domingo, 5 de fevereiro de 2012

Renegociar as PPP - Culpas ou coragem?!

Renegociar as PPP: passar culpas ou coragem?, por Daniel Oliveira, Expresso
«A ministra da Justiça enviou para o Procurador Geral da República os contratos de Parecerias Público-Privadas que permitiram leoninos arrendamento que esmifram os dinheiros públicos e que foram assinados no governo anterior. Tem direito ao meu aplauso de pé. É assim mesmo, na justiça, que se tem responsabilizar quem usa o Estado para negócios menos claros. Espero que a PGR e os tribunais não demorem tanto tempo a chegar a uma conclusão que, quando lá chegarem, de nada sirva.
Apenas lamento uma coisa: que estas decisões sejam sempre um pouco seletivas. Ou seja, que se limitem sempre ao governo anterior quando o governo anterior é de um partido diferente. As PPP começaram na fase final do consulado de Cavaco Silva para construir uma ponte sobre o Tejo. Sabe-se que o acordo então assinado foi de tal forma vergonhoso que teve de ser renegociado várias vezes. O seu promotor, o então ministro das Obras Públicas Joaquim Ferreira do Amaral, acabou sentado na presidência do Conselho de Administração da Lusoponte.Continuaram de forma desenfreada no governo de António Guterres. Para cumprir o défice, o Estado, em vez de se endividar para investir, entregava a construção e exploração de uma obra pública a um privado e ainda o compensava por possíveis perdas durante décadas. Ou seja, endividava-se muitíssimo mais, escondia a despesa, dava espaço para todo o género de negócios pouco claros e promovia um espírito rentista e parasitário nas maiores empresas nacionais. Ao mesmo tempo que promovia o endividamento dos seus parceiros privados, com custos para o País. O governo de Durão Barroso continuou o esquema com o mesmo empenho. E o de Sócrates também.
As PPP, em vez de serem a exceção, transformaram-se na regra para todo o tipo de investimento, fossem eles obras ou, como é este caso, simples arrendamentos. Foram e são um dos principais factores de opacidade dos negócios do Estado e de mau endividamento público, privado e externo. São, em geral, um cancro para as contas públicas e para a economia.
Apesar da decisão de Paula Teixeira da Cruz ser correta, parece-me que devemos exigir muito mais. Da mesma forma que a ministra renegociou muitos contratos, tendo, segundo a própria, poupado seis milhões de euros ao erário público, é inaceitável que o Estado não faça o mesmo com tudo o resto. Que não reveja de fio a pavio todos os contratos deste género que governos do PS e do PSD assinaram, os renegoceie com determinação e, no caso muito provável de ali encontrar sinais de um comportamento danoso para o Estado por parte dos que deviam ter defendido os seus interesses, recorra à justiça. Sejam os responsáveis de que partido forem. Estaríamos então perante uma mudança radical do comportamento do Estado, com enormes ganhos para os seus cofres e a possibilidade de pedir menos sacrifícios aos portugueses. Com esta seletividade, a coisa soa mais a "spin" para passar culpas.»

Sem Carnaval - até já a gargalhada se acaba!

Um dia de trabalho para a Nação, artigo do José António Barreiros, in A Revolta das Palavras
«Por mim acabarem com os feriados, os domingos, os dias de festa, é indiferente. De há muito que aboli a diferença entre os dias úteis e os inúteis, tornando cada um a possibilidade de ser útil. Mas isto sou eu que, sendo um trabalhador liberal, tenho vida de escravo. Mas há os que trabalham por conta de outrem, afinal a esmagadora maioria do País. E, segundo as estatísticas, dentro desses há muitos que na verdade não trabalham, outros que trabalham por todos os outros mais pelos seus subsídios sociais.
Ora é em função desses que os Governos costumam governar. Este não, porque governa em função do que manda a "troika", correndo o risco de desagradar no imediato na ténue esperança de vir a agradar a longo prazo.
Do ponto de vista político, seja da política que na democracia partidária se vive, que é o fazer tudo o que traga a maioria contente para o partido que governa se renovar no poder ou, ao menos, se renovarem no poder os interesses que aquele partido e o seu meio-irmão representam no bloco central do sempre nós, a esperança tem calendário: que a retoma chegue antes do fim da revolta generalizada e , em qualquer caso, antes do fim da legislatura.
Vem isto a propósito de o primeiro-ministro ter anunciado que não ia haver tolerância de ponto no Carnaval e da gritaria que isso provocou. Berram uns porque não perceberam que isso já decorria do anunciado em matéria de fim de festas, berram outros porque pensavam que o corte nos feriados, suas tolerâncias, "pontes" e outras complacências, era, uma vez mais, a fingir, berram, enfim, os restantes porque acham que isto tudo é tão Carnaval como o Carnaval que se lhes amputou.
Uma coisa é certa: o Carnaval, na sua simbologia popular, é o tempo da descarga emocional, do gozo público e da chacota consentida, dos cabeçudos que são a cara de políticos, o tempo em que o comum cidadão afivela outra máscara que a quotidiana, tempo de malfeitorias que esvaziam os sentimentos contidos de raiva, o alho-porro, os esguichos na cara, os "traques" fétidos, o foguetório alucinante.
Terra gélida e chuvosa por essa altura, escasseia em Portugal a lúbrica nudez, falta-nos o ambíguo travestismo carnudo, rareiam as partes púdicas cobertas de luzentes estrelinhas o resto ao léu, são poucos os matulões emplumados, possantes e bamboleantes, como no Brasil meu Brasil brasileiro, terra de calor.
O nosso Carnaval costuma cheirar a gato-pingado. Este ano, por exigências da governação, vai ser doméstico, no lugar de trabalho, imagina-se com que rentabilidade e boa-disposição.
Auguro que o Silva chefe de secção vai levar no bolso uma mão-cheia de "confetis", o Sousa amanuense uma pistola de água tintada de vermelho para acertar nas rotundidades aparentes da Ifigénia da tesouraria, até descobrir, tarde de mais, que eram os postiços do Marques do arquivo, disfarçado sob loira cabeleira. Línguas de sogra, serpentinas darão a cor, garrafinhas de mau-cheio o odor. Longínquo, frio, o senhor director-geral reportará a Sexa, ministro a ampla adesão dos seus dependentes à nova política dos sem-festa. Este e todos os colegas do Governo comunicarão a Sexa, o primeiro-ministro para que Frau Merkel o saiba.
No meio de cinzas, o Rei Momo está morto e enterrado.
Cuidado, porém: foi assim que o actual PR começou o seu declínio. Aos Portugueses podem tirar-lhes tudo menos o direito constitucional à risota, a garantia fundamental da gargalhada.»

sábado, 28 de janeiro de 2012

«Salvem o euro – livrem-se da Alemanha», Anatole Kaletsky

Ilustração do Times para o artigo «Salvem o euro – livrem-se da Alemanha», do Anatole Kaletsky
«O mundo tem estado a assistir com horror e fascínio ao trabalho dos investigadores que buscam a causa para um naufrágio eminentemente evitável em Itália. Enquanto isso, a causa de um muito maior naufrágio salta à vista.
À medida que a Grécia avança para a bancarrota, que França, Itália e Espanha sofrem descidas de notação de crédito e que as negociações do tratado fiscal do mês passado chegam a um impasse, o euro caminha na direção das rochas e a força condutora está a ficar bem clara. A verdadeira causa do desastre do euro não é a França, a Itália ou a Grécia. É a Alemanha.
O problema fundamental não reside na eficiência da economia alemã, embora tenha contribuído para a divergência dos resultados económicos, mas no comportamento dos políticos e banqueiros centrais alemães. O Governo alemão não se limitou a vetar permanentemente as únicas políticas que podiam ter colocado a crise do euro sob controlo – garantias coletivas europeias para dívidas nacionais e intervenção em grande escala do Banco Central Europeu. Para piorar a situação, a Alemanha tem sido responsável por quase todas as políticas erradas postas em prática pela Zona Euro, que vão desde subidas loucas da taxa de juros no ano passado pelo BCE até exigências excessivas de austeridade e perdas bancárias que agora ameaçam a Grécia com uma bancarrota caótica.
É aqui que chegamos à raiz da culpa da Alemanha na crise atual.
Para o euro sobreviver, terão de ser satisfeitas três condições necessárias. A primeira, aquela em que a Alemanha insiste, é a imposição de disciplina orçamental, que só pode ser executada por controlo centralizado da UE sobre as políticas fiscais e de gastos dos governos nacionais.
A segunda é um elevado grau de responsabilização coletiva europeia pelas dívidas nacionais dos governos e por garantias bancárias. Este apoio mútuo é o reverso do federalismo fiscal, como Monti deixou bem claro; mas é um entrave que os alemães têm recusado sistematicamente nem que seja debater.
A terceira condição é o apoio do BCE à federação fiscal, comparável ao apoio monetário aos mercados de dívida pública pelos bancos centrais nos EUA, Reino Unido, Japão, Suíça e todas as outras economias avançadas. É por causa deste apoio do banco central aos seus mercados de títulos de dívida governamental que EUA, Reino Unido e Japão conseguem financiar défices muito maiores do que a França ou a Itália, sem qualquer preocupação séria sobre abaixamentos dos níveis de crédito.
A alternativa pessimista é que a Alemanha esteja genuinamente determinada a impedir a flexibilização fiscal e monetária necessária para o euro ter uma hipótese de sobrevivência. Se for esse o caso, então os restantes membros do euro vão, em breve, enfrentar uma escolha histórica. Abandonar o euro? Expulsar a Alemanha ou pedir-lhe simplesmente para sair? Ou, mais provavelmente, fazer acordos entre si para uma estratégia monetária e fiscal que provoque a saída da Alemanha?
França, Itália, Espanha e os seus parceiros da Zona Euro têm meios para salvar o euro e, de caminho, poderem escapar à hegemonia económica alemã. A única questão está em saber se têm a autoconfiança e entendimento económico necessários para se unir contra a Alemanha.
Em todo o caso, em breve os dirigentes da Europa vão ter de parar de atribuir a crise do euro à economia mundial, aos bancos ou à prodigalidade de governos anteriores. Como escreveu Shakespeare: "A culpa, caro Brutus, não está nas nossas estrelas / Mas em nós mesmos, que aceitamos ser subordinados."»

As feriadices do álvaro e a "parva" da Constituição!

o alvaro, o tratado de tordesilhas do ano da desgraça de 2012 e a alvarice do 'debate', por fernanda câncio (Jugular)
«estive a ouvir - até certa altura, quando desisti por manifestamente não aguentar mais idiotice - o fórum da tsf sobre o corte de feriados superiormente decidido pelo álvaro (inesquecíveis para todo o sempre aquelas palavras - 'não podiamos tirar o 25 de abril e o 1º de maio, o 10 de junho é o dia de portugal, sobravam o 5 de outubro e o 1º de dezembro') e não queria crer que a ninguém ocorresse dizer o mais óbvio dos ululantes óbvios: toda esta conversa de 'tinhamos de cortar 2 feriados civis porque a igreja concordou em cortar 2 religiosos' é simplesmente absurda.
admitindo que é um imperativo nacional cortar 4 feriados -- o governo tem legitimidade para tomar esse tipo de decisões, por estúpidas e infundamentadas que nos surjam --, fazendo as contas constatamos que nos 13 feriados ditos nacionais estabelecidos na lei 8 são de cariz católico. mais de 60% dos feriados impostos pelo estado são portanto referentes a celebrações de uma religião -- e uma apenas.
isto começa logo por ser um problema constitucional, em virtude da separação entre estado e religião, e prossegue sendo-o à luz da lei de liberdade religiosa. óptima oportunidade pois a que se oferece para endireitar esses erros clamorosos e contra-natura. porém, como é sabido, o governo não o fez -- invocando a concordata e o facto alegado de que ela obriga o estado português a entender-se com a igreja católica (entendida aqui como a hierarquia da dita e o seu quartel-general, o vaticano) nesta matéria.
sucede que isso é rotundamente falso. e não acreditem em mim, vão ler a concordata. e já agora oiçam também sobre isso o suponho que insuspeito cardeal patriarca.
temos pois que o que se passou com este dividir dos cortes de feriados 'ao meio' foi que o governo português decidiu entregar à igreja católica - ou seja, se quisermos, a um 'poder estrangeiro' -, a decisão sobre uma matéria que só ao estado português diz respeito e em relação à qual não se constituiu jamais em qualquer obrigação. e isto só se pode interpretar como deliberação de, por um lado, erodir a memória colectiva e abalar a identidade histórica nacional num fervor saloio de pseudo-liberalismo e de 'nós podemos tudo' (chama-se a isto fazer tábua rasa) e por outro 'comprar' a benevolência dos bispos, curvando-se perante uma religião e afirmando que a simbologia clerical lhe é mais cara que a nacional. uma mistura de oportunismo parvenu e beatice interesseira. é bonito. mas mais bonito ainda é a forma como o país dos comentadores e dos jornalistas engoliu isto tudo sem dificuldade, repetindo à saciedade 'feriados civis e religiosos', como se essa distinção tivesse o menor sentido; como se não houvesse apenas feriados nacionais e não se tratasse, ao reduzi-los, de ter em consideração a dignidade nacional e o cumprimento da constituição -- mas, claro, a constituição já não vale nada, não é?»

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Sejamos Essa Alavanca!

Deixo-vos hoje com algumas referências à alavanca. O símbolo que representa o poder da vontade. Com ela realizámos a nossa terceira viagem, carregámo-la na mão esquerda, juntamente com a régua de 24 polegadas a força. Consta das instruções para o Companheiro o seguinte conteúdo: «Dando-vos a alavanca, emblema do poder que sustenta o fraco e faz tremer o mau, a Maçonaria desejou simbolizar a expressão da força divina, da força moral que resiste a tudo que é impuro e corrupto, a tudo que é arbitrário ou tirânico, à superstição, aos vis impostores que se aproveitam da ignorância dos povos para torná-los impotentes escravos dos seus caprichos”. “[...] em pleno oceano da vida, em meio às vagas tempestuosas das paixões, lembrai-vos que, ao serdes consagrado Companheiro, tivestes em vossas mãos a Alavanca, talismã contra as tentações da inércia”.» Ou «Oração e trabalho são os recursos mais poderosos na criação moral do homem. A oração é o íntimo subliminar-se da alma pelo contacto com Deus. O trabalho é o inteirar, o desenvolver, o apurar das energias do corpo e do espírito, mediante a acção contínua de cada um sobre si mesmo e sobre o mundo onde labutamos. ... O Criador começa e a criatura acaba a criação de si própria. Quem quer, pois, que trabalhe, está em oração ao Senhor.» (trecho da Obra de Rui Barbosa extraído do artigo do Ir:. Raimundo Rodrigues - Cartilha do Companheiro - Ed. A Trolha - 1a. Edição - 1998 - págs. 105 e seguintes).
Com ela ergue o Maçon o seu templo social. Na vertical. Com ela recorda que a perseverança é uma qualidade. As três portas em que batemos representam as três disposições necessárias à procura da Verdade: Sinceridade, Coragem e Perseverança. A alavanca lembra essa qualidade de força, de firmeza e de coragem inquebrável.
Os tempos que atravessamos são de provação para os Maçons. É agora, mais que nunca, importante recordar que somos em cada um a alavanca de todos.
O Libertador Bolívar (iniciado na maçonaria em 1803, na Loja "Lautaro", Cádis, Espanha) perdeu várias batalhas até triunfar por fim.
Franklin Roosevelt (iniciado na Loja Holland No 8, New York) já paralítico e numa cadeira de rodas, foi o primeiro mandatário dos Estados Unidos e teve um papel determinante na IIª Guerra Mundia, não deixando de colocar a pirâmide maçónica nas notas de 1 dólar, recordando os ideais de construção de uma Nação Livre.
Thomas Edison foi um Maçon e fez 10000 testes até descobrir a Luz.
Cervantes legou-nos Dom Quixote de la Mancha, presenteando-nos com uma das mais belas imagens cavaleirescas de sempre (“− Nunca donde estou me levantarei, valoroso cavaleiro, enquanto vossa cortesia me não conceder um dom que vos peço, o qual redundará em vosso louvor e proveito do gênero humano.”)
Transportemos em Nós essa Alavanca, como Companheiros Uns dos Outros. Em Força. Com Coragem. Em Perseverança.
Arquimedes afirmava: "Dai-me um ponto de apoio que erguerei o mundo". Esse ponto é a mão de cada um de nós que se dá ao outro.
Serenos ante a adversidade, cabe-nos proteger a Ordem Iniciática que abraçámos. Com a tenacidade de Galileu que, quando ameaçado pela inquisição por afirmar que a "terra gira em torno do Sol" e, apesar de temendo a fogueira se ter retratado, não deixou de, ainda diante do papa, reafirmar aos seus amigos: "Mas que gira, gira".
Digam o que disserem não percamos de vista o essencial: Um Maçon é sempre um Maçon! Somos Maçons! Comportemo-nos como tal! Reconheço-os!

domingo, 22 de janeiro de 2012

Baltasar Garzón - Quando a Justiça incomoda!

«Começou a encenação do calvário judicial que poderá acabar com a carreira profissional do juiz espanhol Baltasar Garzón. O primeiro dos três casos por que é julgado é punível com desqualificação por 17 anos, significando na prática o afastamento definitivo da magistratura. Suspeita-se que as queixas são fruto de desejos ocultos de acerto de contas, vingança política, inveja profissional e preconceitos ideológicos. A acusação pública não vê crime na conduta do juiz.
Neste primeiro processo, o Supremo Tribunal acusa Garzón do crime de prevaricação (tomar uma decisão sabendo que é injusta), por ter ordenado a gravação de conversas telefónicas entre os principais acusados no caso Gúrtel — teia de corrupção que envolve o Partido Popular, no poder — e os seus advogados, ao suspeitar que colaboravam na ocultação de provas e no branqueamento de capitais. Protegido pela qualidade de juiz, Garzón não ocupa o banco dos réus. Senta-se, vestido com a toga, junto do seu advogado. Só foi obrigado a despi-la quando as partes compareceram para o interrogar.
No caso Gurtel são arguidos, entre outros, altos cargos do governo autónomo da Comunidade Valenciana (do PP, que fala em perseguição), incluindo o ex-presidente Francisco Camps. São acusados de receber presentes em troca de favores nos concursos públicos.
Os acusadores de Garzón argumentam que violou o direito de defesa dos arguidos ao gravar os advogados. Garzón negou-o, alegando que gravava presos e não causídicos, como ficou provado ao não resultar das gravações qualquer diligência judicial. As escutas foram autorizadas pelos promotores públicos e confirmadas pelo juiz do processo.
Dois dos sete magistrados que julgam Garzón — Varela e Marchena — são instrutores dos outros dois processos que ele enfrenta nos próximos dias: um por ter investigado os crimes da ditadura franquista (julgamento a 24 e 31 deste mês), impulsionados por duas organizações de extrema-direita, o partido da Falange Espanhola e a associação Manos Limpias, a quem o procurador acusou de “patente voracidade litigante”; outro devido a uma acusação de suborno por ter recebido dinheiro dos patrocinadores dos cursos que organizou na Universidade de Nova Iorque. Garzón tentou em vão recusar Varela e Marchena, aduzindo a sua manifesta parcialidade, mas nem o Supremo nem o Constitucional aceitaram. Conseguiu recusar outros cinco juizes deste caso. Varela e Marchena distinguiram-se na perseguição furiosa e comentários depreciativos sobre o juiz.
O juiz que ousou perseguir Pinochet - A sua ideia da justiça universal, a luta convicta contra o genocídio e os crimes contra a Humanidade levaram-no a perseguir desde as ditaduras latino-americanas ao próprio Osama bin Laden. Atormentado pela convicção de que a sua carreira de juiz em Espanha terminou (está suspenso desde 2010) e de que o tribunal que o julga encontrará maneira de o condenar, Garzón orienta a sua atividade para o exterior: é conselheiro externo de Luis Moreno Ocampo, procurador do Tribunal Penal Internacional de Haia, consultor do Comité para a Prevenção da Tortura do Conselho da Europa e conselheiro da Organização dos Estados Americanos para o processo de paz na Colômbia.
As causas do juiz-estrela - Garzón tornou-se famoso pelas operações ‘Nécora’ (1990) e ‘Pitón’ (1991), contra o tráfico de drogas, sobretudo na Galiza. Dirigidas pelo próprio a partir de um helicóptero, desmantelaram as maiores redes espanholas de comércio de cocaína.
Destacou-se na luta contra a ETA, sem dúvida marcado pelo assassínio da sua amiga, a promotora Carmen Tagle, às mãos do grupo terrorista. Foi o primeiro juiz a deslocar-se a França para interrogar líderes da ETA presos no país vizinho; deteve comandos armados e perseguiu as estruturas de apoio ao bando: fechou o jornal “Egin” e a sua rádio; ilegalizou o Herri Batasuna (braço político) e prendeu os seus dirigentes; desarticulou a rede financeira da ETA.
Atreveu-se, também, a perseguir os grupos financeiros mais importantes, incluindo o Banco Bilbao Vizcaya, cujos executivos denunciou por ocultação de contas em paraísos fiscais e por se autoatribuírem pensões à custa dos acionistas. O que deu notoriedade internacional a Garzón foi a ordem de deter em Londres, em outubro de 1998, o ditador chileno Augusto Pinochet, dando esperança a milhares de vítimas das tiranias de todo o mundo. Instaurou processos contra as ditaduras argentina e uruguaia, expôs a ‘Operação Condor’ (que coordenava com a CIA a repressão uruguaia, chilena e argentina à “subversão” das esquerdas) e conseguiu extraditar para Espanha torcionários como Ricardo Domingo Cavallo, que aplicava técnicas abomináveis na sinistra Escola de Mecânica Naval, de Buenos Aires. Em 2002, personalidades e organizações promoveram a sua candidatura ao Prémio Nobel da Paz.» Angel Luís de la Calle (correspondente em Madrid - Expresso) | 21-01-2012

sábado, 21 de janeiro de 2012

Graça Moura no CCB - olha a calaceira!

Já se adivinham "em primeira mão" extractos do discurso de Graça Moura na cerimónia de posse como presidente do conselho de administração da Fundação CCB. «Sabe-se que Moura pretende dar um ar da sua graça logo a abrir o discurso: “ (…) podemos enumerar: a natureza calaceira dos portugueses; o seu feitio de incumpridores relapsos; a sua irresponsabilidade nas exigências desenfreadas; o corporativismo imperante nos sectores sócio-profissionais [sic]; os péssimos níveis de qualificação escolar e profissional; a iliteracia generalizada e irremediável; uma certa propensão para a estupidez e a crendice fácil que explica algumas vitórias eleitorais socialistas; a desagregação e desprestígio de todos os sistemas de autoridade democrática; o arrastamento intolerável da administração da justiça que nos torna uma vil caricatura do Estado de Direito; a neutralização do papel das famílias que são cada vez menos as células-base da sociedade; a falta de coragem e discernimento de alguns sectores da classe política, que não sabem pensar a mais de três meses de prazo e sempre de olho posto na comunicação social... Enfim, a juntar a isto, a crise de todos os valores éticos, identitários e culturais, o espírito de eleitoralismo permanente em que os detentores do poder político vivem, dos governantes aos autarcas, a pilhagem do aparelho de Estado pelos boys, a promiscuidade entre os grandes interesses económicos e a actividade política - e estou longe de ter esgotado um quadro que nos transformou num país sem alternativas e sem saída.
O regime democrático deveria aprender a pensar-se a partir da única metáfora que seria válida para o mudar nas eleições: a vassourada. Mas talvez ninguém ouse fazê-lo, porque os arranjinhos, os compadrios, o nacional-porreirismo, a falta de nervo, intervêm infalivelmente num país que não chegou a consolidar-se como comunitário e agora enfrenta uma Europa de construção cada vez mais problemática.
Portugal está uma porcaria.’»
Porque é que se adivinha o discurso? Porque ainda o ano passado, o Vasco dizia isto «A solução para a São Caetano pode ser mudar de povo. Só o desespero alimentado pelos resultados das últimas sondagens pode justificar esta onda de insultos à inteligência dos eleitores a que o PSD, de forma tão relevadora quão mesquinha, se tem entregue nos últimos dias.
É verdade que o Carlos Abreu Amorim já havia comparado os eleitores mais vulneráveis à propaganda aos famigerados cães de Pavlov. E é verdade que Miguel Relvas, depois de ter comparado os portugueses com os marroquinos, confessou as suas angústias perante aquela “parte do eleitorado que quer ser iludida, quer ser enganada e quer ser iludida” [sic].
Mas era necessário transformar este desprezo pelos eleitores num naco de prosa mais distinto e reluzente. Para isso, ninguém melhor que o poeta de serviço, Vasco Graça Moura, que, nas páginas do órgão oficial do PSD, o “Povo Livre” (página 10), discorre livremente sobre os defeitos dos portugueses – os mesmo que ajudam a explicar por que raio é que o PS está há tanto tempo no poder e é tão difícil tirá-lo de lá (...) A conclusão geral, mais à frente no artigo, é lapidar: “Portugal está uma porcaria”.»
E, já na altura, a indignação surgiu com gente a perguntar «É esta a imagem do país dada por um ex-deputado europeu, eleito por portugueses “calaceiros” por natureza, “incumpridores relapsos”, “irresponsáveis”, “desqualificados”, “iletrados”, propensos para a “estupidez e a crendice fácil”. Ainda perguntam de que(m) é que é preciso defender Portugal?» (Câmara Corporativa)