terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Sempre Cavaleiros!

Deixo-vos aqui alguns pontos de reflexão sobre o que é ser um "Cavaleiro"!
Na história medieval, por detrás da Ordem do Templo, ergueram-se figuras grandiosas e míticas, que serviram de inspiração ao ideal Sinárquico. Do Templário do Oriente em conjunção com os Ismaelitas do Velho da Montanha, dos cabalistas, dos judeus da Espanha muçulmana, das ordas do Khanat de Gengiskan, dos cavaleiros árabes de Saladino, das histórias da demanda do cálice, dos romances e lendas da Távola Redonda, de Artur a Parcival.
Jacques De Molay, já a par com Godofredo de Charney, enfrentou o fogo naquele pelourinho defronte da Catedral de Notre Dame. Exposto ante o povo, como hereges impenitentes, diz-se que voltou a cabeça em direção ao local onde se encontrava o rei e imprecou: "Papa Clemente, Cavaleiro Guilherme de Nogaret, Rei Felipe...Convoco-os ao tribunal dos céus antes que termine o ano, para que recebam vosso justo castigo. Malditos, malditos, malditos!...Sereis malditos até treze gerações..." Consta que todos morreram como fôra profetizado.
A mística do cavaleiro serve de mote para a recomendação dada a quem Nos procura "Se é a curiosidade que aqui vos conduz, desisti e voltai. Se persistirdes em conhecer os mistérios da existência, fazei antes o vosso testamento e despedi-vos do mundo dos vivos".
Quanto pode o cavaleiro de hoje enfrentar os "Abiram" de hoje? Os "assassinos por excelência" - o dos Jubelos! Abiram representa a ignorância, a Liberdade oprimida, a corrupção e o crime. Opondo-se a Hiram que encorpora a inteligência que percebe a Verdade; a Liberdade sem a qual a inteligência é impotente - a compreensão da Verdade através da Razão. O cavaleiro de hoje mantém vivo o dever de Stolkin? De procurar e vencer os assassinos de Hiram. Os que ameaçam matar a Verdade da Razão! Stolkin é o cavaleiro vivo em cada um de nós. Aquele que nos interpela à Grande Busca. Afinal, o que detém essa Glória: a de encontrar e vencer os assassinos que estão em nós, os que "ferem" as Virtudes, os que nos tornam "maus".
O Irmão Stolkin recorda os deveres que os Membros da Loja assumem perante os Neófitos: "Prometemos a estes Irmãos recentemente eleitos, nunca os abandonar em
qualquer trabalho empreendido de acordo com os preceitos maçónicos. Nada lhes devemos em interesse pessoal; devemos-lhes, sim, o socorro dos nossos braços, da nossa influência, do nosso trabalho e auxílio, quando agirem num interesse
humanitário social. Quando um irmão for investido numa função pública, nós nos
empenharemos em sustentá-lo, se proceder corretamente, e em adverti-lo, se se desviar do bom caminho. Quando um irmão sofrer, no mundo profano, por causa de sua fidelidade maçónica, devemos-lhe todas as nossas forças para defendê-lo".
Vamos menosprezando esta lição. Esta promessa.
De que nos serve a Espada da Razão? Para que usamos - se é que usamos - a Espada da Verdade? (Mors Liberatrix) «Na tua mão, sombrio cavaleiro, Cavaleiro vestido de armas pretas, Brilha uma espada feita de cometas, Que rasga a escuridão como um luzeiro. Caminhas no teu curso aventureiro, Todo involto na noite que projectas... Só o gládio de luz com fulvas betas Emerge do sinistro nevoeiro. — «Se esta espada que empunho é coruscante, (Responde o negro cavaleiro-andante) É porque esta é a espada da Verdade. Firo, mas salvo... Prostro e desbarato, Mas consolo... Subverto, mas resgato... E, sendo a Morte, sou a Liberdade.» (Antero de Quental, in "Sonetos").
Será o próprio Maçom; daí o valor que se deve der à primeira máxima dos Eleitos dos
Nove: "Sê bravo contra tuas próprias fraquezas".
Sabemos que "A Maçonaria é uma Instituição perfeita, formada por homens imperfeitos", mas sabemos também - talvez estejamos um pouco esquecidos - mas sabemo-lo! - que nos cabe, como Cavaleiros a quem se exige uma visão mais profunda, influenciarmos os outros para que valorizem o Bem. Para que pratiquem o Bem! A missão cavaleiresca não morreu em Percival - perguntemo-nos porque foi Ele o único cavaleiro da tabula redonda a chegar a ver o Santo Graal!("A Morte de Artur": de Thomas Malory, "Parzival: de Wolfram von Eschenbach). A mensagem encriptada só perceptível aos olhos que Vêem é a de que o Graal só poderia ser recuperado quando um cavaleiro perfeito encontrasse o Castelo do Rei Ferido - ou (na ópera Parzival, de Wagner, o Rei Pescador, símbolo do ser humano ferido pela separação entre o ego e o self) - e fizesse a pergunta correta: "a quem serve o Graal?". Esta era a Palavra. A indagação que demonstraria a capacidade de quem Procura se tornar consciente do significado real das coisas, de afastar a névoa de ilusão que permeia o mundo. Não foi na primeira vez que encontrou o castelo que Percival não fez a pergunta. Sabendo o significado oculto, amadureceu a ideia em si, desenvolveu a compaixão, e só depois fez a pergunta e recuperou o Graal. Apenas Percival, de entre todos os cavaleiros, teve a pureza e a humildade precisar para encontrar o castelo do Rei Ferido e fazer a pergunta que curou a Terra Devastada. Em que nos comparamos à figura de Percival? Na consciência de que a Verdade não advém da precipitação, dos instintos, mas da maturidade, dos sentidos trabalhados e vividos, experimentados.
Cabe aos Cavaleiros de hoje recuperar a mística. E fazê-lo percorrendo os Bons Caminhos. Os Virtuosos Caminhos. Recordando a sábia recomendação "Toda a vida útil é curta, embora dure um século; mas a vida do homem laborioso é sempre longa. O trabalho prova a verdadeira coragem e encerra os verdadeiros prazeres. Aquele que não cultivar a Inteligência faz de si mesmo um animal incapaz de se ocupar de outra coisa a não ser daquela em que consiste o destino dos animais. Tende, pois, o bom senso de procurar a Felicidade onde ela está. Nisso consiste a sabedoria que Deus, o Grande Arquiteto do Universo, legou aos homens e cujas verdades ninguém poderá ouvir sem profunda admiração".
Sejamos, ainda e sempre, Cavaleiros.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

A divida da Islândia já não é lixo!

Boa notícia para a Islândia - a dívida da Islândia já não é lixo (Rui Barroso, Económico)
«A agência de ‘rating' melhorou a classificação da dívida islandesa, classificando-a como um investimento seguro.
Quase quatro anos depois da Islândia ter entrado em bancarrota, o país recuperou o estatuto de grau de investimento para a Fitch. A agência melhorou hoje a classificação da dívida islandesa de BB+ para BBB-, deixando de avaliar o país num nível considerado lixo.
"A restauração do ‘rating' da Islândia para grau de investimento reflecte os progressos que foram feitos na restauração da estabilidade macroeconómica através do avanço de reformas estruturais e na reconstrução da qualidade de crédito desde a crise bancária e cambial de 2008", referiu o director da Fitch, Paul Rawkins.
O responsável da Fitch referiu ainda que "está em curso um recuperação económica promissora, a reestruturação do sector financeiro está bem adiantada, enquanto a dívida pública sobre o PIB está próxima de atingir o pico graças a um programa de consolidação orçamental robusto".
Em 2008, no curso da crise financeira, os três maiores bancos do país entraram em falência. Estas entidades estavam expostas a outros países tinham dívidas superiores ao valor da própria economia islandesa. O colapso provocou uma queda abrupta no valor da moeda islandesa que aumentou a dívida externa do país.
Além disso, países como o Reino Unido e a Holanda exigiram à Islândia que assumisse as responsabilidades financeiras dos seus bancos. A exigência foi rejeitada pelos islandeses num referendo, abrindo uma disputa legal entre os países que ainda está por resolver.
Apesar da enorme crise no país, as agências de ‘rating' nunca tiveram uma nota de ‘default' para o país. A Fitch foi mesmo a única agência a colocar a dívida islandesa no grau de ‘lixo". E não exclui voltar a melhorar a nota do país, caso se registe uma aceleração na reestruturação da dívida do sector privado do país, uma normalização na relação com credores externos e uma maior estabilização da taxa de câmbio.
A Fitch diz ainda que a crise de dívida na Europa não está a ser sentida no país e que a economia islandesa deverá crescer entre os 2% e os 2,5% e acredita que o país apresente excedentes orçamentais.»

sábado, 18 de fevereiro de 2012

"Habemus" coca - snif - As mulheres segundo os "honrados" da Igreja!

Manuel Monteiro de Castro é um dos 22 novos cardeais aos quais Bento XVI vai entregar, hoje, os anéis e os barretes cardinalícios. O clérigo português defende que o Governo deveria apoiar mais as famílias, para que a mulher pudesse ficar em casa e “aplicar-se naquilo em que a sua função é essencial, a educação dos filhos”.
Diz mais: “Mas se a mãe tem de trabalhar pela manhã e pela noite e depois chega a casa e o marido quer falar com ela e não tem com quem falar… Isto é, uma família bem organizada é uma base fundamental para um país.”
«A função essencial das mulheres é cuidar dos filhos» - e, como dizia a Biblia "o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja" (Ef 5:23) e, os maridos devem amar suas esposas "como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela" (Ef 5:25) ! - pelo que se presume que a função dos maridos seja cuidar delas! - isto é muito bonito!
"aplique-se na função ....", e quando o marido chegar a casa e ela não tiver tempo para falar .... que família feliz! o problema surgirá quando "outras" também se apliquem "na função" e até - imagine-se - tiverem tempo para falar com ele! Mas, como diz o povo, nada como uma boa amante para manter um mau casamento! Doutrinem-se todos! Acontece que, nos próximos dias, os media vão tentar convencer-nos de que somos uns privilegiados, de que é uma «honra nacional» a criatura ele ser nomeada «cardeal» pelo último ditador da Europa ocidental. Será uma «honra» que eu - que até posso falar porque tenho tempo para isso - dispensava! E que até dispensaria os "trocos" que o meu País vai gastar subsidiando a presença do ministro dos Negócios Estrangeiros na dita cerimónia! Enfim ... o protocolo exige - toque-se a pandeireta - mas a boa vontade só a dá quem quer! Nem a entrevista «A MULHER NA VIDA SOCIAL DO MUNDO E NA VIDA DA IGREJA» concedida por São Josemaria Escrivá (Fundador do Opus Dei), a Pilar Salcedo (Diretora da revista feminina Telva (Madri, Espanha)), a 1 de março de 1968 foi tão longe! Tinha eu 6 aninhos e eis-me impreparada para viver este "avanço" eclesiástico. A cozinha conventual já não é o que era!

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

"Prendinhas" legitimas!

Esta matéria sempre me deixou com pele de galinha. Espanto o meu quando em carreiras de alto nível, próprias de serviços de supervisão e de controlo, me deparei com esta bizarra "permissão"! Os regulamentos internos davam o beneplácito a "recompensas" desde que limitadas a determinado valor. Até cheguei a assistir a cenas de demandar o valor de um presunto ou de um cesto de queijos e fruta. Do mal o menos! Sabendo, naturalmente, que a suposta "declaração" das "prendas" recebidas só acontecia ... nunca! Ora, em tempo de crise em que se aguarda o aumento da evasão fiscal e da corrupção, vem o Governo aunicar que se dispõe a criar uma lei-quadro que sirva de referência à criação de códigos de conduta e ética em "todos os órgãos e entidades" que "desempenhem serviços públicos". A proposta de lei já está avançada e prevê, pela primeira vez, qual deve ser a actuação dos funcionários públicos – e políticos – quando recebem "prendas". O Executivo estabelece o valor de 1.505 euros como limiar: acima dele, as prendas têm que reverter para os respectivos serviços; abaixo, podem ficar em posse de quem as recebe. Todas têm que ser declaradas, qualquer que seja o valor. O João Candido da Silva, hoje, no Jornal de Negócios, conclui "Comprado numa lota, um quilo de robalo de dimensões dignas poderá custar em redor de 15 euros. A simples aritmética permite calcular que cem quilos deste peixe, muito apreciado em meios suspeitos de corrupção, terá um custo de 1.500 euros." Ou seja, numa época em que muitas famílias têm dificuldades acrescidas em pôr o alimento diário na mesa há famílias que poderão contar com 100 kg de robalo a cada refeição, já que o "valor" limite das ditas prendas é por "prenda" e não por hora, dia, semana ou mês. Que lógica extraordinária! Para já arrisco afirmar que, à semelhança do que já acontecia, nenhuma "prendinha" será declarada - ai que inveja o colega do lado ter mais prendas! será que a avaliação de desempenho ainda vai premiar o funcionário que tiver a sorte de satisfazer clientes mais generosos? Coitados - como sempre - dos funcionários que só atenderem clientes mal educados e ingratos! Definitivamente, estes gajos são uns piegas!

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Rui Pereira sobre Mário Soares «um político assume-se»

Artigo do Rui Pereira sobre Mário Soares, a propósito da biografia «Mário Soares, um político assume-se»
~«por que razão identificamos nós o autor como um grande político? O que distingue, afinal, um "grande político" de um político vulgar? O que torna alguém que se dedique à vida pública digno do reconhecimento dos seus concidadãos e do registo da História? Serão as vitórias eleitorais, os cargos ocupados, o carisma ou qualquer outra qualidade?»
O ensaio ilustra, em primeiro lugar, a notável longevidade política de Mário Soares. As suas memórias estendem-se por cerca de 70 anos, percorrendo factos tão importantes como a Guerra Civil Espanhola, a Segunda Guerra Mundial, a Guerra de África, a Revolução de Abril, a descolonização, a integração europeia, a queda do muro de Berlim e, agora, a crise económica global. De uma ou de outra forma, Mário Soares nunca se resignou a ser espectador desses factos. Interveio activamente, tomou partido e, em vários casos, influiu no curso da História.
Mas aquilo que verdadeiramente identifica um grande político – e está presente em Mário Soares de modo manifesto e em doses invulgares – é a sua capacidade de antecipar acontecimentos e ter razão antes de tempo. Contra a corrente ou, no mínimo, enfrentando duros ataques, opôs-se à ditadura, defendeu a autodeterminação das colónias, fundou uma oposição democrática radicada na social-democracia (ou no "socialismo democrático"), contribuiu decisivamente para a instituição do regime democrático e conduziu o processo de adesão de Portugal à CEE.
Em todo o longo caminho que já percorreu, Mário Soares nunca receou estar em minoria. Defendeu sempre com desassombro aquilo em que acreditava, arriscando, por vezes, a sua própria liberdade, e acabou por ver a História dar-lhe quase sempre razão. A terminar o seu ensaio, deixa um prognóstico infelizmente não muito arriscado: confessa temer que os próximos anos sejam particularmente difíceis, contrariando as esperanças que nutrimos nos últimos anos do século passado. Todos gostaríamos que o autor estivesse enganado, mas temo que tenha razão.»

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Reinventar Pessoa, a partir de amanhã, na Gulbenkian

O paradeiro da arca onde Fernando Pessoa costumava guardar os seus livros, cartas e poemas era desconhecido até há bem pouco tempo. Desde 2008, altura em que foi arrematada num leilão por 50 mil euros, nunca mais ninguém lhe pôs os olhos em cima. Excepto o coleccionador privado que a comprou, claro. O leilão chocou muitos especialistas da obra do poeta português, que defendiam que o Estado a devia ter comprado para a expor ao público. Já podem suspirar de alívio. A partir de amanhã, a arca estará à vista de toda a gente na exposição “Fernando Pessoa: Plural Como o Universo” na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, até 30 de Abril. A mostra é a maior já realizada sobre o poeta e, além de poemas, quadros e fotografias, tem escritos inéditos – e a arca, lá está. A relíquia foi conseguida através de intermediários que contactaram o coleccionador que a cedeu para a exposição.
Na sede da Gulbenkian, também há poemas por toda a parte e painéis interactivos que até mudam de som consoante os heterónimos, como o ecrã de Alberto Caeiro que liberta o chilrear de pássaros.
A melhor parte da exposição são mesmo as peças que não estiveram no Brasil. Como é o caso do retrato de Almada Negreiros, que pertence ao Centro de Arte Moderna, ou os originais que agora são propriedade de coleccionadores privados ou da Biblioteca Nacional. Entre eles está uma lista com crises, escrita em 1913. Pessoa já fazia uma lista de crises. Há a crise religiosa, a crise filosófica, a crise da política interna... As listas não se ficam por aqui. Existe também uma com dívidas num pequeno caderno.
Numa vitrina estão vários cadernos, desde o mais antigo, de 1901, ao último que teve, onde escreveu o último poema antes de morrer, em 1935.
A exposição, com entradas a quatro euros, tem também um jornal que Pessoa inventou aos 14 anos com artigos fictícios, charadas e o primeiro poema em português, “bastante humorístico”.
Já nessa altura inventava nomes. Agora, vamos reinventá-lo nós!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

"Ser Português é difícil" por Miguel Esteves Cardoso

Ser Português é Difícil
«Os Portugueses têm algum medo de ser portugueses. Olhamos em nosso redor, para o nosso país e para os outros e, como aquilo que vemos pode doer, temos medo, ou vergonha, ou «culpa de sermos portugueses». Não queremos ser primos desta pobreza, madrinhas desta miséria, filhos desta fome, amigos desta amargura. Os Portugueses têm o defeito de querer pertencer ao maior e ao melhor país do mundo. Se lhes perguntarmos “Qual é actualmente o melhor e o maior país do mundo?”, não arranjam resposta. Nem dizem que é a União Soviética nem os Estados Unidos nem o Japão nem a França nem o Reino Unido nem a Alemanha. Dizem só, pesarosos como os kilogramas nos tempos em que tinham kapa: «Podia ter sido Portugal...» E isto que vai salvando os Portugueses: têm vergonha, culpa, nojo, medo de serem portugueses mas «também não vão ao ponto de quererem ser outra coisa».
Revela-se aqui o que nós temos de mais insuportável e de comovente: só nos custa sermos portugueses por não sermos os melhores do mundo. E, se formos pensar, verificamos que o verdadeiro patriotismo não é aquele de quem diz “Portugal é o melhor país do mundo” (esse é simplesmente parvo ou parvamente simples), mas, sim, de quem acredita, inocentemente, que Portugal «podia ser» (ou ter sido) o melhor país do mundo e (eis a parte fundamental, que separa os insectos dos cicofantas) «tem pena que não seja», uma pena daquelas que ardem para toda a vida nos peitos profundos das pessoas boas.
Ser português não é nem a sorte com que sonhamos (não queriam mais nada — nascer logo uma coisa boa!) nem o azar com que vamos azedando. Ser português é um «jeito que se aprende». Não é coisa que vá à bruta ou à má fila. Não é bem que vá a bem (precisa de ser ajudado), mas também não é mal que vá à bruxa. Ser português não é tanto ser feito à imagem de Deus, como os outros povos (todos eles felizes), como estar, à partida, «feito». Cada vez que nasce um ser humano e olha para o bilhete de identidade e verifica que calharam os pedregulhos e os pêsames da portugalidade, diz logo “Pronto — estou feito — sou português”. Devia ter juízo. A única coisa que o absolve é ter, também, razão.
Ser português é «difícil». O resto do mundo não compreende que os Portugueses são especiais, diferentes, bastante giros, bem-educados, antigos, espertos, casos sérios. O resto do mundo acredita sinceramente que o mundo seria exactamente o mesmo sem os Portugueses. Para a grande maioria da população da Terra, a própria «existência» de Portugal é uma surpresa. E não se julgue automaticamente que se trata de uma grande surpresa ou, sequer, de uma surpresa «boa». É mais uma surpresa do género “Ah, sim?”. Como quem aprende que o «baseball» teve origem nos «rounders ingleses». Ah, sim? Que giro! Agora sai da frente do televisor que eu quero ver se este Babe Ruth era tão bom como diziam. Para o resto do mundo, os feitos dos Portugueses não pertencem à história fundamental do Universo. Pertencem, quando muito, à secção dos passatempos, do “Não me digas!” e do “Acredite se quiser”. Ser português é um ser delicado. Ser português não é «ser humano». É ser que tem muito para fazer só para ser «vivo».
Os políticos dizem que é preciso andar para a frente, modernizar, desenvolver, «mudar» Portugal, presumivelmente para melhor, porque este (nisto estão todos de acordo) não presta. Os poetas sonham com países que nunca existiram ou existirão, ou que já existiram e jamais existirão outra vez. Ninguém está contente com o que é, ou com onde está, ou com o que tem. Os Portugueses, o povo, a nação, os ditos, os implicados, envolvidos e lixados, esses nem ideia têm ou fazem — para eles a própria noção de Portugal foi um raio de ideia para começar. Mas o que é preciso não é nem tão drástico nem tão espectacular. O que é preciso é «continuar» Portugal.
Continuar Portugal não é uma acção delicada, ou uma campanha urgente, ou uma tarefa que exija o sacrifício de todos os cidadãos. É simplesmente continuar a perguntar, a barafustar, a amaldiçoar o dia em que se nasceu desta cor, nesta pele, com este coração mole e fácil de apertar e espremer. Continuar Portugal é acreditar que a vida seria pior sem ele, pior se a Europa começasse pela Espanha, pior se fôssemos suíços ou belgas ou finlandeses. Continuar Portugal é ser português e dizer “Pronto, que se lixe, o que é que eu hei-de fazer?”. E acreditar na diferença que faz a nossa maneira de ser, e de sermos portugueses, como um cardiologista acredita que o coração foi feito para continuar a bater.
E foi. E, o que é mais engraçado, continua! » Miguel Esteves Cardoso, in 'Os Meus Problemas'