sexta-feira, 6 de julho de 2012

Falta de identidade do Tribunal Constitucional e crises para bastardos!


A verdade é que a cadeira de Direito Constitucional, nem na Faculdade de Direito, é muito valorizada, e, a grande parte dos alunos, um dia juristas, advogados, magistrados, nem lhe percebem, as demais das vezes, a serventia. O Tribunal Constitucional que o aplica, por excelência, é, também, menos e menos, reconhecido como um último reduto da mãe-democracia, e, mais a mais, como “apenas” garante da omnipresente e omnipotente atividade do Estado. Existem já vozes que defendem a sua extinção, e, em sua substituição, a criação de uma secção constitucional no Supremo Tribunal de Justiça, aproveitando, assim, para recolocar em cima da mesa a questão do método de eleição e de recrutamento dos juízes e da eficácia do sistema.
O Tribunal Constitucional declarou a inconstitucionalidade da suspensão do pagamento dos subsídios de férias ou de Natal a funcionários públicos ou aposentados, justificando a decisão, nove votos contra três, alegando que “a dimensão da desigualdade de tratamento que resultava das normas sob fiscalização” violava o princípio da igualdade, consagrado no artigo 13.º da Constituição, aplicando uma medida que “se traduzia numa imposição de um sacrifício adicional que não tinha equivalente para a generalidade dos outros cidadãos que auferem rendimentos provenientes de outras fontes” e concluiu que a diferença de tratamento era “de tal modo acentuada e significativa” que não era justificável pelas “razões de eficácia na prossecução do objetivo de redução do défice público”. “Apesar da Constituição não poder ficar alheia à realidade económica e financeira, sobretudo em situações de graves dificuldades, ela possui uma específica autonomia normativa que impede que os objetivos económico-financeiros prevaleçam, sem qualquer limites, sobre parâmetros como o da igualdade, que a Constituição defende e deve fazer cumprir”, refere o acórdão.
Mas aquele tal último reduto da defesa dos particulares sai seriamente prejudicado com aqueloutra conclusão: “atendendo a que a execução orçamental de 2012 já se encontra em curso avançado”, o TC restringiu os efeitos da declaração de inconstitucionalidade, não os aplicando à suspensão do pagamento dos subsídios de férias e de Natal, ou quaisquer prestações correspondentes aos 13.º e, ou, 14.º meses, relativos ao ano de 2012.
Repare-se que recorre a uma argumentação extra-juridica para fundamentar uma decisão que tem, tão-somente, de ser jurídica. Questões de oportunidade ou de conveniência vêm a despropósito e é, provavelmente, um reflexo da politização da decisão do TC, filha do método de eleição dos próprios juízes.
Aproveitando o jeito Até já o Primeiro Ministro vislumbrou que, assim como assim, se o pretexto é o da “igualdade”; então que se “iguale”: imponha-se o corte salarial a todos os trabalhadores!, ou seja, terá de ser encontrada uma “medida equivalente, alargada a outros portugueses”, que não especificou, a introduzir no Orçamento de Estado para 2013. Até porque para “satisfazer o compromisso solene do país” de ajustamento orçamental, “os sacrifícios não podem ficar confinados a esses cidadãos”.
Esta “igualização” é comovente! Porque vai sempre no único sentido possível: o de tornar mais pobre a classe média, reduzindo-a, acabando com ela!
E dizemos isto com sustentação. Como é que a Conta Geral do Estado de 2011 mostra que 25 gestores de 13 entidades não sofreram qualquer redução salarial? De que serviu e qual a penalização por não ter sido aplicada a decisão do segundo semestre de 2010 do corte salarial de 5% para os gestores públicos e do congelamento de prémios? De que valeu decisão em 2011 de cortes entre os 3,5% e 10 % nos salário dos funcionários públicos que recebessem mensalmente mais de 1500 euros brutos? É porque aquelas criaturas de um deus à parte não foram alcançadas pelo braço negro da crise! Mais. A Inspeção-Geral de Finanças detetou que em duas instituições houve uma “atribuição generalizada de prémios de desempenho” e que foram atribuídos carros de forma permanente a alguns funcionários, para uso regalado durante o fim-de-semana e feriados (com portagens e combustíveis pagos pelo estado). Não falamos de carrinhos de linhas!
Razão tem Fernando Sabino “Para os pobres, é dura lex, sed lex. A lei é dura, mas é a lei. Para os ricos, é dura lex, sed latex. A lei é dura, mas estica.”

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Tolerância. Amor. E a compatibilidade com a "perfeição"!?


Deixo-vos um texto triste, para reflexão.
O que leva alguns Ir.'. a criticarem tão severamente outros?  
A Primeira Carta de São João adverte: “Se alguém disser: “Eu amo a Deus”, mas aquele que odiar o seu irmão, esse é um mentiroso, pois aquele que não ama o seu irmão a quem vê, não pode amar a Deus a quem não vê.””Nós recebemos de Cristo este mandamento: “Quem ama a Deus ame também o seu irmão” (1 Jo 4, 20-21).
Nós que buscamos a perfeição (ou a perfectibilidade), enquanto reflexo da criação divina, devemos indagar-nos até que ponto, de que forma, qual a extensão e a abrangência desta almejada “perfeição”, em nós e nos outros.
Por certo que não temos em mente aquela “perfeição”, [do latim perfectione] – 1. Conjunto de todas as qualidades, a ausência de quaisquer defeitos. 2. Que atingiu o grau máximo em uma escala de valores. 3. Apuro, esmero, maestria, precisão, perícia, primor, requinte. Ou, ainda, o Ser Perfeito [do latim perfectu] – 1. Que reúne todas qualidades possíveis. 2. Que atingiu o mais alto grau em uma escala de valores; incomparável, único, sem igual. 3. Que corresponde a um modelo, conceito ou padrão considerado ideal; exemplar, modelar. 4. Executado sem defeito; primoroso, impecável. 5. Que não enseja dúvida alguma; cabal; completo; total. 6. Excelente, ótimo, irrepreensível.
O amor fraternal que temos ao nosso Ir.’. é, em essência e por natureza, um amor tolerante: Ou é um amor orgulhoso, arrogante, intolerante, na medida em que exigimos do outro o “nosso” padrão de perfeição? Se um Ir.’. se afasta de outro, porque o seu padrão de “perfeição” é outro supostamente mais alto, mais perto dos cânones etimológicos do vocábulo, é tolerante? Ensaia na sua vida essa prática de amor tolerante de aceitação e de compreensão?
"Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós” (Antoine de Saint-Exupery). “Passar” pela vida dos outros é suficiente para a dádiva da minha parca e destreinada perfeição ao outro? Vamos trilhando o caminho inóspito de perfeição possível e tropeçamos na nossa “perfeição”, tão diferente da perfeição dos outros, a que afasta? A ostraciza!? 
E a tolerância? A tal qualidade que nos leva a aceitar as diferenças dos outros na esperança egoísta de que eles assim aceitem as nossas! A solidão que, às vezes, é um caminho de vida pessoal, pode também ser um caminho maçónico. Quantos caem no adormecimento!? Talvez, numa escola de supostos livres pensadores, ainda tenhamos muito a aprender sobre o grau de perfeição que cada um deve exigir do outro e de si mesmo. E compreender que a tolerância é a ponte que nos permite estar nesta fraternidade, numa cadeia de união fortalecida. 
Sem esse amor fraternal, tolerante, a “perfeição”, enquanto parâmetro de avaliação e de ponderação entre irmãos, choca-me e pode ser uma “pedra de tropeço”! 
Recordo aqui o Hino à Tolerância, do Agostinho da Sulva: “Já será grande a tua obra se tiveres conseguido levar a tolerância ao espírito dos que vivem em volta; tolerância que não seja feita de indiferença, da cinzenta igualdade que o mundo apresenta aos olhos que não vêem e às mãos que não agem; tolerância que, afirmando o que pensa, ainda nas horas mais perigosas, se coíba de eliminar o adversário e tenha sempre presente a diferença das almas e dos hábitos; dar-lhe-ão, se quiserem, o tom da ironia, para si próprios, para os outros; mas não hão-de cair no cepticismo e no cómodo sorriso superior; quando chegar o proceder, saberão o gosto da energia e das firmes atitudes. Mais a hão-de ter como vencedores do que como vencidos; a tolerância em face do que esmaga não anda longe do temor; então, antes os quero violentos que cobardes.
Mas tu mesmo, Marcos, com que direito és tolerante? Acaso te julgas possuidor da verdade? Em que trono te sentaram para que assim olhes de cima o resto dos humanos e todo o mundo em redor? Por que tão cedo te separas de compreender e de amar? Tens a pena do rico para o pobre, dás-lhe a esmola de lhe não fazer mal; baixaste a suportar o que é divino como tu; e queres que te vejamos superior porque já te não deixas irritar por gestos ou palavras dos irmãos. Mais alto te pretendo e mais humilde; à tolerância que envergonha substitui o cálido interesse pedagógico, o gosto fraternal de aprender e de guiar; não levantes barreiras, mas abate-as; se consideras pior o caminho dos outros vai junto deles, aconselha-os e guia-os; não os deixes errar só porque os dominarias, se quisesses; transforma em forte, viva chama o que a pouco e pouco se dirige a não ser mais que um gelado desdém. (Agostinho da Silva, in 'Considerações').
A Tolerância é a justeza, a adaptação, o caminho procurado em confronto com “O aviltante conceito da perfectibilidade humana.” (Fernando Pessoa)
O espelho continua a ser o nosso maior inimigo! E se todos os espelhos de cada um forem os seus piores inimigos, então calcorrearemos as pedras do caminho sozinhos, de costas voltadas para os nossos irmãos, “orgulhosamente sós”. Jamais juntaremos as pedras! Jamais construiremos Templos! Seremos mestres construtores de muros! De muros à nossa volta, intransponíveis! Fronteiras erguidas contra os nossos irmãos? 
Teremos compreendido alguma coisa do que é Maçonaria?

"Falsidade" um conceito em evolução "real"!

"Tomado por imbecil e serve de expressão ao desrespeito. Entre os pérfidos indivíduos práticos de hoje, a mentira há muito perdeu a sua função de iludir acerca do real. Ninguém acredita em ninguém, todos sabem disto. Só mentimos para dar a entender ao outro que nele nada nos importa que não tenha necessidade dele, que nos é indiferente o que ele pensa de nós. A mentira, antigamente um meio liberal de comunicação, tornou-se hoje uma técnica de descaramento com cujo auxílio cada indivíduo espalha em seu redor a frieza sob cuja proteção ele pode prosperar (Adorno, 1993). Assim sendo defini-se o traço da falsidade como uma característica do que não tem veracidade. De fato, algumas pessoas se sentem obrigatoriamente a serem falsas, cínicas, mentirosas, canalhas, desgraçadas, pois se cultua o superficialismo humano, afetivo, estético, econômico, portanto estão distantes de Deus. Desse modo precisamos buscar apoio divino para retirar o espírito maligno que abastece o mal. Força-se uma barra para ter um nível econômico inexistente. Endivida-se para viver uma falsidade. Freqüenta-se uma igreja, mas o coração permanece sujo. Amigos são desleais, portanto nos traem pela inveja. Casam-se obrigatoriamente, uma vez que se sentem impulsionados ao cinismo social. Mostram-se superiores para os vizinhos fofoqueiros. Emagrecem-se com venenos. Tomam bomba para ficarem fortes, entretanto impotentes. Fortões dissimuladamente atacam as moças, mas são penetrados pelos peões. Desse modo, os traços das mentiras, dos engodos, das enganações, e das diversas falsas aparências humanas são pontos notórios nas relações cínicas. As esnobações sociais, políticas, econômicas, e a desfaçatez são gêneros primordiais na falta de moralidade. Tem-se a destruição de relacionamentos pelas diretrizes das mentiras dos parceiros que escondem sua homossexualidade nos banheiros públicos. Contemporaneamente vive-se em uma época em que as aparências estão em primeiríssimo lugar. Não se ama verdadeiramente, uma vez que as relações são construídas através de interesses econômicos, sociais. O orgulho a falta de moralidade, honestidade e a busca acelerada por um enriquecimento, reconhecimento superficial trazem consigo a necessidade incontrolável e quase inadiável de aparentar algo que não tem. A peste da falsidade em sua idéia central nasce da concepção do diabo e traz certos proveitos, como, por exemplo, omitir sua personalidade, sexualidade ou condição. Apresenta-se de maneira diferente para tentar levar vantagens, rentabilidade, crescimento, ascensão social. Essa falta de moralidade, amizade, companheirismo, solidariedade parece ser uma característica comum em nossa época. A ética do mundo tornou-se imoral, portanto lembrar-nos-emos de Rui Barbosa. Ele afirmou certa vez, que de tanto ver triunfar o cinismo, mentira, falsidade. Sentia-se envergonhado de ser um homem de moralidade, honestidade. Algumas pessoas que já conheci jamais poderão ter vergonha de serem honestas, pois nunca tiveram a chance. Portanto algumas criaturas vivenciam a sedução violentadora de palavras mentirosas. Atuam pela permissividade social para trapacear impunemente o outro e, em nome da rentabilidade, são conduzidos a enganar e a se permitirem ser enganados como aliados fiéis do fraudar o outro e ser enovelados na farsa de si mesmos (Caniato, 1999a). A lei que orienta a vida na sociedade do consumo é a de "enganar o bobo" (Ulloa, 2001a, 2001b)". texto de Geovane Leonardo dos Santos Braga, jornalista, mestre pela universidade federal do rio de janeiro, Professor gentilmente enviado a propósito do que os nossos "irmãos" observam neste nosso Portugal. 

sábado, 30 de junho de 2012

Cidadela - não julgues segundo a soma!


"Não hás-de julgar segundo a soma. Vens-me dizer que não há nada a esperar daqueles acolá. São grosseria, gosto do lucro, egoísmo, ausência de coragem, fealdade. Mas se me podes falar assim das pedras, as quais são rudeza, peso morno e espessura, já o não podes daquilo que tiras das pedras: estátua ou templo. Quase nunca vi o ser comportar-se como o teriam feito prever as suas partes. Se pegares em vizinhos à parte, virás a concluir que cada um deles odeia a guerra e não está disposto a abandonar o lar, porque ama os filhos e a esposa e as refeições de aniversário; nem a derramar o sangue, porque é bom, dá de comer ao cão e faz carícias ao burro, nem a roubar outrem, pois tu bem vês que ele apenas preza a sua própria casa e puxa o lustro às suas madeiras e manda pintar as paredes e perfuma o jardim de flores.
E dir-me-ás: «Eles representam no mundo o amor à paz...» No entanto, o império deles não passa de uma grande terrina onde se vai cozendo a guerra. E a bondade deles e a doçura deles pelo animal ferido e a emoção deles à vista de flores não passam de ingrediente de uma magia que prepara o tilintar das armas, da mesma maneira que aquela mistura de neve, de madeira envernizada e de cera quente prepara as grandes palpitações do coração, embora a captura não seja, como nunca é, da essência do laço. " (Antoine de Saint-Exupéry, in "Cidadela")

Iniciação, nos olhos pessonianos

"Não dormes sob os ciprestes, Pois não há sono no mundo.
O corpo é a sombra das vestes Que encobrem teu ser profundo.
Vem a noite, que é a morte, E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte, Igual a ti sem querer.
Mas na Estalagem do Assombro Tiram-te os Anjos a capa.
Segues sem capa no ombro, Com o pouco que te tapa.
Então Arcanjos da Estrada Despem-te e deixam-te nu.
Não tens vestes, não tens nada: Tens só teu corpo, que és tu.
Por fim, na funda caverna, Os Deuses despem-te mais.
Teu corpo cessa, alma externa, Mas vês que são teus iguais.
A sombra das tuas vestes Ficou entre nós na Sorte.
Não estás morto, entre ciprestes.
Neófito, não há morte." (Fernando Pessoa)

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Ser idoso em Portugal: espero e desespero!



Dados recentes revelam que cerca de metade da população portuguesa vive em situação de menor qualidade de vida. E, nalguns casos, mesmo de pobreza. Um estudo da OCDE evidencia que Portugal é um dos países onde existe maior desigualdade na distribuição do rendimento. A pergunta é se, efetivamente, há (ou não) uma co-relação entre pobreza e desigualdade. A pobreza é já, também, uma forma de exclusão social, o que significa que não existe pobreza sem exclusão social. Pese embora, o contrário não seja verdade. Existem formas de exclusão social que não implicam pobreza. O exemplo mais visível é o do isolamento social a que os idosos são remetidos, resultante não necessariamente da pobreza, mas da estrutura organizativa da sociedade, que desvaloriza o estatuto e o papel social da pessoa idosa. Mas disso falaremos outra hora. A pretexto de a economia familiar não permitir a atenção devida, opção feita entre os estudos dos filhos/netos. Ou de a harmonia familiar sair lesada com a convivência eventualmente conflituosa de gerações. Ou de, simplesmente, os filhos não terem a estrutura moral/educacional devida para devolver a dedicação prestada.
A incidência da pobreza diminui à medida que a densidade populacional aumenta, dizem os especialistas. No meio rural, a incidência de pobreza é consideravelmente maior relativamente às áreas mais urbanizadas, fator em parte devido ao elevado grau de envelhecimento populacional de algumas zonas de baixa densidade. O mundo em que vivemos depara-se com grandes problemas suscitados pelo envelhecimento populacional, desde o declínio da população ativa, ao envelhecimento da mão-de-obra, à pressão sobre os regimes de pensão e as finanças públicas, à premência de se criarem redes formais de prestação de cuidados e serviços aos idosos. Mas não esqueçamos, ainda, aliado a tudo isto, situações de maus-tratos infligidos em contexto familiar e institucional. Estudos recentes da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) apontam para uma primeira sociografia da vítima (mulher, entre os 65 e 75 anos, reformada, a residir no meio urbano) e do agressor (cônjuges, filhos do sexo masculino entre os 35-45 anos).
A definição do conceito de abuso de idosos não é consensual, nem social nem sequer juridicamente, mas é, pelo menos, certo que se trata de um comportamento destrutivo dirigido a um adulto idoso num contexto de confiança e cuja frequência (única ou regular) provoca sofrimento físico, psicológico e emocional: Para além de constituir uma séria violação dos direitos humanos. Esta é uma definição adotada pelo Conselho de Europa e pelas Nações Unidas. O conceito integra vários tipos de mau trato, do abuso físico, psicológico, material e financeiro, à negligência ativa e passiva. Todos igualmente preocupantes e reprováveis.
Os idosos tendem, na incompreensão das atitudes a que são vetados mas na tentativa de as aceitar, minimizando as expetativas de um culminar de vida com o sossego merecido, a inculcar atitudes de culpa, de baixa auto-estima, de isolamento social, de comportamentos depressivos, reforçando as suas dependências e agravando o estigma social que sentem gerado à sua volta.
Os maus-tratos às pessoas idosas são, diria que são essencialmente, um problema de Direitos Humanos. O que deve chamar a nossa atenção para essa violência, camuflada ou percetível, do dia-a-dia, explicando ao idoso que nada nem ninguém tem o direito de infligir na sua honra ou na sua pessoa qualquer tipo de destrato, negligência ou menosprezo. E denunciando à comunidade, e, sendo caso disso, às autoridades competentes, situações deste tipo.
Um país mede-se pela sua atitude para com as crianças, mas é bom que não nos esqueçamos que se mede, igualmente, pela sua atitude para com os mais velhos. A quem devemos, nada mais nada menos que a vida. Ou seja, muito do somos. A seu tempo, trataram-nos com enlevo e dedicação. Hoje, chegou a nossa vez de retribuir. É um género de justiça distributiva de afetos.
A via das políticas sociais é claramente insuficiente, importa pensar em políticas económicas que, em paralelo com as políticas redistributivas, potenciem a interrupção do ciclo persistente da vulnerabilidade e da exclusão social. Parece, a final, relativamente evidente que, em Portugal, existe uma forte relação entre desigualdade social e pobreza. A luta contra a pobreza e pela solidariedade global não pode ser travada sem primeiro se reconhecer que, independentemente dos avanços civilizacionais no desenvolvimento social e humano, a pobreza, a exclusão e as desigualdades sociais se agravaram em todo o mundo nos últimos 50 anos. Combater a pobreza e a exclusão social implica tomar consciência deste fenómeno complexo e multidimensional ponderando as principais causas que levaram à atual crise económica, financeira e social. É preciso reconhecer que a institucionalização de uma vida consumista  e sem uma orientação clara e ética da economia para as pessoas contribuiu para esta grande disparidade, agravada pela atual crise, entre muitos ricos e muito pobres, e em que os idosos estão confrontados, como nunca, com condições de subsistência não experimentadas por gerações anteriores.
Em prejuízo do princípio da transparência e da verdade, os agentes económicos, sociais e políticos acomodaram-se num comportamento aparente em que, por detrás de uma ilusória saúde de status quo, se escondia uma realidade que é, hoje e sê-lo-á, cada vez mais, uma doença crónica. Esta cedência fácil à aparência e à ilusão em nada ser viu o combate à pobreza, à exclusão e às desigualdades sociais, mas limitou-se a servir prémios de gestão e a uma redistribuição injusta do rendimento disponível, num círculo vicioso de agravamento das desigualdades sociais e da coesão económica e social.
O grande, grave, e talvez, maior, problema destes tempos críticos é ter permitido, em termos globais, que as sociedades, nomeadamente, as gerações dos tais “filhos” se endividassem face ao estímulo de um consumo incentivado pelo crédito fácil e que redundou em enormes sacrifícios para as atuais e para as gerações vindouras. Com os idosos a sofrer de permeio. Esta globalização (mercantil e não humana) agravou as desigualdades sociais, orientada numa perspetiva agressiva de mercado, e, que se tendeu – muitas vezes, conscientemente - a esquecer a pessoa humana como principal destinatária e centro principal do progresso económico e social.
Concluindo, distrairmo-nos um minuto que seja neste propósito de forte e persistente combate à pobreza e à exclusão social é já suficientemente oneroso face à dimensão quantitativa e qualitativa do fenómeno.
E a prova de que esta é uma preocupação sentida é acordar às duas da manhã para escrever estas linhas e, com o coração nas mãos, perguntar-me, como é que um animal solitário como eu acabará os seus dias numa casa em que perderá pelos cantos, de que esquecerá os recantos, e em que os livros e os seus objetos de culto serão, por fim, a sua única e certa companhia. 

"Os políticos que queremos!"


Os políticos que queremos? (do mural do Aires Pedro)
"...O actual sentimento de desencanto com os políticos vem, pelo menos em parte, deste sistema de acesso à classe. Actualmente, para aceder à vida política as formas mais seguras são as das juventudes partidárias ou, aparentemente, as que passam pelo ambiente de determinadas áreas de “formação”. Desta forma, as qualidades privilegiadas no político são sobretudo a obediência, a lealdade e a capacidade de networking. Para segundo plano ficam a capacidade intelectual e o espírito de serviço público. E o curso superior não serve para outra coisa senão para garantir o acesso ao meio e para a validação pessoal, na forma do indispensável título de “Dr.”.
Este processo de formação do político promove ainda o agravamento da situação de outsourcing das competências do Estado. Os deputados, estudantes medíocres que foram, mas conectados socialmente que são, uma vez na Assembleia, são capazes de reconhecer os antigos colegas que tiveram melhor percurso académico do que eles, e que estão agora a trabalhar em escritórios de advogados ou em consultoras. Assim, gerou-se um sistema que se auto-propaga: os futuros políticos são criados no ambiente partidário, em que a formação académica é secundária, mas em que o networking é essencial; enquanto que os indivíduos com mais capacidades intelectuais transitam para as instituições privadas e são eles que informam os governos das políticas a adoptar. Isto não só é desgastante para os cofres do Estado, como é um factor de vulnerabilidade dos governantes a ideologias exógenas. Ou seja, sendo os governantes, em geral, pessoas com fracos percursos académicos, são também facilmente influenciáveis pela opinião dos especialistas desta ou daquela área. Isto é bastante patente no contexto actual, com os economistas a disporem dos governos e a decidir as políticas de acordo com as suas ideologias, embrulhadas no brilhantismo académico e vastos conhecimentos da economia. Os políticos, inseguros, aceitam a doutrina dos especialistas. Há quem diga que temos demasiados economistas na política nacional, mas isso é uma ilusão. O que temos são bastantes economistas na sociedade que exercem a sua influência sobre os políticos, que em geral não têm o espírito crítico suficiente para contrariar os argumentos que lhes são apresentados.
Haverá maneira de corrigir esta trajectória? Parece-me difícil. Uma medida que me pareceria saudável seria a interdição das juventudes partidárias a menores de 18 anos. Felizmente, para quem esteja interessado em actividades que beneficiem o bem comum, existem inúmeras instituições e grupos de intervenção apartidários em que os jovens se podem envolver. Aderir a uma juventude partidária aos 14 anos (como Pedro Passos Coelho) tem como consequências a progressão na hierarquia política, o desleixo dos estudos e o entrincheiramento ideológico.
Acima de tudo, a política como discussão clubística – aquela que temos – é um reflexo deste entricheiramento, que gera ódios e impede discussões francas, leais e inteligentes. E só neste contexto se compreende que líderes políticos se incompatibilizem, ou que recusem determinado interlocutor do outro lado da trincheira.
Quanto à sobre-representação de alguns sectores sociais (aqui mencionei os advogados), não há muito a fazer, senão estimular o maior envolvimento político de todos (incluindo os juristas) e o reconhecimento de que também há políticos com bastante capacidade intelectual e competência. E que ser politico não tem de vir com um rótulo negativo, para que se olha com desconfiança. E possivelmente precisamos de novas formas de democracia, em que valores pessoais e competências se juntem à ideologia, em que os eleitores tenham uma palavra mais activa na escolha dos candidatos a representá-los, e em que se possa olhar para a ocupação política com admiração.
Em breve apresentarei algumas ideias a este respeito." (Prof. Jorge Miranda)