quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Dresden: a consciência antifascista alemã

Com a morte dos que viveram o Holocausto, a Alemanha atravessa um período crucial na sua história. Remetê-lo ao esquecimento ou enfrentar o risco que corre de voltar aos tempos aureos do nazismo. Crescem os grupos, neo-nazis ou não, que promovem a minimização ou até a negação do Holocausto, ao ponto de afirmarem que o genocídio foi deliberado e que os 6 milhões mortos em câmaras de gás, na sua maioria judeus, é uma colossal mentira organizada. Compreende-se que os neo-nazis neguem o Holocausto para tornar o nazismo uma ideologia mais palatável, mas já não se compreende o que leva cidadãos comuns a cair nesta cilada orquestrada.
A Alemanha teve, ainda o ano passado, demonstrações vivas de que o fascismo/nazismo se mantém vivo e de boa saúde. A 1 de Julho Alex W., um neonazi, assassinou em pleno tribunal uma mulher de 31 anos! Em Agosto/2008, enquanto brincava com o filho de 2 anos na R. Marwa E. (imigrante egípcia) foi insultada por um neonazi. O caso foi levado a tribunal e 3 meses mais tarde o racista foi condenado a 780€ de multa. Recorreu e, no próprio julgamento, a 1.Julho/2009, no final das declarações de Marwa, esta foi atacada pelo acusado que a esfaqueou 18 vezes! O seu marido e o advogado do racista interviram para parar o ataque e o marido ficou gravemente ferido. Quando a polícia entrou, disparou à queima-roupa para a perna deste, por pressupor que era ele o atacante... Malwa morreu na sala, o marido e o filho foram levados para o hospital. A situação em Sajonia é cada vez mais preocupante, com o movimento neonazi a agigantar-se.
No sábado, perto de 12.000 antifascistas bloquearam as ruas e avenidas para evitar que se realizasse o tradicional desfile neonazi, em Dresde. A marcha reuniu mais de 6.000 neonazis. A policía encetou várias manobras para reprimir a reacção antifascita, alegando que a manifestação era legal, mas dificilmente é crível que uma manobra meramente defensiva precisasse de congregar um contingente de 5.700 policías. Parece, sim, uma reacção de ataque.
Segundo a IMC Alemania, foi a manifestação antifascista mais importante dos últimos tempos.
Parte da Alemanha está consciente de que enfrentar o problema é a melhor forma de evitar que a história se repita. Mas a outra parte prefere enfrentá-lo pela negação porque o que pretende, justamente, é que a história faça um remake. Um perigo não só para a Alemanha, mas para a Europa (em França, as recentes medidas de Sarkozy, sobretudo com a lei Mariani não são de bom auguro). Só uma consciência activista pode impedir que o sonho europeu tenha de enfrentar o que pode vir a ser o seu maior pesadelo.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Sem Dia dos Namorados - Namorava-se!

Uma das coisas que me deixam nostálgica é não ter vivido na época das cartas de amor. Achar-me-ão ridícula. Mas mais ridículo é quem nunca escreveu cartas de amor. E mais ainda quem nunca as recebeu. Há os mail's de amor. Mas não é a mesma coisa.
Receber a carta. Abri-la. Senti-la. Cheirá.la. Lê-la, por fim. Não é o mesmo que clicar e aparecer à velocidade de um segundo.
FPessoa (Alvaro de Campos) concorda. "Todas as cartas de amor são Ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem Ridículas. Também escrevi em meu tempo cartas de amor, Como as outras, Ridículas. As cartas de amor, se há amor,Têm de ser Ridículas. Mas, afinal, Só as criaturas que nunca escreveram Cartas de amor É que são Ridículas. Quem me dera no tempo em que escrevia Sem dar por isso Cartas de amor Ridículas. A verdade é que hoje As minhas memórias Dessas cartas de amor É que são Ridículas. (Todas as palavras esdrúxulas, Como os sentimentos esdrúxulos, São naturalmenteRidículas)."
A prová-lo, uma carta do tempo em que não havia Dia dos Namorados. Namorava-se. É a carta de um soldado, natural de Mós, dirigida à sua amada (cópia feita pelo próprio, escrita num caderninho, datada: Porto, em 31 de Janeiro de 1949: «Menina F... / Em primeiro lugar faço votos para que estas minhas duas letrinhas / a possam encontrara a gozar uma perfeita saúde, que eu / ao descrever-lhe o meu amôr que sinto pela / menina, fico bom felizmente. / Menina, desde o primeiro dia em que tive a suprema felicidade de a poder apreciar, fiquei um pouco emprecionado / e não pude dirigir-lhe uma pequena frase, / para que meu coração ficasse mais um pouco calmo / Mas enfim como hoje acorda-se com um coração / em sobre-saltos, fui obrigado a declarar-lhe o meu amor / que pela sua pessoa sinto. A menina para mim foi a mulher mais bela, que / desde o meu nascimento pude apreciar com a minha visão. Linda todo o seu corpo me pareceu um fenómeno. Esses seus olhos lindos pareceram-me duas pedras / preciosas imaginárias, seus cabêlos como o ouro e a sua face rosada, enfim não posso / descrever-lhe como você seja bela e formosas. Bem sei que a minha dignidade / como homem não se compara com a da menina, mas enfim desculpe-me de eu lhe dirigir esta simples carta, pois foi só simplesmente para lhe declarar o amôr que por / si sinto. Pois de si espero uma pequena resposta à minha declaração, e espero que ela me venha a agradar; e para isto basta dizerme que me declara amôr. / Sem mais passo a pedir-lhe desculpa pela ousadia que tive em lha escrever. Estimo que tenha / saúde e felicidade, sou este que me assino, [...]"
Lindo! Romântico! Admitam. muito mais romântico que um mail. Ainda que seja um mail de amor.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Pedro - uma Face Oculta!?

Ainda não se sabe bem o que é Face Oculta. Mas uma coisa não é. Um polvo. É, talvez, quando muito, uma lula. PSL era lá homem de se deixar apanhar por um polvo. Já se for por uma boa lula ... Ou uma lolita ... Podia lá Pedro Santana Lopes manter-se afastado de um caso que monopoliza os media?! Logo agora que pensava candidatar-se a líder do PSD (again, and again, and again)!
Em 2009, fez questão de que se falasse dele a propósito do Bragaparques. Felizmente, para PSL que o caso ficou esclarecido. Afinal, PSL esteve na CMLisboa, entre 2001 e 2005. Ora, na altura, foi discutido o destino a dar aos terrenos do Parque Mayer. Em 2003, Santana deu luz verde à construção de um casino nessa área, e o projecto só não avançou porque Jorge Sampaio, então PR, o vetou. Negociação para cá, negócios para lá, e, no entretanto, em 2004, PSL sai do Executivo camarário (para formar Governo). No ano seguinte, Carmona Rodrigues dá continuidade às negociações. Quando Santana Lopes regressa à autarquia, em 2005, a proposta vai a votos na Assembleia Municipal, e é aprovada por todos os partidos, à excepção da CDU. CR lá veio dizer que foi tudo negociado com Santana. Zangaram-se os amigos. Mas Santana Lopes não sabe de nada!
Outra história em 2009, Helena Lopes da Costa é acusada de vários crimes de abusos de poder. Felizmente cairam as suspeitas que recaíam sobre o ex-presidente. Santana não sabia de nada!
Já em 2010, a PJ concluiu a investigação ao Caso EPUL. Foram constituídos cinco arguidos, entre os quais Carmona Rodrigues, edil da autarquia à data dos factos. O caso remonta a meados de 2002, ano em que um contrato-programa foi assinado pela CML, a EPUL, o Benfica e a Benfica Estádio, SA, no âmbito da construção do actual Estádio da Luz para o Euro 2004. A PJ concluiu que a autarquia financiou a construção do novo Estádio em €65 milhões. PSL, na altura Presidente da CLisboa, não foi constituído arguido. Carmona defendeu-se dizendo que Santana tratou de tudo e este, inquirido como testemunha, reconheceu que as negociações com o clube da Luz foram conduzidas por si e pelo vice-presidente. PSL, por fim, alguma coisa sabia!
Já outra vez, em 2010, o caso Face Oculta. Diz-se que a investigação às contas bancarias de Manuel Godinho revela que este passou a(os) Santana Lopes cheques no valor de €72.000,00. Mas PSL nega ter mantido qualquer contacto com MG e afirma que desconhecia que o irmão tinha relações comerciais com aquele entre 2001 e 2002. Santana de nada sabe!
Pedro Santana Lopes nada vê, nada ouve e nada fala. Primeiro, é o amigo Carmona que não lhe conta nada do que negocia e depois ainda lhe põe as culpas em cima! Depois, é a amiga Helena que decide sem lhe dar contas! Volta a ser o amigo Carmona que negocia sem lhe dar conta e depois lhe põe a culpa em cima! Por fim é o irmão Paulo, que consegue ser o único português que não fala de Manuel Godinho e do Face Oculta e, portanto, se esquece de lhe dizer que conhecia aquele senhor! At least but not the last, é o filho Duarte, que, apesar de trabalhar na MLGTS - Morais Leitão, Galvão Teles, Soares da Silva & Associados, e de fazer parte da equipa de advogados que trabalha na defesa de um dos arguidos, não lhe diz nada sobre o Caso!
Ah! E, por coincidência, PSL e o irmão têm o mesmo apelido e o "Santana Lopes" dos cheques não é ele! Mais! Podem até descobrir-se cheques em nome do irmão Pedro e do irmão Paulo. Só com as respectivas iniciais: PSL. E nada saberá o Pedro do que faz o Paulo e vice-versa! Será um Kramer contra Kramer!? Ou um PSL contra PSL!?
Não será ainda este o polvo que o apanha! Ainda se fosse uma lula! Ou uma lolita!
Já não sei que parte da máxima "Mantêm os teus amigos perto, e os teus inimigos mais perto" é que se lhe aplica! Porque, no seu caso, os amigos, família e idem sairam-me uma bela prenda e uma boa encrenca!

Alpiarça e Carbonarismo

Terras de Alpiarça. A "Moscovo Portuguesa". O chão da terra dos meus antepassados é por ali. Em Vale de Cavalos, Chamusca. Soube, não há muitos anos, que alguns estiveram associados à Carbonária. Será a eles que devo o meu "pêlo na venta", ou o "mau nariz para óculos". Ou o espírito livre. Ou ter sido fundadora da Academia de Estudos Laicos e Republicanos. Reservo-me a outros textos para historiar mais, hoje fico-me por um breve intróito. (leia, de António Ventura, " Carbonária em Portugal")
Desde a República que à Carbonária se atribui um papel maldito. Há 100 anos que é vista como uma organização maldita, autora do regicídio, com uma ligação afirmada, insinuada e pouco esclarecida, com a Maçonaria Portuguesa. A controversa das suas origens é a controversa das suas histórias. O que se prende com a sua natureza secreta e com o silêncio que lhe votaram a Igreja, a Maçonaria e a política. A Igreja omitiu a sua colaboração na resistência conjunta a Napoleão. A Maçonaria omitiu a condição carbonária de muitos maçons que, na Europa e na América, foram os primeiros artífices das sociedades democráticas e a história das ideias republicanas, socialistas e liberais e desvalorizou a condição carbonária de alguns dos seus mentores. Se a Igreja se podia contentar com a oposição a Napoleão e o apelo aos valores nacionais italianos, onde o catolicismo imperava (daí a bula de 1809), já não podia apoiar uma organização que não controlava (daí a bula de 1821). A Maçonaria contrariava-se porque eram maçons muitos dos seus dirigentes e porque estes desenvolviam actividades políticas subversivas, violentas, sem mandato, e que a comprometiam, ainda que de forma indirecta.
Certo é que nenhuma sociedade secreta fascinou tanto as multidões sequiosas de liberdade ou de independência política conquistada a lágrimas e sangue, quanto a Maçonaria Florestal ("Carbonária": porque foi fundada por carvoeiros de Hannover). Constituída no último Quartel do Séc. XV, entrou na História, como organização de carácter político, após a Grande Revolução Francesa. Na Itália, adquiriu fama de violenta e sanguinária. Foi introduzida em França por ordem de Napoleão (mas não tardou em converter-se na mais poderosa força oposicionista ao expansionismo do grande corso, lutando contra ele na França, na Áustria, na Espanha e em Portugal).
Em Portugal, o processo de implantação da República foi complexo. A revolução do republicanismo ortodoxo falhou, mas a do republicanismo carbonário triunfou. O movimento carbonário era a expressão de um estrato socioeconómico com características muito diferentes das registadas nos dirigentes do Partido Republicano. Os carbonários eram marujos, soldados e trabalhadores das profissões mais modestas; eram, para a classe média de 1910, a mesma ralé que em 1836 tinha causado a indignação de Herculano. A plebe armada tinha-se revelado uma força que o Exército não conseguira dominar. Tornara-se ameaçadora e perigosa. Teófilo Braga comparou: «[...] a Carbonária entregou a revolução ao Partido com a humildade de um sapateiro dando um par de botas ao freguês». Era o que pensavam os republicanos moderados: as forças populares tinham feito uma revolução que lhes não pertencia, mas ao partido. Por isso, segundo os notáveis da República, o papel do povo tinha ali o seu ponto final. O regime viu-se confrontado, desde a primeira hora, com duas forças contraditórias: uma força de combate sem quadros; quadros partidários sem força de luta.
Francisco Carromeu diz que "Há equívocos na História que tarde ou nunca se esclarecem. E não é verdade que o tempo acabe sempre por trazer a verdade à tona. Há acontecimentos que morrem com os seus protagonistas, há segredos que nunca são revelados, há vontades que se confundem com factos, há factos que só existiram nas memórias de quem os relata e historiadores levados a tomar por boas, informações que não passam de vaidades ou desejos que a história tivesse sido outra. Há ainda um inventário de “verdades feitas” que nem com a demonstração das maiores evidências evita a permanência de teses já consagradas."
"O papel do carbonarismo na História de Portugal é um desses acontecimentos que a História evita. Pelo menos, convive mal com ele." (Francisco Carromeu)
Os republicanos ciosos do seu regime relegaram-nos ao esquecimento. Com receio que vissem à tona as fotografias na confecção de explosivos. Com desdém porque alguns dos seus membros serem conotados com o assassinato do rei e do príncipe real. "A Carbonária Portuguesa tinha feito o 5 de Outubro, mas esse acabou por ser um facto histórico menos relevante do que os actos de Costa e Buíça. Pouco tempo depois da proclamação da República, a Carbonária dissolvia-se, a república consolidava-se e os heróis desses tempos outra coisa já não eram, senão um espectro que a quase todos convinha ignorar. Passou a ser, então, uma organização maldita." (Francisco Carromeu) O termo «Carbonária» imputa-se, em Portugal, uma conotação tão pejorativa que condiciona qualquer análise crítica ao acerco de temas históricos entre o século XIX e as duas primeiras décadas do século XX. "O acto regicida de Manuel Buíça e Alfredo Costa, no dia 1 de Fevereiro de 1908, passou para a história como o acto mais relevante da organização, um crime praticado por carbonários, em circunstâncias nunca esclarecidas completamente, dadas as características de natureza secreta da sua organização e a morte no local dos seus autores."
"Após a implantação da República, feito que à Carbonária Portuguesa se deve inteiramente, todos fizeram os possíveis para dela evitar qualquer alusão. Foi como se todos fizessem um pacto de silêncio. A Carbonária era um nome, cada vez mais incómodo e, tanto os partidos republicanos como a própria Maçonaria Portuguesa optaram por omitir as suas cumplicidades. Para além disso, a própria Carbonária Portuguesa extinguiu-se, quase de imediato e o silêncio acabou por ser definitivo." (Francisco Carromeu)
A Carbonária tornou-se um episódio maldito na História de Portugal. Já não há quem a defenda. E porque era uma sociedade secreta não deixou registos, ficheiros, materiais ou vestigios, o que dificulta a recriação e a ambiência que rodearam os 30.000 iniciados que tinha por alturas do 5.Out. A curta duração temporal da Carbonária Portuguesa e de todas as organizações carbonárias, em Portugal ou na Europa, não legitima que remetamos ao esquecimento o papel do carbonarismo desde a Revolução Francesa até à implantação da República em Portugal.
Porque mais importante do que o espaço temporal em que se afirma como organização é a sua missão e o contexto sócio-cultural de que emerge. Um traço comum a todas as sociedades carbonárias, uma linha que as faz "parceiras de uma mesma viagem, filhas de um mesmo ideal, contemporâneas da mesma época histórica." Nascem na fase romântica de consolidação dos regimes constitucionais, como resposta ao grito de alarme de uma nação quando a sua soberania e unidade estão em perigo e é no povo que tem o seu melhor terreno de recrutamento e implantação. Republicanas por princípio, podem até aceitar a monarquia, na condição de ser constitucional, e são chefiadas por alguém provindo do interior de uma obediência maçónica. Sendo maçons, esses líderes carbonários escolheram uma via maçónica paralela, cismática. O carbonarismo foi o princípio fundador de um dos tipos de organizações mais coerentes do romantismo político. Nacionalista, liberal, popular e adversa a qualquer tipo de imperialismo, a ética carbonária é defensiva por excelência e emergiu sempre sob a forma de sociedades políticas secretas para perservar o que considerava ser os valores elementares das nações que exigiram a sua formação. Conseguido esse objectivo, extinguiu-se porque, como idealistas em guerrilha, nunca teve vocação para se organizar como partido político ou para se constituir em estrutura de loobing.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Marketing vinícola e desconhecimentos palativos

Na última Visão, Edgardo Pacheco, Editor Gourmet fala de vinhos portugueses, a propósito do lançamento da marca Wines of Portugal que explora o conceito "a world of diference". Depois do novo-riquismo em matéria de vinhos, constatável num simples supermercado em que se fazem filas para ver quem tem as mãos mais rápidas para tirar das prateleiras syrahs, cabernets, pinots, merlots, chardonnays, sauvignon blancs, viogniers ou chenin blancs, desprezando as castas nacionais (Touriga Nacional, Trincadeira, Aragonês, Baga (sim a Baga), Castelão em terras de areias, Arinto, Alvarinho, Maria Gomes, Antão Vaz, Bical, Encruzado, Gouveio ...), bem que o assunto nos merece algumas palavras.
Como quase sempre, temos este complexo de desconfiarmos dos resultados de campanhas publicitárias, a não ser se se fala de sol e praia. Vamos dizendo que os nomes das castas portuguesas são difíceis de pronunciar por um estrangeiro, e esquecemos que também não é fácil soletrar, em italiano, Bardolino, Soave, Prosecco di Conegliano -Valdobbiadene, ou, em francês, Echézeaux, Mouton Rothschil, Richebourg, Figeac, Château Beychevelle, ou, em romeno, Tamaiioasa Romaneasca, Feteasca. Sem atinarmos com o reconhecimento das maiores instâncias internacionais de conhecedores. Lembremo-nos do Sandeman Porto Tawny 30 Anos e do Sandeman Sherry Royal Esmeralda que venceram o Decanter World Wine Awards. Dos 4 vinhos do Baixo Alentejo premiados pela Mundus Vini 2009. Dos 85 vinhos premiados (Brancos: 2 Medalhas de Ouro, 13 Medalhas de Prata; Roses: 1 Medalha de Prata; Tintos: 15 Medalhas de Ouro, 46 Medalhas de Prata; Vinhos Fortificados: 4 Medalhas de Ouro, 4 Medalhas de Prata - 21 vinhos do Alentejo e 14 do Douro, 10 da Estremadura e 8 do Dão). Do International Wine Challenge que louvou o Herdade Paço do Conde Reserva Tinto 2005, com a medalha de prata e a Herdade da Mingorra, de Henrique Uva, com três distinções (Vinhas da Ira Tinto 2005 (prata), Alfaraz Reserva Tinto 2005 (commended) e Alfaraz Reserva Branco 2006 (prata)). E do Cortes de Cima, que conquistou o Best of Nation - Special Award for Portugal no San Francisco International Wine Challenge 2008.
Nesta recente campanha, a Wines of Portugal tem €50 milhões para investir. E, tendo-os, sugere-se que reserve uma boa parte para relações públicas e que dêem a conhecer as nossas castas aos jornalistas estrangeiros. À semelhança do que acontece noutros países. Matt Skinner é wine writer da Gourmet Traveller, e escreveu uma artigo sobre as 10 cidades mais importantes a visitar para comer e provar vinhos: Verona, Hong-Kong, Berlim, Amesterdão, Tokyo, Montreal, Copenhaga, Madrid, Buenos Aires e Wellington. Ora, sem nos intrometermos nos sentidos gustativos do wine writer australiano, é-nos difícil acreditar que, observando o binómio comida/bebida, se tenha de sair de Portugal e ir até Copenhaga, Amesterdão ou Berlim - cidades em que se bebe exactamente o mesmo que na Austrália, na Nova Zelândia, na África do Sul, no Chile e na Argentina. E, se isto já é difícil, será impossível não conhecer, cá dentro, lugares maravilhosos, onde, ao fim da tarde, se saboreiam vinhos verdes, brancos tranquilos, tintos, portos, moscatéis ou madeiras. O que não acontece em nenhuma daquelas cidades! São os portugueses que têm fama de ser deslumbrados pelo que é estrangeiro, não os estrangeiros! Mas, continuando a ler o artigo, aumenta o nosso espanto quando o wine writer recomenda que se vá até à Irlanda, para comer bom peixe. Certamente, desconhece a Barca Velha. Já Portugal foi descrito como o melhor destino para se comer pastéis de nata, o que quer dizer que, se este conhece bem alguma parte do País é Belém. Ora, alguém devia dizer ao cavalheiro que isso não é a sobremesa é só o aperitivo! Lisboa não é mais que a porta do paladar português. O que diria se conhecesse o belo Dão, o dourado Alentejo ou a fresca Bucelas? Tenho uma ideia. Pareceria o Jacinto do Eça a gabar uma malga de canja e o vinho saído da pipa a jorrar!
Ainda em Junho passado, a Comissão dos Vinhos do Tejo convidou para jantar umas quantas pessoas que apreciam o néctar de Baco, preponderantemente jornalistas, e lhes deu a conhecer 34 vinhos medalhados em diversos concursos nacionais e internacionais, provenientes das diferentes localidades da região: Santarém, Chamusca, Alpiarça, Golegã, Rio Maior, Cartaxo, Azambuja, Benavente, Salvaterra de Magos, Coruche, Ferreira do Zêzere, Mação, Sardoal, Tomar, Torres Novas, Abrantes, Constância, Vila Nova de Barquinha, Alcanena e Entroncamento, num magnífico jantar a bordo de uma embarcação que subiu o Tejo. Uma acção de marketing que presenteou e prazenteou os convidados. Um exemplo a seguir pela Wines of Portugal.
Trata-se, estou convencida, de uma questão de falta de cultura vinicultura. E era numa sessão de boas maneiras, acompanhando os vários matizes do Sol pelo País inteiro, com as águas de um dos nossos rios, ou nos castanhos-verdes dos nossos campos, que se punham os wine writers, como o dito australiano, no lugar. No nosso lugar. Que se conhecessem passaria a ser o lugar deles também. Um dos melhores lugares do Mundo, para comer e para beber.

Fernando Tavora - o Homem e o Projectista

Tive o privilégio de conhecer Fernando Távora. Por isso, pese embora a admiração que sinto pelo Marquês de Pombal, tenho de lhe dedicar algumas palavras. Chamar à colação o MPombal é pertinente. Porque FT é um Távora. Por certo que se recorda do célebre Processo dos Távoras. O escândalo político português do século XVIII. Imputou-se aos Távoras uma alegada tentativa para assassinar D. José I. E tudo culminou numa execução pública em Belém. Foram espancados e queimados Dom Francisco de Távora e os dois filhos, José Maria e Luís Bernardo (e Brás Romeiro, seu amigo). Foram presos o Duque de Aveiro, um criado e o irmão deste. A Marquesa de Távora, D. Leonor, foi decapitada. O resto da família Távora, Aveiro, Alorna e Atouguia foi presa e, mais tarde, libertados por D. Maria Pia que nunca viu este processo com bom olhos, acreditando na inocência dos Távoras e restantes acusados.
Posto isto, passo aos dias de hoje.
FERNANDO (LUÍS CARDOSO DE MENEZES DE TAVARES E) TÁVORA, Senhor da Casa da Covilhã, podia usar o Título de «Dom», mas nunca o fez (contrariamente aos irmãos Dom Bernardo Ferrão de Tavares e Távora e Dom Rodrigo Ferrão e Noronha). Nasceu na freguesia de Santo Ildefonso, Porto, a 25 de Agosto de 1923 e faleceu a 3 de Setembro de 2005, em Matosinhos.
Em Fev., no Porto, a sua obra inaugurou o ciclo de vídeo "Discursos (Re)visitados" organizado com base nas Conferências `Discursos sobre Arquitetura`, FAUP, 1990. (A Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto realizou um ciclo de conferências, organizado por Carlos Machado, Eduardo Souto de Moura, João Pedro Serôdio, José Bernardo Távora, José Paulo dos Santos, Manuel Mendesque reuniu, em 1990, no Auditório da Escola Superior das Belas Artes do Porto, nomes como Jacques Herzog e Peter Zumthor - mais tarde reconhecidos com o Prémio Pritzker -). Uma oportunidade única para reencontrar a voz de Fernando Távora e de Álvaro Siza, Stirling, Grassi e Rafael Moneo, Jacques Herzog, Peter Zumthor e David Chipperfield, Bernardo Secchi, e Kenneth Frampton.
De um sentido e toque humano raros, foi de FT o projecto de ampliação da Assembleia da República (1999). Foi a esse propósito que o conheci. E foi em boa hora. Se existem pessoas a quem reconheçamos nobreza de espírito e carácter, FT era, seguramente, uma delas. Foi difícil explicar porque se escolheu a sua mão. O próprio Tribunal de Contas levantou dificuldades em aceitar que se lh'o entregasse, por ajuste directo, invocando a sua especial "aptidão técnica", ou seja, fundamentou-se com a infungibilidade da arte. Mais do que a técnica estava em causa a arte. Argumentou-se com o seu port-folio, que ambicionava a integração no espaço e o respeito pela paisagem original.
Desde sempre, FT procurou a harmonia entre o novo e o velho. Daí que tenha viajado, durante toda a sua vida, para estudar in loco a arquitectura de todas as épocas, em todos os continentes, utilizando-a, como conteúdo e método da sua actividade pedagógica. Esta terá mesmo sido a sua maior herança: uma extraordinária capacidade de investigar o sentido das coisas, as suas raízes, uma enorme e voraz curiosidade pelo outro, ancorada numa forte ligação aos contextos originais.
Existem, para mim, dois vultos maiores da arquitectura do século XX: Raul Lino e Fernando Távora. E se Raul Lino agarrou na arquitectura portuguesa do século XIX e a transportou para o século XX, FT agarrou na arquitectura portuguesa do século XX e transportou-a para o inicio do milénio.
Para além do edifício novo, contíguo ao Palácio de São Bento, nomeio outros dois projectos. O projecto de final de curso - o CODA (Concurso para a Obtenção do Diploma de Arquitecto não construído) - "Casa Sobre o Mar" (1952) e a "Casa Dr. Ribeiro da Silva (1957). Neles, Távora cumpre com uma obra à altura do momento e do seu estatuto. E foi esta casa, de aparência a valores vernáculos regionais, que lhe serviu para individualizar a palette da arquitectura portuguesa, demarcando-a da arquitectura internacional, conferindo-lhe uma linguagem própria, e fixou um marco, um modelo, depois assimilado pela escola do Porto, e por arquitectos de Lisboa, como Manuel Tainha (casa do Freixial, 1958-59) ou Hestenes Ferreira (casa Shrimpton, Praia da Luz, Lagos 1960) .
Depois de, em 2008, o Prémio Fernando Távora premiar uma viagem para estudar a “Arquitectura para o desenvolvimento. Intervenções de emergência e de permanência no sudoeste asiático” da arquitecta Maria Moita, foi a vez da arquitecta Cristina Salvador vencer com um projecto de investigação no Deserto do Namibe, em Angola.
Fernando Távora teria ficado honrado.

Lisboa: Património Cultural

Os Prémios Ignasi de Lecea, atribuídos pelo PAUDO-Public Art and Urban Design Observatory, distinguem municípios, administrações públicas ou entidades privadas e individuais que desenvolvem iniciativas, projectos ou investigações no âmbito da produção, da gestão e da divulgação da arte pública e do design urbano. (O arquitecto Ignasi de Lecea, falecido em 2005, foi responsável pela gestão do planeamento urbano do Ayuntamento de Barcelona, tendo coordenado projectos de Arte Pública, pelos quais a capital catalã se tornou uma referência internacional.)
O Departamento de Património Cultural da Câmara Municipal de Lisboa foi distinguido com o Prémio Ignasi de Lecea, atribuído durante o evento “VI Waterfronts of Art International Conference”, organizado pela Universidade de Barcelona. O galardão premiou o site Lisboa Património Cultural (www.lisboapatrimoniocultural.pt), desenvolvido pela agência de comunicação web Seara.com. Durante o evento, foi também destacado o trabalho realizado pela CML no que respeita à Galeria de Arte Urbana.
O website premiado segue um conceito original, que indica os imóveis de interesse municipal e a arte pública (estátuas, azulejos, esculturas ou placas evocativas). Para as visitas, propõe vários itinerários na cidade, referenciando os vários edifícios ou elementos de arte a encontrar em determinado trajecto. Pode também optar-se pela navegação por temas, em que oferece quase tudo o que há de melhor para conhecer, na escultura ou na azulejaria.
No âmbito do património cultural e histórico da cidade de Lisboa, a Seara.com desenvolveu outros dois projectos para a CM. O site do Museu da Cidade, onde os visitantes encontram um vastíssimo manancial de informação sobre as origens de Lisboa, e uma referência aos acontecimentos que marcaram a história da capital. A agência de comunicação web é ainda responsável pela concepção do site dedicado ao Museu do Teatro Romano, uma estrutura arqueológica colocada a descoberto na década de 1960.
Está de parabéns a CMLisboa. Obrigado pelos passeios virtuais.