentindo que a massa levedava acima do ponto, defendiam o encontro de hoje. Gerou-se a confusão sobre a fórmula "fermento q.b.". Claro que ninguém ousou mostrar o seu desagrado mas muitos dos dirigentes socialistas "cresciam" além da forma! É que, além de não terem sido informados, alguns, com a antecipação das eleições, ficam com os prazos de validade mandatária encurtados. A "massa" podia levedar até 2015, mas, estatutariamente, pode esgotar-se este mês. Era uma segurança na vida dos pasteleiros que resultava da última revisão dos estatutos. À data da eleição dos actuais presidentes, os estatutos definiam mandatos de dois anos, terminando agora. Os pasteleiros temem a levedura esquecidos que qualquer receita que meta "massa" suscita especial interesse dos especialistas em "formas". Definitivamente, no Palácio Praia, os pasteis vão mudar. Estou até mesmo convencida que podem ficar com a massa tão apurada que, finalmente, está aberta a concorrência à Versalhes. Por esta nem Luis XIV esperava. O bobo da corte é sempre uma figura surpreendente! Na arte musical como na arte culinária! AM

quarta-feira, 28 de maio de 2014

A manobra da miséria anti-constitucional de Cavaco sente-se na pele a partir de 1 de Junho. Funcionários públicos à beira da doença certificada e da morte justificada!

O desvio de Cavaco, Isabel Moreira, Expresso
"É tudo a 1 de Junho. Por isso, como na entrada em vigor dos novos truques para despedir, a partir de 1 de Junho cerca de 1 milhão de funcionários públicos, militares, forças de segurança e reformados vão "contribuir" mais. Trata-se do diploma que modifica o valor dos descontos a efetuar para os subsistemas de proteção social no âmbito dos cuidados de saúde, concretamente da Direção-Geral de Proteção Social aos Trabalhadores em Funções Públicas (ADSE), dos Serviços de Assistência na Doença (SAD) e da Assistência na Doença aos Militares das Forças Armadas (ADM).
Este diploma tem uma história de cumplicidade disfarçada entre aquele que jurou fazer cumprir a Constituição (CRP) e o Governo. Na eloquente exposição de motivos, o Governo recorda o chumbo da convergência das pensões por parte do Tribunal Constitucional (TC) e alega, sem fundamentar, o "nível incomportável de despesa pública atualmente suportado pelo Estado com o sistema público de pensões" explicando, com o rigor habitual, que "as alterações constantes da presente proposta de lei visam que os subsistemas de proteção social no âmbito dos cuidados de saúde sejam autofinanciados, isto é, assentes nas contribuições dos seus beneficiários, contribuindo, também, para a sua autossustentabilidade no médio e longo prazo".
Sem surpresa, a detalhada exposição de motivos omite que as medidas aqui visadas tiveram um percurso que não se resume ao chumbo do diploma da convergência das pensões. Os portugueses, mesmo com este lapso, lembrar-se-ão que o diploma que vai ao bolso de uns quantos funcionários públicos a partir de 1 de junho fora vetado por Cavaco.
Dir-se-ia que Cavaco fez bem. Que agiu.
Erro trágico.
Cavaco, na sua inconsequência intencional, vetou o diploma politicamente, que é um poder do PR quando discorda por razões políticas de um decreto e que pode ser ultrapassado, na AR, por maioria absoluta.
Foi o que o Governo fez, através do PSD e do partido dos pensionistas: usou da prerrogativa constitucional para ultrapassar Cavaco.
Este teria ficado a ranger os dentes, não se tivesse dado o caso de suceder o que ele queria que sucedesse. É que Cavaco fingiu que queria travar o diploma, já que o vetou "politicamente" e não "juridicamente".
Nada de errado haveria na escolha se os fundamentos do veto fossem políticos. Calha que estamos perante um veto político na forma e jurídico na substância. No veto, Cavaco sustentou-o com palavras como estas: "De acordo com o preâmbulo do diploma, a medida visa a autossustentabilidade dos sistemas em causa. Suscita, porém, sérias dúvidas que seja necessário aumentar as contribuições dos 2,5% para 3,5%, para conseguir o objetivo pretendido. Numa altura em que se exigem pesados sacrifícios aos trabalhadores do Estado e pensionistas, com reduções nos salários e nas pensões, tem de ser demonstrada a adequação estrita deste aumento ao objetivo de autossustentabilidade dos respetivos sistemas de saúde (...). Sendo indiscutível que as contribuições para a ADSE, ADM e SAD visam financiar os encargos com esses sistemas de saúde, não parece adequado que o aumento das mesmas vise sobretudo consolidar as contas públicas (...). Neste contexto, o risco de insustentabilidade do sistema será tanto maior quanto mais desproporcionada for a contribuição em relação ao custo dos serviços prestados ou ao peso das contribuições nos salários e pensões, sobretudo num quadro de fortes reduções do rendimento disponível dos trabalhadores do Estado".
Perante esta peça, que tem lá tudo para enviar o diploma do Governo para o TC, Cavaco apelida-a de "veto político", permitindo que o Governo transformasse a iniciativa em proposta de lei num quadro de maioria parlamentar, confirmando o voto por maioria absoluta dos Deputados em efetividade de funções, nos termos da CRP, caso em que a promulgação é, como Cavaco sabe, obrigatória.
É bom que todos saibam que as pessoas que vão ser alvo de mais um ataque obstinado não receberam a punição apenas do Governo e da dupla partidária que o suporta. Esses, quando não mencionaram o veto de Cavaco na detalhada exposição de motivos, não o fizeram porque ele foi bem-vindo.
Tratando-se de um veto "político" e não de um veto "jurídico", ele não pode fundamentar-se em razões jurídicas. Porque o seu regime jurídico, precisamente este a que assistimos com possibilidade de imposição de promulgação após confirmação, destrói a garantia de legalidade.
Cavaco, conscientemente, praticou um desvio à CRP.
As consequências da manobra começam a 1 de Junho."

segunda-feira, 19 de maio de 2014

O acanalhamento político - um fenómeno em erupção!

"O acanalhamento não é outra coisa senão a aceitação como estado habitual e constituído de uma irregularidade, de algo que continua a parecer indevido apesar de ser aceite. Como não é possível converter em sã normalidade o que na sua essência é criminoso e anormal, o indivíduo opta por adaptar-se ele ao que é indevido, tornando-se por completo homogéneo com o crime ou irregularidade que arrasta." (Ortega y Gasset, A rebelião das massas)

Portugueses, sem presente!

«... Sem presente, os portugueses estão a tornar-se os fantasmas de si mesmos, à procura de reaver a pura vida biológica ameaçada, de que se ausentou toda a dimensão espiritual. É a maior humilhação, a fantomatização em massa do povo português. Este Governo transforma-nos em espantalhos, humilha-nos, paralisa-nos, desapropria-nos do nosso poder de acção. É este que devemos, antes de tudo, recuperar, se queremos conquistar a nossa potência própria e o nosso país.» - O roubo do presente, José Gil

Dies irae - Pobre povo mortal!

«Dies irae. Apetece cantar, mas ninguém canta. Apetece chorar, mas ninguém chora. Um fantasma levanta A mão do medo sobre a nossa hora. Apetece gritar, mas ninguém grita. Apetece fugir, mas ninguém foge. Um fantasma limita Todo o futuro a este dia de hoje. Apetece morrer, mas ninguém morre. Apetece matar, mas ninguém mata. Um fantasma percorre Os motins onde a alma se arrebata. Oh! maldição do tempo em que vivemos, Sepultura de grades cinzeladas, Que deixam ver a vida que não temos E as angústias paradas!» - Miguel Torga

Perus políticos no activo - uma espécie que se propaga!


«Em todos os tempos, alguns elementos do topo das hierarquias, principalmente na actividade política, acham-se na necessidade de encher o papo como um peru e abrir a cauda em leque, não para cativar as atenções das peruas que tentam requestar, mas para deslumbrar o comum cidadão com a pomposa excelência que, na sua perspectiva, deve corresponder ao seu faustoso porte. E só aparecem em público, com um luzidio acompanhamento de meninos de pasta, em passo bem ritmado e ar empertigado, imitando saloiamente uma guarda de honra britânica em dia da passagem de sua majestade para a respectiva coroação. Com o seu ar distante, acham-se então o supra sumo das importâncias. Claro que o séquito e os aduladores costumeiros, procuram agradar aos seus chefes de fila, fazendo-lhes elogios em catadupa e comunicando-lhes as excelsas qualidades que possuem, cantando aos seus ouvidos todo o género de dislates, para tentarem obter alguma prebenda em paga da lisonja. Ora, só um peru emplumado, um “nouveau riche” da política, atura e acredita nos ridículos elogios ouvidos. E vai inchando o peito e acreditando, na sua vaidosa cegueira, que é mesmo um verdadeiro sábio da china. Pior é que qualquer português que desempenha cargos políticos é avaliado não pelos aduladores que nas costas sempre dizem mal, mas pela população votante que apenas vê o resultado da sua governação. E se o sábio emplumado não governa os bens e os interesses da república, como um bom e competente pai de família, mal vai a situação, por mais elogios que os cretinos dos seguidores lhe façam. Aí é que é o cabo dos trabalhos, aí é que a porca torce o rabo como se diz na minha santa terra. Pois o local próprio para se aquilatarem as reais qualidades dos políticos e dos governantes não é nos automóveis topo de gama que os conduzem, pagos à nossa custa, não é na prosápia ridícula que exibem, mas muito simplesmente nas acções que cometem e no êxito das políticas praticadas. E se a incapacidade ficar provada, não há importância atirada aos olhos dos cidadãos, que lhes valha. Perdem num ápice a prosápia e até a plumagem, bem como irremediavelmente o monco vermelho que tanta importância lhes dava e lhes adornava o bico, isto é, o nariz, murcha à sua ínfima e triste espécie.
Seria aconselhável que todos os candidatos a políticos lessem uma das epístolas de Horácio, que sentencia que o bicho homem deve procurar ser como os aduladores o pintam, “ Cura esse quod audis”, assim reza a frase em latim, e não acreditar nos falsos elogios que ouve, por mais que lhe agradem. Bem andariam os interesses da comunidade com essa preventiva terapêutica…! O mal é que este tipo de imbecis que acreditam em tudo o que lhes dizem, se renova permanentemente como a praga do gorgulho do feijão.» - António Moniz Palme

quarta-feira, 7 de maio de 2014

O Expresso contra o Governo - Também tu, Brutus?


Fala-se tanto da imprensa avençada pela direita que estes artigos do Expresso têm de merecer a nossa apreciação.
Na última edição do "Expresso" (caderno de Economia) foram emitidos com a devida certificação os maiores atestados de burrice e de mentiroso ao governo.
O primeiro foi o de Nicolau Santos, "Demos graças ao DEO", uma espécie de Salvé-Rainha:
"Demos graças ao DEO, que nos anuncia o fim do martírio da austeridade! Demos graças ao DEO, que alivia as duras penas a que têm sido sujeitos os pensionistas e funcionários públicos, à custa de carregar em novas penas sobre os trabalhadores por conta de outrem e os consumidores! Demos graças ao DEO, que acaba com a Contribuição Extraordinária de Solidariedade e a rebatiza com o nome de Contribuição de Sustentabilidade, o que prova que os cortes eram mesmo transitórios. Demos graças ao DEO, que sempre nos foi dito que não traria aumentos de impostos -- traz, mas são tão pequeninos que nem contam: apenas 0,25 pontos no IVA, que passa para 23,25%, o sétimo mais elevado da Europa (finalmente um ranking em que estamos entre os 10 melhores do Velho Continente!), e 0,2 pontos no aumento da contribuição dos trabalhadores para a Taxa Social Única..."
Seguiu-se a crónica de João Vieira Pereira, "A Estupidez saiu à rua num dia assim...", a dizer: "Ficámos, para quem ainda tinha dúvidas, a saber que este Governo é um zero na tarefa de cortar despesas e mestre em fazer crescer impostos. Em todas as ocasiões em que se pediam cortes estruturais e não pontuais da despesa, a solução encontrada foi a de aumentar as receitas. (...) A nossa economia não tem um problema de receitas, mas sim de custos. E de dívida. E um problema enorme de sustentabilidade. Sustentável em Portugal só há uma coisa, a estupidez. E a maior de todas é a forma como comprometemos o futuro."
Mas o colunista vai mais longe: "(...) Não há nada de justo no aumento de impostos que foi apresentado esta semana. Não há justiça quando se ataca sem limites o consumo e o rendimento para manter uma despesa completamente insuportável. A certeza de Passos Coelho de que estas medidas vão ser benéficas para a economia a médio prazo só não faz rir porque é triste que um primeiro-ministro assim pense.
(...)Vamos envelhecendo com a certeza de que isto ainda vai correr muito mal. Principalmente para os mais novos. Espoliados todos os dias para suportar quem tudo come. Eles. Os vampiros."
Páginas dedilhadas e é a vez de Luís Marques: "A Mentira Tem Saída Limpa?": "Primeiro foi o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho. Depois a ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque. Ambos afirmaram, em momentos diferentes nos últimos 15 dias, que o Governo não ia mexer nos impostos. Paulo Portas e Pires de Lima, respectivamente vice-primeiro-ministro e ministro da Economia, foram mais longe Admitiram que em 2015 o imposto sobre rendimentos poderia baixar. Quarta-feira o Governo fez exactamente o contrário: aumentou o IVA, outros impostos sobre o consumo e a taxa social única. 
Não há como dourar a pílula: o Governo mentiu".
E esta, hem? Até já Brutus não poupa o covil romano.

E sobre a tal saída mais ou menos limpa, mais ou menos escatológica....



Recolhi alguns apontamentos interessantes sobre a actualidade. A tal saída mais ou menos limpa, mais ou menos escatológica. 
Ei-los.
«O triunfalismo do primeiro-ministro a anunciar que Portugal vai sair do plano de ajuda da troika sem pedir um programa cautelar é perigoso. O cansaço e o olhar ausente dos ministros do Governo revelaram mais sobre a dureza dos tempos do que as palavras de Pedro Passos Coelho. Não tenhamos ilusões. O futuro não vai ser mais fácil. Anunciar amanhãs que cantam, quando ainda temos de estar preparados para tempestades, é vender sonhos que se podem transformar em pesadelos....» - Uma saída mais suja do que limpa, Helena Garrido, Jornal de Negócios
«A troika, agora de capuz, escondida ao virar da esquina, mas a salivar abundantemente à nossa mesa, não saiu de Portugal. Deu-nos uma aparência de férias em liberdade, prisioneiro em saída precária com pulseira electrónica num "InterRail". ... Nada me move contra a chanceler Merkel à excepção de que, fora do seu país, continua a dirigir cepos. Não é gente muito difícil de dirigir.» - Miguel Guedes, JN
«.... Toda esta não Europa saiu muito cara, a todos os europeus, em perda de crescimento, em desemprego, ou no acordar de tensões que podem colocar a paz e o projecto europeu em risco. A saída de que precisamos é a saída deste marasmo europeu, de que infelizmente o nosso Governo faz parte.» - Manuel Caldeira Cabral, Jornal de Negócios.
«É inacreditável que o governo se coloque numa situação de inferioridade». «Que o próprio governo se coloque nesta situação de inferioridade, arrastando o país e os portugueses, eu penso que é inacreditável. Temos que mostrar ao mundo que nos sabemos governar? Somos um país subdesenvolvido a quem a troika teve de ensinar a governar?» - Constança Cunha e Sá.
«... Neste momento precisávamos de condições para enfrentar os bloqueios fundamentais - de funcionamento da zona euro e da economia portuguesa. Infelizmente, empurrado pelos seus parceiros europeus e pela miopia eleitoral dos partidos do governo, a partir de agora Portugal ficará na situação do trapezista pouco preparado, que inicia a travessia, de um longo e fundo desfiladeiro. À mercê das circunstâncias. E sem rede.» Fernando Medina.
Concluo: "Quando uma crapulosa tirania espezinha homens na lama, [...] o procedimento científico é evidente. Seria demorado e trabalhoso cortar a cabeça aos tiranos, é mais fácil cortar o cabelo aos escravos". - G. K. Chesterton