sábado, 28 de dezembro de 2013

Todos erramos ....mas o que interessa é o Amor.

Magnífico artigo do José Luís Nunes Martins, no I
- Todos erramos
"Apontamos quase sempre o dedo a quem erra... Condenamos os outros com enorme facilidade. Compreendemo-los pouco, perdoamo-los ainda menos
Apontamos quase sempre o dedo a quem erra... Condenamos os outros com enorme facilidade. Compreendemo-los pouco, perdoamo-los ainda menos. Mas, será que atirar pedras é o mais justo, eficaz e melhor?
Temos uma necessidade quase primária de julgar o comportamento alheio, de o analisar e avaliar ao mais ínfimo detalhe, sempre de um ponto de vista superior, como se o sentido da nossa existência, a nossa missão, passasse por sentenciar todos quantos cruzam a sua vida com a nossa... condenando-os... na firme convicção de que assim estamos a ajudar... a melhorar.
Comete erro em cima de erro quem se dedica a julgar os erros dos outros....
Julgamos de forma absoluta, na maior parte das vezes, generalizando um gesto ou dois, achando que cada pequena ação revela tudo quanto há a saber sobre determinada pessoa... mais, achamos que cada homem ou é bom ou é mau... como se não fossemos todos... de carne e osso... de luz e sombras.
Já a nós não nos julgamos nem nos deixamos julgar. Consideramos que, no caso específico da nossa vida, são tantos os factores que têm de se levar em conta (quase todos atenuantes) que se torna impossível qualquer tipo de veredicto... optando, assim, por uma espécie de arquivamento dos processos dada a complexidade das questões. Reconhecemo-nos incapazes de ponderar tudo... mas se em nós não conseguimos avaliar o erro, por que razão estamos tão à vontade quando se trata do dos outros?
É curioso, e uma prova da inteligência comum, que partindo da verdade universal de que todos erramos, nos sirva mais isso para nos desculparmos a nós mesmos do que aos outros...  afinal, nós não somos superiores àqueles que passamos a vida a condenar. Por isso, devíamos ser capazes de os desculpar tanto quanto o fazemos a nós próprios. Mais, pode acontecer que alguém tropece, depois de nós, numa pedra que nós não atirámos para fora do caminho...
Quem erra, faz-se vagabundo. Vai contra a sua vontade mais profunda, afasta-se da verdade. Erramos de cada vez que nos deixamos levar pela tentação das paixões momentâneas, pelos juízos precipitados e levianos... sempre que nos deixamos seduzir pelas falsas e brilhantes luzes das aparências... ao errar afastamo-nos de nós mesmos, perdemo-nos... em vazios.
Acreditamos que as nossas sentenças revelam, através do nosso sempre muito afiado sentido de justiça, a superioridade moral de uma vida acima do comum... quando afinal tal consideração apenas nos afasta, ainda mais, da verdade de nós mesmos.
Numa vida acabada é sempre mais fácil dar sentido ao erro... Mas, no dia-a-dia desta nossa existência a fazer-se, quem comete o maior erro: o que não tenta para não errar ou o que erra tentando acertar?
Precisaremos sempre de quem nos anima a corrigirmo-nos, não de quem nos reprova e só sabe magoar...
Não somos seres perfeitos a quem o erro degrada, mas antes seres imperfeitos a quem o erro pode ensinar.
Errando, posso ter noção do que sou, de onde estou e do caminho que devo fazer.
Na desorientação geral do nosso tempo, há algo que se pode (e deve) fazer: ir ao encontro de quem falha e aceitá-lo como igual. Construindo um caminho conjunto, longe dos julgamentos... para mais perto da perfeição.
O mais justo, eficaz e melhor será mesmo compreender e perdoar, pois quem erra, engana-se. A si mesmo. E isso, na maior parte dos casos, já é pena suficiente.
Nunca faltará quem nos julgue... mas muito mais valioso será quem, com humildade, nos aceite... quem nos ame, apesar de tudo."

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Pedro Passos Coelho - Sua Excelência, o princípe Maquiavel!



Marques Mendes vaticinou e aí está a sua "solução", eleita a Plano B, do Gov. O Conselho de Ministros começou ontem a discutir o problema, sem ter chegado a uma solução final. Como responder ao chumbo do TC que travou o corte das pensões na Administração Pública? Eis o que divide o Gov. E a tese com mais adeptos é a lançada por Marques Mendes: aplicar uma solução “mista”, aumentar já o IVA, medida que seria anulada quando e se um novo corte nas pensões (as do sector público e as do privado) entrasse em vigor. Passos Coelho lançou mãos à cabeça quando soube do chumbo do TC. Mas quando falou com Poiares Maduro ao telefone (o PM estava em Bruxelas), depois de uns tantos diazepam, lá estabilizou num relativo optimismo - se bem que uns Haldol ou Priadel pudessem ter efeitos a médio prazo mais sustentados, mas disso qualquer psiquiatra lhe passará receita. Quando falou aos jornalistas, na sexta-feira, Passos pôs os ovos todos no mesmo cesto (qual galarucho de uma capoeira em processo de cozedura lenta): voltar ao corte nas pensões a pagamento - todas elas -, aproveitando a “porta aberta” que lhe entreabriu o acórdão do TC para uma reforma da Segurança Social. Soluções maquiavélicas. 
Falo de populismo blindado e de Maquiavel. Eis Passos Perdido feito “maquiavélico”. Até aqui aplica a famosa frase: “Na conduta dos homens, especialmente dos príncipes, contra a qual não há recurso, os fins justificam os meios.” “Contra a qual não há recurso”, isso significa que teremos que aceitar resignados as arbitrariedades do príncipe e os meios que sua alteza julgar apropriados para nos governar. É imperioso que a sociedade interponha recursos contra o príncipe. A política portuguesa está reduzida a um absolutismo plebiscitário. O aforismo positivista de que “contra fatos não há argumentos.”está em causa. Tem de estar. Uma política baseada em soluções de vingança e revestida com silêncios premiados ao jeito do "padrinho" não pode ser aceite, sob pena de nos venderem numa qualquer feira da Ladra (apropriadissimo adjetivo para o caso). 

Se o País está em em regime de exceção, Acordem! Encontrar soluções que aproveitem minusculos trilhos da lei para conspirar contra a é um golpe de estado palaciano feito pelo governo contra o País. Que a fogueira se eleve ao status do incêndio maior em que já vivemos. Perdemos tudo, que nos reste a alma e o sangue dos filhos de Viriato. 
O pragmatismo pode funcionar para as alianças e conluios com que o bloco central pretende armadilhar as nossas vidas, como se fôssemos marionetas ou pierrot's agachados ante o malfadado voto. 
O ténue consolo vem do futuro. À revelia do poder, a opinião pública vai assimilando com suor e lágrimas, e é com toda essa humidade que a corrosão da blindagem virá antes do que se pensa.
Contra maquiavéis, ainda que de segunda, marchar, marchar!

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

"Ó! Grande Arquiteto do Universo ..."

"Ó! Grande Arquiteto do Universo, cuja luz se traduz no esplendor do sol e cuja energia produz vida em todos os seres, irradia-me com a tua chama sagrada. Arrojo-me a participar dos teus mistérios, porém necessito da tua força, preciso da tua beleza. Desperta-me para a vida, para que eu saia da zona de sombra. Estende o meu olhar para que eu possa ver a luz do saber, da mesma forma que meus olhos contemplam o purpúreo do pôr-do-sol. Faze-me sábio, assim poderei compreender melhor os mistérios que ensinaste aos meus Irmãos. Prudente, serei capaz de contribuir com a realização do todo. Anseio pelo saber, não para seguir as pegadas dos Mestres, mas para procurar o que eles procuraram. Faze-me forte para que eu possa, com as próprias mãos, desbastar minha “Pedra Bruta” e cavar masmorras ao vício, e com arrojo. E coragem ingressar na senda da virtude. Busco a tua força, não para superar os meus Irmãos, mas para estar apto a lutar contra o maior dos meus inimigos – eu mesmo. Faze-me belo, para que eu seja a mudança que tu desejas ver no mundo, enche o meu coração de Luz e de poesia, assim poderei embelezar as minhas ações e ungir o meu espírito com a essência do amor fraterno. Aspiro a tua forma, não pela virtude dos gestos, mas para que eu possa revelar o meu Mestre Interior. Faze-me justo e perfeito para que eu chegue a ti com a mente clara, as mãos limpas e o olhar sincero. E quando a chama da vida em meu corpo se apagar, como se apaga o sol ao final de cada dia, possa o meu espírito olhar para ti, sem qualquer mácula ou vergonha. Assim seja!" Interpretação e livre adaptação do autor da obra “O Desbastar da Pedra Bruta” – António Augusto Queiroz Baptista a uma oração de origem Xamã.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Anselmo Borges: "Natal: a História no seu reverso"!

Anselmo Borges: "Natal: a História no seu reverso", Texto de Anselmo Borges no DN de 21.Dez: "Há um testemunho de Kant que diz bem da sua grandeza de filósofo e de homem. Poucos dias antes de morrer - 12 de Fevereiro de 1804 -, confiou a amigos: "Senhores, eu não temo a morte, eu saberei morrer. Asseguro-vos perante Deus que, se sentisse que esta noite iria morrer, levantaria as mãos juntas e diria: Deus seja louvado! Mas, se um demónio mau se colocasse diante de mim e me insinuasse ao ouvido: Tu tornaste um homem infeliz, ah! então seria outra coisa."
Afinal, o que é mais importante e decisivo não é a dignidade de todos e a sua felicidade? Não é devido ao seu combate ímpar pela liberdade e dignificação de todos que o mundo se inclina unânime, com respeito, perante a memória de Mandela?Este é também o segredo do Papa Francisco: renovar a Igreja, evangelizá-la, para ela poder, por palavras e obras, evangelizar o mundo: levar a todos a notícia boa e felicitante do Deus de Jesus Cristo. O seu programa de pontificado, na exortação "A Alegria do Evangelho", de que aqui já dei conta, é simplesmente este: o Evangelho. Para isso, há um método, um caminho, uma luz: ler o mundo a partir de baixo, dos pobres, dos excluídos, e agir em consequência, isto é, colocando-se no seu lugar e, a partir desse lugar, que é o lugar de Deus, cumprir a sua missão. Para que todos possam realizar a dignidade de homens e mulheres e alcançar a alegria e a felicidade, para lá do consumismo e materialismo reinantes: "Deus quer a felicidade dos Seus filhos também nesta Terra, embora estejam chamados à plenitude eterna", escreve Francisco. Normalmente, a História é lida a partir dos vencedores, mas a missão da Igreja é lê-la e ensinar a lê-la a partir das vítimas, dos perdedores. Uma revolução das consciências, que, em termos cristãos, se chama conversão, metanóia, mudança de mentalidade e de horizonte.
Então, o centro não é a Igreja nem os dogmas nem as leis, mas Cristo, o Evangelho e as pessoas. "Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não se ouve a voz de Deus, já não se goza da doce alegria do Seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem. Este é um risco, certo e permanente, que correm também os crentes". "Uma fé autêntica - que nunca é cómoda nem individualista - comporta sempre um profundo desejo de mudar o mundo, transmitir valores, deixar a terra um pouco melhor depois da nossa passagem por ela."
A Igreja tem de avançar sem medo. Francisco repete: "Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas fora a uma Igreja doente pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos. Mais do que o temor de falhar, espero que nos mova o medo de nos encerrarmos nas estruturas que nos dão uma falsa protecção, nas normas que nos transformam em juízes implacáveis, nos hábitos em que nos sentimos tranquilos, enquanto lá fora há uma multidão faminta", "sem uma comunidade de fé que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida".
Afinal, os preceitos dados por Cristo "são pouquíssimos". E Francisco tem um sonho: "Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo actual do que à sua autopreservação." Para isso, Francisco convoca todos para uma reforma, a começar pelo papado: "Uma corajosa reforma, que toque tanto o espírito como as estruturas." Se se não quiser ficar só com uma parte minúscula da História - a História dos triunfadores -, é preciso recuperá-la e reconstruí-la na sua maioria: os escravos, os colonizados, as mulheres, os velhos, as crianças, os mortos, os drogados, os humilhados, todas as periferias. Isso: o reverso da História, a História recuperada no seu reverso. Para haver Natal de e da humanidade, como anunciaram os anjos aos pastores pela noite dentro: "Não temais, anuncio-vos uma grande alegria, que será a de todo o povo: nasceu-vos um Salvador". Natal feliz!"

Jesus não faz anos dia 25 - Bento Domingues

"1. Não há ano zero. Sabemos que, sob o Império Romano, o tempo era contado a partir da fundação de Roma. Quando, no séc. VI d.C., a Igreja romana decidiu contar os anos a partir do nascimento de Jesus Cristo, deparou com um problema. A festa já era celebrada no dia 25 de Dezembro. Ficou determinado que o ano I começaria no 1º de Janeiro seguinte, que corresponderia ao ano 754 da fundação de Roma. O ano anterior (753) foi designado o ano I a.C.. Resultado: passamos do – 1 para o +1. Os cristãos começaram a celebrar a Páscoa muito cedo, mas só encontramos referências ao Natal a partir do ano 354. Ao escolher celebrar a festa do Natal a 25 de Dezembro estava-se, de facto, a cristianizar a festa pagã do Sol invictus, que marca o renascer do sol, depois do solstício de Inverno. Bela inculturação.
Para Jesus, como para qualquer ser humano da Antiguidade, excepto príncipes e alta linhagem, é ignorada a data exacta do nascimento. Há uma hipótese em 365 de que tenha sido a 25. Quanto ao ano, estamos um pouco melhor, pois sabemos que Jesus nasceu nos últimos tempos de Herodes, o Grande (1), que morreu em 750 da fundação de Roma, o que corresponde a menos 4 do calendário actual. No séc. VI, um monge, um certo Dionísio, o Pequeno, ao fazer o cálculo enganou-se em cerca de quatro anos, mas as contas não foram alteradas. Daí que o nascimento de Jesus, calculado segundo a numeração actual, deve ser situado aproximadamente, cinco ou seis anos antes. Não há qualquer indicação acerca do mês.
Valerá a pena toda essa contabilidade? Serve, pelo menos, para não deixar que a figura de Jesus resvale para o puro mito, como diziam alguns autores dos séculos XVIII e XIX. É imensa a literatura em torno da problemática do Cristo da fé e do Jesus da história. Jesus não deixou nada escrito e não sabemos o que os seus discípulos contaram.
2. Deixando de lado todo o conjunto de textos apócrifos, temos quatro narrativas do Evangelho consagradas no cânone: Marcos, Mateus, Lucas e João, com muito em comum, mas também com diferenças. Marcos pretende mostrar que Jesus é Filho de Deus. A preocupação de Mateus é situar Jesus Cristo na linha dos descendentes de David, como membro da casa de Abraão, numa perspectiva de cumprimento da esperança messiânica de Israel. Lucas, como ele próprio diz, conhece os trabalhos realizados por outros narradores, mas a sua intenção é de ir mais ao fundo. Sente necessidade de tudo investigar desde a origem para garantir ao amigo Teófilo a certeza da sua fé. Para a narrativa de João, escrita 40 a 50 anos depois da de Marcos, a partir de uma comunidade composta de cristãos vindos do judaísmo e do paganismo, Jesus é a luz do mundo.
Há quem diga que, de Jesus, só temos interpretações. É claro que os evangelistas não procuraram fazer a sua biografia, segundo os critérios actuais da elaboração histórica. Interessava-lhes a significação da presença de Jesus Ressuscitado nas comunidades, mediante a criatividade do seu espírito que procura fazer novas todas as coisas. Não podem, no entanto, apagar alguns dados históricos. Jesus nasceu por volta do ano 4 a.C.. Viveu, em Nazaré, a sua vida de infância e de adulto, mais ou menos, até aos 27 anos. Durante algum tempo foi discípulo de João Baptista. A partir de determinada altura, seguiu o seu próprio caminho, de taumaturgo e pregador peripatético, à maneira de alguns filósofos. As suas posições nem sempre coincidiam com as dos fariseus, saduceus, essénios, baptistas, herodianos e zelotas. Com a pregação do Reino de Deus desencadeou um movimento popular político-religioso que cedo chegou aos ouvidos dos sacerdotes e saduceus, levantando suspeitas e interrogações no Sinédrio.
Jesus ter-se-á rodeado de 12 homens – número simbólico - que se tornaram seus discípulos e admiradores, só que nem sempre o compreendiam. Por volta dos 30 anos fez uma viagem a Jerusalém para celebrar a Páscoa. A sua pregação e acção profética no Templo suscitam complicações religiosas e políticas. Celebra uma ceia pascal de despedida com os discípulos. É preso e julgado pelo Sinédrio como blasfemo, com sentença de pena de morte. Entregue ao governador romano da Judeia, Pôncio Pilatos, é condenado à morte por crucifixão. O papel das mulheres discípulas tem de ter sido muito relevante, pois as narrativas masculinas não as conseguiram ocultar.
3. Segundo os textos do Novo Testamento, houve muita competição entre os discípulos e interpretações diversas do papel de Jesus, na história humana. Provocou cristologias muito arriscadas, segundo os contextos religiosos e culturais. Ninguém se apresentou como seu concorrente ou para o substituir. Tudo o que ficou escrito é sempre a respeito de Jesus, o Cristo, que será nosso contemporâneo até ao fim dos tempos. Cada pessoa e cada geração poderão perguntar-se: que tem ele a ver comigo, que tenho eu a ver com ele? O Evangelho ainda não está todo escrito. Está a acontecer. O encontro marcado com o Senhor da história depende do encontro com as vítimas da história. Ele não vive só no céu e no sacrário. É o clandestino que vive em todos os que aceitam a sua companhia.
1) Mt 2, 1; Lc 1, 5" (Bento Domingues)

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O último abraço que me dás (de António Lobo Antunes para Luís Costa)


"Ali, na sala de quimioterapia, jamais escutei um gemido, jamais vi uma lágrima. Somente feições sérias, de uma seriedade que não topei em mais parte alguma, rostos com o mundo inteiro em cada prega, traços esculpidos a fogo na pele
O lugar onde, até hoje, senti mais orgulho em ser pessoa foi o Serviço de Oncologia do Hospital de Santa Maria, onde a elegância dos doentes os transforma em reis. Numa das últimas vezes que lá fui encontrei um homem que conheço há muitos anos. Estava tão magro que demorei a perceber quem era. Disse-me - Abrace-me porque é o último abraço que me dá, durante o abraço - Tenho muita pena de não acabar a tese de doutoramento e, ao afastarmo-nos, sorriu. Nunca vi um sorriso com tanta dor entre parêntesis, nunca imaginei que fosse tão bonito.
Com o meu corpo contra o dele veio-me à cabeça, instantâneo, o fragmento de um poema do meu amigo Alexandre O'Neill, que diz que apenas entre os homens, e por eles, vale a pena viver. E descobri-me cheio de respeito e amor. Um rapaz, de cerca de vinte anos, que fazia quimioterapia ao pé de mim, numa determinação tranquila: - Estou aqui para lutar e, por estranho que pareça, havia alegria em cada gesto seu. Achei nele o medo também, mais do que o medo, o terror e, ao mesmo tempo que o terror, a coragem e a esperança.
A extraordinária delicadeza e atenção dos médicos, dos enfermeiros, comoveu-me. Tropecei no desespero, no malestar físico, na presença da morte, na surpresa da dor, na horrível solidão da proximidade do fim, que se me afigura de uma injustiça intolerável. Não fomos feitos para isto, fomos feitos para a vida. O cabelo cresce-me de novo, acho-me, fisicamente, como antes, estou a acabar o livro e o meu pensamento desvia-se constantemente para a voz de um homem no meu ouvido - Acabar a tese de doutoramento, acabar a tese de doutoramento, acabar a tese de doutoramento - porque não aceito a aceitação, porque não aceito a crueldade, porque não aceito que destruam companheiros. A rapariga com a peruca no braço da cadeira. O senhor que não olhava para ninguém, olhava para o vazio. Ali, na sala de quimioterapia, jamais escutei um gemido, jamais vi uma lágrima. Somente feições sérias, de uma seriedade que não topei em mais parte alguma, rostos com o mundo inteiro em cada prega, traços esculpidos a fogo na pele. Vi morrer gente quando era médico, vi morrer gente na guerra, e continuo sem compreender. Isso eu sei que não compreenderei. Que me espanta. Que me faz zangar. Abrace-me porque é o último abraço que me dá: é uma frase que se entenda, esta? Morreu há muito pouco tempo. Foda-se. Perdoem esta palavra mas é a única que me sai. Foda-se. Quando eu era pequeno ninguém morria. Porque carga de água se morre agora, pelo simples facto de eu ter crescido? Morra um homem fique fama, declaravam os contrabandistas da raia. Se tivermos sorte alguém se lembrará de nós com saudade. De mim ficarão os livros. E depois? Tolstoi, no seu diário: sou o melhor; e depois? E depois nada porque a fama é nada.
O que é muito mais do que nada são estas criaturas feridas, a recordação profundamente lancinante de uma peruca de mulher num braço de cadeira. Se eu estivesse ali sozinho, sem ninguém a ver-me, acariciava uma daquelas madeixas horas sem fim. No termo das sessões de quimioterapia as pessoas vão-se embora. Ao desaparecerem na porta penso: o que farão agora? E apetece-me ir com eles, impedir que lhes façam mal: - Abrace-me porque talvez não seja o último abraço que me dá.
Ao M. foi. E pode afigurar-se estranho mas ainda o trago na pele. Durante quanto tempo vou ficar com ele tatuado? O lugar onde, até hoje, senti mais orgulho em ser pessoa foi o Serviço de Oncologia do Hospital de Santa Maria onde a dignidade dos escravos da doença os transforma em gigantes, onde só existem, nas palavras do Luís, Heróis.
Onde só existem Heróis. Não estou doente agora. Não sei se voltarei a estar. Se voltar a estar, embora não chegue aos calcanhares de herói algum, espero comportar-me como um homem. Oxalá o consiga. Como escreveu Torga o destino destina mas o resto é comigo. E é. Muito boa tarde a todos e as melhoras: é assim que se despedem no Serviço de Oncologia. Muito boa tarde a todos e até já, mesmo que seja o último abraço que damos."

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

O Homem, a Vida e a inevitabilidade da Morte

Alguns amigos suscitaram-me uma reflexão especial que aqui vos deixo. Sobre a vida e a morte. 
Quem não experimentou já a doce tentação de procurar outra vida na morte? Feitos à imagem de Deus, segundo o conceito do Génesis, o direito à felicidade surge como uma emanação desse Deus de amor joanino. Porque hei-de não ter tudo nesta vida se a outra me trará a plenitude que desejo? "O que está preparado para morrer não receia a morte, qualquer que seja, ainda que venha de improviso". (Sto Agostinho)
Por outro lado, a antevisão (ou diria mesmo, a experimentação) da morte pode fazer com que mudemos a nossa vida, como que iniciaticamente, encetando novas atitudes e comportamentos, porque,  a final, ante a visão da morte percebemos o valor inexcedível da vida, tal como a conhecemos e concebemos. “Imaginai que estais vendo uma pessoa que acaba de exalar o último suspiro; considerai esse cadáver deitado ainda no leito, com a cabeça pendida sobre o peito, os cabelos em desalinho banhados ainda nos suores da morte, os olhos encovados, as faces descarnadas, o rosto acinzentado, a língua e os lábios cor de ferro... o corpo frio e pesado. Empalidece e treme quem quer que o vê. Quantas pessoas, à vista de um parente ou de um amigo morto, não mudaram de vida e não deixaram o mundo! (Santo Afonso Maria Ligório)
E que espécie de vida (a havê-la) encontraremos do outro lado? São Francisco de Assis disse: “Louvado sejas, meu Senhor, Por nossa irmã a Morte corporal, Da qual homem algum pode escapar. Ai dos que morrerem em pecado mortal! Felizes os que ela achar Conformes à tua santíssima vontade, Porque a morte segunda não lhes fará mal! Louvai e bendizei ao meu Senhor, E dai-lhe graças, E servi-o com grande humildade.” A que "morte segunda" se refere e porque é que esta não nos fará mal? 
Sartre tentou perceber n'“A Náusea”, a própria existência como um absurdo porque, embora se tenha projetos, sonhos e aspirações, temos também essa consciência da morte, então porque se há-de procurar tão avidamente atingir essa felicidade se um dia deixarei de existir? A existência não tem razões, nem explicações, ela não se justifica por si mesma. Para Sartre, foi o homem que criou Deus e, por isso, já que nele o homem concebe o absoluto, a sua natureza jamais O alcançará. A existência não seria a necessidade de estar vivo mas a de simplesmente estar presente.
E eis a questão: “Sobrevivemos à morte?”
“Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor." Romanos 6:23. Que vida eterna é essa? A de uma existência desmaterializada mas, ainda assim, vivenciada? Seja qual for a resposta a que cheguemos, e lembrando Mandela, diria que: “A morte é inevitável. Quando um homem fez o que considera seu dever para com seu povo e seu país, pode descansar em paz. Acredito ter feito esse esforço, e é por isso, então, que dormirei pela eternidade” - Nelson Mandela
Melhor ainda é a visão de Manuel Bandeira: "O HOMEM E A MORTE - O homem já estava deitado Dentro da noite sem cor. Ia adormecendo, e nisto À porta um golpe soou. Não era pancada forte. Contudo, ele se assustou, Pois nela uma qualquer coisa De pressagio adivinhou. Levantou-se e junto à porta - Quem bate? Ele perguntou. - Sou eu, alguém lhe responde. - Eu quem? Torna. – A Morte sou. Um vulto que bem sabia Pela mente lhe passou: Esqueleto armado de foice Que a mãe lhe um dia levou. Guardou-se de abrir a porta, Antes ao leito voltou, E nele os membros gelados Cobriu, hirto de pavor. Mas a porta, manso, manso, Se foi abrindo e deixou Ver – uma mulher ou anjo? Figura toda banhada De suave luz interior. A luz de quem nesta vida Tudo viu, tudo perdoou. Olhar inefável como De quem ao peito o criou. Sorriso igual ao da amada Que amara com mais amor. - Tu és a Morte? Pergunta. E o Anjo torna: - A Morte sou! Venho trazer-te descanso Do viver que te humilhou. -Imaginava-te feia, Pensava em ti com terror... És mesmo a Morte? Ele insiste. - Sim, torna o Anjo, a Morte sou, Mestra que jamais engana, A tua amiga melhor. E o Anjo foi-se aproximando, A fronte do homem tocou, Com infinita doçura As magras mãos lhe cerrou... Era o carinho inefável De quem ao peito o criou. Era a doçura da amada Que amara com mais amor." 
É um poema maravilhoso que retrata aquela primeira visão da morte a que estamos habituados, o pavor de morrer. Ele não quer abrir a porta ao terrível esqueleto, pelo contrário, refugia-se no leito, negando a morte, recolhendo-se no seu refúgio e conforto. E surpreende-se, finalmente, quando percebe que a morte não é tão terrível quanto supunha. E lá esta ela representada por uma doce mulher, um anjo, quase a imagem de uma mãe, trazendo conforto, carinho e paz por confronto com a vida "passada". Como se os extremos do sentimento com relação à morte pudessem confluir. 
A morte pode até ser as duas coisas ao mesmo tempo. Algo que traz medo pela dissolução e pelo desconhecido, mas inevitável. E se nessa inevitabilidade formos capazes de ver a mãe ou a avó (ou o anjo) que se foram e que nos deram calor e colo, essa segunda imagem dá-nos o refúgio acomodado e sereno para a certeza da vinda da morte.
A morte pode entrar na vida, ou porque a procuramos nós mesmos ou porque ela nos procura. A intensidade do sofrimento e da dor da perda da vida talvez dependa da imagem que cultivemos da morte: a de um anjo negro ou a de um anjo branco. E se for para cairmos nos braços de uma mãe ou de uma avó, pode mesmo a morte vir a ser a melhor vida que já tivemos. Anabela Melão