quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Lisboa simbólica



Egas Moniz, Antero de Quental, Carlos Mardel, Camilo Castelo Branco, José Correia da Serra, António José de Almeida, Francisco Manuel do Nascimento, Avelar Brotero, Bernardino Luís Machado Guimarães, Sebastião José de Carvalho e Mello, Sebastião de Magalhães Lima, tomados de saudade por Lisboa, reerguem-se das cinzas, em retiro saem do Oriente Eterno e vão deambular feitos gente pelas ruas de hoje desta cidade. Entreolham-se em fraterna cumplicidade e comentam a sua Lisboa – a perpetuamente sagrada - como Roma.
- Sabeis, irmãos, que são sagradas as cidades erguidas em sete colinas, próximas a um rio com cinco letras? Vejam Lisboa e o Tagus, Roma e o Tibre. - Sabias tu que o Terreiro se mede pelo Convento? Sim, que dentro dele encaixa o Terreiro, 22 arcos e Arcanos Superiores do Tarot, o Cavaleiro ao Centro, igual ao Altar, sentado no cavalo branco de pata direita levantada e pisando serpentes... este do lado do ocidente, o elefante do outro, ao oriente. Rei-Sol, sim, o Cavaleiro Akdorge. Vê, ali está o cavaleiro vestido de Romano, a olhar para sudoeste, em direcção ao Brasil. Naquelas duas colunas do cais entrará um dia na Capital do V Império, O Desejado, que foi e não volta do Oriente. - Planeei eu o Terreiro e os três braços que nele desaguam em ruas: A do Ouro (solar), a da Prata (Lunar) e no centro,a Augusta, semelhantes ao Caduceu de Hermes, o Três-Vezes-Grande. As serpentes (Ruas do Ouro e da Prata) enrolam-se no ceptro central (Rua Augusta, ou Imperial). Ehehehe. - Quantos irmãos descansam neste Cemitério – dito dos Prazeres. Embelezam suas moradas eternas com o Delta - o Triângulo Sagrado, a Divindade e a Natureza - a Tri-Unidade; o Delta Luminoso, o Poder Supremo e a Omnisciência; o G, a Letra sagrada inscrita no centro do esquadro, primeira letra de God, início da Geometria e da arte da Arquitectura; o olho do delta - o Sol, a luz e a vida, o Verbo, o princípio criador, a presença omnisciente Dele, a omnisciência da razão superior, do dever e da consciência; a chave, a fidelidade e a discrição, o Tesoureiro; a colmeia – o trabalho; a Estrela pentagonal – a pentalfa (natureza e homem nela encerrados), cinco pontas iguais (cabeça e membros do Ser) - vértice para cima (a Vida em evolução), vértice para baixo (a Vida em revolução); as colunas (solidez em edifícios vários); a Árvore da Vida - limites que enquadram portas; fazem-se braços do Templo, duas de bronze por Hiram, a da direita J e a da esquerda B; coroam-nas romãs (fecundidade e união); o esquadro, união da vertical com a horizontal (perfeição, rectidão e acção do Homem sobre a matéria e sobre si mesmo); o compasso (Terceira das Grandes Luzes), espírito e pensamento e raciocínio, e também do relativo (círculo) dependente do ponto inicial (absoluto); a águia bicéfala; o fio de prumo (profundidade e rectidão do conhecimento), com o nível e o esquadro, se construí com perfeição um edifício; por fim, as penas cruzadas, morada do Oriente Eterno de um Irmão Secretário.
E Lisboa não pára de os encantar. - Vai bem aquela rama de oliveira ali no símbolo da Ordem dos que Demandam, junto com o Livro-Aberto, a lamparina e o mocho. - Vêm Folhas daquelas a enfeitar o Brasão deste país. - E o Compasso mora no logotipo da Ordem dos que projectam, planeiam e constroem. - Vissem eles mais longe, e veriam o que fica desperto na noite, porque tudo conhece, o Mocho no logotipo da Universidade de Coimbra. E o Livro-Aberto e a Águia a olhar para a esquerda no logotipo da Universidade de Aveiro.
Mas ainda em Lisboa, já cá em baixo, procuram a Praça. - Sabem que Lisboa foi traçada Templo gigante e que a porta de entrada é junto ao rio. Ali ficam as colunas. Ao centro da Praça, o altar – o 1º José. Miram a imponência do cavaleiro que pisa o chão repleto de serpentes. - Lembrai-vos, irmãos, o chão é Portugal, a “frente das serpentes” e Lisboa, a Grande Serpente, e sete são as colinas, os anéis daquela. Conhece Lisboa a serpente e esta a fez sua herdeira. Mais abaixo, vêem o elefante a Oriente e o cavalo a Ocidente, toca a Fama a trombeta. No fundo, o Mundo. De um lado as terras do sol nascente, do outro onde ele se põe. No centro sempre Portugal.
Na retaguarda, descobrem-lhe as chaves, o compasso e o esquadro, e mais abaixo, a arca aberta com o tesouro, a jóia do conhecimento. Ao centro, um Menino coroado, baptizado de Quinto Império, ostentando uma coroa de louros, pela vitória merecida, e uma estrela de cinco pontas, que ilumina e dá sabedoria.
Do cimo do Arco da rua Augusta, a enorme praça apresenta-se cheia de vida. E passam pelo Arco do Templo, a entrada do caminho místico. Já na posse das chaves, entram nas ruas do Templo e vão até às outras Portas – as de Santo Antão. Caminham pela nova cidade em linha recta, como antes o faziam no Templo.
Observam então as laterais, nelas adormecidos ficam os dois rios, Tejo e Douro, como outrora abraçavam o território da Antiga Lusitana (reino de luz e do conhecimento). O Douro tem no colo o cacho de uvas. Entre ambas estão Viriato, o que fundou e defendeu, Vasco da Gama, o navegador que uniu Oriente e Ocidente, o Marquês, o que a reconstruíu, e por fim, Nuno Álvares Pereira, o que lutou pela independência e se fez herói.
Depois, vão até à Glória que coroa o Génio e o Valor. No painel da estátua equestre, também ela lá se encontra a coroar o Imperador. Está a Rainha, coroando a pátria e São Miguel, o anjo que o país defende. Visto do cimo do Arco vêem a Magna Mater e a seu lado uma mesa sobre que caem duas coroas de louro à espera dos que hão-de vir. Do outro lado, o anjo acolhe na asa esquerda o Imperador do Quinto Império e protege-o. - Reparem, Irmãos, no triângulo que atravessa as três figuras, em equilátero. - E, debaixo, boto-te o meu latim: “Virtvtibvs Maiorvm Vt Sit Omnibus Documento. PPD (Pecunia) P(ublica) D(icatum)”, para Vós Meus Irmãos que de latim nada sabeis sempre vos digo o que é: “Às virtudes dos maiores (mais velhos), para ensinamento de todos. Dedicado a expensas públicas”. - Vejam ali mesmo, ao centro do arco, estão as armas de Portugal, envoltas em grinaldas. – Sim, como já antes as punham os antigos à porta dos templos e ainda hoje se enfeitam túmulos de heróis. – Reparem acolá, junto a estas, ramos de videiras, a vida eterna, e a palma, a vitória sobre a morte e o pecado. E, no reverso, um relógio que marca o Tempo. - Não era aqui mesmo o Convento (o da Trindade)? – Sim, mas para deleite de todos, no antigo refeitório, se instalou cervejaria. – Perdeu-se o seu revestimento azulejar? – Não, outros irmãos o souberam aproveitar e sob ele mandou-se ainda pintar magnífica profusão de nossos ornatos e símbolos e outros painéis alegóricos com as estações do ano. – Bem pensado, para que acolham os homens todo o ano em prazeres profanos onde antes apenas havia manjar para o espírito. - Logo aqui ao pé do Teatro da Trindade é digno de se ver um outro prédio com elementos nossos e da Mãe-Natureza. - E que bem está a fachada do Gremio Literário, e vivem ainda nele os mesmos símbolos.
Percorrendo numa languidão prazenteira a cidade, vão pelo Chiado e depois pelo Bairro Alto e as fachadas de azulejo marcam o ritmo do seu passeio. Contam os azulejos pequenas histórias, como os da Igreja de São Roque, e demoram-se nos pormenores, descobrindo os símbolos na casa do Ferreira das Tabuletas – sim , o que trabalhava na Viúva, - Vede, que mistura fantástica de jacobinos, elementos neoclássicos, traços barrocos, alguma chinoiserie e elementos naturalistas - os 4 elementos, terra, água, ar e fogo. - Conheces, Irmão, aquela quase igual que fica naqueloutro prédio do Campo de Santana? - Estava agora perdido. Pensava na emoção desse Outubro, onze anos passados de 1900, em que chegava a Lisboa a Deusa da Democracia e da Liberdade - musa da Revolução Francesa.. Anunciara-a Hermes, mensageiro dos deuses gregos, empunhava a tocha. Percebia-se a coroa enramada e a coluna encimada pelo globo. A latere, notava-se o compasso cruzado com esquadro de pedreiro, ainda a deusa, ainda o globo e o mocho. - Sim, olha o painel de Maria Keill que deixou a História em forma de gesto pintado, olha o busto abaixo do triângulo, lá dentro “o delta com o olho-que-tudo-vê”. Além, a Estrela de Israel, dos judeus e de David, cruzando o triângulo amarelo e o triângulo invertido de contorno preto. A coroa de ramas da oliveira e de boloteira que a águia segurava na garra direita lembrava a pomba de Noé e igualmente bordara a capa da Constituição, o Selo Oficial e o Brasão. - Acabemos o nosso passeio, Irmãos, vamos até à nossa casa de Viseu. - A casa mais bonita da cidade. - Aqui mesmo, no centro da cidade, a um passinho do Rossio. - Conheço-a bem Irmão, é uma casa cor-de-rosa, com a fachada repleta de símbolos que tão bem conhecemos.... - Recomendêmo-la a outros Irmãos. - Que a vindes ver. - Nesta Lisboa que é Templo esta casa é a que tem as janelas mais bonitas que eu já vi: em forma de estrela.

Maçonaria e fraternidade, a propósito do Natal

‎"Deixai os mortos enterrarem os seus mortos" (Mt. VIII, 22) foi um alerta para que certo discípulo não perdesse o seu tempo com o que estava perdido, recordando assim Jesus que a Humanidade se dividia em dois grupos: os mortos para a vida espiritual e os vivos para a vida espiritual.
Fomos chamados a servir a Nossa Augusta Ordem num espírito de pertença e de fraternidade que não podemos nem devemos descurar. O conhecimento impele-nos para um estado de alma "vivo", afastando-nos daquelas almas que Jesus bem entendia mortas para a vida espiritual e unindo-nos na essência da chama que nos junta enquanto I.'.
Essa centelha de fraternidade é, não esqueçamos, uma das bases do tripé que caracteriza os sólidos conceitos imateriais em que se baseia a Maçonaria. A ideia de Fraternidade é uma das marcas distintivas dos Maçons entre si e é um conceito-chave para o pleno estabelecimento da cidadania entre os homens, inter pares. A Fraternidade assume hoje a maior importância face a uma sociedade que parece disposta a remeter para a "caridade" todos e quaisquer gestos de uns em prol de outros. Cabe-nos qualificar o conceito em ordem a um outro, o de dignidade. Dignidade de todos os homens, nascidos iguais e considerados iguais no exercício dos seus plenos direitos (sociais, políticos e individuais), em oposto à ideia de caridadezinha para que a hipocrisia de um Estado falido do ponto de vista ético-social insiste em nos lançar. O nascimento de Jesus não terá, pois, melhor e mais digna forma de ser celebrado que exigir de nós que, numa cadeia de união que os tempos modernos exigem a tempo inteiro. saibamos dar as mãos entre nós e entre todos os homens.
Todos os anos, por esta altura, o Hospitaleiro se vê, por inteiro, chamado a exercer o seu cargo, de mãos dadas com todos os I.'., sem preterir aqui o papel dos A.'.M.'. e dos C.'.M.'. que especialmente têm a oportunidade de melhor compreender a abrangência do conceito de Fraternidade dentro da N.'.A.'.Or.'.. Saibamos nós explicar-lhes que o conceito transborda fora de portas mas que também cabe dentro delas. Já várias me pronunciei, em várias instâncias, sobre a forma como funciona mal ou não funciona de todo o Tronco da Viúva na grande maioria das G.'.L.'. e gostaria aqui de sublinhar a importância deste fundo para assistir aos problemas financeiros imediatos dos Ir.'. que assolam e certamente terão dificuldades nos próximos tempos. Assim sendo, a ideia de Fraternidade impõe-se entre Colunas com carácter de urgência. Os Ir.'. merecem saber e estar confiantes de que todos tudo faremos para lhes dar as mãos nos momentos dificeis que se avizinham. E que todos, incluindo os mais frágeis, igualmente ajudaremos todos os homens ainda que não sejam nossos Ir.'. maçónicos. Mas sem perder de vista que a essência do conceito começa em casa, na nossa Casa. Adentro do nosso Templo. O Hospitaleiro tem a obrigação de providenciar, dentro das possibilidades da L.'. , o necessário, em conjunto com o V.'.M.'. (e, eventualmente, como o Ir.'.Tes.'.), em sigilo ou com toda a descrição possível e exigida. Os Ir.'.a quem esta crise tenha batido à porta de forma mais violenta serão confortados com a certeza de nos saber, a todos, Hospitaleiros, na inacção de quem detém o cargo ou na ineficiência da L.'.. O Templo está em Nós. Começa em Nós.
Saibamos dar disso lição a quem agora começa o caminho e saibamos manter viva esta certeza a quem já nele está.
A Fraternidade, a par da Liberdade e da Igualdade, interagem numa só equação que é o espírito e que toma corpo na Maç.'.. Uma sociedade sem Fraternidade será tomada pelas realidades mais devastoras (droga, violência, fome ...) e uma L.'. sem Fraternidade é mácula entre nós.
Não pode criar-se o caos entre nós. A Ordem tem de permanecer pela constância prática das nossas virtudes. Que a Cadeia de União se sirva de nós enquanto "nós"! A Maç.'. exerce-se na vida mas começa em L.'. Um bem-haja a todos. Aceitem o meu abraço fraternal.

Ser maçon e ser cidadão livre - Justo e de bons costumes!

‎"O homem é um animal essencialmente político", disse Sócrates. Os tempos que atravessamos exigem de todos os cidadãos uma intervenção activa. Impõe-se a cidadania. Sempre que um maçon se omite do exercício da sua responsabilidade de cidadão renuncia aos princípios que ajuramentou, a começar, desde logo, pelos direitos à liberdade de expressão e à democracia. Viver num Estado de Direito Democrático não pode acobertar inacções e omissões relativamente a quadros jurídico-constitucionais que colocam em causa esse mesmo Estado de Direito. Ficar calado e quieto será cómodo mas não é posição que se compagine com os ideais que jurámos defender. Quando estão em causa o normal funcionamento das instituições democráticas, e, igualmente, em paralelo, os valores, atitudes e acções próprias da vivência em normalidade democrática, o silêncio é um direito que não temos. Dir-se-à que depende do perfil de cada maçon e que quem não é socialmente interventivo se limita a continuar a não o ser depois de se tornar maçon. E o que ajuramenta ele? Os rituais falecem no exacto momento em que nada percebeu ou assimilou do que ajuramentou. Silenciarmo-nos ante a instalação de macro interesses, designadamente económico-financeiros, e assistirmos, impávidos, à destruição do Estado Social como se nada fosse connosco, remete-nos para omissões passadas registadas na História, incluindo a custo da vida dos maçons [e bastaria lembrar a resistência em época de ditadura e, in extremis, o nazismo] É certo que, regista o poema; ("Primeiro levaram os judeus, Mas não falei, por não ser judeu. Depois, perseguiram os comunistas, Nada disse então, por não ser comunista, Em seguida, castigaram os sindicalistas Decidi não falar, porque não sou sindicalista. Mais tarde, foi a vez dos católicos, Também me calei, por ser protestante. Então, um dia, vieram buscar-me. Mas, por essa altura, já não restava nenhuma voz, Que, em meu nome, se fizesse ouvir." [Poema de Martin Niemoller]). É também certo que os tempos fazem-nos adivinhar políticas sectárias e segmentárias que podem ameaçar a liberdade em que vivemos.  a nossa vez pode chegar. Basta pensar nas várias tentativas que têm vindo a ser feitas, do género da intentona de José Cabral, para que maçons - porque é a eles especificamente que tais propostas de lei se dirigem - sejam "obrigados" a declarar a sua condição de maçons. Talvez seja este um dos maiores paradoxos do actual estado de coisas. Interrogo-me como se declara uma condição intrínseca à nossa existência e que nos acompanha a par do ar que respiramos. Com a mesma necessidade e naturalidade. Por mim, ninguém deveria ser obrigado a afirmar essa condição pelo simples motivo de que ela nos devia estar no rosto sem a denunciarmos. Ela devia transparecer dos mais pequenos gestos e das acções mais notórias. Calar a voz dos livres pensadores não é uma forma de vida aceite. Venha a ordem do sistema ou dentro de cada um. Quem se presta a viver numa omissão tal deve perguntar-se se é, mesmo, de facto, um maçon, Se vestiu essa pele quando foi investido dessa condição. Provavelmente, a tanto sigilo está agarrada uma condição mal assimilada e mal vivida. Como se esconde a cor da pele? Porquê abafar algo que, supostamente, só nos deveria dignificar, quer a nós quer à sociedade. Será que a luta dos maçons em tempos de ditadura se faz para se ter o direito a esconder essa qualidade já em tempos de Democracia? Essa posição é dificilmente sustentável. Por isso, defendo que, nos tempos que correm, o silêncio (já) não serve. Os regimes não democráticos (e evito apelidar alguns casos de "ditaduras", apenas porque divergem em termos de Ciência Política, muito embora, às vezes, não passem de artíficios de democracias muito mal conseguidos e disfarçados) institucionalizam-se pelo "poder da força", sobretudo pela força das ideias. Resta-nos - não existe sequer outro cenário pensável ante os propósitos que estiveram na base da formação da Maçonaria - combater essas tentativas de "forças institucionalizadas" com o "poder das ideias" e com a força da acção. De uma posição activa e interventiva que compele o Maçon a trazer as suas ferramentas para a sociedade civil. Polindo-a. Desbastando-a. Transformando-a. A Maçonaria foi, em tempos idos, Escola de livres pensadores. Tem de voltar a sê-lo. Homens a quem os interesses, sejam eles de que índole forem, não resgatam e não compram. Os Maçons de hoje são chamados a defender, no dia a dia, na sua vivência em sociedade civil, como os de outrora, os ideais de liberdade, de igualdade e de fraternidade. Assiste-lhes, pois, o dever de não renunciar aos princípios de "liberdade", de "democracia" e de "república", tornando-os pedras vivas fora do Templo - até porque o são adentro do seu templo interior - sob pena de renunciando ao exercício livre da sua própria cidadania, faça som morto da sua condição maçónica. É que o Maçon está ligado umbilicalmente a essa ideia da livre cidadania. É-lhe intrínseco o papel de "homnm do leme". Só assim a sociedade compreenderá que a liberdade democrática não é letra morta mas som vigoroso e firme. E que a nossa forma de a praticar, vinte e quatro horas por dia, resulta dessa escolástica "entre colunas"! Esta intrépida defesa pelo ideal democrático, enquanto único regime tolerante de uma Maçonaria aberta, impõe-se como uma "virtude". O Maçon, enquanto homem, não pode ser um "ignorante político", já que se arroga a ser um "homem livre". Ser livre e de bons costumes em nada se coaduna com a frequência periódica de liturgias. Pura e simplesmente porque as reduz, pela sua inacção, a coisa nenhuma. Perceber os símbolos passa por trazê-los agarrados à nossa pele e por não abdicar de os respirar e transpirar por um minuto que seja. Aquele que, na sua vida de cidadão livre, informado e interventivo, age politicamente (numa dinâmica comunitária), propugna pelos ideais de liberdade (democracia plena), igualdade (justiça social) e fraternidade (realização coletiva), entendeu o que é ser maçon. Aos demais resta a sua condição de não-mortos. Passou-lhes despercebido o significado iniciático que transforma o Homem por dentro para que ele depois transforme a sociedade. Sempre que um Maçon enjeite o exercício desses seus deveres, a que aderiu aquando da sua Iniciação - o que é cumprir a Lei do País? - comete um perjúrio e faz dele um apátrida. Sem terra maçónica. Faz dele apenas pó. E com estas palavras suscito o pensamento de hoje: saibamos ser cidadãos plenos, com todas as implicações que daí advém, porque foi isso também exactamente o que jurámos!

Juízes em insurreição, finalmente!

Variando a inação a que nos habituaram e quebrando a desfaçatez do Tribunal Constitucional os Juízes vêm agora comparar este Orçamento ao “imposto aos judeus para a Coroa” e insistem em que o mesmo seja levado à apreciação do Tribunal Constitucional, o que foi já concretizado em apelo ao Presidente da República.
No entender destes - e dos mais conceituados juristas, incluindo constitucionalistas da nossa praça - os subsídios de férias e de Natal são «inalienáveis».
O presidente da Associação de Juízes (ASJP) António Martins não deixa de destacar, com toda a pertinência e legitimidade, a «enorme responsabilidade» que cabe ao Presidente da República de verificar a conformidade da Lei do Orçamento com os princípios constitucionais da «confiança, da necessidade, da proporcionalidade e da igualdade», próprios de um Estado de Direito. E lança a farpa: os subsídios de férias e de Natal são «inalienáveis e impenhoráveis» e que - memória ainda houvesse neste tempo em que tudo vale para o saque estadual - nem no tempo da ditadura e do Estado Novo se infligiu «tamanho castigo» aos portugueses que exercem funções no sector público. Sem apelo nem agravo, afirmam que a Lei do Orçamento do Estado de 2012 «contém medidas injustas, violentas, iníquas, ilegais, violadoras do princípio da equidade fiscal e discriminatórias dos portugueses que exercem funções no sector público ou estão reformados» e sublinham que só recuando às Ordenações Afonsinas e ao tributo especial de 20 soldos por ano (imposto aos judeus para a Coroa) se encontra qualquer coisita minimamente parecida com estes castigos a que nos veremos penitenciados nos próximos tempos.
Terminado esta insurreição - que peca apenas por tardia - afirma que «A História há-de julgar-nos, a todos, pelo que fizemos ou deixamos de fazer», referem os juízes, considerando ser «incompreensível» para os portugueses que o órgão constitucionalmente previsto para apreciar preventivamente as dúvidas de constitucionalidade não seja convocado para o efeito. E lembra que as dúvidas sobre a legalidade e constitucionalidade da Lei do Orçamento do Estado de 2012 «são mais que fundadas e têm sido manifestadas por vários quadrantes políticos e universitários».
Ocorre dizer que esta casta de intocáveis, finalmente, se parece lembrar que as leis, para além de se presumirem sujeitas à Constituição (e a constitucionalidades destes saques é mais que duvidosa) deviam, ainda, atender ao direito natural e à Justiça enquanto silogismos maiores.
Resta apenas saber (ou confirmar) se o Presidente da República ou os deputados conseguirão os seus intentos de declaração de desconformidade constitucional com este saque unilateralmente declarado e institucionalizado pelo Governo, e, não o conseguindo, o que pretendem fazer se um cidadão normal intentar ele mesmo uma acção contra o Estado pelo não pagamento destas remunerações ... aplicam a Lei ou assumem-na inconstitucional?

sábado, 10 de dezembro de 2011

O plano alemão, por João Marcelino

O plano alemão, por JOÃO MARCELINO, DN
"1. O plano de salvação do euro é o plano alemão - não há outro. Insiste na disciplina orçamental, com limites à dívida (60% do PIB) e ao défice. Impõe sanções para o incumprimento, automáticas em caso de prevaricação. Não admite a mutualização da dívida, e muito menos as eurobonds que os países do Sul gostariam de ver a respaldar os seus crónicos desvarios. Aliás, do lado do conforto imediato aos aflitos veio muito pouco, ou quase nada, do Conselho Europeu. Antecipou-se em um ano o nascimento do mecanismo permanente de gestão de crises, o Mecanismo de Estabilização Financeira (MEE) que sucederá ao Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF). Permitiu-se que os bancos centrais nacionais possam vir a emprestar 200 mil milhões ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para eventual ajuda a países com problemas de financiamento. E é tudo, por enquanto. É muito? É pouco? É o que quer Merkel. Na União Europeia não há outras vontades, nem outras possibilidades. Quem precisa não tem força nem meios, nem credibilidade; e quem ainda tem tudo isso entende (provavelmente com fortes razões...) que não pode arriscar uma ajuda sem condições, sem tempo e sem garantias, a um espaço onde tem existido muita irresponsabilidade.
2. Talvez não se possa dizer que ficámos na mesma - falta testar a reacção definitiva dos famosos "mercados", que ontem foi ligeiramente positiva - mas andou-se o esperado, e pouco mais. No final da linha, aterrador para quem não deseja revoluções e aprecia a paz, que na parte ocidental da Europa já dura há cerca de 60 anos, está a possibilidade do desaparecimento do euro, um acontecimento de consequências absolutamente imprevisíveis para a União, e não apenas para o mais restrito clube da moeda única. Se, porventura, esse vier a ser o fim desta utopia de uma união política e monetária que um dia daria lugar aos Estados Unidos da Europa, estaremos perante um cenário de incertezas e dificuldades que não existe capacidade para prever.
3. A grande novidade do Conselho Europeu foi a posição do Reino Unido, e não apenas pela eterna desconfiança quanto ao federalismo e a tudo o que envolva uma liderança germânica. Na verdade, os britânicos tentaram um negócio - o "sim" a um novo tratado em troca de vantagens na regulação comunitária - e não o tendo conseguido preferiram egoisticamente ficar de fora. É preciso ter muita imaginação para ver na posição de David Cameron mais do que negócio, puro e simples, tão detestável quanto ignora as dificuldades de uma parte substancial da Europa.
4. Especificamente, Portugal sai desta cimeira sem razões particulares para se sentir melhor ou mais confortável. Em termos meramente políticos, há um problema que tem de ser resolvido pela maioria de novo em conjunto com o PS: os limites à dívida e ao défice, contra os quais Cavaco Silva falou em tempos agitando o espantalho da perda de soberania. Isso impõe a revisão da Constituição e esta precisa de dois terços no Parlamento. Além do mais, estes limites colocarão no futuro a necessidade do reforço da austeridade. Vivemos hoje com uma dívida que já passou os 100% do PIB e temos de continuar a fazer um emagrecimento orçamental que só vai chegar este ano aos 5,9% de défice com receitas extraordinárias (dos fundos de pensões dos bancos) que não mais serão possíveis. É muito duro o que está pela frente - e deste Conselho Europeu não vieram notícias, nem boas nem más, para combater a desaceleração económica, estimular crescimento e combater o desemprego. Continuaremos entregues ao que formos capazes de fazer. Definitivamente, acabou o tempo do dinheiro fácil e ainda temos de lutar diariamente pelo do resgate, tranche após tranche.
A hostilidade de Sarkozy em relação a Cameron, no final do Conselho Europeu, é um gesto, um simples gesto de mau humor, de vontades frustradas, dir-se-á. Pois, mas são estes normalmente que definem a qualidade dos homens..."

Episódio semanal da sequela Marinho e Pinto e Paula Teixeira da Cruz

Se não soubesse o que sei de um e de outro seria levada a pensar que existe aqui uma grande atração ou até mesmo amor. Marinho e Pinto não resiste aos encantos e continua a lançar "palavras meigas" a Paula Teixeira da Cruz. Tenha ou não tenha razão esta atenção constante parece-me assediante.
Eis a última.
• A. Marinho e Pinto, Tartufos da justiça:
‘E, assim, enquanto outros lhe fazem o trabalho sujo, a ministra da justiça continua a sua meritória acção governativa: ouve falar em corrupção, logo garante que vai acabar com a «impunidade absoluta da corrupção»; um tablóide fala em enriquecimento ilícito, logo ela envia para o Parlamento um projecto de diploma para o criminalizar; os jornais dizem que um arguido está a usar expedientes processuais para atrasar o trânsito em julgado de uma sentença, imediatamente a ministra corre para a comunicação social garantindo que vai acabar com as manobras dilatórias; a comunicação social diz que Duarte Lima não pode ser extraditado para o Brasil, logo a ministra (sem reparar no que diz a Constituição) vai à televisão afirmar que pode; alguns órgãos de informação noticiam que os homicídios do estripador de Lisboa já prescreveram, imediatamente ela surge a prometer legislar para dilatar os prazos de prescrição.
Enfim, num momento em que o país precisava no ministério da justiça de alguém com uma sólida cultura jurídica que constituísse uma bússola para um sistema judicial em profunda crise, o melhor que o Dr. Pedro Passos Coelho encontrou para o cargo foi um catavento que oscila ao sabor das brisas mediáticas.’

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Desmentidos "oficiais" de informações "oficiais"!

Vozes "oficiais" informaram agora que, afinal, o cidadão alemão detido na manifestação de 24 de Novembro e que é julgado na terça-feira consta no sistema Schengen como sendo um «indivíduo violento», mas não é procurado pela Interpol. Esta voz "oficial", ou seja, a Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa adianta na página da Internet que Manuel Beck, detido no dia da greve geral junto à Assembleia da República, não é procurado pela Interpol, nem tem mandados pendentes na Alemanha. Manuel Beck, de 21 anos, detido por crimes contra a paz pública e a autoridade, foi presente a tribunal no dia 25 de Novembro, mas o julgamento foi adiado para terça-feira, uma vez que era «imprescindível a realização de exames médicos» ao agente da PSP «violentamente agredido» na manifestação, segundo a PGDL. O arguido ficou sujeito ao termo de identidade e residência, realizando-se na terça-feira o julgamento no Tribunal de Pequena Instância Criminal, no Campus da Justiça, em Lisboa. Curiosamente (ou talvez não) foi a polícia, uma voz "oficial", portanto, bem como alguma imprensa que se apressou a divulgar depois dos incidentes junto ao parlamento que o jovem alemão detido era conhecido como o “monstro”, tinha um mandado de detenção da interpol e estava fichado pela polícia alemã. Ora bem, o que acontecerá ao porta-voz da polícia que "oficialmente" informou mal? Informou mal porque não tinha conhecimento dos factos (e, nesse caso, porque falou?) ou porque o mandaram informar mal? Fica à espera de uma condecoração, presume-se ..