sábado, 27 de abril de 2013

O Ideal Português, por Agostinho da Silva


O Ideal Português como Ideal para o Mundo, de Agostinho da Silva (Portugal)
"Três pontos, segundo Camões, sobre os quais temos que meditar, e ver como é. Ponto número 1: é preciso que os corpos se apaziguem para que a cabeça possa estar livre para entender o mundo à volta. Enquanto nós estamos perturbados com existir um corpo que temos que alimentar, temos que fartar, que temos de tratar o melhor possível, cometendo para isso muitas coisas extremamente difíceis, nessa altura, quando a nossa cabeça estiver inteiramente livre e límpida, nós podemos ouvir aquilo que Camões chama «a voz da deusa». E que faz a voz da deusa? Arranca àqueles marinheiros as limitações do tempo e as limitações do espaço. Arranca-os às limitações do tempo o que faz que eles saibam qual vai ser o futuro de Portugal. E arranca-os às limitações do espaço porque eles vêem todo o mundo ao longe, o universo que está ao longe, a deusa lho mostra, embora com o sistema errado, digamos assim, ou imperfeito, de Ptolomeu, e eles estão portanto inteiramente fora do espaço. Aquilo que foi o ideal dos gregos, e que os gregos nunca conseguiram realizar. Então o que é que aconteceu? Aconteceu que um dia houve outro português que tinha ido para o Brasil, ponto a que foram muitos portugueses porque lhes era insuportável aquilo que Portugal se tornara para poderem levar a Europa ao mundo, o menino António Vieira foi ao Brasil, cresceu no Brasil, abrasileirou-se, se assim quiser usar a expressão, e é possível que ele um dia tivesse lido o poema de Camões e tivesse lido a ilha dos amores, e dissesse: as três ideias do Camões são hoje fundamentais; o apaziguar do corpo, aquilo que é sano como corpo, termos a nossa cabeça bem aberta, bem livre do pesadelo que tantas vezes nos dá a nossa vida quotidiana, para que possamos ouvir a voz da deusa, dizia o Camões, mas o António Vieira, que se fizera jesuíta, diz que se trata de ouvir a voz de Deus. E então ele diz, para apaziguar o corpo eu tenho outros métodos, que eram naturalmente os métodos que se usavam na companhia, a meditação dos textos sagrados, os jejuns, a chibatada se era preciso chibatar-se a si próprio, etc, para que realmente da mesma maneira, a cabeça se torne limpa, e nós possamos ouvir, diz agora o Vieira, a voz de Deus, o qual me vai mostrar as coisas fundamentais do mundo, me vai fazer ultrapassar o tempo e o espaço, me vai provavelmente fazer ultrapassar esse problema de se há liberdade, se há destino, para ele chegar áquele ponto onde liberdade e destino estão inteiramente conjuntos e avançou sobre o Camões. Porque o grande defeito de Camões foi contar o que se passava na ilha dos amores mas não tira conclusão nenhuma. Nenhuma. Termina logo o poema. Ele não diz o que fizeram esses marinheiros depois de ter aquela experiência extraordinária de ter vivido na ilha dos amores. Chegaram a Lisboa e que é que fizeram? Não se sabe de nada, Camões estava cansado, já não podia cantar mais coisa nenhuma, não mais musa não mais, e ficamos por aí. Com o Vieira não aconteceu assim. Quando ele pensou à sua maneira uma ilha dos amores, ele disse agora aquilo que eu pensei e pus nos mesmos três pontos essenciais que pôs o Camões, agora isso deve servir para o mundo inteiro. Homem porque é homem, terá sempre como ideal apaziguar o corpo, ter a cabeça livre de pesadelos, para poder ouvir o quê? E já não se podia dizer a voz da deusa nem a voz de deus. A voz do universo. Entender o que o universo é na sua essência. Podemos nós pensar outra vez na ilha dos amores? Claro que sim. Podemos nós pensar, por exemplo, pedirmos a uma pessoa da rua, o que é que ela precisa para apaziguar o seu corpo, ela vai logo mexer num ponto da economia qualquer. É preciso, para que essa ilha dos amores possa existir, que o homem possa entender que o capitalismo existe, não para ficar continuamente, tendo mais lucro, contando mais juros, e pagando mais divídas pedindo mais dinheiro emprestado, mas terminar num ponto em que a economia desapareça completamente, em que haja tudo para todos. Primeiro ponto. Segundo ponto: que aí o homem possa passar à sua verdadeira vida, que é a de contemplar o mundo, ser poeta do mundo, e o mundo poeta para ele, de tal maneira que nunca mais ninguém se preocupe com fazer tal ou tal obra, mas por ser tal ou tal objecto no mundo, a identidade dele, a única. O ser único que existe no mundo entre os tais biliões de seres que pelo mundo existem. Então isso aí é alguma coisa que muita gente hoje pode ter como ideal. Muita gente tem como ideal e toda a gente, podemos dizer, tem como ideal. Com um feitio, com outro feitio, de uma maneira, ou de outra maneira, e que talvez realmente um dia tome conta de todo o mundo. " Agostinho da Silva, in 'Entrevista'

Eduardo Lourenço - sobre Portugal

"Nação pequena que foi maior do que os deuses em geral o permitem, Portugal precisa dessa espécie de delírio manso, desse sonho acordado que, às vezes, se assemelha ao dos videntes (Voyants no sentido de Rimbaud) e, outras, à pura inconsciência, para estar à altura de si mesmo. Poucos povos serão como o nosso tão intimamente quixotescos, quer dizer, tão indistintamente Quixote e Sancho. Quando se sonharam sonhos maiores do que nós, mesmo a parte de Sancho que nos enraíza na realidade está sempre pronta a tomar os moinhos por gigantes. A nossa última aventura quixotesca tirou-nos a venda dos olhos, e a nossa imagem é hoje mais serena e mais harmoniosa que noutras épocas de desvairo o pôde ser. Mas não nos muda os sonhos." (Eduardo Lourenço)

Prólogo (do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende) ao Princípe


 “Porque a natural condiçam dos Portugueses é nunca escreverem cousa que façam, sendo dinas de grande memória, muitos e mui grandes feitos de guerra; paz e vertudes, de ciência, manhas e gentilezas sam esquecidos. Que, se os escritores se quisessem acupar a verdadeiramente escrever nos feitos de Roma, Tróia e todas outras antigas crónicas e estórias, nam achariam mores façanhas nem mais notáveis feitos que os que dos nossos naturais se podiam escrever, assi dos tempos passados como d’agora: tantos reinos e senhorios, cidades, vilas, castelos, per mar e per terra tantas mil légoas, per força d’armas tomados, sendo tanta a multidão de gente dos contrairos e tam pouca a dos nossos, sostidos com tantos trabalhos, guerras, fomes e cercos, tão longe d’esperança de ser socorridos, senhoreando per força d’armas tanta parte de África, tendo tantas cidades, vilas e fortalezas tomadas e continuamente em guerra sem nunca cessar, e assi Guiné, sendo muitos reis grandes e grandes senhores seus vassalos e trebutários e muita parte de Etiópia, Arábia, Pérsia e Índias, onde tantos reis mouros e gentios e grandes senhores sam per força feitos seus súditos e servidores, pagando-lhe grandes páreas e tributos e muitos destes pelejando por nós, debaixo da bandeira de Cristos com os nossos capitães, contra os seus naturais, conquistando quatro mil légoas por mar que nenhúas armadas do Soldam nem outro nenhum gram rei nem senhor nom ousam navegar com medo das nossas, perdendo seus tratos, rendas e vidas, tornando tantos reinos e senhorios com inumerável gente à fé de Jesu Cristo, recebendo água do santo bautismo, e outras notáveis cousas que se não podem em pouco escrever.
Todos estes feitos e outros muitos doutras sustâncas nam sam devulgados como foram, se gente doutra naçam os fizera. E causa isto serem tam confiados de si, que não querem confessar que nenhuns feitos sam maiores que os que cada um faz e faria, se o nisso metessem. E por esta mesma causa, muito alto e poderoso Príncepe, muitas cousas de folgar e gentilezas sam perdi|das, sem haver delas notícia, no qual conto entra a arte de trovar que em todo tempo foi mui estimadada e com ela Nosso Senhor louvado, como nos hinos e cânticos que na Santa Igreja se cantam se verá.
E assi muitos emperadores, reis e pessoas de memória, polos rimances e trovas sabemos suas estórias e nas cortes dos grandes Príncepes é mui necessária na gentileza, amores, justas e momos e também para os que maus trajos e envenções fazem, per trovas sam castigados e lhe dam suas emendas, como no livro ao adiante se verá. E se as que sam perdidas dos nossos passados se puderam haver e dos presentes se escreveram, creo que esses grandes Poetas que per tantas partes sam espalhados não teveram tanta fama como tem.
E porque, Senhor, as outras cousas sam em si tam grandes que por sua grandeza e meu fraco entender nam devo de tocar nelas, nesta que é a somenos, por em alga parte satisfazer ao desejo que sempre tive de fazer algúa cousa em que Vossa Alteza fosse servido e tomasse desenfada|mento, determinei ajuntar algas obras que pude haver dalguns passados e presentes e ordenar este livro, nam pera por elas mostrar quais foram e sam, mas para os que mais sabem s’espertarem a folgar d’escrever e trazer à memória os outros grandes feitos, nos quais nam sam dino de meter a mão.” (Cancioneiro Geral, Prólogo de Resende dirigido ao Princípe)

domingo, 21 de abril de 2013

Cristovão Colombo: Ordem de Avis ou Ordem de Cristo?


Quem era Cristóvão Colombo? Outras questões, que não a que aqui suscito, se levantam, mas hoje restrinjo-me a esta: era Cristobal Colón, um cavaleiro da Ordem de Avis ou um cavaleiro Templário?
Sabe-se que Cristovão se sentia inspirado movido por uma missão divina, assim justificando a adopção de um nome, ao que tudo aponta, simbólico: o “portador de Jesus Cristo” (Christum ferens), o portador da luz (Christophoros) e o “repovoador” (Colón).? Porque assinava Christo Ferens, aquele que leva a Cristo? 
A primeira hipótese é secundada pelos que defendem a ascendência portuguesa de Colombo, numa família ligada à Ordem Militar de Avis e / ou de Santiago de Espada, com sangue judeu por parte do lado materno (os Zarcos) o que justificaria a bênção em hebraico, nas cartas para o seu filho. Curiosamente, Umberto Eco refere-se-lhe, em “O Pêndulo de Foucault”: “Cristovão Colombo, notoriamente um judeu português e portanto especialista em Cabala...”
Ou seria um judeu de origem espanhola? Um marrano, castiço ou “cristão novo”, se atendermos à sua documentação cheia de elementos judaicos, com características messiânicas, e de remissões para o kabalismo sefardita.
Cristóvão Colombo pertenceria, ou que tipo de ligações mantinha, à Ordem de Cristo? D. Henrique era Grão-Mestre da Ordem. Vasco da Gama também pertencia à Ordem. O sogro de Cristóvão Colombo era um Grão-Mestre. Existiam aqui afinidades muito fortes e próximas à Ordem. Seria ele também um cavaleiro templário?
Senão, a que título e com que pretexto lhe foi dado acesso aos mapas templários do Novo Mundo antes mesmo de começar a navegar? Esses mapas continham um extraordinário segredo: o da existência de um outro continente do outro lado do Atlântico! Teriam sido os nove cavaleiros que fundaram a primitiva Milícia de Cristo (que originou a Ordem do Templo) a descobri-los, nos subterrâneos do antigo Templo de Salomão! Já no mapa de Piri Reis se apontava para a Antárctida!
O Diário de Bordo da primeira viagem de Cristovão descreve o desembarque na Ilha de São Salvador, no dia 12 de Outubro de 1492. “E o Almirante desembarcou numa barca armada e Martin Alonso Pizon e Vicente Anes, seu irmão, que era o capitão da caravela Niña. O Almirante exibiu a Bandeira Real e os capitães eriçaram os estandartes com as duas Bandeiras Verdes que o Almirante levava em todos os navios como suas insígnias, com a letra F e com a letra Y; em cima de cada letra havia uma coroa, uma dum lado da cruz e a outra do outro lado da cruz.”
Cristovão Colombo usou duas bandeiras (ambas verdes, o que indicaria a sua pertença à Ordem de Avis). Na primeira, as extremidades são iguais à primeira bandeira da cruz da Ordem de Cristo (derivada da Cruz dos Templários), com os braços da cruz, em arcos convexos, irradiando do centro do círculo. Posteriormente, os arcos convexos foram cortados e tornaram-se planos ou rectilíneos. A segunda bandeira de Colon, tem as extremidades iguais à terceira Bandeira da Cruz da Ordem de Cristo, em 45 graus.
Os três S da sua assinatura criptográfica parecem idênticos ao do culto pentecostal do Paracleto, evocados pelos Cátaros e pelos Templários: Sanctus Spiritus Salvatorem! Pela Kaballah, o S repetido 3x é = a 15 vezes 3 (45), ou 4+ 5=9, número kabalístico da Terra representada pelo “Ovo de Colombo”. Em Aritmosofia 45 significa herança, legado. Teria sido a Missão do Templo legada a Cristóvão Colombo por herança da Ordem de Cristo? 15:3=5, o que, no Tarot Caldaico de São Germano, corresponde ao Mestre dos Arcanos, o Grande Hierofante, o que está entre as duas Colunas (a da Sabedoria –Jnana ou Jakin – e a do Amor – Bhakti ou Bohaz), ou seja, Cristovão Colombo seria um “Iniciador”: o continuador da Missão Templária na Península Ibérica levando-a, pelos seus estandartes, ao Novo Mundo extremo-ocidental, ao Norte e Centro da América! “Salve, Salve Deus Lustríssimo, Salve! Deus Supremo Criador do Mundo, A Ti o teu Portador da Pomba do Cristo”. “Adonai-Shadai”
Ou a justificação encontra-se nalguma ligação especial entre a Ordem de Avis e a Ordem Cristo? Será aceitável a ideia de que a Ordem São Bento de Avis, de pendão verde, criada por Afonso Henriques, pretendia ser o sustentáculo, através da Ordem de São Miguel da Ala, a Sabedoria Celeste do Santo Graal, e a do Templo de Salomão, de pendão vermelho, seria a destinada a defender e a preservar na Terra essa Sabedoria Divina, sendo que ambas Colunas-Defensivas serviriam a Ordem de Mariz?

segunda-feira, 15 de abril de 2013

A abolição do humanismo


A abolição do humanismo (blog A Terceira Noite)
"Numa reportagem publicada há dias pelo diário i sobre as consequências sociais da crise e da austeridade, alguém declarava ao jornalista: «O humanismo desapareceu e o que eu vi na Grécia foi mesmo isso, uma catástrofe social em que o humanismo desapareceu.» Por humanismo entende-se aqui, parece claro, não a corrente cultural antropocentrista mas uma valorização da solidariedade que reconhece no semelhante um ser humano idêntico a nós, diante do qual temos obrigações de respeito e proteção tal como ele as tem para connosco. E é esta solidariedade, essência, instrumento e objetivo do humanismo, que falha no justo momento em que mais dela necessitarmos, quando o empobrecimento e a perda de direitos exigiriam um esforço de entreajuda e uma luta comum ainda mais intensa. Mas os culpados da crise e os seus atuais gestores sabem bem como seria perigosa tal política de aproximação, tal lógica de combativa partilha: ela iria transformar-se num inoportuno fator de resistência às políticas que procuram impor. Como essa resistência as tornaria inexequíveis, tudo fazem para alimentar os antagonismos que fazem renascer o «homem lobo do homem», assim justificando, como teorizou o filósofo Thomas Hobbes há perto de 350 anos, a intervenção desse Estado-Leviatã, mais juiz e polícia que equilibrador e paternal.
Começa então por evitar-se a solidariedade internacional: é preciso esquecer os gregos («não somos a Grécia», insistem), esquecer os sírios, esquecer os angolanos, esquecer todos aqueles cujos problemas «não nos dizem respeito». Depois esquecer os que vivem connosco mas é fácil tornar invisíveis: os imigrantes, os ciganos, todas as minorias. Em seguida é preciso separar o mundo dos desempregados daqueles que ainda conseguem trabalho precário, mostrando este como um bem que deve ser conservado o todo o custo, se preciso for contra o companheiro do lado. Além disso, convém mostrar aos que ainda têm um emprego aparentemente seguro aquilo que os espera se não aceitarem todas as imposições. Na fase seguinte viram-se os trabalhadores do privado contra os funcionários públicos, acusados de todos os males, procura-se mostrar aos mais novos que os seus problemas começam nos direitos dos mais velhos, faz-se ver que os mais qualificados têm direitos a mais, virando contra eles os que menos qualificações possuem. De seguida, profissão a profissão, enfatizam-se as clivagens entre categorias, voltando-se toda a gente contra toda a gente, incentivando o carreirismo e o ressentimento, assim afastando os cidadãos dos territórios da reivindicação e das causas comuns. Quando este trabalho diabólico estiver terminado, já nada sobrará desse humanismo solidário que é a essência da vida em comunidade. Restando um povo de escravos dóceis e sem energias, de tanto as consumirem nos pequenos conflitos tribais, para enfrentarem em conjunto os seus algozes. É este o programa de retorno à lei da selva e de abolição do humanismo que acompanha atual «reforma» do Estado social e a projeção de uma sociedade selvagem, dominada pelo egoísmo e pela competição."

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Acórdão, coligação, e negação – assim (não) vai indo o País!


Como era de esperar pela complexidade da matéria o acórdão do Tribunal Constitucional proferido na passada sexta-feira é uma peça jurídica extensa e que suscita algumas consequências para o futuro tanto pelos “chumbos” como por outras normas consideradas não inconstitucionais. O TC considerou inconstitucionais 4 normas da Lei do Orçamento de Estado. Comecemos pelos “corte” do subsídio de férias, cuja inconstitucionalidade foi declarada na “violação do princípio da igualdade proporcional”, entendendo este que “a desigualdade justificada pela diferença de situações não está imune a um juízo de proporcionalidade e não pode revelar-se excessiva”. Significa isto que pode haver desigualdade, ou seja, o princípio até pode ser preterido desde que essa proporcionalidade não seja excessiva. E o que será, quando será, que a desigualdade deixa de ser excessiva? Que critérios podem avocar os juízes para medir, com a objectividade possível, essa excessividade? Na linha do juízo de constitucionalidade emitido em 2011 e 2012, o TC esclarece que “as razões que permitiriam reconhecer a impossibilidade de o legislador encontrar medidas sucedâneas, num contexto de urgência de obtenção de resultados… não apresentam o mesmo grau de convencimento em relação aos períodos orçamentais ulteriores…”, acrescentando que “o decurso do tempo implica um acréscimo de exigência ao legislador no sentido de encontrar alternativas que evitem que, com o prolongamento, o tratamento diferenciado se tome claramente excessivo para quem o suporta…”. E isto significa rigorosamente o quê? Que estas reduções salariais continuarão a ser ainda constitucionalmente admissíveis em 2014, e em que medida?
Quanto às consequências do acórdão para o futuro, a Associação de Aposentados, Pensionistas e Reformados vai instaurar uma acção administrativa especial nos tribunais administrativos contra a Caixa Geral de Aposentações e o Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social, questionando os novos escalões de IRS e a sobretaxa de 3,5% no mesmo imposto, a par da Contribuição Extraordinária de Solidariedade aos pensionistas e reformados, com base “na ilegalidade, por violação de norma contratual e de inconstitucionalidade, por violação dos princípios da igualdade, confiança e proporcionalidade” das normas do OE/13 que respeitam “aos novos escalões e sobretaxa de IRS e à CES”. Continua assim a discussão da caracterização destas medidas como um confisco na esfera jurídico-tributária sobre uma medida que passou no crivo do TC, sem hipotecar o recurso aos tribunais para “aferir os efeitos confiscatórios em relação a determinado contribuinte em concreto”.
Curiosamente, a encenação do Primeiro-Ministro (já classificada por Ferreira Leite como uma “dramatização”!), uma vez que o valor que está em causa representa pouco mais de 1% da despesa pública, não convenceu nem os seus críticos internos, começando estes a defender que o Executivo devia aproveitar a decisão do Tribunal Constitucional para mudar de rumo, sugerindo, uns entre dentes outros explicitamente, que este é o momento de uma concertação mais alargada, o que envolveria a participação num governo do tipo de coligação (solução que muitos defendem desde o primeiro minuto pós-eleições), a bem do interesse nacional.
Como reacção aos “chumbos” do TC, Vitor Gaspar exara um despacho das Finanças que paralisa os ministérios, os serviços do sector público administrativo, da administração central e da segurança social, proibindo-os de contrair qualquer tipo de nova despesa (exceptuando as de pessoal e as de custas judiciais), o que Marinho e Pinto não teve pudores em qualificar de “um acto retaliatório e vingativo".
Ante a paralisação do País e a “sugestão” versus única saída airosa (permitindo ao Governo manter a legislatura até ao final e poupar o Presidente a tomar medidas mais enérgicas – coisa de que ninguém o parece achar capaz – numa fase em que a sua impopularidade atinge limiares negativos nunca antes vistos) o PS vai-se fazendo ouvir, mais por militantes não-residentes da estrutura partidária e menos pelo seu “líder”, na recusa de participar numa coligação nestes moldes, dizendo-o defensor de eleições e disposto a governar o País. Posição apadrinhada por António José Seguro que se limitou a dizer, como se de uma birra de Jotinhas se tratasse, "Quem criou o problema que o resolva!"
E aqui é que a nossa perplexidade dá lugar a um desalento maior! Como é que alguém que profere afirmações destas se acha capaz de governar o País! Vamos de mal a pior, entre o Governo completamente perdido e prestes a anunciar o naufrágio e uma oposição que parece capaz de tudo, menos de se opor, e muito menos de governar. Não se vê remédio para tanta maleita! O País está infestado de criançolas, de arruaceiros e de consequentes! Houvesse um reformatório para politiqueiros e sabíamos exactamente para onde os mandar, assim vamos aturando as criaturas que se nunca foram bestiais há muito que passaram a bestas!

quinta-feira, 4 de abril de 2013


intervenção de António Costa no último " Quadratura do Circulo ". 
(transcrição manual)
"(...) A situação a que chegámos não foi uma situação do acaso. A União Europeia financiou durante muitos anos Portugal para Portugal deixar de produzir; não foi só nas pescas, não foi só na agricultura, foi também na indústria, por ex. no têxtil. Nós fomos financiados para desmantelar o têxtil porque a Alemanha queria (a Alemanha e os outros países como a Alemanha) queriam que abríssemos os nossos mercados ao têxtil chinês basicamente porque ao abrir os mercados ao têxtil chinês eles exportavam os teares que produziam, para os chineses produzirem o têxtil que nós deixávamos de produzir.
E portanto, esta ideia de que em Portugal houve aqui um conjunto de pessoas que resolveram viver dos subsídios e de não trabalhar e que viveram acima das suas possibilidades é uma mentira inaceitável.
Nós orientámos os nossos investimentos públicos e privados em função das opções da União Europeia: em função dos fundos comunitários, em função dos subsídios que foram dados e em função do crédito que foi proporcionado. E portanto, houve um comportamento racional dos agentes económicos em função de uma política induzida pela União Europeia. Portanto não é aceitável agora dizer? podemos todos concluir e acho que devemos concluir que errámos, agora eu não aceito que esse erro seja um erro unilateral dos portugueses. Não, esse foi um erro do conjunto da União Europeia e a União Europeia fez essa opção porque a União Europeia entendeu que era altura de acabar com a sua própria indústria e ser simplesmente uma praça financeira. E é isso que estamos a pagar!
A ideia de que os portugueses são responsáveis pela crise, porque andaram a viver acima das suas possibilidades, é um enorme embuste. Esta mentira só é ultrapassada por uma outra. A de que não há alternativa à austeridade, apresentada como um castigo justo, face a hábitos de consumo exagerados. Colossais fraudes. Nem os portugueses merecem castigo, nem a austeridade é inevitável.
Quem viveu muito acima das suas possibilidades nas últimas décadas foi a classe política e os muitos que se alimentaram da enorme manjedoura que é o orçamento do estado. A administração central e local enxameou-se de milhares de "boys", criaram-se institutos inúteis, fundações fraudulentas e empresas municipais fantasma. A este regabofe juntou-se uma epidemia fatal que é a corrupção. Os exemplos sucederam-se. A Expo 98 transformou uma zona degradada numa nova cidade, gerou mais-valias urbanísticas milionárias, mas no final deu prejuízo. Foi ainda o Euro 2004, e a compra dos submarinos, com pagamento de luvas e corrupção provada, mas só na Alemanha. E foram as vigarices de Isaltino Morais, que nunca mais é preso. A que se juntam os casos de Duarte Lima, do BPN e do BPP, as parcerias público-privadas 16 e mais um rol interminável de crimes que depauperaram o erário público. Todos estes negócios e privilégios concedidos a um polvo que, com os seus tentáculos, se alimenta do dinheiro do povo têm responsáveis conhecidos. E têm como consequência os sacrifícios por que hoje passamos.
Enquanto isto, os portugueses têm vivido muito abaixo do nível médio do europeu, não acima das suas possibilidades. Não devemos pois, enquanto povo, ter remorsos pelo estado das contas públicas. Devemos antes exigir a eliminação dos privilégios que nos arruínam. Há que renegociar as parcerias público-privadas, rever os juros da dívida pública, extinguir organismos... Restaure-se um mínimo de seriedade e poupar-se-ão milhões. Sem penalizar os cidadãos.
Não é, assim, culpando e castigando o povo pelos erros da sua classe política que se resolve a crise. Resolve-se combatendo as suas causas, o regabofe e a corrupção. Esta sim, é a única alternativa séria à austeridade a que nos querem condenar e ao assalto fiscal que se anuncia."