terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

"Prendinhas" legitimas!

Esta matéria sempre me deixou com pele de galinha. Espanto o meu quando em carreiras de alto nível, próprias de serviços de supervisão e de controlo, me deparei com esta bizarra "permissão"! Os regulamentos internos davam o beneplácito a "recompensas" desde que limitadas a determinado valor. Até cheguei a assistir a cenas de demandar o valor de um presunto ou de um cesto de queijos e fruta. Do mal o menos! Sabendo, naturalmente, que a suposta "declaração" das "prendas" recebidas só acontecia ... nunca! Ora, em tempo de crise em que se aguarda o aumento da evasão fiscal e da corrupção, vem o Governo aunicar que se dispõe a criar uma lei-quadro que sirva de referência à criação de códigos de conduta e ética em "todos os órgãos e entidades" que "desempenhem serviços públicos". A proposta de lei já está avançada e prevê, pela primeira vez, qual deve ser a actuação dos funcionários públicos – e políticos – quando recebem "prendas". O Executivo estabelece o valor de 1.505 euros como limiar: acima dele, as prendas têm que reverter para os respectivos serviços; abaixo, podem ficar em posse de quem as recebe. Todas têm que ser declaradas, qualquer que seja o valor. O João Candido da Silva, hoje, no Jornal de Negócios, conclui "Comprado numa lota, um quilo de robalo de dimensões dignas poderá custar em redor de 15 euros. A simples aritmética permite calcular que cem quilos deste peixe, muito apreciado em meios suspeitos de corrupção, terá um custo de 1.500 euros." Ou seja, numa época em que muitas famílias têm dificuldades acrescidas em pôr o alimento diário na mesa há famílias que poderão contar com 100 kg de robalo a cada refeição, já que o "valor" limite das ditas prendas é por "prenda" e não por hora, dia, semana ou mês. Que lógica extraordinária! Para já arrisco afirmar que, à semelhança do que já acontecia, nenhuma "prendinha" será declarada - ai que inveja o colega do lado ter mais prendas! será que a avaliação de desempenho ainda vai premiar o funcionário que tiver a sorte de satisfazer clientes mais generosos? Coitados - como sempre - dos funcionários que só atenderem clientes mal educados e ingratos! Definitivamente, estes gajos são uns piegas!

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Rui Pereira sobre Mário Soares «um político assume-se»

Artigo do Rui Pereira sobre Mário Soares, a propósito da biografia «Mário Soares, um político assume-se»
~«por que razão identificamos nós o autor como um grande político? O que distingue, afinal, um "grande político" de um político vulgar? O que torna alguém que se dedique à vida pública digno do reconhecimento dos seus concidadãos e do registo da História? Serão as vitórias eleitorais, os cargos ocupados, o carisma ou qualquer outra qualidade?»
O ensaio ilustra, em primeiro lugar, a notável longevidade política de Mário Soares. As suas memórias estendem-se por cerca de 70 anos, percorrendo factos tão importantes como a Guerra Civil Espanhola, a Segunda Guerra Mundial, a Guerra de África, a Revolução de Abril, a descolonização, a integração europeia, a queda do muro de Berlim e, agora, a crise económica global. De uma ou de outra forma, Mário Soares nunca se resignou a ser espectador desses factos. Interveio activamente, tomou partido e, em vários casos, influiu no curso da História.
Mas aquilo que verdadeiramente identifica um grande político – e está presente em Mário Soares de modo manifesto e em doses invulgares – é a sua capacidade de antecipar acontecimentos e ter razão antes de tempo. Contra a corrente ou, no mínimo, enfrentando duros ataques, opôs-se à ditadura, defendeu a autodeterminação das colónias, fundou uma oposição democrática radicada na social-democracia (ou no "socialismo democrático"), contribuiu decisivamente para a instituição do regime democrático e conduziu o processo de adesão de Portugal à CEE.
Em todo o longo caminho que já percorreu, Mário Soares nunca receou estar em minoria. Defendeu sempre com desassombro aquilo em que acreditava, arriscando, por vezes, a sua própria liberdade, e acabou por ver a História dar-lhe quase sempre razão. A terminar o seu ensaio, deixa um prognóstico infelizmente não muito arriscado: confessa temer que os próximos anos sejam particularmente difíceis, contrariando as esperanças que nutrimos nos últimos anos do século passado. Todos gostaríamos que o autor estivesse enganado, mas temo que tenha razão.»

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Reinventar Pessoa, a partir de amanhã, na Gulbenkian

O paradeiro da arca onde Fernando Pessoa costumava guardar os seus livros, cartas e poemas era desconhecido até há bem pouco tempo. Desde 2008, altura em que foi arrematada num leilão por 50 mil euros, nunca mais ninguém lhe pôs os olhos em cima. Excepto o coleccionador privado que a comprou, claro. O leilão chocou muitos especialistas da obra do poeta português, que defendiam que o Estado a devia ter comprado para a expor ao público. Já podem suspirar de alívio. A partir de amanhã, a arca estará à vista de toda a gente na exposição “Fernando Pessoa: Plural Como o Universo” na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, até 30 de Abril. A mostra é a maior já realizada sobre o poeta e, além de poemas, quadros e fotografias, tem escritos inéditos – e a arca, lá está. A relíquia foi conseguida através de intermediários que contactaram o coleccionador que a cedeu para a exposição.
Na sede da Gulbenkian, também há poemas por toda a parte e painéis interactivos que até mudam de som consoante os heterónimos, como o ecrã de Alberto Caeiro que liberta o chilrear de pássaros.
A melhor parte da exposição são mesmo as peças que não estiveram no Brasil. Como é o caso do retrato de Almada Negreiros, que pertence ao Centro de Arte Moderna, ou os originais que agora são propriedade de coleccionadores privados ou da Biblioteca Nacional. Entre eles está uma lista com crises, escrita em 1913. Pessoa já fazia uma lista de crises. Há a crise religiosa, a crise filosófica, a crise da política interna... As listas não se ficam por aqui. Existe também uma com dívidas num pequeno caderno.
Numa vitrina estão vários cadernos, desde o mais antigo, de 1901, ao último que teve, onde escreveu o último poema antes de morrer, em 1935.
A exposição, com entradas a quatro euros, tem também um jornal que Pessoa inventou aos 14 anos com artigos fictícios, charadas e o primeiro poema em português, “bastante humorístico”.
Já nessa altura inventava nomes. Agora, vamos reinventá-lo nós!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

"Ser Português é difícil" por Miguel Esteves Cardoso

Ser Português é Difícil
«Os Portugueses têm algum medo de ser portugueses. Olhamos em nosso redor, para o nosso país e para os outros e, como aquilo que vemos pode doer, temos medo, ou vergonha, ou «culpa de sermos portugueses». Não queremos ser primos desta pobreza, madrinhas desta miséria, filhos desta fome, amigos desta amargura. Os Portugueses têm o defeito de querer pertencer ao maior e ao melhor país do mundo. Se lhes perguntarmos “Qual é actualmente o melhor e o maior país do mundo?”, não arranjam resposta. Nem dizem que é a União Soviética nem os Estados Unidos nem o Japão nem a França nem o Reino Unido nem a Alemanha. Dizem só, pesarosos como os kilogramas nos tempos em que tinham kapa: «Podia ter sido Portugal...» E isto que vai salvando os Portugueses: têm vergonha, culpa, nojo, medo de serem portugueses mas «também não vão ao ponto de quererem ser outra coisa».
Revela-se aqui o que nós temos de mais insuportável e de comovente: só nos custa sermos portugueses por não sermos os melhores do mundo. E, se formos pensar, verificamos que o verdadeiro patriotismo não é aquele de quem diz “Portugal é o melhor país do mundo” (esse é simplesmente parvo ou parvamente simples), mas, sim, de quem acredita, inocentemente, que Portugal «podia ser» (ou ter sido) o melhor país do mundo e (eis a parte fundamental, que separa os insectos dos cicofantas) «tem pena que não seja», uma pena daquelas que ardem para toda a vida nos peitos profundos das pessoas boas.
Ser português não é nem a sorte com que sonhamos (não queriam mais nada — nascer logo uma coisa boa!) nem o azar com que vamos azedando. Ser português é um «jeito que se aprende». Não é coisa que vá à bruta ou à má fila. Não é bem que vá a bem (precisa de ser ajudado), mas também não é mal que vá à bruxa. Ser português não é tanto ser feito à imagem de Deus, como os outros povos (todos eles felizes), como estar, à partida, «feito». Cada vez que nasce um ser humano e olha para o bilhete de identidade e verifica que calharam os pedregulhos e os pêsames da portugalidade, diz logo “Pronto — estou feito — sou português”. Devia ter juízo. A única coisa que o absolve é ter, também, razão.
Ser português é «difícil». O resto do mundo não compreende que os Portugueses são especiais, diferentes, bastante giros, bem-educados, antigos, espertos, casos sérios. O resto do mundo acredita sinceramente que o mundo seria exactamente o mesmo sem os Portugueses. Para a grande maioria da população da Terra, a própria «existência» de Portugal é uma surpresa. E não se julgue automaticamente que se trata de uma grande surpresa ou, sequer, de uma surpresa «boa». É mais uma surpresa do género “Ah, sim?”. Como quem aprende que o «baseball» teve origem nos «rounders ingleses». Ah, sim? Que giro! Agora sai da frente do televisor que eu quero ver se este Babe Ruth era tão bom como diziam. Para o resto do mundo, os feitos dos Portugueses não pertencem à história fundamental do Universo. Pertencem, quando muito, à secção dos passatempos, do “Não me digas!” e do “Acredite se quiser”. Ser português é um ser delicado. Ser português não é «ser humano». É ser que tem muito para fazer só para ser «vivo».
Os políticos dizem que é preciso andar para a frente, modernizar, desenvolver, «mudar» Portugal, presumivelmente para melhor, porque este (nisto estão todos de acordo) não presta. Os poetas sonham com países que nunca existiram ou existirão, ou que já existiram e jamais existirão outra vez. Ninguém está contente com o que é, ou com onde está, ou com o que tem. Os Portugueses, o povo, a nação, os ditos, os implicados, envolvidos e lixados, esses nem ideia têm ou fazem — para eles a própria noção de Portugal foi um raio de ideia para começar. Mas o que é preciso não é nem tão drástico nem tão espectacular. O que é preciso é «continuar» Portugal.
Continuar Portugal não é uma acção delicada, ou uma campanha urgente, ou uma tarefa que exija o sacrifício de todos os cidadãos. É simplesmente continuar a perguntar, a barafustar, a amaldiçoar o dia em que se nasceu desta cor, nesta pele, com este coração mole e fácil de apertar e espremer. Continuar Portugal é acreditar que a vida seria pior sem ele, pior se a Europa começasse pela Espanha, pior se fôssemos suíços ou belgas ou finlandeses. Continuar Portugal é ser português e dizer “Pronto, que se lixe, o que é que eu hei-de fazer?”. E acreditar na diferença que faz a nossa maneira de ser, e de sermos portugueses, como um cardiologista acredita que o coração foi feito para continuar a bater.
E foi. E, o que é mais engraçado, continua! » Miguel Esteves Cardoso, in 'Os Meus Problemas'

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Carnaval, risos e Alegria!

Carnaval, Riso e Alegria têm alguma coisa para nos dizer.
Falo dos festejos de Baco, das saturnais romanas e das Lupercalia. A institucionalização da gargalhada, feita Carnaval, remota a antes de Cristo, aos festejos de celebração de fertilidade e produtividade das terras, entre rostos mascarados e corpos pintados à volta da fogueira. Sem desprezar as tradicionais referências à data do Carnaval e à Quaresma (sobretudo à resistência da Igreja, inicialmente contra as festividades, indignada com esta época de prazeres e desejos, até que se rende à sua popularidade em 590 d. C., e à coincidência da data com o feriado da Páscoa judaica, na primeira lua (lua cheia), na primavera ou 14 dias depois da lua nova ou à data da crucificação do Messias, no 14 dia de Nissan), traz-me aqui o Riso.
Essa bandeira, hino e quadro de alegria que marcam a espontaneidade do Carnaval. O Riso.
Com feriado ou sem ele, é tempo de soltar uma gargalhada em homenagem a esse filho pródigo da Alegria. Não percamos a espontaneidade do riso. A capacidade de nos maravilharmos perante a nossa existência. A capacidade de os homens rirem entre si, para si e de si.
Perder o riso pode ser perder o bobo da corte que há em nós. O que têm em comum o Dom Bibas (corte do conde Dom Henrique, do final do século XI), o Mitton e Thévenin de Saint Leger (corte de Carlos V), o Triboulet (cortes de Luís XII e Francisco I da França) e o Rigoletto de Vivaldi? A capacidade do Riso.
Carnaval lembra o bobo. "Que agradável e delicioso oficio, o de "bobo"!(assim dizia o herói da comédia de Alfred Musset). Aquela força que chama à terra os Reis Lears e revela o pior do ser humano exemplarmente interpretado pelo bobo “LEAR: Tu me chamas de bobo, rapaz? BOBO: Abandonaste todos os teus outros títulos, mas esse nasceste com ele.” (Rei Lear, Ato I, 4).
Rir também pode é inquirir, questionar e demandar. Este é um riso de que não abdico. Se ainda temos forças para rir? É agora que mais precisamos dessa enorme sabedoria que carrega um simples riso. "O riso é a mais útil forma da crítica, porque é a mais acessível à multidão. O riso dirige-se não ao letrado e ao filósofo, mas à massa, ao imenso público anónimo.” (Eça de Queiroz)Carta a Joaquim de Araújo, 25 de Fevereiro de 1878)
Sirva o Carnaval para nos lembrar o Riso. Procuremo-lo arduamente entre as faculdades da Alma (sete Artes liberais/virtudes). A Alegria da ¨Ode To Joy¨ de Beethoven “Alegria, formosa centelha divina, Filha do Elíseo, Ébrios pelo fogo entramos Em teu santuário celeste!”. A Alegria de Mozart na Die Maurer Freude (A Alegria Maçónica).
A Alegria a que se referia Aristóteles: “Nunca existiu uma grande inteligência sem uma veia de loucura.” A Alegria que Victor Hugo imortalizou: “Nunca ninguém conseguirá ir ao fundo de um riso de criança.” A Alegria de Pessoa: “Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo...".
Que extraordinária Alegria! “Huzzé, Huzzé, Huzzé”, Vivat, Vivat, sempre Vivat”, “Glória, Glória, Glória!”!
Bom Carnaval! Bons Risos! Alegria!

Renegociar as PPP - Culpas ou coragem?!

Renegociar as PPP: passar culpas ou coragem?, por Daniel Oliveira, Expresso
«A ministra da Justiça enviou para o Procurador Geral da República os contratos de Parecerias Público-Privadas que permitiram leoninos arrendamento que esmifram os dinheiros públicos e que foram assinados no governo anterior. Tem direito ao meu aplauso de pé. É assim mesmo, na justiça, que se tem responsabilizar quem usa o Estado para negócios menos claros. Espero que a PGR e os tribunais não demorem tanto tempo a chegar a uma conclusão que, quando lá chegarem, de nada sirva.
Apenas lamento uma coisa: que estas decisões sejam sempre um pouco seletivas. Ou seja, que se limitem sempre ao governo anterior quando o governo anterior é de um partido diferente. As PPP começaram na fase final do consulado de Cavaco Silva para construir uma ponte sobre o Tejo. Sabe-se que o acordo então assinado foi de tal forma vergonhoso que teve de ser renegociado várias vezes. O seu promotor, o então ministro das Obras Públicas Joaquim Ferreira do Amaral, acabou sentado na presidência do Conselho de Administração da Lusoponte.Continuaram de forma desenfreada no governo de António Guterres. Para cumprir o défice, o Estado, em vez de se endividar para investir, entregava a construção e exploração de uma obra pública a um privado e ainda o compensava por possíveis perdas durante décadas. Ou seja, endividava-se muitíssimo mais, escondia a despesa, dava espaço para todo o género de negócios pouco claros e promovia um espírito rentista e parasitário nas maiores empresas nacionais. Ao mesmo tempo que promovia o endividamento dos seus parceiros privados, com custos para o País. O governo de Durão Barroso continuou o esquema com o mesmo empenho. E o de Sócrates também.
As PPP, em vez de serem a exceção, transformaram-se na regra para todo o tipo de investimento, fossem eles obras ou, como é este caso, simples arrendamentos. Foram e são um dos principais factores de opacidade dos negócios do Estado e de mau endividamento público, privado e externo. São, em geral, um cancro para as contas públicas e para a economia.
Apesar da decisão de Paula Teixeira da Cruz ser correta, parece-me que devemos exigir muito mais. Da mesma forma que a ministra renegociou muitos contratos, tendo, segundo a própria, poupado seis milhões de euros ao erário público, é inaceitável que o Estado não faça o mesmo com tudo o resto. Que não reveja de fio a pavio todos os contratos deste género que governos do PS e do PSD assinaram, os renegoceie com determinação e, no caso muito provável de ali encontrar sinais de um comportamento danoso para o Estado por parte dos que deviam ter defendido os seus interesses, recorra à justiça. Sejam os responsáveis de que partido forem. Estaríamos então perante uma mudança radical do comportamento do Estado, com enormes ganhos para os seus cofres e a possibilidade de pedir menos sacrifícios aos portugueses. Com esta seletividade, a coisa soa mais a "spin" para passar culpas.»

Sem Carnaval - até já a gargalhada se acaba!

Um dia de trabalho para a Nação, artigo do José António Barreiros, in A Revolta das Palavras
«Por mim acabarem com os feriados, os domingos, os dias de festa, é indiferente. De há muito que aboli a diferença entre os dias úteis e os inúteis, tornando cada um a possibilidade de ser útil. Mas isto sou eu que, sendo um trabalhador liberal, tenho vida de escravo. Mas há os que trabalham por conta de outrem, afinal a esmagadora maioria do País. E, segundo as estatísticas, dentro desses há muitos que na verdade não trabalham, outros que trabalham por todos os outros mais pelos seus subsídios sociais.
Ora é em função desses que os Governos costumam governar. Este não, porque governa em função do que manda a "troika", correndo o risco de desagradar no imediato na ténue esperança de vir a agradar a longo prazo.
Do ponto de vista político, seja da política que na democracia partidária se vive, que é o fazer tudo o que traga a maioria contente para o partido que governa se renovar no poder ou, ao menos, se renovarem no poder os interesses que aquele partido e o seu meio-irmão representam no bloco central do sempre nós, a esperança tem calendário: que a retoma chegue antes do fim da revolta generalizada e , em qualquer caso, antes do fim da legislatura.
Vem isto a propósito de o primeiro-ministro ter anunciado que não ia haver tolerância de ponto no Carnaval e da gritaria que isso provocou. Berram uns porque não perceberam que isso já decorria do anunciado em matéria de fim de festas, berram outros porque pensavam que o corte nos feriados, suas tolerâncias, "pontes" e outras complacências, era, uma vez mais, a fingir, berram, enfim, os restantes porque acham que isto tudo é tão Carnaval como o Carnaval que se lhes amputou.
Uma coisa é certa: o Carnaval, na sua simbologia popular, é o tempo da descarga emocional, do gozo público e da chacota consentida, dos cabeçudos que são a cara de políticos, o tempo em que o comum cidadão afivela outra máscara que a quotidiana, tempo de malfeitorias que esvaziam os sentimentos contidos de raiva, o alho-porro, os esguichos na cara, os "traques" fétidos, o foguetório alucinante.
Terra gélida e chuvosa por essa altura, escasseia em Portugal a lúbrica nudez, falta-nos o ambíguo travestismo carnudo, rareiam as partes púdicas cobertas de luzentes estrelinhas o resto ao léu, são poucos os matulões emplumados, possantes e bamboleantes, como no Brasil meu Brasil brasileiro, terra de calor.
O nosso Carnaval costuma cheirar a gato-pingado. Este ano, por exigências da governação, vai ser doméstico, no lugar de trabalho, imagina-se com que rentabilidade e boa-disposição.
Auguro que o Silva chefe de secção vai levar no bolso uma mão-cheia de "confetis", o Sousa amanuense uma pistola de água tintada de vermelho para acertar nas rotundidades aparentes da Ifigénia da tesouraria, até descobrir, tarde de mais, que eram os postiços do Marques do arquivo, disfarçado sob loira cabeleira. Línguas de sogra, serpentinas darão a cor, garrafinhas de mau-cheio o odor. Longínquo, frio, o senhor director-geral reportará a Sexa, ministro a ampla adesão dos seus dependentes à nova política dos sem-festa. Este e todos os colegas do Governo comunicarão a Sexa, o primeiro-ministro para que Frau Merkel o saiba.
No meio de cinzas, o Rei Momo está morto e enterrado.
Cuidado, porém: foi assim que o actual PR começou o seu declínio. Aos Portugueses podem tirar-lhes tudo menos o direito constitucional à risota, a garantia fundamental da gargalhada.»