sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Escutas telefónicas - Um Caminho

“O direito penal, mesmo que rodeado de limites e garantias, conserva sempre uma brutalidade intrínseca que torna problemática e incerta a sua legitimidade moral e política” (Luigi Ferrajoli) Em “O processo”, de Kafka, existia a ilação “foi condenado, logo é culpado”, invertendo a lógica “é culpado logo foi condenado”.
A realização de escutas telefónicas, em Portugal, obedece a um esquema de formalidades legais dentro do sistema judicial. Somente um juiz pode autorizar a intercepção de um telefone desde que: esteja em investigação; nos casos em que há indícios de existir um crime cuja moldura penal seja superior a 3 anos, e depois de ter seleccionado o que é relevante para o processo - e que manda transcrever - e determinar o que considera irrelevante. Até há algum tempo atrás, as conversas que não tinham directamente a ver com o objecto da investigação eram destruídas, hoje, ficam gravadas em CD para que a defesa do arguido as analise e seleccione, por sua vez, a matéria relevante para a construção da sua tese (de defesa).
É o seguinte o caminho de uma escuta.
1. Numa primeira fase, uma escuta telefónica pode partir de um órgão de polícia criminal (PSP, GNR, SEF, PJ) ou do Ministério Público (MP). Identificado o número ou o IMEI (International Mobile Equipment Identity), número universal do equipamento, leva-se ao juiz de instrução o despacho que requer a intercepção com a fundamentação do pedido (de escuta). Mas uma das debilidades do sistema judicial-penal, é que nem sempre a fundamentação é clara e evidente, limitando-se a dizer que a diligência é importante para a descoberta da verdade material.
2.Recebido o despacho do MP, o juiz de instrução tem 3 três hipóteses: ou rejeita o pedido de intercepção, porque entende que não se justifica ou que não contém o devido enquadramento legal; ou assina de cruz o pedido; ou diz ao MP para enviar mais elementos de forma a tomar uma decisão. Nos casos em que o juiz requer mais informação, é verdade que surgem frequentemente conflitos com o MP.
3.Nos casos em que a intercepção telefónica é autorizada, é indicado um "alvo" por despacho do juiz, enviando-se cópia do mesmo para a respectiva operadora de telecomunicações, com a menção do número de telefone ou o IMEI que será posto sob escuta e mencionando-se a duração da mesma. A operadora acusa a recepção do despacho e informa o departamento de telecomunicações da PJ que a partir daquela data o sinal será bifurcado para a gravação.
4.O último passo do processo é o que causa maior celeuma jurídica. Segundo o Código do Processo Penal, "é lavrado auto, o qual, junto com as fitas gravadas ou elementos análogos, é imediatamente levado ao conhecimento do juiz ". E o que se questiona é o "imediatamente". A jurisprudência dos tribunais superiores não é uniforme: uns entendem que, em 15 dias, no máximo, o juiz conhecerá e seleccionará o que é válido; outros entendem que cada questão carece de uma apreciação casuística, em face da complexidade das investigações. Ouvidas as gravações, o juiz selecciona - as polícias podem contribuir para a recolha, indicando as partes que consideram ser mais relevantes - , o que considera ser de maior interesse para a investigação. Posto, o que, por fim, as conversas são, então, transcritas para o processo.
Apesar das formalidades legais impostas para desencadear a autorização legal da implantação de escutas telefónicas, o sistema ainda não é convincente. Não estou convencida da bondade de um sistema que permite a invasão da privacidade "a torto e a direito", permeabilizando a saída de informações que são depois publicadas e arrasam, sem dó nem piedade, a suposta intimidade a que todos temos direito num Estado de Direito Democrático. Não gosto da hipótese de ouvir o que os outros dizem e comentam em suposta confidencialidade, porque sou da geração em que "até as paredes tinham ouvidos", o que me recorda o esquema de informações montado pelo regime fascista e o uso que dele fazia a PIDE-DGS, entrando pela casa de uns e de outros.
As escutas telefónicas começam a constituir um sucedâneo, no século XXI, para a tortura a invasão legitimada em épocas pretéritas: decidia-se quem era culpado e, depois, encontrava-se uma maneira de confirmar a culpabilidade. O mais leve indício de um crime conduz a que se ordem escutas telefónicas, e talvez fosse bom lembrarmo-nos que se temos por amigo algum político estamos muito perto de sermos nós também os devassados. É claro que as escutas telefónicas são, nalguns casos, essenciais para a descoberta de determinados crimes, e que o Estado de Direito exige que a criminalidade seja contida; embora não tenha dúvidas que os criminosos que são profissionalmente activos nesse tipo de crimes, estão "podres" de saber que elas existem e, por isso, apenas deixam escutar o "escutável". Evidentemente quero crer que o regime legal de escutas foi equacionado de modo a evitar abusos e pressupõe que quem faz as escutas seja superiormente controlado, e que até seja independente e que nem abuse das informações tecnológicas que obtém, mas basta manter uma cidadania minimamente activa para não acreditar de forma tão abrangente que o mito do bom selvagem se aplica a todos os agentes da PJ. A situação tornou-se intolerável: a generalização do uso de escutas como um método normal de investigação incorre no risco de se desrespeitar "sem dó nem piedade" os direitos constitucionais de primeiro grau que assistem a todos, como cidadãos. Ora, esta crua e impiedosa invasão cria uma atmosfera miasmática em que nada de bom pode nascer. A que acresce as interpretações baseadas numa lógica securitária, numa filosofia de que os fins justificam os meios e na tendência para se estruturar sistemas liberticidas sobre a tese (avançada sem ironia pelos seus defensores) de que quem não deve não teme e que por isso quem contra abusos de escutas protesta fá-lo seguramente porque tem algo a temer. É contra esta maçica forma de pensar que urge que nos erguemos.
As escutas telefónicas podem ser um instrumento de investigação legal e legítimo, reconheço, mas temo que a sua utilização indiscriminada, despida de regras, subtraída a controlos, sem qualquer respeito pela privacidade e concretizadas por quem nem sempre possa ser assim tão independente, a torne inadmissível, intolerável e insuportável.
Sugeria algumas medidas e, para os meus amigos da Justiça, aqui as deixo para reflectirem.
1. Criação de uma entidade (uma “Comissão de Controle das Escutas Telefónicas”), que defina as regras a que obedecerá a selecção criteriosa de quem trabalha em escutas, que seleccione os que as vão tecnicamente fazer, que fiscalize o sistema de escutas e que monitorize o seu funcionamento. A AR (por eleição feita em moldes semelhantes aos actualmente usados para os membros do CSM), o PR, o CSM, o CSMP e a OA designariam os membros desse órgão, e o mesmo seria presidido por um Juiz Conselheiro.
2. Garantindo - se necessário por recurso a uma aclaração do texto da lei - que as escutas não aproveitadas para o processo sejam eliminadas, de modo a que não sejam guardadas para quaisquer outros fins, designadamente para ajudar a investigação de crimes em relação aos quais não seja possível determinar escutas.
3. Clarificação, no Código do Processo Penal, da inadmissibilidade da utilização dos “conhecimentos fortuitos” obtidos em escutas autorizadas. A CCET realizaria operações regulares e aleatórias de monitorização do respeito das leis e dos procedimentos.
4. As escutas ficariam sujeitas ao controlo directo do MP (e não da PJ) e submetidas ao Juiz de Instrução competente num prazo máximo de 5 dias (definindo-se desse modo o conceito indeterminado – “imediatamente” – referido no artigo 188, nº1 do CPP e clarificando-se que é nula e insuprível a prova que não respeite estes prazos - apesar do disposto no CPP, há jurisprudência contraditória sobre esta questão) para que fosse o Juiz a determinar o que aproveitar e o que não é aproveitável.
5. Apenas se poderia aproveitar, sob pena de nulidade - insuprível se os registos já estiverem destruídos – o registo com suficiente amplitude para que não possa ser descontextualizado o que é registado, para que seja possível a quem seja acusado com base em tais escutas clarificar eventuais significados equívocos do que foi registado. E ainda melhor, a defesa deveria ter acesso às gravações antes da sua destruição, para lher dar o uso mais conveniente. Se as escutas ocorrerem depois da acusação, as partes devem ter acesso imediatamente, por nada justificar outra solução.
6. A decisão sobre colocação em escuta de qualquer cidadão deve ser tomada pelo Juiz com base em despacho fundamentado na existência de indícios suficientes que o justifiquem e sob proposta ela também fundamentada pelo MP. E no despacho deve ser clarificado que essa é a única forma relevante de obter os indícios necessários à investigação. Deve tal decisão ser automaticamente analisada pelo Tribunal da Relação, sem dependência de recurso (inviável devido ao desconhecimento em que se encontra o escutado), de 3 em 3 meses, devendo o despacho do JIC ser renovado de 15 em 15 dias para se poder manter a escuta.
7. Não deve ser admitida a escuta de nenhum cidadão em relação ao qual não existam indícios suficientes que permitam a aplicação de medidas de coacção. Este regime não se aplicará a crimes em relação aos quais lei especial hoje permite as escutas de não implicados e só a esses crimes. Em qualquer caso, deverá já existir procedimento criminal em curso, e não contra incertos, para ser viável, devendo clarificar-se o CPP para este efeito.
8. A colocação sob escuta de advogados e de outras entidades em relação às quais existam regimes especiais, deve ser sujeita a regras equivalentes às que existam para outras formas intrusivas na sua actividade. Por exemplo, nenhuma escuta a um Advogado seria decretada sem prévia presença no desencadear do procedimento por parte da OA, à semelhança do que acontece com buscas a escritório, medidas estas tendentes a proteger o segredo profissional e os restantes clientes do advogado. Em qualquer caso, os membros dos órgãos dirigentes da OA devem beneficiar para este efeito de regime idêntico ao dos magistrados a que estão protocolarmente equiparados.
9. A decisão sobre escutas em relação a titulares de órgãos de soberania seria determinada sempre por um tribunal superior, podendo em relação às principais figuras do Estado, como o PR, o PM, o Presidente da AR, os Presidentes dos Tribunais Superiores, o PGR, e o próprio Bastonário da OA, ser a competência atribuída ao próprio Presidente do STJ ou a este Tribunal.
10. O desrespeito do regime garantístico das escutas telefónicas seria sempre uma falta especialmente grave para efeitos de procedimento disciplinar e de responsabilidade civil.
Lemos, hoje, no «Sol», um extracto do despacho do juíz de instrução do tribunal de Aveiro que alega terem sido encontrados indícios, nas escutas entre Paulo Penedos e Armando Vara, de que o PM foi conivente de um plano para afastar a jornalista Manuela Moura Guedes e José Eduardo Moniz. Ultimamente, o bastonário da Ordem dos Advogados afirmou que a divulgação de despachos de investigadores do processo «Face Oculta» na imprensa era «uma forma de torpedear a decisão» do STJ para serem destruídas as escutas e disse que há «promiscuidade» entre alguns sectores da Justiça e dos media. Em declarações à Lusa, António Marinho Pinto afirmou que «muitos magistrados utilizam uma forma de contornar as disposições quer da lei quer dos tribunais superiores», anotando que o despacho do juiz António da Costa Gomes, que é citado na última edição do «Sol», «ficará para sempre nos autos». Salientou ainda que «não competia» àquele magistrado «fazer essas apreciações, que são competência exclusiva do presidente do STJ», Noronha do Nascimento. «Havia que atingir o primeiro-ministro sempre», frisou. «Alguns magistrados deixam-se envolver pelas paixões políticas». Para o bastonário, a divulgação parcial de escutas do processo, é um sinal de que «há em Portugal uma agenda política e uma promiscuidade entre certos sectores da Justiça e da comunicação social». «Isto foi uma forma de torpedear a decisão do Supremo de mandar destruir as escutas», disse. «Só demonstra que a sociedade portuguesa está numa deriva de desrespeito pelos valores essenciais da democracia e do Estado de Direito», sublinhou. O juiz do processo Face Oculta diz que vai cumprir «escrupulosamente» a ordem de NN para destruição das escutas. A informação do magistrado ACG foi avançada à Lusa através do presidente da comarca do Baixo Vouga, desembargador Paulo Brandão. De acordo com este, a destruição das escutas que o presidente da STJ, NN, ordenou, envolvendo AV e JS, só ainda não foi feita «porque se está à espera do expediente» necessário. O magistrado de Aveiro esclareceu que a divulgação das escutas, esta sexta-feira, não constituiu qualquer crime de desobediência «já que não se trata de conversas abrangidas» pelo despacho de Noronha do Nascimento.
No fim da história, pergunta-se: de que serviu a algazarra? Se era assim tão tamanha a evidência de matéria criminal, onde se provou o contributo das escutas para encontrar a verdade? Onde está o resultado de assaz impiedosa devassa? Sabe o amigo? É que eu também não!

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Pão, Circo e Palhaços

Releiam "Os Malucos do Circo" Party Political Broadcast (1974 e El Circo De La Politica, de J.M. Loperena. Seguindo Clausewitz, a guerra é a prossecução da política por outros meios. Estamos, pois, em plena guerra política. Hoje, a vida política transformou-se num circo romano. Pão e circo (panem et circenses) era a política dos antigos romanos, que manobrava o povo dando-lhe comida e diversão em vez de liberdade, com o objectivo de diminuir ou acabar com os conflitos. O Rui Calafate dizia, no Oje, em Maio passado, que, desde que se lembra do exercício de poder em Itália, não se recorda de nenhum Primeiro-Ministro que faça doutrina ou que não passe de um rodapé da história (talvez Giullio Andreotti ainda possa dar azo a muitas biografias). Sílvio Berlusconi, afirma, é ícone desse circo. "Compreendeu como ninguém o povo que comanda. Deu-lhe circo, circo e circo."
Há muito que não se falava de "política de circo" ou de "circo político". Já em Maio, o PS chumbou os projectos do BE, PEV e PCP para proibir o uso de animais em espectáculos circenses. Foi pena, porque se a lei tivesse passado, hoje poupar-se-ia a estes aborrecimentos, e, sobretudo, evitado este jogo de incontinência verbal do Mário Crespo. De novo, a 18.Nov, o PS afirmou que se recusava a contribuir para que a AR fosse "num circo de demagogia". De nada valeu ao PS defender a AR. O circo foi ao Parlamento. E hoje vê-se confrontado com aspirantes a "palhaços". Em vez de serem só alguns políticos a comportar-se como palhaços, ainda temos, de quando em vez, suportar outras classes profissionais a juntarem-se-lhes. Por mim, o problema é mesmo do CDS-PP, que além de uma deputada que ofende, em plena comissão, no decurso de uma sessão de trabalho parlamentar, um seu colega, com um desses cumprimentos, conta, agora, com o activismo de um jornalista, seu confesso simpatizante, para esta sua incursão pelo "escárnio e mal-dizer". Lembrando uma canção de Abril, acho que o Paulo Portas adoptou para seu hino o refrão: "Avante, camarada, avante, junta a tua à nossa voz". Ou o tempo que vai demorar mais algum adepto do PP a fazer figura de palhaço.

O palhaço de Mário Crespo

A juntar-se a um corpo de vozes em defesa de Mário Crespo veio hoje juntar-se a voz de um meu formando. Não fosse pela circunstância de ter o maior respeito pelos meus formandos e o assunto nem me daria mais que comentar. Mas dado que o primeiro artigo sobre o assunto adveio de um comentário do meu amigo Joffre, acho por bem referir igualmente os comentários das pessoas a que quero bem e que se pronunciam no sentido contrário. Até porque o Francisco Balsemão, presidente do grupo Impresa, recorde-se, já veio a público dizer que tinha "consideração" e "apreço" pelo jornalista da SIC. Ora, tenho de acrescentar que também tinha essa ideia do Mário, mas infelizmente o que escreveu dá azo a que se retirem as piores conclusões e uma delas é que o jornalista ultrapassou a fronteira do direito à opinião e chegou já ao desrespeito, à mal-criadez, portando-se em nada como um profissional da palavra e da escrita.
Posso até dizer que não sei o que se passa com o CDS. Primeiro, foi a Maria José Nogueira Pinto, que, na primeira audição da Comissão Parlamentar de Saúde, chamou «palhaço» ao socialista Ricardo Gonçalves. Escrevi, então, a propósito, lembrando-lhe que ela mais parecia um pierrot, que não deixa de ser uma espécie de palhaço triste. Digo o mesmo a propósito do Mário que publicou um artigo de opinião no DN em que aplica tais elogios a "alguém da nossa praça política" (conhecendo agora claramente a opinião do jornalista sobre Sócrates não há nada de mais fácil do que perceber claramente que é a este que aquele s refere).
Como os dois são pessoas extraordinariamente cultas, custa-me dizer-lhes que o palhaço nem sempre tem uma conotação tão prejurativa como lhe pretendem dar. E antes de se deixar, na íntegra, o tal artigozinho de Mário Crespo, deixo-vos com algumas frases e pensamentos célebres sobre o palhaço.
"Devemos visitar os bastidores de nossa alma, fantasiados de palhaço. Dessa forma, podemos sorrir de nossas falhas e tripudiar das inseguranças, atraindo-as para o nosso maior aliado: o picadeiro. É aqui, que as feras de orelhas enormes minguam ao som dos aplausos de Deus e dos nossos amigos." Augusto Vicente "Eu continuo sendo apenas um palhaço, o que já me coloca em nível bem mais alto do que o de qualquer político." Charles Chaplin "O palhaço não sou eu, mas sim esta sociedade monstruosamente cínica e tão ingenuamente inconsciente que joga ao jogo da seriedade para melhor esconder a loucura." Salvador Dali
Ou seja, Mário, às vezes até se pode elogiar com esta palavra. Querendo elogiá-lo, sempre lhe digo que quem afirma ser jornalista deveria poupar-se a estes impropérios, a não ser que tencione entrar na carreira política e já esteja em plena campanha.
14.Dez, DN: "O palhaço"
"O palhaço compra empresas de alta tecnologia em Puerto Rico por milhões, vende-as em Marrocos por uma caixa de robalos e fica com o troco. E diz que não fez nada. O palhaço compra acções não cotadas e num ano consegue que rendam 147,5 por cento. E acha bem.O palhaço escuta as conversas dos outros e diz que está a ser escutado. O palhaço é um mentiroso. O palhaço quer sempre maiorias. Absolutas. O palhaço é absoluto. O palhaço é quem nos faz abster. Ou votar em branco. Ou escrever no boletim de voto que não gostamos de palhaços. O palhaço coloca notícias nos jornais. O palhaço torna-nos descrentes. Um palhaço é igual a outro palhaço. E a outro. E são iguais entre si. O palhaço mete medo. Porque está em todo o lado. E ataca sempre que pode. E ataca sempre que o mandam. Sempre às escondidas. Seja a dar pontapés nas costas de agricultores de milho transgénico seja a desviar as atenções para os ruídos de fundo. Seja a instaurar processos. Seja a arquivar processos. Porque o palhaço é só ruído de fundo. Pagam-lhe para ser isso com fundos públicos. E ele vende-se por isso. Por qualquer preço. O palhaço é cobarde. É um cobarde impiedoso. É sempre desalmado quando espuma ofensas ou quando tapa a cara e ataca agricultores. Depois diz que não fez nada. Ou pede desculpa. O palhaço não tem vergonha. O palhaço está em comissões que tiram conclusões. Depois diz que não concluiu. E esconde-se atrás dos outros vociferando insultos. O palhaço porta-se como um labrego no Parlamento, como um boçal nos conselhos de administração e é grosseiro nas entrevistas. O palhaço está nas escolas a ensinar palhaçadas. E nos tribunais. Também. O palhaço não tem género. Por isso, para ele, o género não conta. Tem o género que o mandam ter. Ou que lhe convém. Por isso pode casar com qualquer género. E fingir que tem género. Ou que não o tem. O palhaço faz mal orçamentos. E depois rectifica-os. E diz que não dá dinheiro para desvarios. E depois dá. Porque o mandaram dar. E o palhaço cumpre. E o palhaço nacionaliza bancos e fica com o dinheiro dos depositantes. Mas deixa depositantes na rua. Sem dinheiro. A fazerem figura de palhaços pobres. O palhaço rouba. Dinheiro público. E quando se vê que roubou, quer que se diga que não roubou. Quer que se finja que não se viu nada.Depois diz que quem viu o insulta. Porque viu o que não devia ver.O palhaço é ruído de fundo que há-de acabar como todo o mal. Mas antes ainda vai viabilizar orçamentos e centros comerciais em cima de reservas da natureza, ocupar bancos e construir comboios que ninguém quer. Vai destruir estádios que construiu e que afinal ninguém queria. E vai fazer muito barulho com as suas pandeiretas digitais saracoteando-se em palhaçadas por comissões parlamentares, comarcas, ordens, jornais, gabinetes e presidências, conselhos e igrejas, escolas e asilos, roubando e violando porque acha que o pode fazer. Porque acha que é regimental e normal agredir violar e roubar.E com isto o palhaço tem vindo a crescer e a ocupar espaço e a perder cada vez mais vergonha. O palhaço é inimputável. Porque não lhe tem acontecido nada desde que conseguiu uma passagem administrativa ou aprendeu o inglês dos técnicos e se tornou político. Este é o país do palhaço. Nós é que estamos a mais. E continuaremos a mais enquanto o deixarmos cá estar. A escolha é simples.Ou nós, ou o palhaço."
Vou retorquir-lhe com estas palavras: "Mas que espécie vens tu a ser?....Sou um palhaço, ....e colecciono instantes. Adeus."Heinrich Böll

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Rosa Lobato Faria e a saudade

A morte colhe de repente e faz prisioneiros. Ainda de manhã, depois de Rosa Lobato de Faria, de 77 anos, ter sido hospitalizada pela terceira vez em dois anos, a filha mais nova, Teresa Sacchetti, se mostrava esperançada. Esperava-se que a Rosinha melhorasse. E embora o seu estado de sáude fosse debilitado, a sua situação clínica era considerada estável. Dizia a filha que "A mãe está muito fraquinha mas a recuperar, isso é que importa". "A mãe adoeceu e sente-se com poucas forças, mas isso acontece a quem fica doente. Não há nada de extraordinário. Está a soro porque não se alimenta devidamente sozinha, mas esperamos tê-la em casa rapidamente". Infelizmente, a Rosinha acabou por ser resgatada pelos braços da Mãe-Negra-Morte.
Porque é amiga de amigas, tivemos várias vezes à conversa.
A última vez foi em 2006, na Feira do Livro de Alenquer, na Biblioteca Municipal. Acabava de escrever "A Trança de Inês"e preparava-se para redigir o seu 10º livro, "A Flor do Sal". Nesse ano, Rosa completava, em 20 de Abril, 74 anos. Tinha percorrido um longo caminho desde o seu primeiro romance, "O Pranto de Lúcifer" (1995). Dizia que o seu gosto pelos livros fora "maduro" porque começara a escrever tarde, aos 63 anos. Sobre a idade, Rosa dizia: "Morrer é uma coisa fascinante". "Ao longo da minha vida sempre escrevi poesia. Nos bons e maus momentos. Grande poetisa não era, senão já se tinha dado por isso. Mas o facto de escrever sempre poesia (claro, também escrevia prosa, aí a partir dos 30 anos. Encomendavam-me crónicas, contos, um texto para aqui outro para ali). Mas porque é que nunca me passou pela cabeça dizer "Vou escrever um romance"? Autores - É uma boa pergunta, pelo menos depois de conhecermos o fim da história, ou seja, a sua capacidade de escrita e criatividade... Porque terá sido? Por duas razões. Uma porque a poesia é uma coisa que vem ter connosco, não se procura. Não dá trabalho nenhum, surge inteira, passa-se para o papel e já está. É um exercício de síntese, por excelência. E essa, achava eu, era a minha vocação. Por outro lado, a prosa, ou seja, o romance, é um exercício de análise e essa análise implica pesquisa, eventualmente. Eu não me achava minimamente vocacionada para essas coisas. Nem sequer era uma ambição longínqua. Ao contrário das pessoas que dizem que adoravam escrever um romance, eu nunca tive esse pensamento. Essas duas razões, a análise e a pesquisa, deitavam por terra qualquer veleidade que eu tivesse de escrever prosa. Mas não tinha sequer essa veleidade. E, um dia, quando eu tinha 63 anos, Deus quis que eu nascesse de novo. Contaram-me uma história e eu fiquei a pensar nela. Aquela história não me largava a cabeça. E eu dizia para mim "Isto é um conto, tenho que escrever este conto, senão não me vejo livre desta maçada". E escrevi. Quando reparei tinha 240 páginas A4 e pensei "Isto se calhar é um bocadinho mais que um conto". Era um romance.
Também dizia que "Dantes era nascer, viver e morrer; agora é nascer, viver, envelhecer e morrer". E, a propósito do desafio que lhe lançavam para escrever um livro, dizia que que não são os escritores que escrevem os livros mas os livros que escolhem os escritores para os escreverem. E dava o exemplo do que lhe acontecera com o "A Trança de Inês" que, durante muito tempo lhe fez um apelo: "Escreva-me, escreva-me". E "toda gente já escreveu sobre Pedro e Inês", o que não a parou. "Ah, Inês! Como não passou nada? Passou tudo, Inês, tudo o que pelos séculos além o amor inventou, as suas artes e subterfúgios, as sua agonias e misérias, os embustes esfarrapados com que presume esconder-se do mundo, a palpitação do desejo que faz tremer o chão, crescer o trigo, eclodir as rosas, convocar as tempestades. E, por fim, desdobra a mais perversa de todas as armadilhas, a que nos faz, na hora alucinada da paixão, corpo contra corpo, boca contra boca, alma contra alma, desejar e bendizer a morte. Morrer por este amor. Morrer contigo". Ideiais assentes no pressuposto de que a paixão não muda, independente do lugar e das circunstâncias. Por isso, contou três histórias de paixão: uma ocorrida no séc. XIV, por razões políticas; outra no séc. XX, por razões económicas; e outra no séc. XXI, por razões ecológicas. Personagens com o mesmo nome, a semelhança dos caminhos percorridos, a mesma intensidade das paixões. Há três Pedros, três Inês, três histórias de amor, três tragédias. Cada ser humano tem o direito a três vidas e de escolher a palavra que regerá essas três vidas. Pedro escolheu Paixão. O paralelismo das histórias, a inusitada situação de um Pedro e de uma Inês no século XXII. O cruzamento das linguagens que marcam a época das diferentes histórias. A ironia que marca a descrição das situações do “nosso” presente.
Para além deste romance, que é divino, a Rosinha escreveu poesia e recomendo vivamente os seus "Poemas Escolhidos e Dispersos" (1997).
Dizia que a sua escrita era muito musical e admitia perder muito tempo à procura de uma palavra com 4 sílabas, em vez de aceitar as que saíam com maior facilidade, as de 3 sílabas. A escrita, admitia, saía-lhe com grande facilidade e tinha fama de escritora "repentina", que agia "com repentes". Contava que um dia lhe telefonaram às 23h pedindo uma canção até ao final desse dia. Não se atrapalhou e respondeu para a virem buscar. Às 23h20 estava pronta. O mesmo sucedeu durante a gravação do programa de despedida de Herman José da RTP. O humorista ligou-lhe do estúdio às 19h, pedindo-lhe que escrevesse uma canção de despedida para ser gravada ainda nesse dia. Às 20h estava pronta.
Não gostava de futebol mas era adepta do FCP. O futebol e a culinária eram, ao início, paixões não partilhadas com o marido (o terceiro - a Rosinha sofreu, "sem memória" - como dizia aos amigos - com a perda do segundo marido, em Nov.2008, Joaquim Figueiredo Magalhães, de 92 anos, com quem estava casada há 33 anos). Foi o inesperado interesse do marido pela sua culinária que a levou a retribuir esse afecto com o interesse pelo clube de afeição do marido.
Nasceu num berço aristocrático mas cedo rompeu com muitos dos valores ortodoxos da época. Aos 25 anos, estava casada e com 3 filhos. Manteve valores tradicionais essenciais - a dignidade, lealdade, honestidade e solidariedade - mas rejeitou os preconceitos vigentes na época, como o racismo ou a obrigatoriedade do casamento para toda a vida.
Ganhou fama de ser uma "mulher de armas" porque quando escrevia "Romance de Cordélia", decidiu fazer um estudo, na prisão de Tires, e entrevistar mulheres assassinas.
Da Rosinha não pode perder o seu último romance (2008) «As Esquinas do Tempo».
Deixa a saudade imperdível de uma matriarca de afectos a 12 netos, 9 raparigas e 3 rapazes, e 4 filhos (Teresa Sacchetti, João Sacchetti e Bi Rebelo de Sousa, frutos do casamento com António de Vilas-Boas Romano e Vasconcelos Barreto Ferraz Sacchetti, e Nuno Franco, fruto da relação com Carlos Franco).
A Rosa Lobato de Faria morreu, hoje, com 77 anos. 2x7 é um número mágico, sagrado. Se acaso existe céu, sei que vai até lá. Aproveitará para descobrir as maravilhas da conversação, junto de anjos e dos seus entequeridos que partiram antes de si. Pouca sorte para os que ficam porque perdemos uma grande mulher e uma boa amiga das amigas das suas amigas. Obrigada, Rosa, pelos dois dedos de conversa. Bem hajas!

Mário Crespo, esquizofrenia e Nova Iorque!

O TVI24, de hoje, alimenta a(s) crónica(s) de Mário Crespo.
Botando palavra nas Jornadas Parlamentares do CDS, explicou o episódio da polémica crónica , e da conversa envolvendo o primeiro-ministro e Nuno Santos, director de programas da SIC, e revelou que o nome do comentador de Economia, Medina Carreira, também foi apontado como «um problema a resolver».
«No dia em que o Orçamento de Estado estava a ser preparado para ser apresentado no Parlamento, o chefe do Governo do meu país estava empenhado em produzir diagnósticos médicos sobre a minha sanidade mental. É curioso vindo de alguém que não tem, penso eu, credenciais nesse sentido. Mas poderá eventualmente consegui-las», disse o jornalista.
«Um primeiro-ministro é uma dignidade de função tremenda neste país. Como é um ministro. São situações que transcendem a própria pessoa e por isso tem que se ter uma postura consentânea com a dignidade desse posto», afirmou.
Mário Crespo conta depois que «na conversa, que não foi longa, mas foi intensa [ou melhor, não foi bem uma conversa, foi um monólogo] foi dito a Nuno Santos: "Vocês têm de resolver o problema Mário Crespo e o problema Medina Carreira". Os dois em conjunto não o sabíamos, mas constituímos um problema». Conversa relatada por «uma senhora» da mesa do lado (uma senhora, meu caro Mário, com a sua idade e na sua carreira, devia já saber que uma lady jamais comentaria a alguém uma suposta conversa havida sobre a sua pessoa: ouvir as conversas do lado não é uma tremenda prova de má-educação?). «Isto tudo em conversa muita rápida, muito colérica, que foi ouvida por uma pessoa numa mesa ao lado, é inevitável, e que me enviou um e-mail comovente, tocante. Posso dizer que é uma senhora erudita, mas nunca direi o nome dela», adiantou. (Uma senhora erudita, ó Mário, desculpe lá, mas o que é isso?) «Ela transcreve, ipsis verbis determinados pontos. Ela sentiu que naquela descrição estava contido algo que, se não fosse interrompido, era um processo de continuidade muito perverso no país, na sequência de soluções já conseguidas para Manuela Moura Guedes, José Alberto Moniz, José Manuel Fernandes e Marcelo Rebelo de Sousa. E ela sentiu que havia necessidade de obstar a isto», disse ainda. É um delírio de esquizofrenia aguda. Agora tenho a certeza! Tantos perseguidos! Essa necessidade de se pôr no mesmo patamar que as pessoas que cita não é um pouquinho de vaidade a mais? Uma mão cheia de gente ministerial que, logo justamente no dia do orçamento, vai almoçar, calmamente, e, em vez de discutir as contas do ano, não é que desata a balbuciar ameaças contra um pobre de um jornalista? É preciso muita imaginação! Acha que os políticos constroem cabalas numa mesa de um restaurante público? Tenha dó. Nunca ouviu expressões do género "sotão do Guterres"? Quando conspiram, os políticos fazem-no em privado. "Elementar, meu caro Watson!"
Mário Crespo contou depois que foi «confirmar que o almoço tinha tido lugar e naquelas circunstâncias que ela descreve e com os participantes que ela descreve». «Perante isto, confrontei o outro elemento presente com os factos que me foram descritos», referindo-se a Nuno Santos. O jornalista pensou: «Isto não pode ter sido dito sem ter sido violentamente contraditado. Estão em causa valores muito importantes e alguém que cuida destes valores teria contraditado». Mas «tanto não contraditou como me confirmou o teor da conversa», adianta.
«Perante isto eu pensei: tenho que fazer qualquer coisa. E decidi relatar», adianta. «Levei dois ou três dias a compor esta crónica, retirando-lhe emoções, linguagens despropositadas», conta Mário Crespo. «Mandei a crónica às 5h da manhã de domingo, dia importantíssimo para mim porque fiz exame de patrão de costa e passei. E à meia-noite recebi a chamada do José Leite Pereira», explica. «Disse-me: "Não te posso publicar isto. Não posso chegar a esta hora da noite e ir confrontar o primeiro-ministro com estas afirmações". E eu disse-lhe: "Se não publicas, não escrevo mais para um jornal teu"», continua o jornalista a relatar.
«Falei com a minha mulher sobre o que iríamos fazer e eu lembro-me de lhe ter dito: "Eu não sei como isto vai acabar"», conta. «Tenho 63 anos. É muito tempo de uma série de confusões que eu julgava que neste estado a que o país chegou, eu julgava que não iríamos ter de voltar a enfrentar».
Numa intervenção em que era suposto falar sobre o primeiro ano do mandato de Barack Obama, Mário Crespo passou a meia hora a falar sobre a polémica, sobrando poucos minutos para o tema original. «Sou um mártir? Não. Sou alguém que tenta defender-se simplesmente», terminou.
Parece-me lógico. E coerente. Em vez de falar de Obama, que para si não passa de um sujeitinho armado em importante, o Mário resolveu falar de uma coisa muito mais importante: ele. Porque entre um e outro, por certo que a audiência prefiria ouvi-lo falar de si do que de Obama - pensou ele!.
Megalomania, perseguição, dificuldade em lidar com a realidade. Sintomas de esquizofrenia aguda. Faça-me um favor, Mário. Vá descansar até Nova Iorque. Só espero que se der de caras com aquele homenzinho de quem era suposto falar e não falou, lhe consiga explicar que falar sobre si era tão mais importante.

`Quis saber quem sou. O que faço aqui!!" - de Mário Crespo

A esquizofrenia é uma doença angustiante e grave. Os sintomas são claros: isolamento social; perda de memória; paranóia (alguém fala acerca delas e faz coisas "nas suas costas"); alterações do pensamento: argumentos incoerentes, ilógicos ou abstractos; depressão; irritabilidade ou hostilidade inesperada; delírios. Uma das formas mais violentas de esquizofrenia são os delírios psicóticos, sobretudo, os de perseguição.Se esta "dor de alma" é um problema quando assola um cidadão normal é muito mais problemática quando se apossa da mente de um jornalista.
Fala-se de Mário Crespo. Que se prepara, segundo diz, para apresentar queixa de Sócrates à Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) e ao Sindicato dos Jornalistas (SJ) porque lhe constou que se referiram a ele como um "louco", um "problema" (até aqui não tem o MC de se sentir ofendido, porque não se conhece homem ilustre, independentementee da área profissional em que esteja integrado, que não tenha já sido alvo de idênticos impropérios!) e como "profissional impreparado" (aqui já o compreendo porque questionar a qualificação e a competência profissional é uma das poucas animosidades capazes de me suscitar a maior ira!).
Ora, confesso que pensei em nem falar deste episódio, porque é triste, mas o meu amigo Joffre Justino acaba de me enviar um mail, no qual, em vez de se usar a atitude do MC de "calhandrice" como o fez alguém preferiu o termo "pantominice", e achei graça. Daí que decidi comentar o episódio.
Não sem antes recomendar que revejam Psicoce (Psycho, 1960) , de Alfred Hitchcock.
Diz o Mário que alguém diz que se disse porque ouviu dizer. Sem se perceber muito bem o que é que uma conversa com estes contornos pode ter de jornalístico.
O primeiro-ministro, o ministro da Presidência Pedro Silva Pereira, o ministro dos Assuntos Parlamentares Jorge Lacão, e "um executivo de televisão", teriam, julga o Mário, almoçado no restaurante do hotel Tivoli, em Lisboa, há uma semana. Ora, o Mário ficou tão ofendido que já veio afirmar que "Não está excluído o processo contra Sócrates e posso recorrer ao International Comitee for the Protection of the Journalist". A conversa teria sido contada ao pivô por uma "fonte" (nem por isso, temo, Luminosa) que "Foi confrontado com a conversa e confirmou", diz, sem revelar a identidade da pessoa em causa. "Segundo me foi contado, ele ouviu cabisbaixo a conversa, não contraditou", adianta. Sem se fazer ideia de quem possa ser o "executivo da televisão", vai adiantando a "fonte" que seria o director de programas da SIC, Nuno Santos. Que almoçou, em trabalho, com Bárbara Guimarães. No final, os dois teriam cumprimentado o primeiro-ministro, Pedro Silva Pereira e Jorge Lacão, de pé, trocando palavras de circunstância. Nuno Santos não comenta. Jorge Lacão (ministro que tutela também a Comunicação Social) não fez quaisquer comentários às declarações de MC. "O Governo não se ocupa com casos fabricados com base em calhandrices." disse.
A história foi contada pelo "paciente" (disse isto? desculpem, pelo jornalista) MC numa crónica que deveria ter sido publicada no JN (publicação da Controlinveste a que também pertence o DN), mas que não chegou a sair, por uma decisão da Direcção "os factos referidos pelo cronista exigiam que "fosse exercido o direito ao contraditório"; por outro lado, "a informação chegara a Mário Crespo por um processo que o JN habitualmente rejeita como prática noticiosa; isto é: o texto era construído a partir de informações que lhe tinham sido fornecidas por alguém que escutara uma conversa num restaurante". O artigo acabou por saír no site do Instituto Sá Carneiro (órgão do PSD). "Não sei como foi lá parar", assegura Crespo. Mas como pode alguém pensar que teria alguma coisa a ver com isso? Afinal, o PSD é um partido sério, e seria incapaz de participar numa acção destas, portanto, presume-se que vão encontrar o autor da gracinha e interpor acção jurisdicional adequada à reparação da imagem séria que reconhecemos ao partido laranja. O MC seguiu para Guimarães, onde decorrem as jornadas parlamentares do CDS/PP, para se afastar da "loucura" que tomou conta dos protagonistas desta conversa-novela e procurar a (sua?!) sanidade mental, com a ajuda do líder do partido, Paulo Portas. Ora, aqui estão dois bons amigos! Mas, num gesto de enorme solidariedade (porque se há gente com quem sou inquestionavelmente solidária são os "loucos"), e para que entendam a dor do MC, aqui se deixa a sua crónica, crendo que o Mário nos ficará grato e que, em contrapartida, sairá em manifestação de rua com todos os outros loucos que se conhecem por aí.
"Terça-feira dia 26 de Janeiro. Dia de Orçamento.
O Primeiro-ministro José Sócrates, o Ministro de Estado Pedro Silva Pereira, o Ministro de Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão e um executivo de televisão encontraram-se à hora do almoço no restaurante de um hotel em Lisboa.
Fui o epicentro da parte mais colérica de uma conversa claramente ouvida nas mesas em redor. Sem fazerem recato, fui publicamente referenciado como sendo mentalmente débil (“um louco”) a necessitar de (“ir para o manicómio”). Fui descrito como “um profissional impreparado”. Que injustiça. Eu, que dei aulas na Independente. A defunta alma mater de tanto saber em Portugal.
Definiram-me como “um problema” que teria que ter “solução”. Houve, no restaurante, quem ficasse incomodado com a conversa e me tivesse feito chegar um registo. É fidedigno. Confirmei-o.
Uma das minhas fontes para o aval da legitimidade do episódio comentou (por escrito): “(…) o PM tem qualidades e defeitos, entre os quais se inclui uma certa dificuldade para conviver com o jornalismo livre (…)”. É banal um jornalista cair no desagrado do poder. Há um grau de adversariedade que é essencial para fazer funcionar o sistema de colheita, retrato e análise da informação que circula num Estado. Sem essa dialéctica só há monólogos.
Sem esse confronto só há Yes-Men cabeceando em redor de líderes do momento dizendo yes-coisas, seja qual for o absurdo que sejam chamados a validar. Sem contraditório os líderes ficam sem saber quem são, no meio das realidades construídas pelos bajuladores pagos. Isto é mau para qualquer sociedade. Em sociedades saudáveis os contraditórios são tidos em conta. Executivos saudáveis procuram-nos e distanciam-se dos executores acríticos venerandos e obrigados.
Nas comunidades insalubres e nas lideranças decadentes os contraditórios são considerados ofensas, ultrajes e produtos de demência. Os críticos passam a ser “um problema” que exige “solução”. Portugal, com José Sócrates, Pedro Silva Pereira, Jorge Lacão e com o executivo de TV que os ouviu sem contraditar, tornou-se numa sociedade insalubre.
Em 2010 o Primeiro-ministro já não tem tantos “problemas” nos media como tinha em 2009.
O “problema” Manuela Moura Guedes desapareceu.
O problema José Eduardo Moniz foi “solucionado”.
O Jornal de Sexta da TVI passou a ser um jornal à sexta-feira e deixou de ser “um problema”.
Foi-se o “problema” que era o Director do Público.
Agora, que o “problema” Marcelo Rebelo de Sousa começou a ser resolvido na RTP, o Primeiro Ministro de Portugal, o Ministro de Estado e o Ministro dos Assuntos Parlamentares que tem a tutela da comunicação social abordam com um experiente executivo de TV, em dia de Orçamento, mais “um problema que tem que ser solucionado”. Eu. Que pervertido sentido de Estado. Que perigosa palhaçada." (Nota: Artigo originalmente redigido para ser publicado hoje (1/2/2010) na imprensa. )
Sem querer parecer fã de Santos Silva, concordo com ele. «Ouvi alguém querer fazer um texto com base no que supõe serem informações que lhe tenham sido transmitidas acerca de conversas privadas, tidas em restaurantes, e eu acho isso absolutamente inacreditável», referiu.
«Não sei como se consegue fazer informação a partir de intromissão em conversas privadas, seja de quem for. Evidentemente, não merece nenhum crédito. As fontes não são conhecidas», afirmando ainda que «todos temos direito à privacidade das nossas comunicações». «De uma coisa podem os senhores jornalistas estar seguros: enquanto político eu nunca me interessarei por conversas que jornalistas tenham numa mesa perto de mim, num restaurante onde possa estar». Fonte do ministério dos Assuntos Parlamentares disse que «o governo não se ocupa de casos fabricados com base em calhandrices». Confesso que acho uma certa graça à expressão, que Santos Silva também considera "a expressão certa" para qualificar a situação.
José Lello também considera que o jornalista tem um "comportamento psicótico". "Ele dizer que fulano disse que disse, ou não disse, só prova de facto que o comportamento dele é psicótico. Ainda para mais, se de facto não conseguiu expressar a sua raiva por uma coisa que ninguém sabe se foi dita, em que circunstâncias poderá ter sido dita, foi recorrer a uma organização partidária para expressar toda essa raiva, pelo facto de dizerem que ele está num estado psicótico", afirmou. "Tenho pena, porque gostava de o ver de uma forma mais exaltante do que o ver assim deprimido a precisar de apoio", acrescentou.
É como diz o Joffre, uma "pantominice", ou seja, uma grandessíssima "calhandrice". Ou uma forma exteriotipada de dizer: "Ninguém gosta de mim.", ao que eu retorquiria: - Diga Mário, diga: "Quis saber quem sou o que faço aqui. Quem me abandonou. De quem me esqueci!!"

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

A elegância do casal Obama e de ... Sócrates e MFL


Barack Obama é, definitivamente, no palco da política internacional, o Homem. O homem mais poderoso do mundo. E o homem mais elegante. Obama, de 47 anos, derrotou Brad Pitt e outros 3.000 nomes na pesquisa feita pela OnePull.com. Obama, é, pois, a sensação do momento. Aponta-se-lhe estilo, charme, e elegância. Dos fatos bem alinhados ao bom humor. Nos Estados Unidos fala-se mesmo em "obamamania". Ao lado está a primeira-dama, Michelle, citada como a celebridade política mais bem vestida de 2009 (segundo a revista francesa Elle).
O conceito de elegância tem sido dos mais transmutáveis dos últimos tempos. Os padrões seguem hoje "personalidades fortes, que brilham com estilos distintos". Em suma, estilos únicos. É bom saber que numa sociedade em tudo é, cada vez mais, normalizado e em que impera a mediania, ter um estilo único e uma personalidade forte ajuda.
Aliado ao estilo do estético, o casal Obama pediu emprestadas 47 obras de arte aos museus de Washington, a maioria de pintores contemporâneos norte-americanos, para decorar as paredes da Casa Branca. Entre os quadros escolhidos figuram sete telas de artistas negros (como Glenn Ligon, que explora os temas da política e da raça utilizando nas suas tela textos, néons e fotos). As obras foram pedidas a cinco museus, entre os quais figuram a National Gallery of Art e o museu da escultura Hirshhorn. O pintor William Johnson, do movimento de renovação da cultura afro-americana "Renascimento de Harlem", está representado por quatro cenas 'naif', assim como Alma Thomas, uma das primeiras mulheres pintoras afro-americanos, nome da pintura abstracta. Foram escolhidas várias peças de cerâmica ou de arte dos nativos americanos. George Catlin, o retratista dos costumes indígenas no século XIX tem um lugar de destaque na residência presidencial com uma dezena de quadros. Entre os mais clássicos, só um pôr do Sol (Sunset) melancólico de Winslow Homer e dois bronzes de bailarinas de Degas, enquanto os pintores abstractos Mark Rothko, Josef Albers, conceptuais como Edward Corbett e Jasper Johns, ou ainda da pop-art como Edward Ruscha estão bem representados. Do outro lado do Atlântico, para além de Degas, há naturezas mortas de Giorgio Morandi ao lado de uma impressão de Nice por Nicolas de Stael.
Bom gosto, é óbvio.
Mas o que mais me comove é que o casal Obama parece mesmo um ... casal. Daqueles que ultrapassam um contrato meramente societário, e conseguem ser unos a dois. É uma relação de evidente cumplicidade. Isto, para mim, é um casamento. E a provar que não estou errada está o facto de um casal, que congrega a unanimidade sobre um apurado estético, ter, igualmente, um notório carácter, a dois, romântico. Sem receios de parecer frágil, ou sequer fragilizado, com essa imagem. Na escolha entre os dois e para os dois, Michelle afirmou que “É bom ser bonito, mas a beleza é efémera e o que importa é o que se é como pessoa. Não podemos olhar para a conta bancária, ou ao cargo que a pessoa ocupa. Na hora de escolher o parceiro há que olhar para o coração e para a alma”. Parece tratar-se de um segredo, que, no caso, será um "segredo de Estado". A vida de um casal que reside na Casa Branca é tudo, menos privada. E está sujeita à pressão diária. Aos holofotes dos papparazi. Para além da agravante de ser “a primeira vez em tantos anos de casamento que vivemos sete dias por semana debaixo do mesmo tecto”, conta a primeira-dama. O que é de um enorme desgaste e de um grau de exposição extraordinariamente violento.
Mas, mesmo para quem não tinha apreço por Obama, este político denota um forte sentido de lider. Desde logo, elegeu o emprego como primeira prioridade do Governo para este ano. Disse Obama, «proponho que peguemos nos 30 mil milhões de dólares de lucros dos bancos de Wall Street e os utilizemos para ajudar os bancos de proximidade a fornecer às pequenas empresas o crédito de que têm necessidade para continuar à tona». Sem mais.
De seguida, Obama anuncia que espera poupar 1,9 biliões, aumentando os impostos aos mais ricos, mediante a actualização de tabelas de imposto (diz a Bloomberg). O norte-americano que ganhar mais de 200 mil dólares (€143 mil), ou o casal que ganhar 250 mil dólares (€179 mil) vão ver os rendimentos ser tributados com mão pesada: no primeiro caso a taxa é de 36% e no segundo de 39,6%.
Quer se goste quer não, Sócrates tem muito de parecido com este Homem em matéria de imagem. «Apesar de todas as manifestações, os portugueses respeitam este homem rigoroso, com fatos escuros Armani, gravata grená e cabelo grisalho, que não lhe tira estilo nenhum», assina Virgínia Lopez na lista do El Mundo, jornal conotado com a direita conservadora que se revela rendido ao «vizinho elegante» socialista. O primeiro-ministro é descrito como «jovem, dinâmico e seguro de si mesmo», apesar de o qualificar de "homem arrogante e irritadiço».
Foi dito que o PM tinha um caso com Fernanda Câncio. Apesar de contrariar muita gente, para mim, é uma mulher elegante. Até porque também tem, como Michelle Obama, um estilo único e uma personalidade forte (Quando se pronunciou a favor de Sócrates no seu blog (Jugular), no caso do Freeport teve um golpe de asa que foi comparado ao J'Accuse e citou Emile Zola, o que é de uma grande coragem). Falo da Fernanda porque me parece que, ao que consta, o romance acabou, tanto mais que, se consta ainda, que Sócrates está de novo apaixonado, desta vez por Maria Célia Tavares (à beira dos 50, que o PM terá conhecido na loja das Meias da R. Castilho, em frente à sua residência, onde esta exercia funções de «personal shopper» até Dezembro). As duas terão belezas diferentes, mas o que não se pode contestar é que são as duas mulheres fortes.
Resta dizer sobre Sócrates que, para igualar Obama, a imitar José Blanco, ministro espanhol do Fomento, e a seguir o exemplo de ilustres ricos alemães que lançaram uma petição pedindo ao Governo Alemão que taxe as pessoas mais ricas (com esta medida, calcula-se, que sejam angariados mais de €100 mil milhões, se os ricos pagarem mais 5% de impostos, durante 2 anos), também já pensou em aumentar os impostos aos mais ricos. O que desencadeou ataques cerrados pela presidente do PSD, Manuela Ferreira Leite, que se ergueu contra o que chamou de "uma quase perseguição social" dos ricos.
É um pensamento elevadíssimos e nobre desta protectora imparável dos ricos. Ora, esta senhora, cujo bom senso para afirmações políticas, proporcional à sua (des)elegância me abstenho de comentar, é um embaraço ao bom gosto. Pelo que sugiro o seguinte a JS: ofereça-lhe uma consulta de imagem feita nem mais nem menos que pela Maria Célia. Obama deu a mão a Hillary, num remate estratégico registável. Porque não faz JS o mesmo? É uma oportunidade única esta proximidade com a Maria Célia. Que pode permitir ao PM fazer muito pela cada vez mais caída e fraca oposição: oferecer a MFL o que todos os laranjas já tentaram, sem sucesso: uma aparência um nadinha mais "apresentável". Ou nem a Maria Célia conseguirá tanto?. Competirá à querida conseguir o milagre: devolver aos laranjas o brilho perdido. O que dificilmente farão em companhia de pessoa tão pouco afável e de elegância tão duvidosa. Já posta à prova com camada-sob-camada de make-up! E foi o que se viu! Mas com uma boa assessoria de imagem, MFL talvez pudesse apresentar um ar mais feliz, mais simpático, a atrair algum positivismo para o PSD. Eis, em suma, o que JS pode fazer pelo PSD: com um toque de Midas da Maria Célia transformar uma rã em princesa. Nós, por cá, não temos tamanha abnegação, porque, como Oscar Wilde "Os meus gostos são muito simples: prefiro o melhor de tudo".