terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Os velhos: não é possível exterminá-los? - a visão de Pacheco Pereira


«Eu gostaria muito de escrever artigos racionais, ponderados, que merecessem uma aura académica e sensata, que unissem em vez de dividir, que me permitissem ter a minha quota de lugares, prémios e prebendas, mas estou condenado, nestes tempos, a escrever cada vez mais panfletos. Acontece. Isto do imperativo categórico, como Kant sabia, é uma maçada.
Isso deve-se ao facto de não querer ter nenhuma falinha mansa, daquelas que enchem o balofo da nossa política de mútuos cumprimentos e salamaleques, com gente que se mostra impiedosa por indiferença, hostil com os fracos que estão do lado errado da “economia”, subserviente com os fortes, capaz de usar todos os argumentos para dividir, se daí vier alguma pequena folga para as suas costas.
Tenho dito e vou repetir: a herança que estes dois anos de “Governo” Passos Coelho-Portas-troika vai deixar ultrapassará muito o seu tempo de vida como governantes. Se não for antes, em 2015, passarão à história como um epifenómeno dos tempos da crise e sobreviverão incrustados nos partidos de onde lhes vem o poder, como um fungo que não se consegue limpar. Vão continuar a estragar muita coisa, mas a própria lógica de onde vieram os substituirá por outros mais ou menos maus. A maldição portuguesa é esta. Aquilo que mais precisamos, não temos.
Mas, mesmo que desapareçam como as figuras menores que realmente são, vão deixar estragos muito profundos no tecido já de si muito frágil da nossa vida colectiva, cavando fundo divisões e conflitos, destruindo o pouco de humanidade social que algum bem-estar tinha permitido. Eles estão, como as tropas romanas, a fazer no seu Cartago, infelizmente no nosso Portugal, o terreno salgado e estéril. Pode-se-lhes perdoar tudo, os erros de política, a incompetência, o amiguismo, uma parte da corrupção dos grandes e dos médios, menos isto, este salgar da terra que pisamos, apenas para obter uns ganhos pequeninos no presente e com o custo de enormes estragos no futuro.
Um exemplo avulta nos últimos dias, que já vem de trás, mas que ganha uma nova dimensão: o ataque aos velhos por serem velhos, uma irritação com o facto de haver tanta gente que permanece como um ónus para o erário público apesar de já não ser “produtiva”, de não ter saída no “mercado do trabalho”, de estar “gasta”. De ministros que não leram Camões e nem sequer sabem quem são os “velhos do Restelo”, a gente que pulula nesse novo contínuo dos partidos e do Estado que são os blogues, a umas agências de comunicação que são as Tecnoforma dos dias de hoje, boys e empregados de todos os poderes para fazerem na Internet e nos jornais o sale boulot, todos, de uma maneira ou de outra, atacam os velhos, por serem velhos. Numa sociedade envelhecida, isso significa atacar a maioria dos portugueses, em nome de uma ideia de juventude “empreendedora”, capaz de fazer uma empresa do nada só com “ideias”, “inovação” e design, sem os vícios do “passado”, capaz de singrar na vida sem “direitos adquiridos”, nem solidariedade social, imagem que tem o pequeno problema de ser tão mitológica como a Fada dos Dentinhos.
Grande parte do ataque a Mário Soares e a muitos que estiveram na Aula Magna foi feito em nome de eles serem “velhos”, logo senis. Nem sequer é por implicação, é dito com clareza, com o mesmo tipo de “argumentos” com que os soviéticos enviavam os dissidentes para os asilos psiquiátricos porque quem estivesse no uso normal das suas faculdades não podia deixar de ser comunista. Aqui é o mesmo: só pode ser senil quem duvidar da bondade das medidas do Governo, apresentadas como sendo a realidade pura, inescapável, inevitável. Como pode estar bom da cabeça quem coloca em causa a versão em “economês” da lei da gravidade? Só um louco. E se for velho, é-se senil, ultrapassado, antiquado, mesquinho, por definição. Não há outra maneira de explicar que haja velhos com tantas ideias “erradas” sobre a bondade do nosso “ajustamento” e que sejam empecilhos para os “jovens” brilhantes que o aplicam com vigor e sem vergonha.
Muito do discurso contra os velhos, que começa, em bom rigor, cada vez mais cedo, quando se perde o emprego e se fica “gasto” para o mercado de trabalho, é um discurso que pretende ser utilitário no plano político, e é isso que o torna moralmente desprezível. Destina-se a justificar o violento ataque a reformas e pensões, a gente que trabalhou a vida toda, e que ainda tem memória do que custou obter esses malfadados “direitos”, resultado de “contratos” de “confiança” com o estado, tudo coisas de velhos que estão a “roubar” aos mais novos do seu futuro. Estão a mais. E se eles não percebem que estão a mais a gente vai mostrar-lhes pelo vilipêndio e pelo saque que já há muito deveriam ter desaparecido.
Muita coisa tem hoje a ver com esta demonização da idade. Um caso entre muitos, é o que se está a passar com o despedimento colectivo dos trabalhadores dos Estaleiros de Viana do Castelo. Nem sequer discuto se a empresa tinha que encerrar ou não, porque a partir de um certo nível de dolo e degradação da linguagem esse não é o primeiro problema. Podia ser, mas com esta gente não é, porque, ao fazerem as coisas como fazem, sempre obcecados em enganar-nos, merecem que contra eles se volte tudo, o discurso empolgado dos “navegadores” e a retórica do “mar”, ao mesmo tempo que se fecha o único estaleiro que sobrava, a disparidade de não querer pagar 180 milhões de euros, enquanto se aumenta a taxa para a RTP, que recebe todos os anos muito mais do que isso, a displicência com que se apresenta como grande vitória, mais de 600 despedimentos.
Acresce a soma de mentiras habituais: que 400 trabalhadores vão ser reintegrados (afinal não há nenhuma garantia), que vão ser pagas as devidas indemnizações (afinal parece que só a parte deles), que vai continuar a construção naval (quando não custa perceber que o que a Martifer vai fazer não são navios). O que vai acontecer é um enorme despedimento colectivo feito pelo Estado, o encerramento dos estaleiros à construção naval, o preço de saldo para a Martifer após o Estado, como no BPN, pagar todos os custos. E, na vaguíssima hipótese de alguns trabalhadores serem empregados na nova empresa, serão sempre poucos, com salários mais baixos, com uma folha de antiguidade a zero, e ficarão de fora os mais velhos e os mais reivindicativos. Alguém vai contratar um membro da comissão de trabalhadores, mesmo que seja um excelente soldador? Como muita da mão-de-obra dos estaleiros já tem uma certa idade – os velhos começam a ser velhos aos quarenta –, está-se mesmo a ver a sua “empregabilidade”.
Não custa fazer o discurso politicamente correcto de que a “esquerda não tem o monopólio da sensibilidade social” (e não tem), nem dizer aqueles rodriguinhos do costume do género “que bem sabemos como os portugueses estão a sofrer”, ou que “nenhum Governo gosta de tomar estas medidas”, ou elogiar os portugueses pelo seu papel “decisivo” no sucesso da aplicação do “ajustamento”, etc., etc. Na verdade, estou farto de exibições de confrangimento público e exercícios de “preocupação social”, já não posso ver a hipocrisia de Passos Coelho e de Aguiar Branco, ao lado do exibicionismo pavoneado dos soundbites de Portas.
Swift escreveu em 1729 uma sátira sobre a pobreza na Irlanda chamada Uma modesta proposta para evitar que as crianças dos pobres irlandeses sejam um fardo para os seus pais e o seu país e para as tornar um benefício público. Aconselhava os pobres a comerem os filhos, como meio de combater a fome, “grelhados, fritos, cozidos, guisados ou fervidos”. Na verdade, quando se assiste a este ataque à condição de se ser mais velho – um aborrecimento porque exige pagar reformas e pensões, faz uma pressão indevida sobre o sistema nacional de saúde, e, ainda por cima, protestam e são irreverentes –, podia avançar-se para uma solução mais simples. Para além de os insultar, de lhes retirar rendimentos, de lhes dificultar tudo, desde a obrigação de andar de repartição em repartição em filas para obter papéis que lhes permitam evitar pagar rendas de casa exorbitantes, até ao preço dos medicamentos, para além de lhes estarem a dizer todos os dias que ocupam um espaço indevido nesta sociedade, impedindo os mais jovens de singrarem na maravilhosa economia dos “empreendedores” e da “inovação”, será que não seria possível ir um pouco mais longe e “ajustá-los”, ou seja, exterminá-los?»

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Um Inferno negro - A Primavera tem de ser de papoilas


Vamos assistindo a um suposto cenário de guerra num alegado tempo de paz. E não se fala de resistência - vocábulo  dos velhos tempos que foi tomado de assalto pela "abstenção violenta" - nem se fala de quem lute contra a ocupação do País pelas "forças democráticas" legitimamente postas no poder - prefere-se a "progressão neutral" que cede à pressão do poder pelo poder. Mas há ainda quem fale de luta, sem pensar nesta ou naquela força partidária, somente aquela luta pura que se impõe hoje, como se impõe sempre, em todos os tempos e em todos os lugares. A luta que visa apenas a sobrevivência da Liberdade. Se existe um código de luta? Não. Tal como não existe um código de Liberdade. Os grandes dilemas existencialistas da Liberdade, porém, estão aqui e agora bem presentes: a necessidade de sobreviver, a revolta e a mentira. 'Todos somos responsáveis por tudo perante todos', disse Dostoievski. E a maior responsabilidade é a da inacção e a da inércia. Existe ainda quem pense que a desgraça ainda "só" chegou à casa dos outros e que ainda não chegou à sua. Engano desses: a desgraça de um é a de todos, e quando chega ao outro já chega a nós. Não há mansidão nem brandos costumes que legitimem os braços cruzados, ao menos tenhamos a decência e a civilidade de os levantar e dizer Não! Sei que murcharam os cravos! Sei que murcharam as rosas! É tempo de cultivar campos de papoilas! AM

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Do papel do Iniciador e do Iniciado - Rémi Boyer


«A primeira função das sociedades iniciáticas consiste em acompanhar o demandador até à zona de Silêncio, onde se desenvolve o Ser e a Consciência não-dual. Devem ajudá-lo a encontrar o acesso ao Infinito, o Ponto de Vazio de certas tradições, que, de certa forma, evoca o Ponto Sublime de André Breton e dos Surrealistas, ou o lugar do Ser, o lugar do Coração, do cavaleiro André Michael de Ramsay. Esse Ponto é também “a Fina ponta da alma”, de Mestre Eckhart; o “Lugar de Deus” que vê o noûs descer no Coração, dos hesicastas bem como dos saint-martinianos; “o ponto sem medida”, do sistema shivaíta Trika. Esse “Lugar de Deus” em nós é também a “Câmara do Meio”, dos Maçons, é o acesso à “Câmara Alta”. Com efeito, ao Meio-dia como à Meia-noite, o Mestre Maçom está inscrito no eixo, no Silêncio do Ser, fora das representações pessoais.
Do “ponto de vista” dual, o Ponto de Vazio torna-se o Ponto de encantamento; do “ponto de vista” não-dual, é o Ponto de junção das realidades ou dos mundos. É o Ponto a partir do qual se desenvolve a temporalidade, o juízo, o movimento, as periferias formais cada vez mais densas, condicionadas e alienantes na medida do seu afastamento do eixo do Ser, rumo a uma dualidade bruta e brutal. Na Consciência dual, criadora dos mundos limitados, reina o ter e o fazer. As formas são estruturadas segundo a acção constante do triângulo arcaico Poder-Território-Reprodução. Por reprodução, entendemos não só a reprodução sexual, como também a replicação das formas, mas, sobretudo, a replicação idêntica do eu, do ego, da “pessoa”.
Esta viagem, que passa pelo País do Silêncio, o País da “Imaculada Conceição”, rumo ao Quinto Império da Tradição lusa – onde reina o Rei Encoberto, o Si, o Império do Espírito Santo, ou seja, do Espírito Livre – é efectivamente uma viagem de Regresso. É a viagem de Ulisses, protótipo do Iniciado, que regressa a Ítaca. É a Recordação de Hermes, a Reintegração de Martines de Pasqually, o Reconhecimento de Abinavagupta e do Shivaísmo não-dual de Caxemira.
Para deixar de ser ludibriado, o demandador deverá ser capaz de reconhecer as potências arcaicas condicionantes e condicionadas que actuam no seio da “pessoa”, revertendo-as e inscrevendo-as numa nova verticalidade, evocada por inúmeros símbolos tradicionais. Este processo iniciático fá-lo-á passar necessariamente da imitatio à inventio, ou, ainda, da Iniciação na Cidade à Iniciação no Jardim.
Note-se que a distinção que parece insinuar-se de um lado e do outro da zona de Silêncio é imposta pela linguagem; logo, é de natureza dualista e não pode, por isso, dar-nos a percepção da realidade. No Real, o Si e a “pessoa” confundem-se; o Simples e o hipercomplexo, o Um e o múltiplo, o Silêncio e o ruído, o Infinito e o limitado, a Imobilidade e o movimento, o Não-dual e o dual, são e não são perfeitamente idênticos. A vida aparece como uma celebração (e também como magia, como reencantamento) dual no seio da consciência não-dual.» Rémi Boyer, in O Discurso de Sintra, Zéfiro & Arcano Zero, Sintra, 2011.

A mulher na Idade Média, à luz do Direito de antanho


O PAPEL DO HOMEM E DA MULHER NA IDADE MÉDIA - as leis que norteavam a época eram bem diversas daquelas que inicialmente poderíamos supor. E isto porquê? Porque: • O casamento dos sacerdotes era admitido até ao século XI; • A herança das mulheres e crianças era legal até ao século XIV; • A maioridade acontecia aos catorze anos até ao século XVI; • E, por último, a esposa, ao conservar o seu nome próprio até ao século XVI, engendrou liberdades que foram de seguida ferozmente reprimidas. 
A célebre Lei Sálica que proibia as mulheres de reinarem, só foi introduzida no século XlV. Até então, a mulher medieval, tal como a mulher celta, podia suceder ao marido e tomar conta do feudo após a morte dele. Foi Filipe o Belo, “carrasco” dos templários, o primeiro a decretar uma lei que visava afastar a mulher da sucessão ao trono. 
É um facto que durante a Idade Média muitos casamentos eram fabricados desde o berço. Contudo, quer se tratasse de rapaz ou rapariga, não havia discriminação sexual. Ambos podiam ser vítimas desse tipo de situação. 
No tempo de Luís IX de França (1214-1270), o rei que exercia a justiça debaixo de um carvalho (como os celtas), há exemplos de mulheres que votavam como os homens nas assembleias urbanas ou rurais, exactamente como faziam os celtas da Gália antes da conquista romana.
Durante a Idade Média, o ensino das crianças era ministrado quer por religiosos quer por laicos, quer por homens quer por mulheres, e indistintamente às raparigas e aos rapazes nas mesmas escolas. Só a partir do século XVI é que apareceu a ideia segundo a qual as raparigas não tinham necessidade de saber ler nem escrever. Foi também no século XVI que reapareceu a escravatura, após ter sido abolida no século V." in "TEMPLÁRIOS, Vol. 3 - A Perseguição e a Política de Sigilo de Portugal: a Missão Marítima", Eduardo Amarante

"A sociedade portuguesa avançou um novo passo para a abjecção." - Vasco Pulido Valente


Vasco Pulido Valente considera que "A sociedade portuguesa avançou um novo passo para a abjecção."

«Nunca pensei em ser polícia. Agora, o governo quer fazer de mim um polícia (ainda por cima à paisana) e também um denunciante.
O processo não é complicado. Quem pedir sempre a factura a quem lhe vende um café, um bife ou um casaco, chega ao fim do ano com um molho de bilhetes de lotaria para o sorteio de um carro “topo de gama”, que o governo oferece ao “bom cidadão”. Isto permite ao ministério das Finanças comparar o volume de negócios declarado de qualquer restaurante ou de qualquer loja com a documentação que lhe entregou a classe média à procura de um Audi ou de um Mercedes, que a faça brilhar na vizinhança e espicace a sempre viva inveja da família e amigos. Para animar as coisas, que, segundo consta, não andam bem, o Estado obriga toda a gente a pedir factura.
Como se compreenderá, o Estado transforma assim com habilidade e subtileza os portugueses numa corporação de espionagem encarregada de se espiar a si mesma, sem gastar mais do que um carro apreendido a um criminoso ou contrabandista. Vivendo perto da falência, o comércio e a restauração tendem a subtrair uma factura ou outra à tosquia fiscal a que estão submetidos. Esta prática irrita os peritos que aconselharam ao sr. primeiro-ministro este método democrático. A Espanha acha o estratagema “pitoresco”. Por mim, que não sou a Espanha, acho a ideia tenebrosa: vexatória, indigna, irresponsável, excessivamente parecida com episódios conhecidos da Ditadura e dos regimes que ela imitava e venerava. E, no fim do ano, gostava de ver a cara do meu compatriota que ganhou esse glorioso concurso.
Estou daqui a imaginar a cena. O indivíduo gordo e triunfante que atrapalhou a vida a centenas de pessoas, que tinham cometido o erro de confiar nele. O sr. Passos Coelho, seguido da sua trupe e da sua inconsciência. O automóvel cintilando ao longe. O premiado começará por apertar a mão a S. Exa. com uma grande vénia. E, a seguir, S. Exa. retribuirá com um pequeno discurso sobre as vantagens da coesão social, do enorme esforço que se espera do conjunto da Pátria e dos milhões que a operação angariou para os pobrezinhos, que ele particularmente estima. Um secretário entregará a chave do carro ao polícia e denunciante do ano e essa virtuosa personagem tornará a apertar com respeito a mão do sr. Passos. A sociedade portuguesa avançou um novo passo para a abjecção."»

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

JUDEUS ILUSTRES DE PORTUGAL - de Miriam Assor - Recomendado

Miriam Assor, a ser, finalmente, premiada pelo excelente trabalho de investigação que tem vindo a fazer em prol de uma causa que defendo fervorosamente: o reconhecimento do trabalho e do empenho dos judeus na história de Portugal. Sobre o patriotismo dos portugueses judeus, note-se que está interiorizado na mente dos historiadores portugueses, na sua grande maioria de formação católica, a ideia que só os católicos são verdadeiramente portugueses. Os que professam outras religiões são simplesmente tratados como judeus ou protestantes. O objectivo não confessado é exclui-los do grupo dos portugueses. A verdade é que história destes excluídos está repleta impressionantes exemplos de amor à pátria, mesmo depois de terem dela sido obrigados a fugir. 
A expansão portuguesa desde o inicio (1415), contou com inúmeros judeos que deram a sua vida ao serviço deta causa nacional. Mestre Abraão Negro, rabi-mor de D. Afonso V, por exemplo, morreu na conquista de Arzila (1471), onde compareceu com os seus servidores, a cavalo. No período de ocupação de Portugal pela Espanha, entre 1580 e 1640, os exemplos foram multiplos. No país aparecem à frente de muitas revoltas contra os espanhóis. Entre 1540 e 1821 a Inquisição portuguesa, em todos os seus tribunais, instaurou 44.817 processos, executou 2.064 pessoas, das quais 600 foram em esfinge (estátua). Cerca de mil dos mortos foram acusados de judaísmo. Portugal foi até final do século XVIII, conhecido como uma nação de judeus, tal era o grau de "impureza" do sangue dos seus habitantes, ainda que fossem maioritariamente católicos... Na Idade Média, em Portugal, a conversão era suficiente para passar do judaísmo para o cristianismo. A miscigenação era intensa. Duas leis portuguesas datadas de 1211 referem o assunto: Uma proíbe ao pai judeu que deserde o filho que se fez cristão. A outra proibe a conversão temporária, para evitar conversões oportunistas.  No final do século XV e principios do XVI são frequentes os casamentos de fidalgos com ricas herdeiras judias. O regimento dos Ofícios Mecânicos de Lisboa, datado de 1572, estabelecia que a metade dos eleitores deveriam ser descendentes de judeus. Em 1647, quase todas as dignidades da Sé de Lisboa eram descendentes de judeus. No estrangeiro, muitos portugueses católicos, para não serem identificados como judeus escondiam a sua nacionalidade.  Ao longo de séculos, podemos observar a um constante cruzamento entre judeus e católicos, o que levou que ambos comunguem do mesmo património genético em Portugal. Inúmeros judeus converteram-se ao cristianismo, mas o contrário também aconteceu com bastante frequência, cristãos que se convertiam ao judaísmo. Um exemplo: Um frade pregador, irmão do célebre Simão Dias Solis, impressionado pela forma como o mesmo fora julgado e morto, renunciou ao catolicismo, refugiou-se na Holanda, tendo-se convertido ao judaísmo, adoptando o nome de Eleazar de Solis. 
Um estudo internacional sobre o património genético da população portuguesa, corroborou aquilo que os historiadores à muito sabiam: Ainda hoje 37% tem material genético de antigos judeus da Palestina. A acreditar nos resultados deste estudo, temos que concluir que existem mais "judeus" (biológicos) em Portugal do que em Israel !, muitos dos quais aliás são de origem lusa... Pensem nisto!

Respeitável Loja Eclipse - Aprimorar o Trabalho Iniciático


Partilho um artigo extraído da "initiatio – invenies occultum lapidae Ora et Labora | Solve et Coagula" para melhor compreensão do estatuto das Lojas Livres e Soberanas e das preocupações que estão na base da criação da Respeitável Loja Eclipse: a exclusividade do trabalho maçónico em Loja (desprezando qualquer outro logístico ou operacional do foro profano). 
"Se tivéssemos de definir o que é a Maçonaria, diríamos que é, acima de tudo e primeiramente, uma Ordem iniciática; adogmática sempre que possível, o que não quer dizer que não tenha dogmas, porque os tem; adoutrinária, uma vez que a sua doutrina, se é que se pode dizer que existe, foi construída por maçons diversos, e não directamente no seu seio; tradicional, isto é, que se insere num modelo organizacional de longa tradição; e, finalmente, que se baseia no ritual e em símbolos para a persecução do seu objectivo, objectivo esse que, por se tratar de uma Ordem iniciática, só pode ser a Iniciação de cada um dos seus membros, para que, individualmente ou em conjunto, possam ser elementos de grande valor (ou pelo menos de valor acrescido) no mundo profano.
Como já pudemos escrever anteriormente, à volta deste objectivo primevo, gravitam um sem número de consequências do trabalho maçónico individual e/ou conjunto, mas que não podem ser consideradas como objectivos da maçonaria, ainda que algumas dessas consequências devam estar presentes, sem excepção possível, posto que sem elas dificilmente se poderá dizer que se está a fazer, ou a praticar, Maçonaria. São elas, por exemplo, a Solidariedade e a Fraternidade, entre outras, mas que são, como dissemos e voltamos a reafirmar, consequências do trabalho maçónico, e não o seu objectivo. Em todo o caso, é bom que se reforce esta ideia de que, se ao se praticar Maçonaria não surgirem naturalmente a Solidariedade e a Fraternidade, é porque não se está a fazer Maçonaria. No entanto, o inverso não se aplica, isto é, ao praticar-se a Solidariedade ou a Fraternidade não se está, ipso facto, a fazer-se Maçonaria. Seria bom, também, que se entendesse isto, para que se deixe de dizer, por exemplo, aquele chavão idiota: fulano de tal, mesmo que não tivesse entrado na Maçonaria, já era maçon… Ser-se maçon não é ter-se a exclusividade da solidariedade ou da bondade ou de outras boas qualidades. Sobre isto escreveremos um dia, ainda que já tenhamos chegado perto do que queremos dizer, aqui.
Para além disso, a Maçonaria, ao contrário do que dizem aqueles que a vêem (à Maçonaria) em tudo o que é sítio, é algo muitíssimo específico, pelo que para a sua prática têm de estar reunidos diversos requisitos, como sejam, de entre outros, a reunião em Loja, com um ritual específico, e o uso de uma indumentária particular.
Depois, estando estas circunstâncias reunidas, é preciso pensar-se naquilo que se irá fazer nesses preparos, que muitos consideram totalmente desadequados e/ou anacrónicos. Será que fazem sentido todas estas “extravagâncias” para se falar sobre algo que se pode discutir à mesa do café, ou numa sala de conferências (durante uma conferência, entenda-se), ou, até, no sossego de uma sala de estar, rodeado dos mais próximos amigos? Parece-nos que a resposta a esta pergunta será, tendencialmente, um não redondo – apesar de acharmos que a sala de estar, em reunião com os mais próximos amigos, se trata de um cenário extremamente atraente.
Assim, baseados no que pudemos expor acima, parece-nos que a escolha dos temas a serem debatidos em sessão maçónica deve ser absolutamente criteriosa; temas essencialmente de índole maçónica, mas também outros, cuja a análise pode ser beneficiada pela “claridade da Luz Maçónica”. Este universo de temas, parece-nos, está longe de ser limitado, não só pela extensíssima simbólica que a Maçonaria oferece, como também pela tal claridade que beneficiará a análise de outros temas, que normal e naturalmente associamos à Maçonaria.
Acrescentamos, em todo o caso e sem pudor, que terá de haver limites (relativamente) bem definidos para a escolha dos temas – escolha essa que já a dissemos absolutamente criteriosa; limites que terão de ir mais além do que aqueles que estão já definidos ab origine, pela existência dos vários graus no percurso maçónico, e pelos símbolos que a cada um correspondem; limites que terão de ir mais além do que aqueles que se encontram nos Landmarks e Constituições, por exemplo; limites, diríamos, de extrema importância para que não se corra o risco de, ao julgar-se que se está a “fazer Maçonaria”, se esteja, de facto, a fazer-se outra coisa qualquer…
Se nos permitirem, procuraremos dissecar um pouco mais esta ideia, trazendo a lume ou chamando a atenção para a diferença – nem sempre notada, mas que é insofismável – que existe entre uma associação profana, tutelar, e responsável pela gestão de património material e de tudo o que a isso é inerente, e a organização maçónica que operará no seu seio. Ainda que em muitos casos, muitos as confundam, não são a mesma coisa, nem podem ser, pois são de naturezas diferentes.
Uma, é uma associação profana, cujas preocupações só podem ser desse nível (profano) e a outra, que se aproveita (no bom sentido) da estrutura que esta gere, é de natureza simbólica, iniciática e espiritual, e serão essas, naturalmente, as suas preocupações. Temos dúvidas de que sejam indissociáveis essas duas associações. Parece-nos que, por princípio, até o podem ser: uma organização maçónica pode perfeitamente existir per si, sem que qualquer organização profana a tutele. Mas não é a isto que se assiste no panorama maçónico nacional, grosso modo.
Assim, normalmente assiste-se à existência da referida associação profana, à qual, por inerência de se haver adentrado a organização maçónica por esta tutelada, todos pertencem. No entanto, esta última terá, no nosso entender, e parece-nos que isto é pacífico, precedência sobre aquela. Ou seja, pressupõe-se que será mais importante, para o maçon, a organização maçónica e, em particular, a sua Loja, do que propriamente a associação profana que a rege. Sobre essa, sabe-se que, como qualquer outra associação profana, precisará de ter um número de pessoas disponíveis para preencher alguns cargos de responsabilidade, e sabe-se, até, que algumas dessas pessoas nem têm necessariamente de ser maçons, tal como aquelas que trabalham nas Secretarias, por exemplo.
Assim, não será disparatado supor que, para muitos maçons, ou pelo menos para alguns, aquilo que se passa com a associação profana tenha pouca importância, ou nenhuma, desde que o trabalho realizado por essa associação seja bem feito e que contribua para a manutenção dos espaços e demais circunstâncias necessárias às reuniões maçónicas. Supor o contrário, isto é, supor que todos estarão ou terão de estar interessados nessa gestão profana, é que nos parece uma suposição errada e mesmo abusiva.
No entanto, aquilo que nos foi dado a presenciar e a conhecer – haverá excepções, naturalmente – foi o triste espectáculo de ver confundidas, pelos seus membros, estas duas associações ou organizações distintas. Esta confusão dá assim lugar a que sejam discutidos, em sessão maçónica, assuntos que se referem, em exclusivo, à associação profana, que por serem dessa natureza (profana), não podem, sob pena de se deixar de estar a “fazer Maçonaria”, ter lugar dentro de um templo Maçónico; isto devido, também, mas não só, à incompatibilidade técnica que já pudemos anteriormente assinalar. Esta discussão de temas relacionados com a associação profana não está, entenda-se, posta em causa. Como é óbvio, deve e tem mesmo de ser feita, mas em ambiente, ou de forma totalmente diferente, defendemos nós. Esta defesa é alicerçada, não só por tudo o que pudemos expor acima, mas também por uma razão de eficácia que, no nosso entender, fica sobejamente comprometida pela discussão de tais temas em sessão maçónica.
Assim, gostaríamos de propor, a bem da Ordem Maçónica em geral – se nos for permitida tal arrogância, mas essencialmente como conclusão deste texto –, que fosse avaliada ou considerada a ideia de que o debate de “assuntos administrativos” pudesse passar a ser feito fora das sessões, e por pessoas das Lojas que sejam, ora nomeados e eleitos para tal, ou que para isso se predisponham. Estamos certos que facilmente se constitui este grupo de entre os membros de uma Loja, que merecerá a total confiança dos restantes, para que possa tomar as decisões indispensáveis ao bom funcionamento das oficinas e, por extensão, da Obediência.
As sessões maçónicas, essas, ficariam em exclusivo, para a prática daquilo que todos concordaram, por princípio, ir fazer, e que é, claro está, Maçonaria." Subscrevo, AM