segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Ingratidão e falta de memória da Alemanha ante a Grécia! - Os Países também têm memória (selectiva)!

Ingratidão e falta de memória, por Sérgio Soares, Ionline
«A Alemanha regista a pouco honrosa distinção de ter entrado em bancarrota em 1920 e em 1953. Da última vez, Berlim contou com a ajuda financeira da Grécia.
A ingratidão dos países, tal como a das pessoas, é acompanhada quase sempre pela falta de memória. Em 1953, a Alemanha de Konrad Adenauer entrou em default, falência, ficou Kaput, ou seja, ficou sem dinheiro para fazer mover a actividade económica do país. Tal qual como a Grécia actualmente.
A Alemanha negociou 16 mil milhões de marcos em dívidas de 1920 que entraram em incumprimento na década de 30 após o colapso da bolsa em Wall Street. O dinheiro tinha-lhe sido emprestado pelos EUA, pela França e pelo Reino Unido.
Outros 16 mil milhões de marcos diziam respeito a empréstimos dos EUA no pós--guerra, no âmbito do Acordo de Londres sobre as Dívidas Alemãs (LDA), de 1953. O total a pagar foi reduzido 50%, para cerca de 15 mil milhões de marcos, por um período de 30 anos, o que não teve quase impacto na crescente economia alemã.
O resgate alemão foi feito por um conjunto de países que incluíam a Grécia, a Bélgica, o Canadá, Ceilão, a Dinamarca, França, o Irão, a Irlanda, a Itália, o Liechtenstein, o Luxemburgo, a Noruega, o Paquistão, a Espanha, a Suécia, a Suíça, a África do Sul, o Reino Unido, a Irlanda do Norte, os EUA e a Jugoslávia. As dívidas alemãs eram do período anterior e posterior à Segunda Guerra Mundial. Algumas decorriam do esforço de reparações de guerra e outras de empréstimos gigantescos norte-americanos ao governo e às empresas.
Durante 20 anos, como recorda esse acordo, Berlim não honrou qualquer pagamento da dívida.
Por incrível que pareça, apenas oito anos depois de a Grécia ter sido invadida e brutalmente ocupada pelas tropas nazis, Atenas aceitou participar no esforço internacional para tirar a Alemanha da terrível bancarrota em que se encontrava.
Ora os custos monetários da ocupação alemã da Grécia foram estimados em 162 mil milhões de euros sem juros.
Após a guerra, a Alemanha ficou de compensar a Grécia por perdas de navios bombardeados ou capturados, durante o período de neutralidade, pelos danos causados à economia grega, e pagar compensações às vítimas do exército alemão de ocupação. As vítimas gregas foram mais de um milhão de pessoas (38 960 executadas, 12 mil abatidas, 70 mil mortas no campo de batalha, 105 mil em campos de concentração na Alemanha, e 600 mil que pereceram de fome). Além disso, as hordas nazis roubaram tesouros arqueológicos gregos de valor incalculável.
Qual foi a reacção da direita parlamentar alemã aos actuais problemas financeiros da Grécia? Segundo esta, a Grécia devia considerar vender terras, edifícios históricos e objectos de arte para reduzir a sua dívida.
Além de tomar as medidas de austeridade impostas, como cortes no sector público e congelamento de pensões, os gregos deviam vender algumas ilhas, defenderam dois destacados elementos da CDU, Josef Schlarmann e Frank Schaeffler, do partido da chanceler Merkel. Os dois responsáveis chegaram a alvitrar que o Partenon, e algumas ilhas gregas no Egeu, fossem vendidas para evitar a bancarrota.
“Os que estão insolventes devem vender o que possuem para pagar aos seus credores”, disseram ao jornal “Bild”.
Depois disso, surgiu no seio do executivo a ideia peregrina de pôr um comissário europeu a fiscalizar permanentemente as contas gregas em Atenas.
O historiador Albrecht Ritschl, da London School of Economics, recordou recentemente à “Spiegel” que a Alemanha foi o pior país devedor do século xx. O economista destaca que a insolvência germânica dos anos 30 faz a dívida grega de hoje parecer insignificante.
“No século xx, a Alemanha foi responsável pela maior bancarrota de que há memória”, afirmou. “Foi apenas graças aos Estados Unidos, que injectaram quantias enormes de dinheiro após a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, que a Alemanha se tornou financeiramente estável e hoje detém o estatuto de locomotiva da Europa. Esse facto, lamentavelmente, parece esquecido”, sublinha Ritsch. O historiador sublinha que a Alemanha desencadeou duas guerras mundiais, a segunda de aniquilação e extermínio, e depois os seus inimigos perdoaram-lhe totalmente o pagamento das reparações ou adiaram-nas. A Grécia não esquece que a Alemanha deve a sua prosperidade económica a outros países. Por isso, alguns parlamentares gregos sugerem que seja feita a contabilidade das dívidas alemãs à Grécia para que destas se desconte o que a Grécia deve actualmente.»

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Dança com os gregos, segundo Pacheco Pereira

«Liberty for wolves is death to the lambs» disse Isaiah Berlin.
É o pensamento que suscita o artigo "Dançar com os gregos", do José Pacheco Pereira.
«Dancem, dancem… que isto um dia acorda muito torto. Muito torto mesmo.
Os gregos vão ter mais um plano irrealista de “ajustamento”. Se fosse apenas um plano de “ajustamento”, vá que não vá. Mas é um plano irrealista, por isso é uma receita para o desastre, ou melhor, para a continuação do desastre. Obrigar os gregos a destruirem parte da sua economia que, mal ou bem ainda funciona, para baixar a dívida de 160% para 120,5% até 2020, é uma impossibilidade que pode atrair os partidários do “economês”, mas põe os cabelos no ar do cidadão “senso-comunês”. Diga-se de passagem, que nós não podemos falar muito porque vamos assinar um “pacto orçamental” com idênticas medidas irrealistas.
Vão ter uma variante do gauleiter, ou seja, no eufemismo tecnocrático, vão ter uma “presença permanente" para os vigiar. São eles que vão governar a Grécia em nome dos credores, o povo grego passa a sujeito e súbdito. Há quem diga “é bem feito” porque andaram a viver à custa do que não tinham. Diga-se, mais uma vez, de passagem que o mesmo se diz de nós, lá fora e cá dentro. Mas quem diz que “é bem feito” devia ser declarado inimputável, porque não sabe o que diz e em que caldeirão de feitiços está a meter a colher.
Vão ter que mudar a Constituição á força, o que é o supremo vexame para quem acha que as Constituições são mais do que um textozinho precário e que mexer nelas é intrinsecamente um elemento de soberania nacional. Nós também não podemos falar muito porque aceitámos o mesmo diktat. O objectivo é incluir na Constituição uma “regra da prioridade absoluta ao pagamento da dívida”, um absurdo constitucional, uma maneira de afixar na porta da Grécia que esta já teve a visita do cobrador de fraque e este obrigou-a, por escárnio, a anunciar isso numa tabuleta.»

Equivocos de poder - por Inês Pedrosa

Equívocos do poder, por Inês Pedrosa, Sol
«Austeridade não é sinónimo de autoridade. A austeridade pode impor-se, mas só será eficaz se for consequência de uma autoridade reconhecida como tal por aqueles que sofrem a imposição.
Recordo muitas vezes a história de um jornalista que, viajando de carro com um membro do Governo na Roménia de Ceausescu, o avisou de que estavam a entrar por uma rua de sentido proibido. A resposta do governante foi esta: «On peut tout: on a le pouvoir» (Podemos tudo: temos o poder). Felizmente o tempo veio demonstrar a falsidade escandalosa desta afirmação.
Há demasiados países cujos governantes estão convictos de que o poder é uma distinção suprema que lhes permite todos os atropelos sobre os outros.
Mesmo nas democracias, há inúmeros redutos (normalmente, os que a um olhar turístico parecem mais bucólicos) onde a vida real funciona assim. Existem vilas onde o maior amigo do homem que espanca a mulher é o chefe da Polícia, e municípios onde só se cumprem as ordens dos senhores que detêm o poder.
Com uma ressalva importante: se em democracia as coisas funcionam assim, é porque a populaça cala, acata, consente – na esperança do favorzinho futuro.
A autoridade autêntica é feita de exemplo e acto – nunca de queixumes e culpabilizações. Não basta ganhar eleições para se conquistar autoridade – aquilo a que as vitórias eleitorais comprometem os vencedores é a merecerem ser respeitados como líderes.
A linguagem tem a importância de um enunciado de exame: pode ser estimulante, aborrecida, clara ou confusa – mas exige resposta, e a resposta, em política, exprime-se através da acção, ética em movimento.
Muito mais do que simplesmente ouvir, a capacidade de escutar é essencial a um líder, seja qual for a área da liderança. Vivemos uma era de lideranças múltiplas e interactivas – o que devia significar melhores ideias e um acentuado desenvolvimento. Na ciência e nas artes, essa multiplicação de competências cruzadas tem sido extraordinariamente criativa e rentável.
Pelo contrário na política assistimos a um declínio de ideias e eficiência radicalmente devastador.
Porquê? Porque ao desmoronar das ilusões comunistas se sucedeu um deslumbramento bacoco com as aparentemente infinitas capacidades de prestidigitação do capitalismo.
Um pouco de conhecimento de História bastaria para acalmar a febre do ouro que atacou fatalmente os yuppies do fim do milénio passado – mas, na infinita arrogância que a candura arrasta consigo, eles prescindiram de perder tempo e ganhar rugas debruçados sobre os alfarrábios de História (já para não falar dos de Filosofia, que gastariam ainda mais tempo e contenderiam com o nervosismo da ânsia de sucesso).
Ao contrário do que se pensava, não foi a sida a peste do fim do século – essa, graças aos cientistas, acabou por se tornar uma doença crónica entre muitas outras. E a devastação física e afectiva que causou acabou por convocar as pessoas para esse fundamento moral da existência que é o amor, nas suas múltiplas modalidades. A sida teve pelo menos essa consequência regeneradora: a de levar as pessoas a serem solidárias e a aprenderem a olhar o outro com compaixão (no seu sentido original de paixão partilhada).
O caos financeiro mundial provocado pela genuflexão da política face à especulação financeira não parece ainda ter qualquer efeito no pensamento e no rumo dos líderes políticos democráticos.
Não perceberam o bê-á-bá do funcionamento das sociedades, nem sequer esta coisa elementar: a economia é um meio ao serviço de um fim, que é a dignidade das populações.»

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Zeca - de novo!

ZECA – A CANÇÃO

25 anos volvidos sobre a sua morte, “o rosto da utopia” Zeca Afonso suscita-nos a reflexão sobre o momento presente. Em “As Memórias de uma aula de Zeca Afonso em Setúbal, em 1967 (Hélida Carvalho Santos), Zeca recusava-se a ser cúmplice paralisado e indiferente da “fantochada sem interesse” própria do regime salazarista.Num claro momento em que o clima nacional se presta a desânimos e a desilusões o Zeca tem esse dom de despertar em nós a inquietude com tom de revolta. Fazem-nos falta as suas canções com nuances de gritos manchados de dor. A dor do que leva e ao que conduz a falta do pão na mesa.

Haveria, na altura, mais razões para se dizer “O que é preciso é criar desassossego. Quando começamos a criar álibis para justificar o nosso conformismo, então está tudo lixado! (…) Acho que, acima de tudo, é preciso agitar, não ficar parado, ter coragem, quer se trate de música ou de política. E nós, neste país, somos tão pouco corajosos que, qualquer dia, estamos reduzidos à condição de ‘homenzinhos’ e ‘mulherzinhas’. Temos é que ser gente, pá!”? (entrevista a Viriato Teles, in «Se7e», 27/11/85).

E, contudo, hoje, ante o silêncio e o conformismo de um povo que sangra e que sofre sem um ai e sem um ui as suas canções retomam força e propriedade.

Essa voz do silêncio e esse conformismo suscitam-nos alguma tristeza.

Poderemos dizer, como ele “Não me arrependo de nada do que fiz. Mais: eu sou aquilo que fiz. Embora com reservas acreditava o suficiente no que estava a fazer, e isso é que fica.”? (entrevista a Viriato Teles, in «O Jornal», 27/4/84).

Cremos que não. O peso da omissão custa-nos tanto quanto lhe custava a ele a omissão de um povo constrangido pela opressão externa, a par da interna. Os gritos que hoje se ouvem comovem-nos? Ou esbarram na cortina do silêncio?

“Quando as pessoas param há como que um pacto implícito com o inimigo, tanto no campo político, como no campo estético e cultural. E, por vezes, o inimigo somos nós próprios, a nossa própria consciência e os alíbis de que nos servimos para justificar a modorra e o abandono dos campos de luta” (dizia ele ainda na mesma entrevista).

É talvez com este registo que nos devemos demorar.

Talvez devêssemos demorar-nos na enormidade da força de uma canção.

Talvez devêssemos gritando a cantar.

Talvez devêssemos Ser, de novo, “O rosto da utopia”.

Como o Zeca.

Afinal, já lá vão 25 anos. E hoje o seu grito é o nosso grito. Há que fazer dele a nossa canção.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Dia Internacional da Lingua Materna - mensagem da Directora-Geral da Unesco

No dia internacional da língua materna, aqui fica a mensagem da Directora-Geral da UNESCO.
«Nelson Mandela disse um dia que “se falares com um homem numa língua que ele entenda, a informação vai para a sua cabeça. Se falares com ele na sua própria língua, a informação vai para o seu coração”. A linguagem dos nossos pensamentos e das nossas emoções é o activo mais valioso que temos. O multilinguismo é nosso aliado na procura de garantir educação de qualidade para todos, na promoção da inclusão e no combate à discriminação. A construção de um diálogo genuíno é baseada no respeito pelas línguas. Cada representação de uma vida melhor, cada objectivo de desenvolvimento é expressado numa língua com palavras específicas que animam e comunicam esse objectivo. As línguas são quem nós somos; ao protegê-las estamos a proteger-nos a nós próprios. Há 12 anos que a UNESCO comemora o Dia Internacional da Língua Materna e que canaliza energias para a protecção da diversidade linguística. Esta décima-terceira comemoração é dedicada ao multilinguismo para uma educação inclusiva. O papel dos investigadores e o impacto de políticas de implementação do multilinguismo têm provado que as pessoas percebem intuitivamente que a diversidade linguística acelera o progresso para alcançar os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio e em particular o objectivo de Educação para todos. O uso da língua materna na escola é um remédio poderoso contra a iliteracia. No entanto, o desafio reside em implementar isto na sala de aula. Grupos de população excluídos, tais como povos indígenas, são muitas vezes aqueles que são ignorados pelos sistemas de educação. Dar-lhes a oportunidade de aprender, desde os primeiros anos, na sua língua materna e depois nas línguas nacionais, oficiais ou outras línguas, promove igualdade e inclusão social. A Semana de Aprendizagem Móvel da UNESCO tem demonstrado que o uso de tecnologias móveis na educação é um excelente meio de melhorar a educação inclusiva. Associadas ao multilinguismo, estas tecnologias aumentam em 10 vezes a nossa capacidade de acção. Vamos aproveitá-las ao máximo. Graças aos novos media, a nossa geração tem a vantagem de dispor de uma praça pública mundial na internet: não pode aceitar um empobrecimento de línguas. A diversidade linguística é a nossa herança comum. É uma frágil herança. Quase metade das mais de 6000 línguas faladas no mundo pode desaparecer no final do século. O Atlas das Línguas do Mundo em Perigo, da UNESCO, demonstra a evolução desta luta. A perda de línguas empobrece a humanidade. É um retrocesso na defesa dos direitos a ser ouvido, a aprender e a comunicar. Para além disso, cada língua também transmite herança cultural que aumenta a nossa diversidade criativa. A diversidade cultural é tão importante como a diversidade biológica na natureza. As duas estão intimamente ligadas. Algumas línguas de povos indígenas carregam consigo conhecimentos sobre biodiversidade e gestão de ecossistemas. Este potencial linguístico é uma vantagem importante para o desenvolvimento sustentável e merece ser partilhado. A UNESCO também tenciona dar destaque a esta mensagem na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável no Rio de Janeiro. A vitalidade das línguas depende de todos aqueles que as falam e que se unem para as proteger. A UNESCO presta homenagem a todos eles e procura garantir que as suas vozes são ouvidas quando se debatem e desenham políticas de educação, desenvolvimento e coesão social. O multilinguismo é um recurso vivo, vamos usá-lo para o benefício de todos.»

"A trapeira de Job" - José António Barreiros

A trapeira do Job. (do meu amigo José António Barreiros)
«Isto que eu vou dizer vai parecer ridículo a muita gente.
Mas houve um tempo em que as pessoas se lembravam, ainda, da época da infância, da primeira caneta de tinta-permanente, da primeira bicicleta, da idade adulta, das vezes em que se comia fora, do primeiro frigorífico e do primeiro televisor, do primeiro rádio, de quando tinham ido ao estrangeiro.
Houve um tempo em que, nos lares, se aproveitava para a refeição seguinte o sobejante da refeição anterior, em que, com ovos mexidos e a carne ou peixe restante, se fazia "roupa velha". Tempos em que as camisas iam a mudar o colarinho e os punhos do avesso, assim como os casacos, e se tingia a roupa usada, tempos em que se punham meias-solas com protectores. Tempos em que ao mudar-se de sala se apagava a luz, tempos em que se guardava o "fatinho de ver a Deus e à sua Joana".
E não era só no Portugal da mesquinhez salazarista. Na Inglaterra dos Lordes, na França dos Luíses, a regra era esta. Em 1945 passava-se fome na Europa, a guerra matara milhões e arrasara tudo quanto a selvajaria humana pode arrasar.
Houve tempos em que se produzia o que se comia e se exportava. Em que o País tinha uma frota de marinha mercante, fábricas, vinhas, searas.
Veio depois o admirável mundo novo do crédito. Os novos pais tinham como filhos uns pivetes tiranos, exigindo malcriadamente o último modelo de mil e um gadgets e seus consumíveis, porque os filhos dos outros também tinham. Pais que se enforcavam por carrões de brutal cilindrada para os encravarem no lodo do trânsito e mostrarem que tinham aquela extensão motorizada da sua potência genital. Passou a ser tempo de gente em que era questão de pedigree viver no condomínio fechado, e sobretudo dizê-lo, em que luxuosas revistas instigavam em couché os feios a serem bonitos, à conta de spas e de marcas, assim se visse a etiqueta, em que a beautiful people era o símbolo de status como a língua nos cães para a sua raça.
Foram anos em que o Campo se tornou num imenso ressort de Turismo de Habitação, as cidades uma festa permanente, entre o coktail party e a rave. Houve quem pensasse até que um dia os Serviços seriam o único emprego futuro ou com futuro.
O país que produzia o que comíamos ficou para os labregos dos pais e primos parolos, de quem os citadinos se envergonhavam, salvo quando regressavam à cidade dos fins de semana com a mala do carro atulhada do que não lhes custara a cavar e às vezes nem obrigado.
O país que produzia o que se podia transaccionar, esse, ficou com o operariado da ferrugem, empacotados como gado em dormitórios, e que os víamos chegar mortos de sono logo à hora de acordarem, as casas verdadeiras bombas-relógio de raiva contida, descarregada nos cônjuges, nos filhos, na idiotização que a TV tornou negócio.
Sob o oásis dos edifícios em vidro, miragem de cristal, vivia o mundo subterrâneo de quantos aguentaram isto enquanto puderam, a sub-gente. Os intelectuais burgueses teorizavam, ganzados de alucinação, que o conceito de classes sociais tinha desaparecido. A teoria geral dos sistemas supunha que o real era apenas uma noção, a teoria da informação substituía os cavalos-força da maquinaria pelos megabytes de RAM da computação universal. Um dia os computadores tudo fariam, o Ser-Humano tornava-se um acidente no barro de um oleiro velho e tresloucado que, caído do Céu, morrera pregado a dois paus, e que julgava chamar-se Deus, confundindo-se com o seu filho e mais uma trinitária pomba.
Às tantas, os da cidade começaram a notar que não havia portugueses a servir à mesa, porque estávamos a importar brasileiros, que não havia portugueses nas obras, porque estávamos a importar negros e eslavos.
A chegada das lojas-dos-trezentos já era alarme de que se estava a viver de pexibeque, mas a folia continuava. A essas sucedeu a vaga das lojas chinesas, porque já só havia para comprar «balato». Mas o festim prosseguia e à sexta-feira as filas de trânsito em Lisboa eram o caos e até ao dia quinze os táxis não tinham mãos a medir.
Fora disto, os ricos, os muito ricos, viram chegar os novos ricos. O ganhão alentejano viu sumir o velho latifundário absentista pelo novo turista absentista com o mesmo monte mais a piscina e seus amigos, intelectuais, claro, e sempre pela reforma agrária, e vai um uísque de malte, sempre ao lado do povo, e já leu o New Yorker?
A agiotagem financeira, essa, ululava. Viviam do tempo, exploravam o tempo, do tempo que só ao tal Deus pertencia, mas, esse, Nietzsche encontrara-o morto em Auschwitz. Veio o crédito ao consumo, a Conta-Ordenado, veio tudo quanto pudesse ser o ter sem pagar. Porque nenhum Banco quer que lhe devolvam o capital mutuado, quer é esticar ao máximo o lucro que esse capital rende.
Aguilhoando pela publicidade enganosa os bois que somos nós todos, os Bancos instigavam à compra, ao leasing, ao renting, ao seja como for desde que tenha e já, ao cartão, ao descoberto-autorizado.
Tudo quanto era vedeta deu a cara, sendo actor, as pernas, sendo futebolista, ou o que vocês sabem, sendo o que vocês adivinham, para aconselhar-nos a ir àquele Balcão bancário buscar dinheiro, vendermos-nos ao dinheiro, enforcarmos-nos na figueira infernal do dinheiro. Satanás ria. O Inferno começava na terra.
Claro que os da política do poder, que vivem no pau de sebo perpétuo do fazer arrear, puxando-os pelos fundilhos, quantos treparam para o poder, querem a canalha contente. E o circo do consumo, a palhaçada do crédito servia-os. Com isso comprávamos os plasmas mamutes onde eles vendiam à noite propaganda governamental e, nos intervalos, imbelicidades e telefofocadas, que entre a oligofrenia e a debilidade mental a diferença é nula. E, contentes, cretinamente contentinhos, os portugueses tinham como tema de conversa a telenovela da noite, o jogo de futebol do dia e da noite e os comentários políticos dos "analistas" que poupavam os nossos miolos de pensarem, pensando por nós.
Estamos nisto.
Este fim-de-semana a Grécia pode cair. Com ela a Europa.
Que interessa? O Império Romano já caiu também e o mundo não acabou. Nessa altura, em Bizâncio, discutia-se o sexo dos anjos. Talvez porque Deus se tivesse distraído com a questão teológica, talvez porque o Diabo tenha ganho aos dados a alma do pobre Job na sua trapeira. O Job que somos grande parte de nós." »

Sempre Cavaleiros!

Deixo-vos aqui alguns pontos de reflexão sobre o que é ser um "Cavaleiro"!
Na história medieval, por detrás da Ordem do Templo, ergueram-se figuras grandiosas e míticas, que serviram de inspiração ao ideal Sinárquico. Do Templário do Oriente em conjunção com os Ismaelitas do Velho da Montanha, dos cabalistas, dos judeus da Espanha muçulmana, das ordas do Khanat de Gengiskan, dos cavaleiros árabes de Saladino, das histórias da demanda do cálice, dos romances e lendas da Távola Redonda, de Artur a Parcival.
Jacques De Molay, já a par com Godofredo de Charney, enfrentou o fogo naquele pelourinho defronte da Catedral de Notre Dame. Exposto ante o povo, como hereges impenitentes, diz-se que voltou a cabeça em direção ao local onde se encontrava o rei e imprecou: "Papa Clemente, Cavaleiro Guilherme de Nogaret, Rei Felipe...Convoco-os ao tribunal dos céus antes que termine o ano, para que recebam vosso justo castigo. Malditos, malditos, malditos!...Sereis malditos até treze gerações..." Consta que todos morreram como fôra profetizado.
A mística do cavaleiro serve de mote para a recomendação dada a quem Nos procura "Se é a curiosidade que aqui vos conduz, desisti e voltai. Se persistirdes em conhecer os mistérios da existência, fazei antes o vosso testamento e despedi-vos do mundo dos vivos".
Quanto pode o cavaleiro de hoje enfrentar os "Abiram" de hoje? Os "assassinos por excelência" - o dos Jubelos! Abiram representa a ignorância, a Liberdade oprimida, a corrupção e o crime. Opondo-se a Hiram que encorpora a inteligência que percebe a Verdade; a Liberdade sem a qual a inteligência é impotente - a compreensão da Verdade através da Razão. O cavaleiro de hoje mantém vivo o dever de Stolkin? De procurar e vencer os assassinos de Hiram. Os que ameaçam matar a Verdade da Razão! Stolkin é o cavaleiro vivo em cada um de nós. Aquele que nos interpela à Grande Busca. Afinal, o que detém essa Glória: a de encontrar e vencer os assassinos que estão em nós, os que "ferem" as Virtudes, os que nos tornam "maus".
O Irmão Stolkin recorda os deveres que os Membros da Loja assumem perante os Neófitos: "Prometemos a estes Irmãos recentemente eleitos, nunca os abandonar em
qualquer trabalho empreendido de acordo com os preceitos maçónicos. Nada lhes devemos em interesse pessoal; devemos-lhes, sim, o socorro dos nossos braços, da nossa influência, do nosso trabalho e auxílio, quando agirem num interesse
humanitário social. Quando um irmão for investido numa função pública, nós nos
empenharemos em sustentá-lo, se proceder corretamente, e em adverti-lo, se se desviar do bom caminho. Quando um irmão sofrer, no mundo profano, por causa de sua fidelidade maçónica, devemos-lhe todas as nossas forças para defendê-lo".
Vamos menosprezando esta lição. Esta promessa.
De que nos serve a Espada da Razão? Para que usamos - se é que usamos - a Espada da Verdade? (Mors Liberatrix) «Na tua mão, sombrio cavaleiro, Cavaleiro vestido de armas pretas, Brilha uma espada feita de cometas, Que rasga a escuridão como um luzeiro. Caminhas no teu curso aventureiro, Todo involto na noite que projectas... Só o gládio de luz com fulvas betas Emerge do sinistro nevoeiro. — «Se esta espada que empunho é coruscante, (Responde o negro cavaleiro-andante) É porque esta é a espada da Verdade. Firo, mas salvo... Prostro e desbarato, Mas consolo... Subverto, mas resgato... E, sendo a Morte, sou a Liberdade.» (Antero de Quental, in "Sonetos").
Será o próprio Maçom; daí o valor que se deve der à primeira máxima dos Eleitos dos
Nove: "Sê bravo contra tuas próprias fraquezas".
Sabemos que "A Maçonaria é uma Instituição perfeita, formada por homens imperfeitos", mas sabemos também - talvez estejamos um pouco esquecidos - mas sabemo-lo! - que nos cabe, como Cavaleiros a quem se exige uma visão mais profunda, influenciarmos os outros para que valorizem o Bem. Para que pratiquem o Bem! A missão cavaleiresca não morreu em Percival - perguntemo-nos porque foi Ele o único cavaleiro da tabula redonda a chegar a ver o Santo Graal!("A Morte de Artur": de Thomas Malory, "Parzival: de Wolfram von Eschenbach). A mensagem encriptada só perceptível aos olhos que Vêem é a de que o Graal só poderia ser recuperado quando um cavaleiro perfeito encontrasse o Castelo do Rei Ferido - ou (na ópera Parzival, de Wagner, o Rei Pescador, símbolo do ser humano ferido pela separação entre o ego e o self) - e fizesse a pergunta correta: "a quem serve o Graal?". Esta era a Palavra. A indagação que demonstraria a capacidade de quem Procura se tornar consciente do significado real das coisas, de afastar a névoa de ilusão que permeia o mundo. Não foi na primeira vez que encontrou o castelo que Percival não fez a pergunta. Sabendo o significado oculto, amadureceu a ideia em si, desenvolveu a compaixão, e só depois fez a pergunta e recuperou o Graal. Apenas Percival, de entre todos os cavaleiros, teve a pureza e a humildade precisar para encontrar o castelo do Rei Ferido e fazer a pergunta que curou a Terra Devastada. Em que nos comparamos à figura de Percival? Na consciência de que a Verdade não advém da precipitação, dos instintos, mas da maturidade, dos sentidos trabalhados e vividos, experimentados.
Cabe aos Cavaleiros de hoje recuperar a mística. E fazê-lo percorrendo os Bons Caminhos. Os Virtuosos Caminhos. Recordando a sábia recomendação "Toda a vida útil é curta, embora dure um século; mas a vida do homem laborioso é sempre longa. O trabalho prova a verdadeira coragem e encerra os verdadeiros prazeres. Aquele que não cultivar a Inteligência faz de si mesmo um animal incapaz de se ocupar de outra coisa a não ser daquela em que consiste o destino dos animais. Tende, pois, o bom senso de procurar a Felicidade onde ela está. Nisso consiste a sabedoria que Deus, o Grande Arquiteto do Universo, legou aos homens e cujas verdades ninguém poderá ouvir sem profunda admiração".
Sejamos, ainda e sempre, Cavaleiros.