terça-feira, 29 de outubro de 2013

ainda, O Operário Em Construção ...


"...- Loucura! - gritou o patrão Não vês o que te dou eu? - Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu. E um grande silêncio fez-se Dentro do seu coração Um silêncio de martirios Um silêncio de prisão. Um silêncio povoado De pedidos de perdão Um silêncio apavorado Com o medo em solidão Um silêncio de torturas E gritos de maldição Um silêncio de fraturas A se arrastarem no chão E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos Os seus irmãos que morreram Por outros que viverão Uma esperança sincera Cresceu no seu coração E dentro da tarde mansa Agigantou-se a razão De um homem pobre e esquecido Razão porém que fizera Em operário construido O operário em construção" (excerto do poema O operário em construção, de Vinicius de Moraes)

Camões e o Mundo! - segundo Pessoa


"Eis aqui, quase cume da cabeça De Europa toda, o Reino Lusitano, Onde a terra se acaba e o mar começa …" "Eternos moradores do lusente Estelífero pólo e claro assento Se o grande valor da forte gente De luso não perdeis o pensamento Deveis ter sabido claramente Como é dos Fados Grandes certo intento Que por ele se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos" [Luís de Camões, Lusíadas]
"… Arte portuguesa será aquela em que a Europa – entendendo a Europa principalmente a Grécia antiga e o universo inteiro – se mire e se reconheça sem se lembrar do espelho. Só duas nações – a Grécia passada e Portugal futuro – receberam dos deuses a concessão de serem não só elas mas também todas as outras. Chamo a sua atenção para o facto, mais importante que geográfico, de que Lisboa e Atenas estão quase na mesma latitude" [Fernando Pessoa, Ultimatum e páginas de sociologia Política, Ática, 1980]

Santo Agostinho - O Homem (A Cidade de Deus)

“Sabes que pensas? Sei. Ergo verum est cogitare te, logo é verdade que pensas”.
A verdade está no interior do homem. “Não queiras sair para fora; é no interior do homem que habita a verdade”. Qual é o melhor nome para Deus? O que se lê no Êxodo: “Aquele que é”. “Non aliquo modo est, sed est est” (Confissões). Santo Agostinho dará com frequência a Deus o nome de Bem, de Amor, porém não desconhece que antes de tudo Ele é; e porque é o que é, é Amor, Bem, Infinito. Deus é Aquele que é; as coisas são criadas. Deus é quem lhes deu o ser. Por quê? Por pura bondade. “Porque Deus é bom, somos.” “O homem que se espanta é ele mesmo grande maravilha”. “E dirigi-me a mim mesmo e disse: Tu quem és? E respondi-me: Homem. E eis que tenho à mão o corpo e a alma, um exterior e o outro interior. Porém, melhor é o interior”. “O homem é um ser intermediário entre os animais e os anjos”. “Nada encontramos no homem além de corpo e alma; isso é todo o homem: espírito e carne”. Essas são apenas algumas das numerosas referências que poderíamos dar sobre esta questão crucial. São os dois grandes temas agostinianos: “Deus e o homem”. “Que te conheça a ti e que me conheça a mim mesmo”. É o famoso princípio dos Soliloquia: “Quero conhecer Deus e a alma. Nada mais? Absolutamente nada mais”. “Porque o homem não é só corpo ou apenas alma, mas o que é constituído de alma e de corpo. Esta é a verdade: a alma não é todo o homem, mas é a melhor parte do homem; nem todo o homem é o corpo, mas a porção inferior do homem; quando as duas estão juntas, temos o homem” (A Cidade de Deus).

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Conselhos velhos sobre "Governar"!

" ... Governar é instruir, é edificar, é descer d'esses thronos d'uma vida talvez ephemera, é derramar a luz do espírito nas trevas da ignorância, é estabelecer a moralidade, a ordem, a economia; governar é plantar em cada bairro uma associação, em cada rua uma escola, em cada alma a semente da sciencia, do bem, do justo, do honesto, para que mais tarde cada filho do povo seja um cidadão laborioso, instruído, conscio dos seus direitos e deveres, e contra o qual nada possam as venalidades, a corrupção dos vendilhões da politica, que mercadejam com a consciência como se fora um artefacto (...)" [Duas palavras / pronunciadas / na / Sessão Solemne / do / Grémio Popular / (24 de Dezembro de 1871) / por / Costa Goodolphim / ... / Lisboa / Typographia Universal /…/ 1872] 

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Faleceu Ramos Rosa.

Faleceu hoje Ramos Rosa. 88 anos. aqui deixo um dos seus mais bonitos poemas. "Amo o teu túmido candor de astro a tua pura integridade delicada a tua permanente adolescência de segredo a tua fragilidade acesa sempre altiva Por ti eu sou a leve segurança de um peito que pulsa e canta a sua chama que se levanta e inclina ao teu hálito de pássaro ou à chuva das tuas pétalas de prata Se guardo algum tesouro não o prendo porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto que dure e flua nas tuas veias lentas e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva para que sintas a verde frescura de um pomar de brancas cortesias porque é por ti que vivo é por ti que nasço porque amo o ouro vivo do teu rosto." (António Ramos Rosa, in 'O Teu Rosto')

Na senda da alquimia interior ....

A alquimia é a ciência das transmutações.
Pernety definiu-a como a arte de trabalhar com a natureza sobre os corpos, com os olhos postos no aperfeiçoamento.
Ao longo dos tempos, os pesquisadores desenvolveram os seus estudos sobre dois pontos principais: A transmutação dos metais e a fabricação de um elixir de longa vida, que seria uma fonte de juventude e, ao mesmo tempo, uma medicina universal.
No seu estudo sobre a Grande Obra, Grillot de Givry descreve assim este ensino: “é uma alquimia transcendental, é a alquimia de si mesmo”.
Sendo a personalidade do homem infinitamente perfectível, a sua evolução não tem outro fim, senão o de processar a aproximação da Divindade, a de procurar a centelha divina perdida em cada homem. É necessário que aquele que anseia alcançar a realização de uma obra transcendente, se torne outro homem, que estude em si mesmo, as suas possibilidades, os defeitos da sua harmonia, de forma a que, ao destruí-los, os aproxime da harmonia soberana à qual se adapta. 
É quando este acordo se realiza de um modo absoluto, integral e completo que o homem terá acabado a sua evolução.
Para purificar o vil metal é preciso que acenda o atanor dos alquimistas, que submeta a matéria ao Fogo do Espírito, de forma a que esta se purifique, continuamente, pela lenta combustão das suas impurezas e das suas escórias.
A obra alquímica é sempre  progressiva, paulatina, lenta, e há-de ter lugar no laboratório interno da nossa personalidade, adentrando o nosso coração.
“Tu possuis – diz Grillot de Givry, dirigindo-se ao discípulo – tu possuis um tesouro imenso de forças ocultas que ignoras, forças consideráveis e invencíveis, depositadas em ti e que ultrapassam todas as forças corporais; aprende a servir-te, a fazê-las obedecer a tua vontade, a tornar-te absolutamente senhor”.
O ser purificado mais não procura que as forças vivas.
“Aprende, ao contrário, que tal poder não te será conferido senão por uma laboriosa e lenta cultura das forças psíquicas, subsistindo em ti em estado latente”.
“É preciso abstrair-te em uma vida superior, exaltando poderosamente a tua vontade. Eleva em torno de ti mesmo, como uma muralha que retém e emana de ti para as coisas sensíveis, encerra-te na cidadela hermética, de onde sairás, um dia, invulnerável”. 
E é este o verdadeiro ensinamento iniciático, o que se oculta nos receituários alquímicos, a procura secular e ancestral. 
Como se transmite? Primeiro, pelo desenvolvimento, em si, de todas as energias superiores, de modo a que estas substituam, pouco a pouco, os maus instintos, destruídos pela força de um combate interno e sem tréguas. Depois de assimiladas as forças superiores, o adepto poderá, por fim, irradiá-las para aqueles que pedem o seu auxílio, o socorro das maleitas do corpo e da alma.
E para nada mais serve o bem superior que, por fim, ante tamanha hérculea demanda, nos foi concedido.

sábado, 21 de setembro de 2013

Alquimia Transcendental - O Caminho do Iniciado


Segundo Bacon, Enxofre e Mercúrio são as primeiras e primordiais Naturezas da matéria. A terceira parte é o Sal, que deriva ou é formado das outras duas. Observa-se a simbologia do Triângulo nesse pensamento que não é original em Bacon. Todos os Alquimistas de todas as épocas referem-se à tríade Enxofre, Mercúrio e Sal como partícipes fundamentais da Obra. A própria Grande Obra (Operativa), em última instância, pretende provocar a interacção do Enxofre (fogo) com o Mercúrio (água), e a Transmutação Alquímica, a juízo dos Iniciados (Alquimistas), baseia-se nesta premissa. A contraparte da Alquimia Operativa é Alquimia Interior (Transcendental), que visa a purgação interna e simbólica dos metais inferiores, transmutando-os em puro ouro. Nesse processo Morre o homem e Nasce o Homem. Ao Iniciado interessa, exclusivamente, a realização da Alquimia Transcendental.