quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O “honrado e o bem-aventurado Dom Egas Moniz de Ribadouro” e a sua ligação a D. Afonso Henriques


O “honrado e o bem-aventurado Dom Egas Moniz de Ribadouro”. Tradição antiga atribui a função de educador a Egas Moniz, mas não é possível ter prova inequívoca, existindo como possibilidade o seu irmão Ermigio, também da família Ribadouro. Um trovador de D.Afonso III, trineto de Egas Moniz. João Soares Coelho, terá contribuído para o empolamento da possibilidade Egas Moniz, como Aio. Algumas “estórias”, vêem publicadas na Crónica de 1419. Numa delas relata-se um milagre, pois tendo Egas Moniz o menino Afonso à sua guarda, que havia nascido deformado nos membros inferiores, lhe apareceu a Virgem Maria, que lhe disse para procurar e desenterrar uma igreja que havia sido construída em sua honra. Levasse o menino ao altar e ele ficaria curado. Egas Moniz assim fez e Afonso Henriques curou-se (Milagre de Nossa Sra de Cárquere). Ou seria D. Afonso Henriques filho de Egas Moniz? Alexandre Herculano assegura que o I Rei de Portugal era alto, robusto e forte... não me parece que tenha herdado essas características do Conde D. Henrique. 
- “foi este D. Egas Moniz chamado o Bem aventurado por ser Ayo do Senhor Rey D. Affº Henriques, o qual se achou na batalha do Campo de Ourique e em todas as mais do seu tempo; morreu no anno de 1184 [da Era: 1146A.D.], e está enterrado no Mosteiro de Passos de Souza, e em sima do tumulo esculpida toda a jornada q fez ao Imparador D. Affº [Afonso VII, rei de Leão e Castela, imperador das Espanhas], por D. Affº Henriques não querer ir a Cortes como elle tinha prometido e pello dito Rey faltar e não querer ir foi o dº D. Egas Moniz e sua m.er e f.os nus da cinta pª sima com sogas ao pescoço pª comprirem com suas vidas a palavra q o Rey não quiz comprir, e isto he o q está esculpido no dº tumulo.” (imagem: Egas Moniz de corda ao pescoço perante Afonso VII de Castela e Leão, num painel de azulejos na Estação de São Bento, figura profundamente ligada à lenda de Carvalho de Egas, aldeia do concelho de Vila Flor)

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Da Força e da Sabedoria - e de que massa se faz o Homem!

"A Força, incontrolada ou mal controlada, não é apenas desperdiçada no vazio, tal como a pólvora queimada a céu aberto e vapor não confinado pela ciência; mas, golpeando no escuro e seus golpes atingindo apenas o ar, ricocheteia e se auto-atinge. É destruição e ruína. É o vulcão, o terramoto, o ciclone, não crescimento ou progresso. (...) Precisa ser regulada pelo Intelecto. O Intelecto é para as pessoas e para a Força das pessoas o que a delicada agulha da bússola é para o navio – sua alma, sempre orientando a enorme massa de madeira e ferro,e sempre apontando para o norte." (Albert Pike, Morals and Dogma) - imagem e citação de um artigo do Rui Bandeira, no blog A PARTIR PEDRA

O TAMANHO DAS PESSOAS!

"O TAMANHO DAS PESSOAS - Os Tamanhos variam conforme o grau de envolvimento...Uma pessoa é enorme para ti, quando fala do que leu e viveu, quando te trata com carinho e respeito, quando te olha nos olhos e sorri. É pequena para ti quando só pensa em si mesma, quando se comporta de uma maneira pouco gentil, quando fracassa justamente no momento em que teria que demonstrar o que há de mais importante entre duas pessoas: a amizade, o carinho, o respeito, o zelo e até mesmo o amor. Uma pessoa é gigante para ti quando se interessa pela tua vida, quando procura alternativas para o seu crescimento, quando sonha junto contigo. E pequena quando se desvia do assunto. Uma pessoa é grande quando perdoa, quando compreende, quando se coloca no lugar do outro, quando age não de acordo com o que esperam dela, mas de acordo com o que espera de si mesma. Uma pessoa é pequena quando se deixa reger por comportamentos da moda. Uma mesma pessoa pode aparentar grandeza ou miudeza dentro de um relacionamento, pode crescer ou decrescer num espaço de poucas semanas. Uma decepção pode diminuir o tamanho de um amor que parecia ser grande. Uma ausência pode aumentar o tamanho de um amor que parecia ser ínfimo. É difícil conviver com esta elasticidade: as pessoas se agigantam e se encolhem aos nossos olhos. O nosso julgamento é feito não através de centímetros e metros, mas de acções e reacções, de expectativas e frustrações. Uma pessoa é única ao estender a mão, e ao recolhê-la inesperadamente torna-se mais uma. O egoísmo unifica os insignificantes. Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande... é a sua sensibilidade, sem tamanho..." (William Shakespeare)

Simbolismos, nas mais pequenas coisas.

"Simbolicamente apenas? Mas não será tudo simbólico? Não o são as nossas realizações, ainda que nos batamos num mundo feito de milhões de relações humanas e com milhões de destinos entre os nossos dedos? As nossas realizações não serão, mesmo nos melhores momentos, tão lamentáveis que o combate que travámos por elas perderia todo o valor se lhes não déssemos uma importância simbólica, uma importância de combate enquanto combate? Que escassos resultados práticos! Seríamos capazes de fazer fosse o que fosse, a menor acção, se tratássemos os símbolos como realidades práticas?" (Stig Dagerman, in 'A Ilha dos Condenados')

Ser um cidadão livre ... aprendendo com Kafka.

"Ele é um cidadão livre e seguro da Terra, pois está atado a uma corrente suficientemente longa para lhe dar livre acesso a todos os espaços terrenos e, no entanto, longa apenas para que nada seja capaz de arrancá-lo dos limites da Terra. Mas é, ao mesmo tempo, um cidadão livre e seguro do céu, uma vez que está igualmente atado a uma corrente celeste calculada de maneira semelhante. Assim, se quer descer à Terra, a coleira do céu enforca-o; se quer subir ao céu, enforca-o a coleira da Terra. A despeito de tudo, tem todas as possibilidades e sente-as, recusando-se mesmo a atribuir o que acontece a um erro cometido no primeiro acto de acorrentar." (Franz Kafka, in 'Os Aforismos de Zurau ou Reflexões no Pecado, Esperança, Sofrimento, e o Caminho da Verdade (66)')

Repensando os trilhos da vida ....


"É preciso repensar a nossa vida. Repensar a cafeteira do café, de que nos servimos de manhã, e repensar uma grande parte do nosso lugar no universo. Talvez isso tenha a ver com a posição do escritor, que é uma posição universal, no lugar de Deus, acima da condição humana, a nomear as coisas para que elas existam. Para que elas possam existir… Isto tem a ver com o poeta, sobretudo, que é um demiurgo. Ou tem esse lado. Numa forma simples, essa maneira de redimensionar o mundo passa por um aspecto muito profundo, que não tem nada a ver com aquilo que existe à flor da pele. Tem a ver com uma experiência radical do mundo. 
Por exemplo, com aquela que eu faço de vez em quando, que é passar três dias como se fosse cego. Por mais atento que se seja, há sempre coisas que nos escapam e que só podemos conhecer de outra maneira, através dos outros sentidos, que estão menos treinados… Reconhecer a casa através de outros sentidos, como o tacto, por exemplo. Isso é outra dimensão, dá outra profundidade. E a casa é sempre o centro e o sentido do mundo. A partir daí, da casa, percebe-se tudo. Tudo. O mundo todo." (Al Berto, in "Entrevista à revista Ler (1989)")

sábado, 2 de novembro de 2013

Saudade "aprisionada"!


"A Minha Saudade Tem o Mar Aprisionado na sua teia de datas e lugares. É uma matéria vibrátil e nostálgica que não consigo tocar sem receio, porque queima os dedos, porque fere os lábios, porque dilacera os olhos. E não me venham dizer que é inocente, passiva e benigna porque não posso acreditar. A minha saudade tem mulheres agarradas ao pescoço dos que partem, crianças a brincarem nos passeios,
amantes ocultando-se nas sebes, soldados execrando guerras. Pode ser uma casa ou uma rede das que não prendem pássaros nem peixes, das que têm malhas largas para deixar passar o vento e a pressa das ondas no corpo da areia. Seria hipócrita se dissesse que esta saudade não me vem à boca com o sabor a fogo das coisas incumpridas. Imagino-a distante e extinta, e contudo cresce em mim como um distúrbio da paixão." (José Jorge Letria, in "A Metade Iluminada e Outros Poemas")