quarta-feira, 3 de março de 2010

Racismo e Sexismo + Faro Político: uma combinação de sucesso!

Quando os observadores norte-americanos observaram a campanha pré-eleitoral de Hillary Clinton e Barack Obama, algo lhes parecia óbvio: ambos partilhavam o palco político com dificuldades muito semelhantes, um, vítima de sexismo e outro de racismo. Uma aliada de Hillary, a ex-candidata a vice-presidente Geraldine Ferraro, disse: "Se Obama fosse um homem branco, não estaria onde está actualmente (...) e se fosse uma mulher, independentemente da sua raça, não estaria onde está. Tem muita sorte de ser quem é". Ao justificar os comentários, Ferraro acusou Obama de "jogar a carta do racismo" e de a sua equipa ter deliberadamente criado a polémica. Antes de cortar relações com Geraldine Ferraro, que integrava a equipa responsável pelas finanças de Hillary, assessores da ex-primeira-dama recordaram comentários sexistas de certos aliados de Obama. O general Merrill McPeak, um militar da reserva que se comprometeu com a campanha de Obama, justificou a sua escolha afirmando que o seu candidato não tinha por hábito "ir à televisão e romper em lágrimas", referindo-se ao facto de Hillary tentar esconder o choro na véspera da sua vitória nas primárias de New Hampshire. Alguns analistas, como a escritora "pós-feminista" Camille Paglia, criticaram o facto de Hillary se fazer de vítima. "Hillary perde jogando, mas os seus assessores descobriram que muitas mulheres pareciam receptivas", lamentou Paglia na revista US. Já Ferraro afirma que Obama conseguiu muitas das suas vitórias eleitorais no sul do país graças ao voto negro, como no Mississippi, onde recebeu 91% dos votos dos negros e apenas 30% dos votos dos brancos. Outros destacam que as origens mestiças de Obama são um elemento essencial do seu apelo, assim como a possibilidade de se tornar o primeiro presidente negro dos Estados Unidos. O académico Ron Walter ressaltou que Obama se esforçou até agora para "levar por diante uma campanha neutra do ponto de vista da raça" e foi isto que permitiu as suas vitórias em estados que não possuem grande população negra, como o Iowa. Bruce Ranson, da Universidade Clemson na Carolina do Sul, afirma que, dando espaço para polémicas sobre o racismo, a campanha de Hillary comporta-se como se desejasse "colocar Obama na categoria de candidato negro, com a meta de restringir o poder de sedução que ele pode ter além do eleitorado negro". Obama distanciou-se do discurso de um pastor da sua igreja, que afirmou que os negros deveriam dizer "Deus condene os Estados Unidos" pelo tratamento dado aos afro-descendentes. O líder da maioria democrata na Câmara de Representantes, Steny Hoyer, tentou acalmar o ambiente. "Temos dois candidatos que representam segmentos essenciais do campo democrata e quando se atacam um ao outro é sentido de modo mais pessoal", explicou ao Washington Post.

Em Set/2008, a gaffe do momento na campanha das renhidas primárias do Partido Democrata para a nomeação à Casa Branca partiu de uma colaboradora de Barack Obama que chamou “monstro” a Hillary Clinton. “Ela agarra-se a tudo para conseguir votos. É um monstro. Olha-se para ela e pensa-se: ‘Ergh’”, disse Samantha Power, pensando que o comentário não estava a ser gravado. Enganou-se e foi mesmo publicado. Obama ficou furioso e foi firme quando disse que não admitia deslizes verbais do género em relação a Hillary ou seja a quem fosse. “O senador Obama condena vivamente este tipo de caracterizações pessoais”, referiu Bill Burton, porta-voz do pré-candidato democrata.

Em Dez/08, Barack Obama confirmou oficialmente o nome de Hillary Clinton como a nova secretária de Estado. Quase um ano depois de Obama ter chegado à Casa Branca, muito foi escrito sobre a forma como o primeiro negro chegou à Casa Branca. Mas a CBS contou mais uma história de campanha, no 60 Minutes, em que revelou como Hillary Clinton quase recusou a proposta para ser secretária de Estado do antigo adversário nas primárias democratas. "Há um problema, o meu marido", terá exclamado a ex-primeira dama quando Obama a convidou para chefiar a diplomacia. E acrescentou: "Já viste como ele é, se eu aceitar este trabalho isto vai ser um circo". Durante a campanha para as presidenciais, Bill Clinton foi uma figura muito activa nos comícios da mulher. Mas os analistas acabaram convencidos que as suas intervenções - numa das quais afirmou que a candidatura de Obama era um "conto de fadas" sem hipóteses de vencer - tiveram um efeito negativo. Confrontado com a resposta de Hillary, Obama não desistiu. E explicou-lhe: "Tendo em conta a crise financeira e tudo o que tenho para resolver, preciso de ti".

A demonstrar o inequívoco faro político para captar cumplicidades de adversários que lhe podiam ser fatais, Obama chamou para o seu lado a rival, conseguindo, de uma só vez, levar a luta do anti-racismo e do anti-sexismo ao pódio da Casa Branca, inteligência política confirmada pelas sondagem da Gallup, segundo a qual, 62% dos americanos têm uma opinião favorável da secretária de Estado norte-americana - mais 6% pontos do que as opiniões positivas sobre o próprio Presidente Obama, a atravessar uma quebra de popularidade. Em Janeiro, mês em que tomou posse, o inquilino da Casa Branca registava 78% de opiniões favoráveis. De então para cá, caiu 22 pontos. No mesmo período, a popularidade de Hillary só baixou três. Racismo e sexismo por terra e faro político (qual Santo Humberto - o cão com o melhor faro do mundo!), uma combinação fatal para o sucesso de uma dupla que deixará marcas na política dos USA.

A Qualidade da Democracia em Portugal: Um estudo

Conclui agora a leitura de "A Qualidade da Democracia em Portugal: A Perspectiva dos Cidadãos" - Relatório inicial de um estudo promovido pela SEDES, com o apoio da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento e da Intercampus, de Pedro Magalhães (ICSUL), de Julho de 2009.
O relatório conclui que os estudos resultantes de inquéritos por questionário aferem o grau de satisfação dos portugueses com a democracia e o grau de legitimidade que conferem ao regime. Afirma que, pelo menos desde os finais dos anos 80, uma percentagem elevada e estável dos portugueses não contempla a existência de alternativas sérias à Democracia enquanto regime (Morlino e Montero 1995). E que Portugal é um dos países da Europa Ocidental cujos cidadãos se sentem mais insatisfeitos com o funcionamento do seu regime democrático (Torcal e Magalhães 2009).
O estudo visa responder às seguintes questões: o que está por detrás dessa insatisfação? Em relação a que aspectos e dimensões da qualidade da democracia portuguesa somos, afinal, mais e menos críticos?
Com base no esquema teórico preconizado pelo Democracy Barometer for Established Democracies (Bühlmann, Merkel e Wessels 2007), o estudo desenvolveu um conjunto de indicadores para medir as avaliações dos portugueses sobre a qualidade da democracia em nove dimensões: "o gozo de liberdades cívicas e direitos políticos; o acesso à justiça e a igualdade perante a lei; a igualdade de oportunidades de participação politica; a percepção de que os eleitos atendem às expectativas e exigências dos cidadãos; a disponibilidade de informação politica imparcial e pluralista; o funcionamento das eleições como mecanismo de responsabilização e de representação; a existência de “freios e contrapesos” no sistema que impeçam abusos de poder; e a percepção de que as decisões politicas são tomadas sem pressões externas ao processo democrático."
A maioria avalia o regime positivamente quanto ao exercício das liberdades de voto, de associação e de expressão, e da capacidade das eleições para recompensar e punir os governos pelo seu desempenho. Um aspecto em que não existem clivagens sociais e politicas, independentemente da posição dos eleitores na estrutura social e/ou das suas preferências politicas e ideológicas.
A avaliação é negativa, quanto à justiça e do Estado de Direito, em que uma expressiva maioria (+ de 2 em cada 3 eleitores) considera que diferentes classes de cidadãos recebem tratamento desigual em face da lei e da justiça, e se sente desincentivada de recorrer aos tribunais. Incluindo no domínio da “responsabilização horizontal” – um sistema de freios e contrapesos que evite abusos de poder – a confiança dos cidadãos parece deslocada para a Presidência da República e, em menor grau, para um órgão designado politicamente, o Tribunal Constitucional. Acresce que a independência do poder judicial em relação ao poder politico não é um dado certo.
Avaliação muito má para a “responsividade” do sistema politico (parâmetro que mede até que ponto a classe politica em geral e os governantes em particular atendem às expectativas, preferências e exigências dos cidadãos), em que mais de 2 em cada 3 eleitores entendem que não têm qualquer influência nas decisões politicas, que os políticos se preocupam exclusivamente com interesses pessoais, que a sua opinião não é tomada em conta nas opções dos governantes e de que não há sintonia entre o que é verdadeiramente prioritário para o país e aquilo a que os governos dão prioridade.
Avaliação igualmente negativa para as qualidades do sistema eleitoral. A maior parte dos inquiridos considera que o governo está condicionado por factores externos (situação económica internacional, poderes económicos e prioridades de outros governos) em relação aos quais a responsabilização politica democrática é impotente. E detectam, especialmente as mulheres, uma tendencial desigualdade nas oportunidades reais de participação politica em Portugal.
Indagando sobre as diferentes dimensões de avaliação da qualidade do sistema democrático em Portugal, verifica-se que estão mais relacionadas com a (in)satisfação geral dos cidadãos com o sistema, embora os dados revelem que as dimensões directamente ligadas ao exercício das liberdades cívicas e politicas e ao processo eleitoral não ajudam a explicar o (baixo) grau de satisfação genérico dos portugueses com a democracia, incluindo não apenas as dimensões avaliadas mais positivamente pelos indivíduos (“liberdades” e “responsabilização politica”) mas também uma dimensão avaliada negativamente (ligada à representação proporcionada pelo sistema eleitoral).
A dimensão mais relacionada com a (in)satisfação geral com o funcionamento da democracia parece ser a (baixa) “responsividade” (apercebida) da classe politica, em que prevalece a ideia de que os eleitos não atendem às expectativas e interesses dos eleitores. E é essa ideia que mais está relacionada com a percepção de uma baixa qualidade geral do regime. As outras dimensões relacionadas com essa percepção têm a ver com a qualidade (imparcialidade e pluralismo) da informação politica, com a ideia de que as decisões do governo são condicionadas por pressões de poderes não responsabilizáveis politicamente, com a falta de mecanismos de responsabilização horizontal do poder e, finalmente, com o tratamento desigual perante a lei e a justiça.
A “falácia eleitoralista” (noção de que as eleições e a sua regularidade são o aspecto central de qualquer avaliação da qualidade da democracia) é rejeitada pelos eleitores. Ou porque consideram que há aspectos substantivamente mais importantes na sua concepção do que é realmente “uma boa democracia” ou porque a qualidade da democracia portuguesa em torno do exercício de direitos políticos e das eleições é “tomada como certa”. A (in)satisfação dos eleitores com o regime está predominantemente relacionada com a avaliação da existência de incentivos dos eleitos para atenderem à vontade eleitoral, como um ente com força anímica autónoma, em vez de a relacionar com outros factores e prioridades, como a informação necessária para fazer boas escolhas autónomas e para responsabilizar os governos pela verificação de algumas condições básicas de cidadania, legais ou sociais.
Em tempos de crise, e, sobretudo, para os que a pretendem agravar com cenários de eleições antecipadas, a qualidade da democracia não pode, não deve, ser posta em causa. E, muito menos, a pretexto de que uns são melhores democratas do que outros. E, seguramente, muito menos ainda, quando se confunde a "qualidade" da Democracia com as "oportunidades" da Democracia.

Debate Passos Coelho/Rangel: um KO!

Numa democracia a qualidade da oposição marca o compasso do Governo.
Daí que seja preocupante a sua falta de qualidade, não somente porque se devem eleger os melhores mas porque essa referência qualitativa se afere pelos padrões de exigência ditados pela oposição. Uma oposição tem um papel a cumprir: ser um(a) alternativa ao Poder. O PSD parece ter encontrado um novo rumo com Pedro Passos Coelho e isso ficou claro no debate de ontem com Paulo Rangel.
PPC começou por acusar a direcção de Manuela Ferreira Leite de "incompetência". E disso julgo que ninguém tem dúvidas (a não ser talvez PR, que é seu delfim). O adormecimento da estrutura laranja decorre da prepotência, da omnipresença e omnipotência de ferreiristas, cavaquistas, barrossistas, santanistas, e outros bandos que tais que transformaram o PSD numa sociedade em comandita. Homens como PPC foram sistematica e metodicamente afastados da linha da frente, em prol do populismo, do imediatismo, do facilitismo, da perseguição política e do oportunismo. Se há coisa em que os comandantes destas tribos se plagiam de bom grado é na falta de sabedoria política em congregar facções, pelo contrário, expandem-nas, cultivam-nas. Ser sectário torna-se uma imposição quando se sabe que a liberdade de ideias tem um custo: o ostracismo a tempo, uma solitária travessia pelo deserto, e, por fim, a morte (se necessário, o assassinato) política. PPC está a pôr-se a jeito. Resta saber se de ser o novo lider do PSD e de, com alguma sorte e empenho, ressuscitar o projecto ideológico dos sociais-democratas, ou se cavar a sua própria sepultura (política).
Por muito que digam o contrário, como o faz Henrique Raposo (http://www.expresso.pt/), em artigo de hoje, que considera que PPC foi uma desilusão. Diz que esperava mais do suposto futuro PM. Diz que revelou vícios de "jotinha" e, mais, que tem uma estranha ambição: ser o Guterres do PSD. Sinceramente, não vejo que se possa apontar isso como um defeito. PPC tem um percurso que não enjeita e Guterres foi um marco de qualidade no PS, que monopolizou vários grupos da sociedade, desde intectuais, sociais, económicos e até políticos. Estava até muito bem o PSD se PPC fosse "outro" Guterres. Aponta algumas desonestidades intelectuais a PPC. Quando este insinuou que as declarações de PR, em Bruxelas, sobre a (falta de ) liberdade de expressão em Portugal influenciaram o olhar dos mercados internacionais sobre o nosso país. Não se percebe o espanto! Basta ler os periódicos do dia seguinte para confirmar que, para além de ser um gesto muito feio e que catadupou Rangel na arena nacional, as críticas choveram de vários lados e houve a maior pressão para a constituição de uma comissão de inquérito para apurar a verdade. Ao contrário do que diz Henrique Raposo, isto não "é de uma desonestidade intelectual assinalável". Nem "É politiquice muito baixa". É uma constatação e assumiu contornos de um facto político. Aliás, foi com esse preciso propósito que PR lançou a "bomba". Diz ainda que PPC manteve "o dedo em riste, cheio de ressentimento contra Manuela Ferreira Leite", o que parece absolutamente natural. Afinal, bem diz o povo, Deus quer que sejamos bons, não que sejamos estúpidos. PPC foi crucifixado pela dita e comitiva dentro do próprio laranjal. Muitas laranjas para pouco sumo. Como de costume! E diz, mais, que "não era necessário". Pois é mesmo necessário! Hipocrisia política ser PPC dar a outra face e agradecer a bofetada. "Quem não se sente não é filho de boa gente". Por fim, diz que "Não se percebe muito bem aquilo que PPC quer dizer quando afirma que "quer dar uma mensagem de esperança ao país". Isso quer dizer o quê? Que espécie de optimismo é este? A mim, parece-me um optimismo "socrático" travestido em tons laranja. Tive aquela estranha impressão de estar a ver e a ouvir um segundo José Sócrates. Lamento, mas isto não chega." Não chega por certo, mas olhe que é um sintoma de sanidade política muito interessante. E se já via PPC como outro Guterres, vê-o também como outro Sócrates. Eis como um crítico se desdiz. Tantos defeitos aponta que se volta o dedo para o seu cisco. Ver PPC como dois novos homens e logo homens que galvanizaram um partido é um grande elogio. E, contradizendo a sua análise (política) lógica, afirma que quando PPC diz que é "preciso evitar "rupturas", porque o país está farto da crispação provocada pelo estilo do actual primeiro-ministro.", isto lhe soa "a familiar". E bate na mesma tecla "Foi assim que António Guterres chegou ao poder: com uma mensagem vaga de esperança, e prometendo diálogo a uma nação cansado do estilo duro de Cavaco. PPC quer ser o Guterres do PSD. Lamento, mas isto não chega." Olhe que, se calhar, não chega, mas é capaz de estar muito perto. Pelo bom caminho, pelo menos, PPC vai. E está até já longe do "não sei por onde vou mas sei que por aí não vou". Provavelmente, resultado da sua travessia pelo deserto, PPC teve muito tempo para observar, ponderar, criticar, concentrar apoios, e agora dá e baralha as cartas, com perícia e destreza.
E repare como até quem o critica não o compara a Pedro Santana Lopes, por exemplo, que isso sim seria grave. Muito grave! Compara-o a Guterres e a Sócrates, mas olhe que estes dois, convenha-se, não se sairam nada mal, não acha?
PPC acusou de "incompetência". "Se o PS está no Governo deve-se à incompetência do PSD", afirmou PPC, reafirmando que: "Não pode ser eleito um primeiro-ministro que promete um inferno para o País e faz uma descrição sombria sobre a capacidade dos portugueses para ultrapassar a crise". Ao admitir ter-se posicionado no mesmo sentido do que o Governo, na questão das Finanças Regionais, PPC mostrou que coloca os interesses do País acima das mesquinhices típicas de uma política "a sete caixas", "em pandeireta". Julgava que o PSD admitia a liberdade de voto interna e que não a usava como arma de arremesso, por puro despeito. "Se o PSD quer ter autoridade para dizer ao Governo que não podem ser só os funcionários públicos a pagar a factura não pode viabilizar um aumento da despesa."
Remata, no fim, PPC, implacável, "Se o PS está no Governo deveu-se à incompetência do PSD nessa eleição" e, num rasgo de asa cobiçável, "Conto convosco [actual direcção do PSD] como não quiseram contar comigo". É de homem. De princípe. E de Maquiavel, q.b..
A confirmar as previsões do Porto Laranja, em "O Regresso do Debate Ideológico" com Pedro Passos Coelho - Intervenções, em que PPC afirmava que “O regresso ao debate político e ideológico começa a ser muito necessário dentro do PSD”. “Devemos por isso repensar e discutir os valores em que acreditamos e que justificam a nossa acção politica, saindo um bocadinho das medidas que, de forma avulsa, são lançadas como forma de combater os problemas imediatos. Não percamos a necessidade de saber como é que o mundo vai evoluir e como podemos influenciá-lo.” "Essa gente que, participando nos governos do PSD, o despolitizou, não foi a mesma que fundou o partido e que lhe deu um sentido ideológico. Mas foi, de facto, quem lhe deu as vitórias eleitorais e que, por isso, depois desfrutou dessa condição. O complexo ideológico que tínhamos foi substituído por uma ideologia de poder. Apesar dos valores que essas pessoas também tinham – porque tinham valores – esses governantes do PSD entenderam que era mais importante conquistar maiorias absolutas do que dizer às pessoas o que se devia dizer." “O PSD não deve esperar ganhar eleições no futuro apenas por demérito do adversário, porque, assim, ficaria prisioneiro desse chamado eleitorado flutuante.Temos que dizer às pessoas o que queremos ideologicamente antes de querer ganhar eleições. Se o PSD tiver receio de confrontar as pessoas com as suas opiniões não vai concerteza desejar ganhar as eleições – ou as ganha para depois fazer uma politica que não é a sua, e essa não é a perspectiva das pessoas que acham que estar na política é estar ao serviço das pessoas e da comunidade, tendo os seus pontos de vista.Se existisse uma absoluta ciência na maneira de governar estendida ao sentido de voto do eleitorado, podíamos viver na sociedade ideal em democracia directa e instantânea. O problema está que o eleitorado não responde duas vezes consecutivas da mesma maneira – as pessoas aprendem com as experiências, mudam de opinião e não votam sempre da mesma maneira. Por regra, consultam outras opiniões antes de decidir. Se a nossa escolha for apenas esperar a opinião do eleitorado para lhes dizer o que vamos fazer, o eleitorado nunca reconhecerá em nós capacidade de liderança e preferirá escolher o que já lhe é conhecido ao que lhe é incerto.Faz, por isso, todo o sentido o PSD aproveitar este tempo de mudança para regressar ao debate ideológico e tirar daí consequências e respostas que traduzam a nossa visão do mundo. E, assim, acredito que podemos oferecer ao país uma alternativa bem distinta da governação do Eng. Sócrates e do Partido Socialista, ao mesmo tempo que dizemos às pessoas que podem novamente ter esperança e confiança na sociedade politica e nos seus políticos.Precisamos de voltar a comunicar com as pessoas sem termos medo de cometer erros, mas nunca enganando as pessoas. As pessoas perdoam os erros mas não aceitam ser aldrabadas. Alguém que deliberadamente aldrabe o eleitorado e lhes dê a entender que vai fazer uma politica que na realidade não tem a mínima intenção de realizar, presta um mau serviço estando calado. É melhor dizer o que pensa, e se todos fizermos isso damos um contributo relevante para voltar a por os valores antes dos objectivos que se querem atingir. Depois, é só deixar as pessoas escolher.”“Não vale a pena ganhar de qualquer maneira!”, concluiu Pedro Passos Coelho.
Um reanimador para os AVC constantes e quase-mortais a que o PSD tem sido sujeito pelas sucessivas feiras de vaidades, acrobacistas, trapezistas, e actores dignos de um filme pornográfico de série B - com um grau de exposição e de voyerismo inusitado e despropositado - um "principezinho" que quer encetar novos trilhos. E porque o caminho se faz caminhando este pode ser O Caminho do PSD (sem qualquer alusão à Opus, entenda-se!).
Seguramente que o debate de ontem Rangel/Passos Coelho pode ter sido uma antevisão de um novo PSD e de um novo presidente do PSD. Resta que as hostes internas percebam o que já o povo entendeu. A escolha faz-se entre um animal político de primeira classe, confiante, preparado, a criar um pós/Ferreira Leite, liberal na economia, defensor de uma educação “moderna” liberal, sem medo de se expor a eleições internas (apesar de saber o preço que pagará em caso de derrota), um corte com o cavaquismo e com uma boa imagem televisiva; ou Rangel, agarrado ao passado na educação (defender trabalhos de casa!?), apoiante da intervenção estatal, belicoso, inquieto, inseguro, clivagista, mal preparado, com receio de eleições antecipadas e pouco confiante. Viu-se ontem "O" “velho” Rangel transformar-se no que muitos apontavam ser os grandes defeitos de Coelho. Uma saudável e (in)esperável mudança de papéis!
E a julgar pelas críticas um motivo de preocupação para os socialistas! Afinal, são elas que o comparam a Guterres e a Sócrates. Ou seja, reconhecem-lhe a capacidade e a força para potenciar estragos (no PSD e, se não se acautela o PS, no último mapa rosa das legislativas!). Atente-se no gráfico de sondagens supra-comentário.

terça-feira, 2 de março de 2010

Novo empreendorismo para "novos velhos"


Peter Drucker, ”pai da administração moderna”, vem enfatizando o tema de que, numa era contemporânea, em que os consumidores vivem mais tempo, urge que sejam criados novos produtos e serviços para a terceira idade. O pensador norte-americano acrescenta um dado: o mais importante é quem está envelhecendo –a geração do baby boom dos EUA. Nas últimas décadas, os boomers provocaram uma revolução nos mercados sempre que entraram numa nova fase da vida. E agora, na sua “onda de maturidade”, não deve ser diferente, como mostram estes highlights do livro de Dychtwald –Age Power (ed. Putnam). O século XXI será comandado pelos “novos velhos”, garante o autor. Serão pessoas com outros hábitos, desde voltar a estudar aos 50 anos, apaixonar-se aos 60, reinventar-se aos 70 e 80. Ken Dychtwald tem desenvolvido um trabalho em que analisa as implicações pessoais, sociais e econômicas da Revolução da Longevidade e do envelhecimento nos EUA. Renomeado orador e escritor de best
sellers, é autor de dez títulos, entre eles Age Power: How the 21st Century will be Ruled by the New Old (ed. Putnam) e Corpomente (este publicado no Brasil, ed. Summus). Neste artigo, Dychtwald faz uma espécie de cronologia do que aconteceu nos EUA com os baby boomers desde
quando eram bebês até formarem família, aponta suas novas necessidades à medida que envelhecem e projeta 50 áreas de oportunidades em negócios voltados para atender os cidadãos na sua velhice. Segundo o autor, surgirão novos profissionais, como o “agente de
experiências” e o “acompanhante maduro”.

Aqui deixamos as apontadas 50 ÁREAS DE OPORTUNIDADES DE NEGÓCIOS TRAZIDAS PELA ONDA DE MATURIDADE:
1. Financiamento de seguro de saúde de longo prazo para prover segurança contra problemas crônicos da velhice, visando trabalhadores de meia-idade e idosos. 2. Serviços de pagamento de contas para adultos maduros que prefiram transferir essas tarefas para um profissional. 3. Seguro de longevidade que, em vez de pagar a família do segurado em caso de morte, dê apoio financeiro para pessoas que agora vivem mais tempo. 4. Planeamento de aposentadoria e serviços de gestão de investimentos para ajudar os boomers a garantir a segurança financeira na velhice. 5. Seguro de investimentos para pessoas que procurem segurança adicional para seus fundos de reforma e de aposentação. 6. Administração imobiliária e serviços de custódia para ajudar famílias a gerir heranças, sem sacrificar dinheiro demais em impostos e pressões familiares. 7. Hipotecas reversivas para ajudar adultos maduros que não disponham de liquidez, mas tenham propriedades, a conseguir dinheiro com seus imóveis. 8. Criação de objetos e elementos domésticos ergonômicos, como: maçanetas de alavanca em vez de esféricas; gavetas, janelas e armários fáceis de abrir; assoalhos, escadarias e calçadas antiderrapantes. 9. Sistemas inteligentes de segurança que monitorem os pontos de entrada e toda a atividade interna para ajudar idosos a se sentirem menos vulneráveis em suas casas. 10. Janelas inteligentes para casas e carros que detectem os níveis de brilho e luz com base em programação feita para cada residente ou motorista e que ajustem continuamente a tonalidade do vidro para reduzir distorções e aumentar a visibilidade. 11. Serviços de gestão doméstica que ofereçam profissionais para realizar tarefas cotidianas de reparos para adultos incapacitados ou indispostos. 12. Serviços de procura de acompanhantes para aproximar adultos que queiram dividir custos com a residência. 13. Novas variedades de residências que atendam às necessidades e desejos dos novos adultos maduros, sejam elas de saúde, recursos high tech, alto luxo, programação social, atividades culturais, educação continuada e até mesmo com fins hedonistas, para aqueles cuja vida sexual seja mais agitada. 14. Uma nova ciência que determine “biomarcadores de sinais vitais”, utilizando conceitos do genoma, que se tornariam os principais indicadores da saúde, capacidade imunológica, vitalidade mental e potencial de longevidade de um indivíduo. 15. Centros de diagnóstico e tratamento para partes específicas do corpo, como olhos, ouvidos, músculos, ossos e sistema nervoso. Cada centro teria capacidade de sanar problemas em sua área de especialidade. As atividades desses centros seriam coordenadas por um sistema médico integrado humano/computador. 16. Rins, fígado, pulmões, coração, pele, sangue e ossos clonados para fins de “ajuste” e substituição. 17. Clínicas de “fabricação de corpos”, nas quais novos tecidos, órgãos e músculos possam ser criados e transplantados. 18. Empresas de coordenação que apóiem os idosos e suas famílias na “navegação” pelos serviços necessários para manutenção da saúde e da independência no lar. 19. “Creches” que ofereçam cuidados não-residenciais e apoio para idosos e ao mesmo tempo dêem uma maior disponibilidade para os membros de suas famílias. 20. Enfermeiros e auxiliares (humanos ou robóticos) que ajudem indivíduos com problemas crônicos de saúde a manter sua independência no lar. 21. “Nutracêutica”: bebidas, alimentos e suplementos projetados com macro e micronutrientes que combatam o envelhecimento e estimulem energia, relaxamento, sexualidade, prontidão mental, resistência, recuperação, bem-estar e outros estados físicos e mentais. 22. “Cosmecêutica”: terapias rejuvenescedoras para homens e mulheres, feitas com remédios, plantas, minerais e vitaminas que mantenham a pele e o cabelo com aparência jovial por mais tempo. 23. Terapêutica hormonal personalizada para retardar o processo de envelhecimento. 24. Ervas para revigoração cerebral, vitaminas, medicamentos, acupuntura, estímulo visual, softwares e exercícios mentais para prevenir a demência, promover melhor memória e estimular a inteligência. 25. Bioimplantes que monitorem continuamente os sinais vitais e ministrem nutrientes e hormônios antienvelhecimento conforme a necessidade. 26. SPA's antienvelhecimento com programas intensivos de revitalização que envolvam desde redução de estresse, eliminação de toxinas e reajustes metabólicos até tonificação muscular e ajustes no sistema nervoso. 27. Assistentes pessoais digitais (PDAs) na Internet que construam perfis aprofundados de seus “clientes” idosos para assim prever o que eles querem, precisam ou gostam e fazer recomendações sobre o que comprar, quando e a que preço. 28. Andróides como o brinquedo Furby, programados para falar, lembrar e reagir aos pensamentos e preocupações do seu proprietário e até mesmo jogar dominó ou discutir as notícias dos jornais. Eles poderiam ter qualquer forma –cachorro, robô, anjo, mordomo– ou ser acompanhantes “virtuais” no computador de mesa ou portátil do dono. 29. Lentes microssensíveis para substituir óculos e aparelhos auditivos que aprimorem o funcionamento neurossensorial. 30. Em casa, diagnósticos de sinais vitais que monitorem o envelhecimento diário de cada indivíduo e façam recomendações de nutrientes, remédios e exercícios. Os sensores e microlaboratórios poderiam ser colocados dentro do encanamento do banheiro. 31. Equipamentos de exercício de alta tecnologia programados para “treinar” seus usuários a desenvolver corpos mais fortes, saudáveis e joviais. Também poderiam ser usados para acelerar a reabilitação de convalescentes de derrames ou traumas. 32. Roupas inteligentes que detectem e ajustem a temperatura em diferentes áreas do corpo dependendo das necessidades circulatórias do idoso –particularmente útil para diabéticos e indivíduos com problemas circulatórios. 33. Sistemas acústicos inteligentes em telefones, rádios e TVs que ajustem os sinais para a capacidade auditiva de cada usuário. 34. “Focas Prateadas”: equipes de idosos “de aluguel” com diversos talentos que seriam chamados para resolver problemas comunitários ou empresariais difíceis. Ao contrário dos Panteras Grisalhas, cujo foco era a rebelião, o talento dos “Focas” seria colaborar na solução de problemas sociais. 35. Programas em universidades, igrejas, centros comunitários, TV por assinatura e Internet que incluam tanto retreinamento vocacional para idosos como instruções em artes, música, culinária, oratória etc. 36. Lojas para aposentados com produtos e tecnologias que atraiam idosos com tempo livre, como tacos de golfe, esquis, instrumentos musicais, computadores, softwares e lanchas. 37. Serviços de viagens de aventura e de passeio que levem idosos a locais inusitados em programas especiais para grupos de solteiros, solitários ou avós com os seus netos. 38. Programas de aprendizagem para permitir aos aposentados dominarem novas habilidades, arte ou campo de conhecimento. 39. Coordenadores de emprego na vida madura e transição de carreira que assistam idosos em sua “navegação” por um emaranhado de oportunidades de emprego. 40. Administradores de estilo de vida que se responsabilizem por um conjunto de funções onerosas e que implicam dispêndio de tempo - lavandaria, jardinagem, transporte, reparos de calçados, compras e esperas em serviços administrativos. 41. Serviços de produção audiovisual que criem documentários de indivíduos comuns, que contem histórias de vida, capturem a essência dos seus pontos de vista, credibilizem as várias filosofias e estilos de vida. 42. Psiquiatras especializados em adultos e idosos que ajudem as pessoas a reajustar o seu desenvolvimento interior em direcção ao fim das suas vidas. 43. Agentes de experiências –como agentes de viagens– que possam ser contratados para organizar qualquer tipo de atividade que um cliente requeira (desde uma festa, programa de estudos, psicoterapia, férias, viagem de aventura, retiro espiritual, até ao contacto com novos amigos, namoro ou parcerias de negócios), ajudando os aposentados a encontrar hobbies, causas para voluntariado e opções de residência em comum. 44. Acompanhantes maduros para homens e mulheres idosos, acompanhando-os ao cinema, ao médico ou a uma viagem de férias. 45. Serviços de transporte para levar adultos maduros incapacitados de se dirigirem ao médico, ao aeroporto, ao salão de beleza ou ao banco. 46. Serviços de procura de parceiros para ajudar os solteiros a encontrar um novo relacionamento. 47. Serviços de auxílio e de apoio à assistência de doentes terminais, para os ajudar a morrer com dignidade e conforto. 48. Serviços de cremação que substituam os lotes funerários tradicionais, resolvendo problemas como mobilidade de idosos e indisponibilidade de espaço. 49. Novos tipos de serviços funerários, com um documentário do falecido e que criem e mantenham um “túmulo” na Internet –com fotos e poemas favoritos, livros, música e programas de televisão. 50. Retiros temáticos que seleccionem a atmosfera e a ambientação dos momentos finais.
Com alguma ironia, até que existem aqui algumas boas ideias a proveitar. Novo empreendorismo para "novos velhos".

Homem-Marido: Uma nova espécie/um novo estado?

Uma iraniana conseguiu que o tribunal condenasse o marido a comprar-lhe 124 mil rosas vermelhas, cujo preço é equivalente a €133.000. A mulher queixou-se da avareza do marido durante os dez anos de casamento e decidiu reclamar o seu dote para o castigar. Um homem foi condenado no Brasil a pagar à ex-mulher uma indemnização de cerca de €7.600, por ter cometido "infidelidade virtual", tendo o tribunal baseado a sentença numa troca de e-mails. Um tribunal rabínico condenou um marido a dar assistência sexual à mulher para sempre.
O papel do homem-marido que agora vem merecendo tanta curiosidade jurisprudencial, não é uma preocupação nova, e mereceu atenção desde as primeiras décadas do século XVI -na mesma altura em que os autores literários e filosóficos se dedicaram à educação feminina e à formação da mulher casada com vista a um equilíbrio das suas funções familiares, domésticas e devocionais. A valorização da instituição matrimonial e do estado dos casados conjugada com as exigências que, cada vez mais, se vinham fazendo à casada acabaram por desenvolver uma maior consciência dos deveres não só da mulher, mas também do marido, no pressuposto de que um bom casamento dependia da harmonia, da complementaridade e do cumprimento das responsabilidades dos casados um em relação ao outro e a toda a casa. As responsabilidades e os deveres próprios estavam, porém, diluídos no seu poder de "senhor". A preocupação dos deveres do homem, como marido, está patente na Letra para Mosén Puche (1524) de Fr. António de Guevara, na qual este franciscano, depois de enunciar as "propriedades de la muger casada", afirmou que "las propriedades del hombre casado son que sea reposado en el hablar, manso en la conversación, fiel en lo que se le confiare, prudente en lo que aconsejare, cuidadoso en proveer su casa, diligente en curar su hazienda, sufrido en las importunidades de la muger, celoso en la crianza de los hijos, recatado en las cosas de honrra, y hombre muy cierto con todos los que trata". Na Península Ibérica, merece um lugar de destaque, o Norte de los Estados de Francisco de Osuna, em especial à segunda parte, na qual "Villaseñor" representava "todos os casados" (igualmente, na literatura, e em especial no teatro, o Auto da Índia de Gil VICENTE falava d'"A ausência do marido e o "des-governo" da casa na época dos descobrimentos), e em que Osuna acusou o marido de se ausentar, sem autorização da esposa, durante longos espaços de tempo ou para longes terras, deixando a esposa "desprotegida", sobretudo em relação a tentações como a do adultério. Mas Osuna não se ficou apenas pela condenação "espiritual" do casado que "abandonava" a sua mulher e a sua casa. Essa condenação esteve na razão directa da exaltação da harmonia e da complementaridade dos esposos, bem como na íntima relação entre a vida espiritual com a moral e social dos casados. Assim o fez João de Barros no Espelho de Casados, lembrando que "posto que aja muitas vertuosas que esperam seus maridos ausentes. na Corte. nas Indias e na Guerra. Comtudo estas tem muitos inconuenientes pera o nam serem com muitas emportunações e neçesidades que lhe ocorrem". Assim o fez também Pedro de Luján nos Coloquios Matrimoniales, insinuando que o adultério era frequente quando os maridos "van a las Indias y dejan las mujeres mozas y hermosas", como o fariam também outros autores de finais do século e do século XVII. Mas, antes daquele mestre do "recogimiento", poucos tinham sido tão incisivos e tão exigentes face não só às ausências físicas do marido, mas também às ausências de notícias que mantivessem viva a chama da sua memória e a expectativa do regresso... Pedro de Luján - Coloquios Matrimoniales - pela boca de uma mulher, chamou a atenção para algumas injustiças de que elas se queixavam - foi tão longe como aquele espiritual franciscano, talvez devido às suas fontes principais (Erasmo, Guevara...), que contavam com a cedência final da esposa... Embora Luján, pela boca de Doroctea, viesse a lembrar que "En la ley de Cristo, la fidelidad que debe la mujer al marido, esa misma debe el marido a la mujer", também admitiria que "en la ley civil tienen más poder los maridos que no las mujeres, no para ofender, mas para castigar".
Entre os autores portugueses, salienta-se a posição do Dr. João de Barros que, no Espelho de Casados, embora não tenha adoptado perspectivas inovadoras em relação aos diferentes aspectos do problema, referiu e sintetizou os principais problemas do casamento e os deveres do marido, lembrando convir "ao marido Negoçear. Tratar. Ganhar. Defender. Demandar. e fazer outras cousas que som neçesarias pera manter sua casa", reafirmando, assim, as suas funções globais de "senhor"; mas lembrou, igualmente, obrigações mais concretas e deveres mais específicos enquanto marido, tanto para manter o seu poder, como para "orientar" a esposa. Algumas das indicações mais importantes relativas aos deveres do marido e à "defesa" da mulher encontramo-las na "Reprouaçam e Resposta. contra o Sexto fundamento da Incontinençia. Onde se proua serem menos continentes os homens que as molheres...", um dos capítulos mais longos da Terceira, que aborda a questão do adultério. Aqui, o Dr. João de Barros mostrou-se especialmente exigente em relação ao comportamento conjugal do marido, lembrando que "tanta obrigaçam tem o marido quanto a Deos como a molher de ser casto e tanto peca" e que "quem auer correger os outros hade ser mui corregido", insistiu, sobretudo, na importância de o marido saber manter a sua autoridade e o respeito - que implicava amor - da mulher; fê-lo, insistindo não só no seu amor à mulher (repetindo quase D. Duarte) - "Eu te mostrarei como te ame tua molher. sem erua. sem feitiço. e sem mezinha. Se queres ser amado ama"-, mas também no cumprimento das suas obrigações complementares de "senhor da casa" e de marido: "Porque som as vezes alguns tam floxos que deixam tudo a disposiçam da natureza: e nam olham o modo que nisso se deue ter. e deixam em sua casa fazer a molher o que quer. e a negligencia grande he causa de muito mal". Do seu ponto de vista, seria devido a esta negligência, à falta de vigilância - que era também falta de presença - que as alcoviteiras - figuras tão exemplarmente retratadas e recriadas, especialmente depois de La Celestina, pela literatura peninsular dessas décadas - se infiltravam nas casas e nas famílias; por isso lembrou o Dr. João de Barros - à semelhança do que fizera Vives para a donzela - que "olhara o homem de sua casa pollas molheres que la entrarem desconhecidas. pera que lhe nam aconteça como a Pleberio com Celestina. Nem se fie o marido muito em compadres. Nem em hospedes...". Considerou que "per outra rezam o mal das molheres proçede por culpa de seus maridos algumas vezes. porque ha muitos que nam tem cuidado dellas nem as prouem do que lhe faz mingoa e as deixam pasar e sofrer muita maa vida. e com a proueza as vezes fazem o que nam fariam sem ella (...) E o marido hade prouer a sua molher do neçesareo. porque entam tera
elle tambem culpa...". Esta passagem do Espelho de Casados realça, assim, a dupla face do "ofício" do marido. As suas responsabilidades "económicas" - respeitantes à "casa" e à "família" - não podiam ignorar as competências femininas no governo da casa. Ou seja, o marido deveria "provê-la" do que lhe fazia "míngoa" - uma alusão à pobreza das mulheres... - para que ela se não visse instada a recorrer a auxílios fora da "casa", o que se traduziria não só num perigo para a boa "fama" da casada, mas também numa ameaça à vida conjugal - e, logo, também à fidelidade, à harmonia, ao comportamento virtuoso dos casados... Esta preocupação com a "educação" do marido resultava ainda de se lhe reconhecer o poder e o dever de ser, não só enquanto "senhor", mas também como marido e pai - e, em primeiro lugar, para a mulher e para os filhos -, porque só assim desempenharia o papel de principal "educador" da mulher: informando-a dos seus deveres e dos limites da sua "liberdade" como esposa e como mãe, repreendendo-a em todos os actos e momentos em que tentasse ultrapassar as fronteiras impostas pela sua "condição", pelos seus deveres e, inevitavelmente, pelos critérios do marido. Só assim, nesta perspectiva, se evitariam situações como a que referiu o franciscano Juan de Dueñas - a mesma em que se encontrou Pero Vaz na Farsa de Inês Pereira - segundo as quais as mulheres se casariam com "maridos ydiotas simples: y de pouco saber", com esperança de "gouernar y regir la casa: tener mando y palo: y no solo a sus criados y criadas: mas avn a sus maridos han de traer de baxo de sus pies enseñorear y mandar".
Neste contexto, os conselhos sobre a "educação" da esposa pelo marido e o cumprimento dos "deveres" deste iam no sentido da conservação do seu poder - com contrapartidas - e da permanente vigilância em relação aos perigos que o comportamento pouco "controlado" dela poderia trazer para a "honra" dele. A insistência nesta vigilância não esquecia o respeito devido à esposa e ao seu "espaço" e "poder" próprios. Mas era um conselho recorrente, com acentos mais ou menos dramáticos e/ou mais ou menos específicos, conforme os aspectos em causa. Especialmente significativo nos parece o aviso de Guevara no seu Relox: "Loo, y aprueuo los maridos a sus mugeres que las amen, que las consuelen, que las regalen, y que dellas fien; pero afeolo, y condenolo, que las mugeres se anden de casa en casa a visitar, y que sus maridos no ossen, o no quieran en esto las contradezir (...) porque (...) mucha ocasion dan a que las tengan por vanas". Também Juan de Dueñas, lembrando que "al hombre ni le era aparejada señora ni sierua mas compañera" e que, por isso, todos os maridos as deviam tratar "no como a estrañas pues no lo son mas como a compañeras en muy loable y santa conuersacion", acentuou, por outro lado, que "en esto les quiero hazer preheminencia: que ellos sean los que manden y rijan la casa assi como señores y ellas les sean obedientes con temor reuerencial".
O que estes autores não ignoraram ou não silenciaram era a utilização acriteriosa ou sem contrapartidas do poder e de prerrogativas do marido que geravam situações e injustiças que contribuiam para tornar mais difícil e menos controlável a relação conjugal e a própria instituição matrimonial. Por isso, a teologia moral dedicou alguma atenção aos exageros do exercício desse poder pelo marido, como a que resultava da autoridade do marido para impor atitudes, ou para as negar, à mulher, "legitimando-lhe" os castigos corporais, aspecto retomado. Francisco de Osuna preocupou-se com a realidade e com algumas situações concretas de abuso de poder por parte do marido, referindo-se aos "açoutes"- quando "Villa señor" perguntou "como se ha de auer el marido con la muger terrible" - Osuna, pelas palavras de "El Auctor", acentuou que "ninguna ley da al marido licencia de herir a su muger: y por esso ay leyes que le ponen pena si la açota sin que aya causa para ello: e ya que aya causa para ello a de ser grande: y los açotes pequeños: no tantos: ni tan grandes como los dieras a tu hijo". Para evitar exageros, mas também para ilustrar algumas situações reais, Osuna disse que "no sean graues los açotes: ni con desonrra: que a penas acaesce entre los nobles: y entre los aldeanos diria que es quando ella sale a baylar con alguno que le vedo su marido...". Outra situação de abuso do poder pelo marido era a proibição, sem razões aparentes, de algumas "distracções" e, mesmo, de práticas religiosas elementares, como a ida à igreja. E isso era o que, segundo João de Barros, faziam os ciosos, havendo "muitos que se queimam disso tanto que ho causam a suas molheres. Porque as tem gardadas que nam vam a janella. nem a porta, nem a jgreja. nem a folgar. e dos ventos as guardam e se temem" e outros "taes que em todo hum anno nam deixam sajr a molher nem pera jgreja. e dizem estes que ha molher nam hade sajr fora de casa senam quando casa e quando morre". Mas, com a denúncia destas situações - algumas postas em ridículo -, com a diversificação dos conselhos para os maridos (apoiados no modelo do "bom casamento"), com a explicação dos benefícios da complementaridade dos casados no governo da casa ou com vários outros artifícios pedagógicos, foram-se sedimentando algumas fronteiras a esse poder, com conselhos genéricos, avisos, lembranças, de que um dos mais firmes foi o do franciscano Juan de Dueñas no Espejo de Consolación de Tristes: "Porque enlo que he aqui dicho y traydo por exemplo no tomen algunos maridos demasiada osadia y loco atreuimiento: de tratar indeuida y malamente a sus mugeres trayendolas debaxo de sus pies".
Expurgando o que a posição tem de temporal e contextualmente historico, existem algumas preocupações com os deveres do homem-marido que hoje, mercê, eventualmente, da própria evolução dos papeis sociais cometidos aos homens e às mulheres, tendencialmente paritária, e, por consequência, da paridade intermatrimonial, fica alguma perplexidade sobre a pertinência das preocupações nos tempos de hoje. Algo que dá que continua a dar que pensar.

Carmen Lara Alexandre - pintar é viver!

Convite de Carmen Lara Alexandre, pintora cuja fonte de inspiração são os seus sonhos e o que a sua alma deles extravasa. Originalidade sempre. Reprodução e imitação 0%. Criações puras. A do lado chama-se Lobito e é uma das minhas preferidas. Para estarmos presentes na inauguração da sua exposição de Arte Maçónica, a 15 de Março, pelas 19.00 h, no Museu da República e Resistência (Estrada de Benfica, nº 419 * Lisboa). Uma dedicação à Arte Real sublimável. Servido um Porto de Honra, bolinhos inspirados na Arte Real, ao som de Mozart e da Flauta Mágica. Solidariedade sempre. Acompanhemos a obra deste ser humano a revelar-se. Porque é disso que se trata. De revelar a arte e de nos revelarmos através dela. Siga-a em http://www.artemaconicadacarmen.blogspot.com e passeie-se pela sua exposição permanente na Avenida Luís de Camões, 36, em Monte Abraão, Queluz, todos os dias úteis, das 9h30 às 18h. Deleite para os sentidos. Ágape.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Droga e desperdício de vida!

Passei alguns dias em Praga. Falar bem da cidade é fácil. Cidade de fadas e contos de histórias. Sabia que o haxixe estava liberalizado, mas que a cocaína continuava a ser punida. Mal cheguei ao aeroporto, a triste imagem de uma mulher muito jovem, a snifar coca. Dei comigo a pensar que em Lisboa mal reparo nestes gestos, ou porque não frequento a vida nocturna ou porque tenho acrescidas preocupações com a segurança e me escuso a ambientes onde o uso de drogas é mais visível. Portugal parece ter feito um esforço registável em matéria de luta contra a droga.
Com uma filha ainda adolescente, à chegada, deparei com o alerta para o controlo de estupefacientes face à expansão das drogas usadas para cometer crimes sexuais. Multiplicam-se as farmácias ilegais na internet, operando a partir da Índia, onde são vendidos fármacos sujeitos a receita médica. Cresce o fenómeno das "drogas de violação". O OICS chama a atenção para o facto de os agressores tentarem contornar os controlos mais apertados ao utilizarem substâncias que não estão incluídas nas convenções internacionais relativas à vigilância de medicamentos e drogas. Presentemente são raras as agressões sexuais feitas por quem tomava Rohypnol, mas outras substâncias psicotrópicas constituem uma "ameaça grave", indica o documento, dando como exemplo a quetamina e a GHB.
Para pôr um travão neste tipo de consumos, a comissão de estupefacientes apelou aos governos e aos laboratórios farmacêuticos para que incluam corantes e aromas a este tipo de substâncias, permitindo assim alertarem-se as potenciais vítimas para a adulteração das suas bebidas. Como alertar adolescentes para os perigos da má qualidade da diversão nocturna é um problema de pais e educadores que são confrontados com a atitude demasiado liberal de uns e a mais antiquada de outros. Explicar-lhes que beber é já um perigo porque ainda não conhecem os seus limites já é difícil, dizer-lhes que estas substâncias são sobretudo usadas em ambientes de diversão nocturna e despejadas disfarçadamente no copo de bebidas, parece-lhes mais um filme. Ter filhos adolescentes será sempre um quebra-cabeças. Refugio-me com alguma frequência nas Janelas Verdes, um paraíso da Heritage, ali para Santos. Há uns dois anos, numa sexta à noite, fui até lá, para mais dois dedos de conversa com uma amiga. Ver tantos jovens arrastados, espalhados, pela rua, foi um drama, um desgosto e um desconsolo. Porque é sobretudo um desperdício. Um enorme desperdício de vida!