sexta-feira, 7 de junho de 2013

o mistério de maria madalena


Maria Magdalena – O mistério de Maria Madalena, a Sophia Gnóstica. Maria Madalena chamava-se, em hebraico, «Mariamne». No início do Cristianismo, quando se falava de «Maria», era de «Maria Magdalena», e não de «Maria mãe de Jesus», que se falava. Muitas correntes do pensamento cristão, (nomeadamente os gnósticos), defendiam que havia um papel de líder espiritual na herança religiosa que Jesus deixara no mundo e que este pertencia a Maria Magdalena e não a Pedro. 

Vários são os exemplos históricos do reconhecimento deste apóstolo de Jesus. 
Hipólito, Bispo de Roma ( 170-235 d.C), afirmou que «Maria Madalena é o apostolo dos apóstolos». Santo Agostinho, afirmou que «os apóstolos receberam das mulheres o anúncio do evangelho». Jesus apareceu primeiro a Maria Madalena «(…) Ela foi anuncia-lo aos seguidores de Jesus, que estavam de luto e chorosos. Quando ouviram que ele estava vivo, (…) não quiseram acreditar.» (Marcos 16,9-11)
Muito se tem debatido sobre se Maria Madalena seria a companheira, ou melhor, discute-se que espécie de companheira, de Jesus. Está escrito no Evangelho de João: «Maria virou-se e viu Jesus de pé (…) então Jesus disse: «Maria». Ela virou-se e exclamou em hebraico:«Rabuni!» (…) Jesus disse: «Não me segures, porque ainda não voltei para o meu pai. Mas vai e dizer aos meus irmãos (….) Então, Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos:«Eu vi o Senhor». E contou o que Jesus tinha dito. (João 20,14-18) 
Jesus diz a Maria: «Não me segures», que em hebraico significa «não me toques», ou «Não me abraces». De que forma abraçaria Maria a Jesus? Maria «abraça», (ou tenta abraçar) Jesus; alguns historiadores defendem, que nos tempos de Jesus, na sociedade e cultura hebraicas do tempo de então, uma mulher apenas tocaria, ou abraçaria, o seu próprio marido, pois nunca lhe seria permitido tocar noutro homem senão o seu companheiro.
As mais recentes descobertas de textos apócrifos ocorridas no Mar Morto, em Qumran e Nag Hamadi, deram a conhecer, com muito acerto histórico, quase todas as correntes de pensamento gnóstico dos primeiros séculos do cristianismo. Nesses textos, é-nos revelado uma Maria Madalena companheira de Jesus. Jesus e Maria eram tratados como um casal, o par que incorporou a essência do masculino e do feminino, um dueto celestial que incorpora o próprio conceito da criação. Jesus foi visto como um ser humano dentro do qual habitava um espírito celestial superior, (o de Cristo), e Maria Madalena foi tida também como um ser humano no qual habitava um outro ser celestial, a Sophia, ou a sabedoria. No texto Pitis Sophia, Jesus assim disse sobre Maria Madalena: «Maria, tu procuras a verdade (…) e, com o teu zelo, levas luz a tudo.» V, 10-13. Isto mostra como Maria é um espírito sedento de sabedoria, e que procurando a sabedoria, encontraria a salvação e a luz. O ideal dos cristãos gnósticos na sua mais fundamental essência. Nestes textos, Maria queixa-se frequentemente de Pedro, dizendo a Jesus que Pedro detesta a «raça feminina», o que nos leva a questionar porque foram as mulheres silenciadas pelo movimento apostólico de Pedro. Nas crenças gnósticas, Maria Madalena não foi apenas uma mulher: ela foi a companheira de Jesus, a encarnação de uma essência espiritual, ( tal como Jesus), e ela foi a mulher que teve acesso directo, (através de Jesus), à sabedoria, (a gnose), e que, por isso, evoluiu de forma mais privilegiada para a iluminação. 
Qual será o segredo de Maria Madalena? Aquele que a historia atirou para o esquecimento, mas que os manuscritos gnósticos agora descobertos vieram trazer novamente à luz do dia?!

Iniciação e alquimia

"Tome um crisol de ourives, passe-lhe gordura na parte interna e deite-lhe o nosso remédio, segundo a proporção requerida, tudo a fogo lento; e quando o mercúrio começar a fumegar, jogue o remédio encerrado em cera virgem ou em papel, pegue um carvão grande, aceso, especialmente preparado para este fim, e ponha-o no fundo do cadinho, deixando cozer em fogo violento; e quando tudo estiver liquefeito jogue em um tubo engordurado. Eis que assim terás Ouro e Prata finíssimos, segundo o fermento que tiveres empregado." (Tratado de Santo Tomaz de Aquino sobre a Arte da Alquimia, dedicado a frei Reginaldo (atribuído)).
A Tábua de Esmeralda conteria, segundo a tradição lendária, em Alexandria, em poucas frases criptografadas, incompreensíveis para os não-iniciados, os principais preceitos alquímicos, tendo-se tornado o compêndio da sabedoria hermética: "É verdadeiro, completo, claro e certo. O que está embaixo é como o que está em cima e o que está em cima é igual ao que está embaixo, para realizar os milagres de uma única coisa. Ao mesmo tempo, as coisas foram e vieram do Um, desse modo as coisas nasceram dessa coisa única por adopção. O Sol é o pai, a Lua a mãe, o vento o embalou em seu ventre, a Terra é sua ama; o Telesma do mundo está aqui. Seu poder não tem limites na Terra. Separarás a Terra do Fogo, o sutil do espesso, docemente, com grande indústria. Sobe da Terra para o céu e desce novamente à Terra e recolhe a força das coisas superiores e inferiores. Deste modo obterás a glória do mundo e as trevas se afastarão. É a força de toda força, pois vencerá a coisa sutil e penetrará na coisa espessa. Assim o mundo foi criado. Esta é a fonte das admiráveis adaptações aqui indicadas. Por esta razão fui chamado de Hermes Trimegisto, pois possuo as três partes da filosofia universal. O que eu disse da Obra Solar é completo."
No século XIV, devastada pela peste, por revoltas, invasões, guerras e distúrbios de diferentes naturezas, a Europa em crise, revalorizando o mundo antigo e suas tradições, deixou-se invadir por uma onda crescente de estudos alquímicos. Contra essa onda posicionou-se firmemente a Igreja Católica, reagindo não apenas à alquimia como um campo fértil para todo tipo de charlatanismo e impostura, alvo de oportunistas estimulados pela ambição, mas, sobretudo, ao grande interesse manifestado pelos segmentos mais esclarecidos, inclusive do próprio clero, o que provocava a sua inquietação. Dominicanos e franciscanos publicaram vários decretos, entre 1273 e 1323, proibindo estudos e práticas alquímicas, confirmados em 1317 por uma nova interdição lançada pelo Papa João XXII. 
Este clima de proibição e de perseguição, somado à crença de que ensinamentos elevados e conhecimentos mágicos, caso fossem divulgados, se vulgarizariam e, assim, perderiam toda a sua força, intensificou a instituição do segredo, mantido sob forte juramento: "Eu te faço jurar pelos céus, pela terra, pela luz e pelas trevas. Eu te faço jurar pelo fogo, pelo ar, pela terra e pela água. Eu te faço jurar pelo mais alto dos céus, pelas profundezas da terra e pelo abismo do Tártaro. Eu te faço jurar por Mercúrio e por Anubis, pelo rugido do dragão Kerkoruburus e pelo latido do Cão de três tetas, Cérbero, guardião do Inferno. Eu te conjuro pelas três Parcas, pelas três fúrias e pela espada a não revelar a pessoa alguma nossas teorias e técnicas."
Na alquimia, o fogo tortura a matéria, e desse sofrimento, que chega à morte, o metal sai regenerado. Simbolicamente, o mesmo ocorre na morte iniciática, da qual se ressuscita para um estado de conhecimento/sabedoria. O mito retoma, portanto, a associação alquímica entre ritual e sacrifício cruento, assumindo a premissa de que não há criação sem sacrifício prévio, presente na maior parte das religiões. Podemos constatar, em diferentes culturas, os «sacrifícios de criação», assentes na crença de que a transferência de uma vida é necessária para a criação de algo novo. Tal como o êxito da obra metalúrgica exige a fusão/morte do metal, o sacrifício de uma vida humana é necessário para a transmutação espiritual. A morte iniciática conduz no caso à iluminação, à integração plena do ser ao Cosmos. E, com a Iniciação, ainda tudo começa ....

quarta-feira, 5 de junho de 2013

DOIS ANOS DE desAPONTAMENTO

Efeméride esta tristonha! Passados dois anos depois da tomada do poder, via urnas, tudo democraticamente legitimado, feito O Salvador, Passos Coelho chegou. O protesto, que a memória vai falhando a muitos, foi a austeridade excessiva do PEC IV.
Portugueses e Governo, na histórica demanda do sonho: Um Governo, Uma Maioria, Um Presidente, noivados e casados, e com o divórcio à espreita, é tempo de avaliação.
Passos Coelho, um pouco como um santo casamenteiro, prometeu tudo a todos e falhou em tudo, com todos.
Para os primeiros três meses do ano: revisão em baixa em 0,1 pontos. O PIB caiu 4%, em termos homólogos, ao que dizem por causa da redução da procura interna. A Comissão Europeia esperava uma queda da economia de apenas 0,1% no primeiro trimestre de 2013, face ao último trimestre de 2012, e de 3,7% face ao período homólogo.
Agravamento da taxa de desemprego, apontada para cerca de 13% acabou em quase 19%.
250 000 novos emigrantes, entre juniores e seniores altamente qualificados.
Portugal fechou o ano de 2010 com um crescimento económico de 1,9% do Produto Interno Bruto, apontando-se os gastos excessivos da parte do setor público como a causa principal. Em 2012 a recessão atingiu os 3,2%. Em 2013, a recessão vai manter-se e deverá atingir pelo menos 2,3%.
Em 2010, apontava-se para uma taxa de desemprego nos 10,8%, em média anual, e 11,1% no último trimestre do ano. Entre os jovens (dos 15 aos 24 anos) a taxa de desemprego era já de 22,4%.  A taxa de desemprego em média anual ficou nos 15,7% em 2012, chegando, no quarto trimestre, a  novos máximos históricos chegando aos 16,9%, ficando-se o desemprego jovem pelos 37,7%. A previsão feita no início do programa apontava para uma taxa de desemprego na ordem dos 13%, já vai nos 18,5% de taxa média anual e num pico de quase 19%, este ano, em termos trimestrais. No primeiro trimestre deste ano, deu-se um agravamento da taxa trimestral para os 17,7%, enquanto o desemprego jovem subiu para os 42,1%. Ou seja, cerca de 300 000 desempregados.
Em 2010, o défice orçamental terminou o ano nos 8,8% do PIB. Em 2012, o resultado confirmado pelo Eurostat na primeira notificação do ano enviada a Bruxelas ao abrigo do Procedimento dos Défices Excessivos foi de 6,4%.  Para 2013 a meta acordada com a 'troika' foi de 5,5%, mas aguarda-se já que a meta resvale para 6,4% do PIB.
Em 2010, o rácio de dívida pública, de acordo com os critérios de Maastricht, fechou o ano nos 93,5%.  Em 2012, a dívida pública atingiu os 123,7% do PIB, mais 30,2 pontos percentuais do PIB em apenas dois anos!  Para 2013, o Governo começou por apontar para um valor da dívida pública na ordem dos 122,4%, mas a OCDE aponta já para mais de 127%.
Em 2010 o défice externo atingiu os 8,4% do PIB. Em 2012, o saldo externo fechou o ano com um saldo positivo da soma da balança corrente e de capital de 1.313 milhões de euros.
Desde que Portugal fez o pedido de ajuda à 'troika' de credores externos, o financiamento da banca à economia entrou em contracção, com uma queda de mais 20 mil milhões de euros nos empréstimos às empresas e famílias para 237.682 milhões de euros entre abril de 2011 e Março de 2013. Os empréstimos às empresas caíram de 11.825 milhões de euros para 105.236 milhões de euros. E o crédito aos particulares reduziu-se em 9.547 milhões de euros nestes quase dois anos, tendo-se fixado em Março nos 132.446 milhões de euros.
Passos Coelho prometeu tudo a todos e falhou em tudo, com todos.
Se há alternativa?! Nas urnas, talvez. Mas será uma alternativa credível? Quem acredita nos novos casamentos à direita e à esquerda? Está certa a insatisfação de ambos os eleitorados?
O Governo fez saber que um chumbo do Tribunal Constitucional ao Orçamento do Estado para 2013, tornaria o País ingovernável. Ou já seria ingovernável antes dele! Já Júlio César dizia que “nos confins da Ibéria vive um povo que nem se governava nem deixava governar” e nada sabia sobre as querelas entre um e outro. E, longe (ou não) vai o tempo em que Eça dizia “Ordinariamente, todos os ministros são inteligentes, escrevem bem, discursam com cortesia, e pura dicção, vão a faustosas inaugurações e são excelentes convivas. Porém, são nulos a resolver crises. Não têm a austeridade, nem a concepção, nem o instinto político, nem a experiência que faz o estadista. É assim que há muito tempo em Portugal são regidos os destinos políticos. Política de acaso, política de compadrio, política de expediente. País governado ao acaso, governado por vaidades e por interesses, por especulação e corrupção, por privilégio e influência de camarilha, será possível conservar a sua independência?"
E aqui estamos nós, no ano da Graça de Nosso Senhor de 2013, constatando a razão destes homens, e a insensatez de um Povo.

Falta cumprir Portugal!

sexta-feira, 31 de maio de 2013

ANTÓNIO SOUSA HOMEM, A perfeição do mundo e o riso dos Homem


"Duas causas concorrem para que a vida seja como é: a natural imperfeição do género humano e a presunção de que o mundo pode mudar-se para benefício geral. O resultado disto é um pessimismo tão desastrado como, igualmente, confirmado pela História.

Em Portugal, graças à nossa tendência para a presunção e para a pompa, confunde-se muito o pessimismo com a tendência para a catástrofe. A Tia Benedita, que representa o braço do reaccionarismo na família, duvidava de tudo excepto dos seus dogmas particulares. Ela não depositava grande confiança nas realizações humanas, o que, além de amargurá-la, não lhe trazia desilusões de monta; limitava-se a achar que a família estava condenada a perecer sob os ataques da Maçonaria, da República e da imoralidade. O velho Doutor Homem, meu pai, apreciava-lhe a capacidade de não acreditar em nada, bem como a fidelidade às suas obsessões; o Tio Alberto, o bibliómano e gastrónomo de S. Pedro dos Arcos, limitava-se a viajar para não sucumbir ao pessimismo ancestral da família. Percorrer o mundo e regressar de mãos vazias pode bem ser um resumo da sua vida, de que sobraram uma biblioteca raríssima hoje em dia no Minho, alguns maços de cartas trocadas entre a Serra de Arga e as ventanias do Cáspio — e lendas que o elegem como o grande aventureiro desta família preguiçosa e renitente.
Nem a Maçonaria, nem a República nem a imoralidade — reunidas ou por separado — conseguiram demover os Homem de cumprir o seu destino de derrotados da História. Com poucas ou nenhumas diferenças, os Homem de hoje limitam-se a cumprir os desígnios do passado: permanecerem despercebidos. As novas gerações consomem haxixe e ouvem rock, trocam de cônjuge, vivem a sua vida e evitam comprometer-se. Para seguir este caminho é necessária uma dose substancial de paciência. O velho Doutor Homem, meu pai, vendo o caminho que as coisas tomavam, e prevendo revoluções e catástrofes (que, de qualquer modo, só se realizaram pela metade), o velho advogado suportou com estoicismo as ilusões dos outros, sorrindo afavelmente para os excessos cometidos e a cometer. “Filosofemos”, pedia um derrotado político nas páginas do 'Eusébio Macário', de Camilo. Quer dizer: “Mudemos ao sabor da corrente — e inventemos uma explicação.” Ele nunca precisou de evitar esses escolhos. Acreditou que o mundo continuaria a organizar-se para ser cada vez mais tolerável mas imperfeito. Agiu em conformidade, dedicando-se à poda das japoneiras no jardim do casarão de Ponte de Lima. Um velho conservador nunca se surpreende com a história." in Domingo - Correio da Manhã - 21 Fevereiro 2010

(Não) perspectivas?!



Estamos todos a coberto de uma nostalgia nunca antes ensaiada, nunca antes experimentada, apanhados num turbilhão de uma crise de valores transversal à sociedade e que toma vida própria, como um fantasma, no dia a dia de todos nós.
Há quem entenda que a crise que o país atravessa se deve ao estilo de vida dos portugueses, que teriam adoptado uma "vida de cigarra" em vez de uma "vida de formiga", desde que entrámos no euro. Somos muito dados a essa “coisa” extraordinariamente portuguesa que é a saudade e o fado, e isso pode ter-nos impelido para algumas cantorias que pagamos a preço de oiro (basta ver as lojecas que proliferam, como coelhos, como cogumelos, a cada esquina).
Mas esta devastadora crise não é de hoje. Desde 2001 que Portugal cresceu a pouco mais de 1% ao ano, situando-se muito abaixo da taxa de crescimento dos países que, até aí, rivalizavam connosco, mais ou menos em pé de igualdade, na União Europeia. Nesse período, a Grécia e a República Checa cresceram cerca de 4% ao ano, a Eslováquia 6% ao ano e os países bálticos mais de 8% ao ano. No ranking do PIB per capita, Portugal foi ultrapassado pela República Checa em 2005 e em 2008 foi ultrapassado pela Eslováquia e pela Estónia. E, a partir daí, é o descalabro conhecido!
Estudos feitos confirmam que Portugal irá pagar, nos próximos dez anos, o compromisso de amortização de uma dívida que, a breve prazo, chegará ao triplo do que se pagou em 2012. Trata-se, cada vez mais o admitem, de uma dívida impagável. As manifestações a que hoje assistimos não são mais que o produto de uma mobilização de indignação que, em última linha, chegam mesmo a questionar as razões da democracia!. A falta de alternativas sólidas da esquerda à direita oferecem-nos discursos baralhados, a começar pelas hipóteses de coligações pelo PS à sua direita, descaracterizando, assim, os eleitorados do PS e do CDS-PP. Se a crise vale para ultrapassar estes dogmas, pode ser que sim, desde que ambos comunguem de uma mesma ideia: contra a dívidadura, marchar, marchar!
Um estudo da Ernst & Young conclui que o fosso entre economias prósperas e os países em crise da zona euro vai agravar-se nos próximos três anos, apontando para um crescimento da Europa a duas velocidades e colocando Portugal está no grupo dos países em velocidade lenta. O mesmo estudo confirma que o crescimento da Espanha, Grécia, Irlanda, Itália e Portugal, até 2015, não irá além de 0,5%, por contraponto ao progresso de 9% que os restantes 12 países da zona euro deverão registar. Ora, o ritmo de crescimento lento, a par com a quebra no investimento público, taxa de desemprego elevada e recuo no consumo público e privado são alguns dos indicadores que definem um país “pobre”, o que significa que, sendo visível o fosso entre países relativamente prósperos do norte da Europa e os países em crise do sul do continente prosseguirá, Portugal continuará a ser um dos países mais desiguais do mundo desenvolvido, sendo aquele que a desigualdade é das mais acentuadas entre as economias europeias. Em suma, reúne as condições para ser classificado com um país pobre. Secundando, assim, um outro estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) “Divided We Stand: Why Inequality Keeps Rising”, que demonstrou que o fosso entre ricos e pobres em Portugal atingiu o nível mais elevado dos últimos 30 anos, provando que os 20% mais ricos têm rendimentos seis vezes superiores aos dos 20% mais pobres.
A par deste cenário catastrófico, o consultor Jack Soifer defende que Portugal tem um "potencial gigantesco para poder sair da crise" se aumentar as exportações e diminuir as importações, mas salienta que essas potencialidades ou recursos "não estão nas cidades, mas sim nas zonas urbanas e no mar", lembrando que a maioria dos portugueses desconhece, por exemplo, que "os grandes produtores especializados de flores, árvores bonsai, pimentos e flor de sal estão em Portugal".
Gosto especialmente desta referência ao mar. A esse mar que já nos fez ser tudo e de que hoje ninguém se lembra ou valoriza, depois de termos assistido, obedecido, impávidos, às ordens de Bruxelas que culminaram na destruição do sector das Pescas.

E quando vejo este imenso mar, quando choro o meu amado País, lembro sempre, triste e desencantada que esquecemos o que fomos e o que somos. “Ó mar salgado, quanto do teu sal. São lágrimas de Portugal!

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Carta aberta de um estudante liceal grego


Carta aberta de um estudante liceal grego (blog aventar)
"Aos meus professores… e aos outros:
O meu nome é K. M., sou aluno do último ano num liceu em Drapetsona, Pireu.
Decidi escrever este texto porque quero exprimir a minha fúria, a minha revolta pelo atrevimento e pela hipocrisia daqueles que nos governam e daqueles jornalistas e media mainstream que os ajudam a pôr em prática os seus planos ilegais e imorais em detrimento dos alunos, dos estudantes e de todos jovens.
A minha razão para escrever é a intenção dos meus professores de fazer greve durante o período dos exames de admissão à Universidade e os políticos e jornalistas que choram lágrimas de crocodilo sobre o meu futuro, o qual “estaria em causa” devido à greve.*
De que falam vocês? Que espécie de futuro tenho eu devido a vocês? E quem é que verdadeiramente pôs em causa o meu futuro?
Deitemos uma vista de olhos sobre quem, já há muito tempo, constrói o futuro e toda a nossa vida:
- Quem construiu o futuro do meu avô? Quem vestiu o seu futuro com as roupas velhas da administração das Nações Unidas para a ajuda de emergência e reconstrução e o obrigou a emigrar para a Alemanha?
- Quem governou mal e estripou este país?
- Quem obrigou a minha mãe a trabalhar do nascer ao pôr-de-sol por 530 euros por mês? Dinheiro que, uma vez paga a comida e as contas, nem chega para um par de sapatos, para já não falar num livro usado que eu queria comprar numa feira de rua.
- Quem reduziu a metade o ordenado do meu pai?
- Quem o caluniou, quem o ameaçou, quem o obrigou a regressar ao trabalho sob a ameaça da requisição civil, quem o ameaçou de despedimento, juntamente com todos os seus colegas dos serviços de transportes públicos quando eles, que apenas queriam viver com dignidade, entraram em greve?
- Quem procurou encerrar a universidade que o meu irmão frequenta para atingir alguns dos seus sonhos?
- Quem me deu fotocópias em vez de manuais escolares?
- Quem me deixa enregelar na minha sala de aula sem aquecimento?
- Quem carrega com a culpa de os alunos das escolas desmaiarem de fome?
- Quem lançou tanta gente no desemprego?
- Quem conduziu 4.000 pessoas ao suicídio?
- Quem manda de volta para casa os nossos avós sem cuidados médicos e sem medicamentos?
Foram os meus professores que fizeram tudo isto? Ou foram VOCÊS que fizeram tudo isto?
Vocês dizem que os meus professores vão destruir os meus sonhos fazendo greve.
Quem vos disse alguma vez que o meu sonho é ser mais um desempregado entre os 67% de jovens que estão no desemprego?
Quem vos disse que o meu sonho é trabalhar sem segurança social e sem horários regulares por 350 euros por mês, como determinam as vossas mais recentes alterações às leis laborais?
Quem vos disse que o meu sonho é emigrar por razões económicas?
Quem vos disse que o meu sonho é ser moço de recados?
Gostaria de dirigir algumas palavras aos meus professores e aos professores em toda a Grécia:
Professores, vocês NÃO devem recuar um único passo no vosso compromisso para connosco. Se recuarem agora na vossa luta, então sim, estarão verdadeiramente a pôr em causa o meu futuro. Estarão a hipotecá-lo.
Qualquer recuo vosso, qualquer vitória que o governo obtenha, roubará o meu sorriso, os meus sonhos, a minha esperança numa vida melhor e em combater por uma sociedade mais humana.
Aos meus pais, aos meus colegas e à sociedade em geral tenho a dizer o seguinte:
Quereis verdadeiramente que aqueles que nos ensinam vivam na miséria?
Quereis que sejamos moldados nas salas de aulas como mercadorias de produção maciça?
Quereis que eles fechem cada vez mais escolas e construam cada vez mais prisões?
Ides deixar os nossos professores sozinhos nesta luta? É para isso que nos educais, para que recusemos a nossa solidariedade?
Quereis que os nossos professores sejam para nós um exemplo de respeito por nós próprios, de dignidade e de militância cívica? Ou preferis que nos dêem um exemplo de escravidão consentida?
Finalmente, quereis que vivamos como escravos?
De amanhã em diante, todos os alunos e pais deviam ocupar-se de apoiar os professores com uma palavra de ordem: “Avançar e derrotar a tirania fascista!”
Lutemos juntos por uma educação de qualidade, pública e livre. Lutemos juntos para derrubar aqueles que roubam o nosso riso e o riso dos vossos filhos.
PS: Menciono as minhas notas do ano lectivo 2011/12, não por vaidade mas para cortar a palavra àqueles que avançarem com o argumento ridículo de que “só quero escapar às aulas”: Comportamento do aluno: “Muito Bom”. Classificação média: 20 (“Excelente”) [a nota mais alta nos liceus gregos]."

domingo, 19 de maio de 2013

"A Europa precisa de um novo Lutero"!


A Europa precisa de um novo Lutero, LA REPUBBLICA ROMA, Barbara Spinelli
"A União Europeia parece uma Igreja corrompida, governada por um país, a Alemanha, que impõe uma ortodoxia financeira dogmática. Para a colunista Barbara Spinelli, a política deve retomar o controlo da situação, através de um cisma protestante, gerado por iniciativas populares.
Este tipo de coisas só acontece na Europa à deriva, não por razões económicas, mas devido à inépcia convulsiva da sua política: estamos a falar do escândalo de um Tribunal Constitucional alemão determinar hoje a vida de todos os cidadãos da União, enquanto o Tribunal Constitucional português não tem qualquer peso. Referimo-nos a Jens Weidmann, o presidente do banco central alemão, que acusa Mario Draghi de exorbitar as suas funções – salvar o euro, com os meios à sua disposição – e declara descaradamente guerra a uma moeda a que chamamos única, precisamente porque não pertence apenas a Berlim. (...)  Algo não está a funcionar bem no percurso atual da União Europeia, em que o artigo 3º nem sequer aparece no site de Internet do BCE, talvez por temor que Berlim fique ressentida.
(...) Presentemente, a União Europeia parece uma igreja corrupta, a precisar de um cisma protestante: uma Reforma de credo e de léxico. De um plano pormenorizado (as teses de Martinho Lutero tinham 95 pontos). Só opondo-lhe uma fé política poderemos descartar o papado económico. É a única maneira de romper com a religião dominante, e Berlim terá que escolher entre uma Europa à alemã e uma Alemanha à europeia, entre a hegemonia e a paridade entre os Estados-membros. É uma escolha com que a Europa se confronta sistematicamente: Adenauer dizia, em 1958, que a Europa “não deve ser deixada na mão dos economistas”.
A ortodoxia germânica não é de hoje. Afirmou-se a seguir à guerra, com o nome de “ordoliberalismo”: como são sempre racionais, os mercados sabem perfeitamente corrigir os desequilíbrios, sem interferência do Estado. É a ideologia da “casa em ordem”: cada país expia sozinho os seus pecados (em alemão, “Schuld” significa tanto “dívida” como “culpa”). Solidariedade e cooperação internacional vêm depois, como recompensa para os países que fizeram bem o trabalho de casa. Tal como em Inglaterra, a democracia é invocada de modo falacioso: delegando pedaços de soberania, esvaziam-se os parlamentos nacionais. E é assim que o Tribunal Constitucional alemão é chamado a pronunciar-se sobre qualquer iniciativa europeia.
Se existe embuste, é porque, dentro do navio Europa, as democracias não estão todas em pé de igualdade: há sacrossantos e condenados. Em 5 de abril, o Tribunal Constitucional português invalidou quatro medidas da cura de austeridade impostas pela troika (cortes nos salários da Função Pública e nas pensões de reforma), por serem contrárias ao princípio da igualdade. O comunicado divulgado no dia seguinte pela Comissão Europeia (dia 7 de abril), ignora completamente o veredicto do Tribunal e “congratula-se” por Lisboa prosseguir a terapia acordada, recusando qualquer renegociação: “É essencial que as principais instituições políticas portuguesas permaneçam unidas no apoio” à recuperação em curso. A diferença de tratamento dos juízes constitucionais alemães e portugueses é tão desonesta que o ideal europeu vai ter dificuldade em sobreviver junto dos cidadãos da União Europeia."