quinta-feira, 12 de abril de 2012

Maquiavel e marketing político, ou a falta dele!


Maquiavel e o marketing político, por Luis Nazaré, Jornal de Negócios
«A actual maioria ousou contrariar as regras dos compêndios de gestão estratégica e conseguiu conquistar um invejável posicionamento de mercado. Em campanha, prometeu rigor e esperança. Entregou empobrecimento e desânimo. E o mercado aceita, sem especiais manifestações de desagrado.
Há, no marketing estratégico, um conceito de difícil gestão designado por posicionamento. Trata-se, em síntese, de construir na mente do consumidor uma imagem distintiva do produto que lhe pretendemos vender, capaz de estabelecer uma relação de fidelidade comercial assente na robustez e na estabilidade da oferta de valor. Na política, passa-se o mesmo – tudo se joga na relação entre as expectativas dos eleitores e o produto oferecido pela governação. Pois bem, a actual maioria ousou contrariar as regras dos compêndios de gestão estratégica e conseguiu conquistar um invejável posicionamento de mercado. Em campanha, prometeu rigor e esperança. Entregou empobrecimento e desânimo. E o mercado aceita, sem especiais manifestações de desagrado. Será o dealbar de uma nova teoria de marketing político, adaptada às idiossincrasias nacionais, ou estaremos perante um caso de estudo etéreo, que só um contexto internacional imprevisível consegue explicar?
Na verdade, os portugueses interiorizaram um cenário de desgraça, prestando pouca ou nenhuma atenção às promessas da classe política, cientes de que os bons tempos do consumo e do crédito fácil não regressariam tão cedo. O actual primeiro-ministro negou em campanha que tivesse a intenção de eliminar os subsídios de férias e de Natal? Que importa, se todos sabiam que a sua supressão era certa? Foi mesmo uma gaffe o desencontro verbal entre governantes quanto ao período de carência? Se foi, não produziu quaisquer consequências visíveis – o facto só mereceu destaque nos debates parlamentares e nos comentários rebuscados dos analistas políticos, que o povo já percebeu o filme todo.
É este o invulgar mérito da maioria governamental. Voluntária ou involuntariamente, soube preparar um ambiente de resignação e descrença perante um contexto económico reconhecidamente hostil, umas contas públicas debilitadas e uma Europa pífia. Ao completo arrepio das teses de Maquiavel, vai distribuindo as malvadezes aos bochechos, guardando as boas notícias para mais tarde, de um só fôlego, lá para 2015. Se as houver. Aqui reside o fulcro da questão política. Os portugueses parecem estar disponíveis para mais e mais sacrifícios, conformados com o destino e indiferentes perante um futuro de que nem querem ouvir falar, mas não perderam, como nenhum povo perde, a sua noção dos limites de utilidade. O posicionamento de marketing da actual maioria governamental comporta riscos sérios – os portugueses interiorizaram a austeridade e o empobrecimento, mas dificilmente se reverão num discurso esperançoso, que intuem como táctico e desconforme com a matriz de expectativas negativas que criaram. Entre outras, é esta a dificuldade principal do ministro da Economia.
Além de circunstâncias específicas ao personagem e da emergência da crise financeira mundial, foram exactamente as dissonâncias de posicionamento político que liquidaram Sócrates. Os portugueses viam-no como um dirigente ambicioso, capaz de encetar mudanças e induzir progresso. Enquanto essa percepção durou – com políticas agressivas no domínio da ciência, um élan reformista na Administração Pública, festa nas escolas, expansão das redes viárias e diplomacia económica activa – Sócrates viu a intelligentsia nacional a seus pés e o povo confiante. Quando chegou a crise e foi necessário arrepiar caminho, tudo mudou. O quadro de referência mental dos eleitores – e o da intelligentsia lusitana, esse especialmente volátil – não estava preparado para um discurso de dificuldades. Daí à descoberta de "falhas de carácter" e a desmandos das contas públicas foi um passo. O seguinte foi a lapidação.
Patriota que sou, espero bem que o jogo do posicionamento político reverta a favor do povo e que o FMI, no seu 3º relatório sobre Portugal, se engane ao augurar tempos negros para a nossa economia. Se, por alturas de 2015, se revelar certo, será muito interessante revisitarmos Maquiavel. Caso contrário, recomendo a leitura de um bom manual de marketing estratégico.»

domingo, 8 de abril de 2012

Tetelestai!

Jesus Cristo foi crucificado no Calvário (em hebreu, Gólgota, "O Lugar da Caveira"). Muitos de nós procuram na intimidade simbólica e ritualista experimentar essa iniciação frente à caveira, morrendo para o mundo profano e abrindo dentro de nós as portas a esse extraordinário mundo novo. Esta morte, neste lugar concreto, retoma maior significado a acreditar na tradição hebraica (Orígenes, século III), que diz que Adão teria sido sepultado no Lugar da Caveira ou Gólgota, o mesmo local onde Jesus Cristo foi crucificado. Seguindo a profecia, se a humanidade morria com Adão, ela ressuscitaria com Cristo. A caveira de Adão teria sido lavada pelo sangue de Cristo para que todos os filhos de Adão fossem remidos pelo "segundo Adão". O grito proferido do alto da cruz: “Tetelestai" (“está consumado!”). Essa palavra dita nos últimos momentos em que Jesus ofereceu a Sua vida, depois de ter dito: “Pai, nas Tuas mãos entrego o meu Espírito”, são esclarecedoras quanto ao sentido que o Filho de Deus dava à sua entrega. (Tetelestai era o carimbo colocado sobre o documento de compra de um escravo depois de ser pago todo o preço. Tetelestai era esse registo legal. No primeiro século, pregava-se o documento de acusação de um preso na porta da sua cela. Os crimes de que era acusado e o castigo que lhe tinha sido imposto, estavam descritos nesse documento. Depois do preso ter cumprido a sentença, o documento era retirado da porta, e cancelado pela aposição da palavra tetelestai! O documento era-lhe então entregue, e ninguém podia voltar a acusá-lo dos mesmos crimes). Quando Jesus disse A palavra, queria dizer-nos que “a dívida está quitada”! Lembro que, naquele tempo, a palavra tetelestai era também utilizada nas campanhas militares vitoriosas. Quando um general regressava do campo de batalha, fazia marchar os seus prisioneiros de guerra pelas ruas de Roma e, ao proclamar a sua vitória, gritando: tetelestai… tetelestai. Com este grito de vitória, afirmava que o inimigo tinha sido vencido e que o seu poder havia sido quebrado: Missão terminada!) Foi esta A Sua última palavra antes de expirar na Cruz. Assim Jesus proclamou a Sua vitória sobre o inimigo: Tetelestai!! A obra da cruz foi, é e sempre será completa! Tudo que fazia parte do “tempo antigo” (período antes da Cruz) já passou – “As coisas velhas já passaram…” (2ª Coríntios 5:17). No Gólgota Jesus dividiu os tempos, pondo fim a uma era de maldições, de lei, dogmas, regras religiosas, legalismos farisaicos, acabando com as incertezas e com o medo. Ele abriu-nos as portas do Novo e Vivo Caminho que é a Nova Aliança e trouxe-nos de volta para o Reino. E assim como na visão de Ezequiel, onde um lugar de mortos se tornou um lugar cheio de vida (Ezequiel 37:1-10), o lugar da Caveira, onde Cristo foi morto, se tornou um lugar de renovação para toda a Criação. Paulo disse: “…tudo se fez novo.” (2ª Coríntios 5:17). Recriemo-nos! Reinventemo-nos! Ressuscitemos! Que O Novo Homem tome o lugar do Velho Homem que há em Nós. Vivamos a Páscoa nessa reflexão do que o Mundo exige de Nós. E morramos Nela para nascer de novo!

terça-feira, 3 de abril de 2012

Hospitaleiro, Tronco da Viúva e Páscoa

“A virtude chamada solidariedade é a união voluntária e a devoção recíproca dos homens.” (Leon Bourgeois) Diz o 22º mandamento: "Com o faminto, reparte o teu pão; aos pobre e forasteiros dá hospitalidade.“
Certo é que o Hospitaleiro - tivesse o Tronco da Viúva força e vigor - tem, nesta altura da Páscoa, um papel precioso. Ir em socorro. Ir em auxílio.
Seria bom que os Ir.'. lembrassem o ensinamento "Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! Entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus” (Mateus 7:21).
A linguagem simbólica do pão e do vinho alude a esse cuidado concreto de alimento material de que o homem carece e de que muitos Ir.'. estão privados.
Cabe a cada um de nós fazer como Melquizedeque e levar pão e vinho à mesa dos mais carenciados. A começar "em casa"!
“Quando vossos filhos vos perguntarem: Que rito é este? Respondereis: é o sacrifício da Páscoa ao Senhor (...).” (Êxodo: 12. 26-28).
Quando Deus disse a Moisés que celebrasse com pão e vinho e, também, ainda, quando, na última Ceia, Jesus comeu com os seus discípulos (Mc 14.12), estava presente aquela maravilhosa cena, na sinagoga de Cafarnaum, por época do banquete de Páscoa, que Jesus aproveitou para relevar a natureza da Sua Eucaristia:"Esforçai-vos, não pelo alimento que se estraga, e sim pelo alimento que permanece até à vida eterna. É este o alimento que o Filho do homem vos dará, porque Deus Pai o marcou com seu selo". (João 6,27). Quando o indagaram sobre a natureza deste alimento eterno, Ele respondeu:"Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim já não terá fome, e quem crê em mim jamais terá sede." (João 6,35), insistindo:"Eu sou o pão vivo descido do céu. Se alguém comer deste pão viverá para sempre. E o pão que eu darei é minha carne para a vida do mundo". (João 6,51) e esclarecendo:"Em verdade, em verdade eu vos digo: se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Quem come minha carne e bebe meu sangue tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia. Porque minha carne é verdadeiramente comida e meu sangue é verdadeiramente bebida. Quem come minha carne e bebe meu sangue permanece em mim, e eu nele." (João 6,53-56). Cristo partilhava-se assim Todo!
A ideia que nos move quando celebramos a Páscoa é a mesma a que aludimos quando reunimos à volta da mesa e partilhamos o pão e o vinho: "Farás uma mesa de madeira de acácia, cujo comprimento será de dois côvados, a largura de um côvado e aaltura de um côvado e meio. ... Porás sobre essa mesa os pães da proposição, que ficarão constantemente diante de mim." (Êxodo, 25 - 23 e 30) A acácia apela a essa união, a essa fraternidade, a essa dimensão do Todo! A partilha só pode querer significar repartir essa acácia entre mãos. Transformá-la nesse magnífica egrégora (a Cadeia de União retoma aqui Força e Vigor) e converter o símbolo em fraternidade real e efetiva.
Se a mesa do meu Ir.'. não tem pão, não tem vinho, cabe ao Hospitaleiro diligenciar para o milagre dos pães se opere.
O pacto que o Cordeiro de Deus fez connosco ("Selarei com eles um Aliança Eterna..." (Jr 31,39)) foi o de repartir e o de partilhar da sua própria Vida e Morte, tornando-se Ele mesmo a Nossa Mesa.
O hospitaleiro (função em L.'. tão esquecida e menosprezada) assume aqui e agora uma dimensão especial, a de prover, com o Tronco da Viúva, esse pão e esse vinho. A de se tornar a pomba de Cristo, a de ser seu emissário, transportando no bico aquela acácia da solidariedade, que há-de ser o sustento da mesa dos nossos Ir.'..
Ser maçon não é, nesta matéria, uma atitude meramente paliativa, é uma atitude de preocupação, de prevenção e de cuidado.
Que o Hospitaleiro seja o Pão, o Vinho. Que faça do Tronco a mesa farta da Eucaristia. Que seja Amor!

domingo, 25 de março de 2012

Certezas, precisam-se!

«Preciso urgentemente de adquirir meia dúzia de valores absolutos, inexpugnáveis e impenetráveis, firmes e surdos como rochedos.
Preciso urgentemente de adquirir certezas, certezas inabaláveis, imensas certezas, montes de certezas, certezas a propósito de tudo e de nada, afirmadas com autoridade, em voz alta para que todos oiçam, com desassombro, com ênfase, com dignidade, acompanhadas de perfurantes censuras no olhar carregado, oblíquo.
Preciso urgentemente de ter razão, de ter imensas razões, montes de razões, de eu próprio me instituir em razão.
Ser razão!
Dar um soco furibundo e convicto no tampo da mesa e espadanar razões nas ventas da assistência.
Preciso urgentemente de ter convicções profundas, argumentos decisivos, ideias feitas à altura das circunstâncias.
Preciso de correr convictamente ao encontro de qualquer coisa, de gritar, de berrar, de ter apoplexias sagradas em defesa dessa coisa.
Preciso de considerar imbecis todos os que tiverem opiniões diferentes da minha, de os mandar, sem rebuço, para o diabo que os carregue, de os prejudicar, sem remorsos, de todas as maneiras possíveis, de lhes tapar a boca, de lhes cortar as frases no meio, de lhes virar as costas ostensivamente.
Preciso de ter amigos da mesma cor, caras unhacas, que me dêem palmadinhas nas costas, que me chamem pá e me façam brindes em almoços de camaradagem.
Preciso de me acocorar à volta da mesa do café, e resolver os problemas sociais entre ruidosos alívios de expectoração.
Preciso de encher o peito e cantar loas, e enrouquecer a dar vivas,
de atirar o chapéu ao ar, de saber de cor as frequências dos emissores.
O que tudo são símbolos e sinais de certezas.
Certezas! Imensas certezas! Montes de certezas! Pirinéus, Urais, Himalaias de certezas!» (António Gedeão)
E preciso disto com urgência!

A Jota do PSD contra os direitos adquiridos - Volta Sá Carneiro!

Ainda que se chamem empreendedores (do PSD), a imagem da JSD no face levantou burburinho. Ostensivamente contra os direitos adquiridos. Nem critico o PSD por isto que Jotas são sempre jotas, com aquela quota de arrogante sapiência que caracteriza os vinte anitos. Admira-me a forma clara como mostram o que pretendem fazer do partido - aquele a que pertenceu Sá Carneiro e que hoje tanto o entristeceria. Sá Carneiro, aquele que elevou a lei a inderrogabilidade dos 13º e 14º mês - Portugal, a viver a mais violenta crise de valores e direitos sociais (com a classe média a desaparecer e a dar lugar a uma nova classe de pobres e os pobres a falecerem sem abrigo) tem uma casta de gente nova que vive e passa ao lado de tudo isto. É uma espécie de betinhos que vive acima da estratosfera da normalidade- Taxa de desemprego a crescer a níveis intimidativos ("oportunidades para todos"). Efeito da precariedade a fragilizar a estrutura de sobrevivência pessoal e familiar a pretexto da "flexibilidade laboral". Desigualdade económica a marcar um novo espaço ("empreendedorismo"). 11% dos trabalhadores a receber salário mínimo (485 euros). Salário médio entre os 700-800 euros. Revogação do despacho que obrigava à recolha dos dados relativos à greve (que nada interessam numa altura em que se prevê maior número de greves e de grevistas). Criminalização do protesto de greve (entrei em estado de choque quando ouvi deputados do PS dizerem, alto e bom som, que o PS não é um partido de protesto!). Adopção de medidas autoritárias e austeritárias de resultados evidentes ("novas soluções"). Bancos a ter acções de salvamento à custa da coisa pública e do nosso bolso, com cidadãos a entregar casas a maior ritmo que a comprá-las!). Destruição do Estado social e consequências à vista na vida dos mais fragilizados. A própria democracia e ideia de coesão democrática a caírem por terra. Temos, enfim, os Jotas. O rosto-espelho do que nos espera. Laranjinhas que se supõem já laranjas, mas que amargam! Amigos laranjas a indignarem-se com esta tropa quanto Sá Carneiro se indignaria!
A imagem já desapareceu do facebook da JSD. Esta veio do Jugular, via facebook do Rui Bebiano. A imagem é a capa da moção da JSD ao congresso do PSD.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Semelhanças e coincidências

Descobrir as diferenças das “ditaduras das Finanças”

Os politólogos vão reunindo consenso sobre o peso do poder da ala norte do Terreiro do Paço e comparam este poder ao do período 1928-1932, quando Oliveira Salazar assumiu a pasta das finanças para tomar conta das contas públicas. O “fascismo de cátedra” veio acompanhado pela «ditadura financeira» (1928-1932), naquele que foi o mote enunciado na tomada de posse de Salazar: “Sei muito bem o que quero e para onde vou, mas não se me exija que chegue ao fim em poucos meses.”

Pedro Passos Coelho surge, com requintes de marketing político a provar o fado, a saudade, e ate com toques sebastianistas. Para quem via em Sócrates o mancomunado da pátria, este era o rosto da sensatez e da concórdia. Como na vida, também na política, a falta de génio é muito confundida com “sensatez” e a habilidade para estar bem com deus e com o diabo, contrariando o sábio princípio de que “Ninguém pode servir a dois senhores” (Mateus 6;24), roça de perto a qualidade de cordato (até a oposição é “cordata”, tanto que os deputados socialistas pediram hoje a António José Seguro mais “firmeza”, pedido que, tendo a firme impressão e convicção, ficará em águas de bacalhau). Enganos os dos portugueses quando viram no actual Primeiro Ministro “perfil” de redentor, sendo que este parece mais “rendido” que isso, na companhia de outros de quem se esperaria maior firmeza e que também não estão para ganhar cabelos brancos à conta de “discórdias”.

Os actuais pesos pesados (se bem que o Álvaro vai ficando mais leve, levinho, levezinho), a mando da (dês)governação desta nova ditadura financeira tanto são o ai-jesus da política social-democrata (que me perdoem os sociais democratas que estão mais contra Passos Coelho do que outros menos “firmes”!) como o diabo a sete das hostes do partido da seta para cima.

A coberto do diapasão da troika, ergue-se um novo poder. Mais de 80 anos depois, retoma-se a política do Ministério das Finanças empossado em 1928.

É agora sabido e aceite que as quatro regras de ouro do Governo plagiam as do velho do restelo:

a) Cada ministério compromete-se (com toda a pirâmide competencional e dirigente cheia de dores por conta da Lei dos Compromissos – a Lei nº 8/2012, de 21 de Fevereiro, “Lei dos Compromissos e dos Pagamentos em Atraso” ameaça paralisar ora por inabilidade, ora por incompreensão, ora pela sua genética inaplicabilidade em sectores que exigem uma gestão mais enérgica) a limitar e a organizar os seus serviços dentro da verba global que lhes seja atribuída pelo Ministério das Finanças, assim numa espécie de guilhotina que colocará, a breve prazo, em estado vegetativo muitos serviços e organismos;

b) Que as medidas tomadas pelos ministérios, com repercussão direta nas receitas ou despesas do Estado, serão antes discutidas e ajustadas com o Ministério das Finanças, sob a sua voz e comando ditatorial;

c) Que o Ministério das Finanças pode opor o seu "veto" a todos os aumentos de despesa corrente ou ordinária, e às despesas de fomento para que se não realizem as operações de crédito indispensáveis, tal como uma eminência parda;

d) Que o Ministério das Finanças se compromete a “colaborar” (quero, posso e mando) com os ministérios nas medidas relativas a reduções de despesas ou arrecadação de receitas, para garantir uma organização segundo critérios uniformes.

Quatro alíneas que não saíram da cabecinha impreparada do Primeiro Ministro mas de António de Oliveira Salazar. Ditas, como verdades absolutas, na sua tomada de posse como ministro das Finanças. Palavras coincidentes, pensamentos semelhantes, acções idênticas.

“Ditadura de doutores” foi a expressão que o presidente do Conselho entendeu própria para qualificar o Estado Novo, consagrada, como formulação doutrinária salazarista, no discurso que proferiu na abertura dos trabalhos do III Congresso da União Nacional que se realizou em Coimbra, no ano crítico para o regime de 1951.

Este doutor “jota” vai pelas mesmas ideias (pensar que no caso do Pedro, entrou para a JSD por causa de um campeonato de cartas no tedioso ano de 1978), mas, “seguramente”, com pouca sapiência e convicção, apesar do brilhante currículo académico ((2007-2009) Administrador Executivo da Fomentinvest, SGPS, SA; (2007-2009) Presidente da HLC Tejo,SA; (2007-2009) Administrador Executivo da Fomentinvest; (2007-2009) Administrador Não Executivo da Ecoambiente,SA; (2005-2009) Presidente da Ribatejo, SA; (2005-2007) Administrador Não Executivo da Tecnidata SGPS; (2005-2007) Administrador Não Executivo da Adtech, SA; (2004-2006) Director Financeiro da Fomentinvest,SGPS,SA; (2004-2009) Administrador Delegado da Tejo Ambiente, SA; (2004-2006) Administrador Financeiro da HLC Tejo,SA.)

Pedro Passos Coelho vai-nos mostrando (quem não se lembra das mais recentes palavras de Otelo Saraiva de Carvalho?) que " A Democracia é difícil e exigente”. Mas, parafraseando aquele grande social-democrata de quem nos lembramos – neste caso, sim, com saudade – “dela não nos demitimos." (Francisco Sá-Carneiro)

Até porque os portugueses de hoje, como antanho, mantém o sangue na guelra. E, face aos confrontos a que assistimos em dia de greve geral, parece mesmo que a expressão não está de todo desajustada.

segunda-feira, 19 de março de 2012

"Ser gente" - por Adão Cruz

adão cruz num artigo que recomendo sobre "SER GENTE"! (Aventar)
«Quando eu era criança, diziam-me os meus pais que eu tinha de fazer tudo para ser gente. Ser gente? Mas o que é ser gente?
Ao ver hoje o que se passa à nossa volta, ao ver a deterioração mental, a total ausência de escrúpulos, o desprezo da honra e da dignidade, a proliferação de criminosos, corruptos e vigaristas de toda a espécie, mais evidentes nos estratos superiores da sociedade e nos sectores da Administração e do empresariado, de onde deveria vir o exemplo e não o assalto miserável a quem trabalha, eu entendo o que os meus pais quereriam dizer, com o ser gente.
Ser gente seria, porventura, ir mais além do que trabalhar com seriedade e honestidade. Ser gente pressuporia a construção de alguma coisa dentro de nós e fora de nós que assenta, a meu ver, em quatro pilares fundamentais:
1 – O pensamento. O pensamento é o suporte mais poderoso e a armadura mais forte do homem, a mágica força da sua criatividade e da sua razão de ser. Sem pensamento o homem não pode ser gente, o homem não passa de um céu brumoso, sem ponta de sol. Por isso o pensamento tem tantos inimigos! São inimigas todas as inúmeras formas de anestesia mental, falsamente lúdicas, falsamente festivaleiras, falsamente religiosas, falsamente futebolísticas, levando a sociedade à ignorância, através de uma espécie de coma vigil que a impede de raciocinar. É inimigo o vazadouro de lixo mental da televisão, com que a sociedade vai enchendo a disquete da sua metacultura. Inimiga a perversão mediática da política, que deveria ser a nobre arte de uma verdadeira democracia participativa, inimiga a política pornografada em degradantes guerras de interesses que escamoteiam os verdadeiros problemas nacionais, inimiga a política atafulhada no maior lamaçal de corrupção de sempre.
2 – O segundo pilar do alto edifício que é ser gente decorre do primeiro e chama-se cultura. Não se trata da cultura do enciclopedismo balofo, somatório de vagos conhecimentos, empilhamento de ideias improdutivas, a cultura-cassete dos tempos de hoje, a cultura-espectáculo, mas sim a cultura do dia-a-dia, a cultura autêntica da dignidade da vida, a cultura irrepreensível do percurso.
3 – O respeito pelos outros constitui o terceiro pilar. Simplesmente, não há respeito pelos outros se não houver respeito por nós próprios. Quem não se respeita a si mesmo não pode respeitar os outros. E quem tem respeito por si próprio não pode ser falso, corrupto, ladrão, indigno, especulador, manipulador de pessoas e ideias, criminoso, traficante e sabujo. O respeito dos outros é o espelho de nós próprios.
4 – O quarto pilar desta edificação é a solidariedade, a solidariedade no seu sentido global, já que a solidariedade pontual, ainda que louvável, não conduz a nada em termos sociais. É o caso da caridade, que não sendo de forma alguma negativa, pode ter, ao contrário do que acontece com a justiça, efeitos nefastos quando pregada como fim em si mesma. O primeiro passo da solidariedade está no entender da indispensabilidade da justiça social e no seu consciente reconhecimento como prioridade das prioridades, a todos os níveis. O segundo passo reside, por parte do cidadão, no cumprimento correcto da lei, no cumprimento escrupuloso e competente dos seus deveres de cidadania, no mais correcto exercício da sua profissão e da missão de que cada um está incumbido. Viver dos outros, implica viver para os outros.
É triste reconhecermos que uma parte dos homens de hoje, dos homens que mandam, dos homens que podem, dos homens que estão à frente de governos e de instituições de alta responsabilidade não são gente, nunca foram gente nem para lá caminham. São verdadeiros exemplares da mediocridade e da ausência de formação e de escrúpulos, a ocupar grandes e rendosos postos, arremedos de gente, excrescências malignas da sociedade, contrafacções da honra e da dignidade, são a parte podre da humanidade. A epidemia de corruptos é disso exemplo, e o que conhecemos é a ponta do iceberg.
A esses, os que se apresentam como cabotinos deste palco da vida, para os que não reconhecem a sua inutilidade e dilatam dia a dia a sua perversidade, e pensam que a roubar é que são grandes e que a viver à grande e à francesa à custa da miséria e do trabalho dos outros é que estão acima do mundo e do homem comum, eu lembro que no seu estômago já não cabe mais nada e nos seus cofres o dinheiro já não passa de entulho. Ainda bem que existe a morte, o único mecanismo democrático da vida.»