sábado, 30 de janeiro de 2010

Salazar e Cunhal - convicções e percursos


Estou a escrever, em co-autoria com vários amigos, um comentário sobre políticos portugueses. Uns escrevemos porque simpatizamos com os ideais revolucionários e porque frequentamos meios à esquerda. Outros porque ... nem por isso. Os dois lados tentaram um exercício desafiador. Procurar pontos identitários em Salazar e Cunhal. É óbvio que nenhum dos lados é insuspeito. mais que não fosse porque faço parte da comissão contra a construção do museu salazarista e até já vos deixei algumas palavras sobre essa causa. Corro, assumidamente, o risco de tomar partido: ou melhor, tomá-lo-ei sempre. A ter um partido entre os dois homens seria o de Cunhal.
Começando.
Salazar vivia em Coimbra quando Cunhal, em 10.Nov.1913, ali nasce. Ainda não se formara em Direito, mas já se fazia notar com textos empolgados. Havia por ali uma boa margem de sem-vergonhice da República. Assim marcava as páginas do ‘Imparcial’ e proferia admiráveis conferências no Centro Académico da Democracia Cristã. A mãe de Cunhal, Mercedes, era devota senhora, e se não se cruzou com Salazar nas missas de domingo na Sé Nova foi por causa do costume de os homens ficarem à parte das mulheres. Separados por 24 anos, foram ambos crianças de saúde frágil e educadas no temor a Deus. Com uma diferença: Cunhal teve mais berço. O pai, Avelino, era advogado e amante das artes. Salazar nasce numa família de poucas letras e veio ao mundo fora de tempo. O pai, António Oliveira, já dobrara os 50 anos, e a mãe, Maria do Resgate, estava quase nos 45. Tinham 4 filhas: Marta, de 8 anos, Elisa, Maria Leopoldina e Laura, a mais nova, de 4 anos. (Ainda hoje há quem se entretenha a divagar sobre a influência destas mulheres na educação e na formação da personalidade de Salazar). Já nem pensavam aumentar a prole, quando, em 27 de Abril de 1889, nasce um rapaz – a quem puseram o nome de António e os apelidos Oliveira, como o pai, e Salazar, como o avô materno. Não era uma família pobre, era até "remediada". Salazar nasce numa casa à beira da estrada por onde passavam, dia a noite, os almocreves com as bestas de carga. António Oliveira e Maria do Resgate, já por altura do nascimento da segunda filha, transformaram parte da casa em hospedaria e taberna: ele continuou como feitor da rica casa agrícola dos Perestrelo – e ela tomava conta do negócio. Havia, pois, alguma fartura. António Oliveira ganhava mais algum dinheiro como intermediário na venda de terrenos onde foi construído o bairro perto da estação de Santa Comba. O menino Salazar foi crescendo fracalhote, acanhado e tímido. Dava ares à mãe. Aos 7 anos começa a aprender as primeiras letras. Não havia escola no Vimieiro. Recebeu em casa lições particulares de um instruído funcionário da Câmara de Santa Comba Dão. Aprendeu a ler, a escrever e a contar. O professor achava-o esperto para as letras e dizia que seria uma pena que não continuasse os estudos. Mas a mãe não o quer no liceu de Viseu. Receia expô-lo às tropelias dos rapazes. Só havia uma solução: o seminário, onde o menino habituado a brincar com as irmãs estaria a salvo da chacota. Álvaro Cunhal foi o terceiro filho de Mercedes e Avelino. Nasceu debilitado, como os irmãos António José e Maria Mansueta, que nunca tiveram muita saúde e foram levados pela tuberculose. A mãe, pia mulher, pouco confiante nos milagres da medicina, encomendou a sorte do menino à Virgem. Álvaro, contra a vontade do pai, republicano e anticlerical empedernido, foi baptizado. Teve como madrinha Nossa Senhora. Talvez o advogado Avelino Cunhal possa ter conhecido Salazar em Coimbra. O jovem do Vimieiro, bem apessoado, apenas traído pelos lábios finos e voz de falsete, terminou o curso, em 1914, com 19 valores. Os sectores católicos mais reaccionários exultavam com o prestígio do lente – que passou a ganhar dinheiro como jurisconsulto enquanto preparava o doutoramento. Salazar acompanhou os amigos Manuel Cerejeira e Cabral Moncada numa viagem de fim de curso a França. Cerejeira, já padre e formado em Letras, fica por Lourdes em peregrinação. Os outros seguem no comboio para Paris, onde se separam. Moncada perde-se com a folia. Mas Salazar fugiu do pecado como o diabo da cruz: seguiu para Liège a tempo de participar num encontro internacional católico. O promissor Salazar dava pareceres e aconselhamento jurídico. Tinha clientela. Passou a vestir-se mais ricamente. Frequentava o alfaiate Damião, o mais famoso de Coimbra. A paixão por Júlia, filha dos patrões do pai, despedaçava-lhe o coração. Mas os Perestrelo contrariaram o romance – por não acharem bem que a filha se casasse com o filho do feitor. (Isso pode ter explicado a história acalorada sobre os futuros amores de Salazar). Este aprimorava-se nos hábitos: chegou a usar bengala com castão de prata e jantava com frequência no Avenida. O advogado Avelino Cunhal deve ter dado por tão grada figura – até porque uma página na Ilustração Católica’, apresentou Salazar como “um dos mais ilustres professores, de Coimbra, que dentro em breve o será do país”. Os Cunhal mudam-se de Coimbra para Seia, terra natal de Avelino. O filho mais novo, Álvaro, tinha 5 anos. A frágil criança teve aulas em casa com um professor particular – como Salazar. Mas ao contrário do homem do Vimieiro, mais dado à mãe, Álvaro era mais chegado ao pai. A família sofre um desgosto com a morte de Maria Mansueta. Ficam os dois rapazes. Recupera um pouco da alegria com o nascimento, em Seia, de outra menina, Maria Eugénia. O filho mais velho, António José, também será vítima da tuberculose. Em 1924, os Cunhal voltam a mudar de cidade: abalam de Seia e instalam-se em Lisboa. Álvaro tem 11 anos. Já recuperou algum vigor. Está apto a ir para o liceu. Por esta altura, Salazar arrasa em Coimbra: é doutor em Direito, rege as cadeiras de Economia e Finanças, milita com fervor no Centro Católico Português, é o grande doutrinador laico da corrente católica que sonha com o poder. Só teve um percalço: foi suspenso temporariamente da docência por suspeita de activismo monárquico. Mas nada ficou provado no inquérito e o professor Salazar saiu do caso como um herói para desespero dos republicanos. A vida corria-lhe bem. Arrendava uma casa à época para fazer praia na Figueira da Foz. Os seus pareceres jurídicos eram cada vez mais solicitados e o Banco de Portugal só de uma vez pagou-lhe 5 contos de réis. O advogado Avelino Cunhal não ganhava tanto dinheiro na barra dos tribunais. Álvaro Cunhal, cada vez mais próximo da figura paterna, afasta-se do caminho da Igreja. Estuda, em Lisboa, nos liceus Pedro Nunes e Camões (onde, curiosamente, em 74/75, fiz amizade com a filha). É bom aluno. Frequenta o escritório do pai (onde convivem anarquistas, anarco-sindicalistas, comunistas e "gente do reviralho"). Aos 17 anos, em 1930, entra para a Faculdade de Direito de Lisboa, ainda no Campo de Santana. Salazar, o doutrinador católico, ocupa a pasta das Finanças. Tomou posse do cargo, pela primeira vez, em Junho de 1926 – mas demitiu-se 5 dias depois e regressou a Coimbra. Fez uma viagem solitária por Espanha. 2 anos depois, deixou-se convencer a voltar a Lisboa. Achava que tinha por missão pôr em ordem as finanças públicas. Uma tarde, tropeçou na carpete do gabinete e estatelou-se no chão. Sempre fora trôpego. Fracturou uma perna. Operado no Hospital da Ordem Terceira, a convalescença foi prolongada. Ainda assim, trabalhou no orçamento, e o conselho de ministros, incluindo o Chefe do Estado, general Carmona, reuniu-se à volta da sua cama. Álvaro Cunhal, no ano em que entrou na Faculdade de Direito, em 1931, foi eleito representante dos estudantes no Senado Universitário. Um amigo do pai convida-o para o Partido Comunista (na clandestinidade desde 1926). Entra para a Liga dos Amigos da URSS e do Socorro Vermelho Internacional. Salazar toma posse, como presidente do Conselho, a 11 de Abril de 1933. No ano seguinte, Álvaro Cunhal entra na clandestinidade – para orgulho do pai e grande desgosto da mãe, que nunca lhe perdoará os caminhos ímpios do comunismo. Já o Governo tinha criado a polícia política, chefiada pelo capitão Agostinho Lourenço, e dentro em breve iria mandar construir o campo de concentração do Tarrafal. Quase a completar 22 anos, em 1935, Cunhal é nomeado secretário-geral das Juventudes Comunistas. O chefe do partido, Bento Gonçalves, tem planos para o disciplinado militante – que na organização clandestina passa a ser ‘Daniel’. O jovem revolucionário, com lugar no Comité Central, é enviado a Moscovo. Conhece Estaline. Regressa encantado com o ‘Pai dos Povos’. Passa a rematar qualquer discussão política com um argumento imbatível: “É assim que se faz na União Soviética”. Tal como Salazar, Cunhal não gosta de discussões. Ambos são disciplinados, determinados e austeros. Outra coisa os une: são nacionalistas. Salazar quer um país imperial fora da influência europeia. Cunhal, embora queira veementemente um país aliado da URSS, luta pelo reconhecimento internacional do PCP. Os dois abominam o capitalismo. Salazar teme que o capital transforme o país rural numa nação industrializada. Cunhal acha que os capitalistas têm um único objectivo: enriquecer. São ainda dois homens implacáveis: não perdoam aos inimigos. Um e outro mandaram matar adversários. O presidente do Conselho morava com o amigo Cerejeira, e a fiel governanta dos tempos de Coimbra, Maria de Jesus, num prédio da Rua Bernardo Lima, em Lisboa. Mantinha o hábito da missa de domingo. Na manhã de 4.Julho.1937 saiu de casa para a eucaristia, na capela privada de um amigo, na Av. Elias Garcia. Um grupo de anarco-sindicalistas, chefiado por Emído Santana, preparou-lhe um atentado à bomba. Salazar escapa sem um arranhão. Mas a repressão endurece. Cunhal é preso pela primeira vez. Vai para o Aljube. A mãe nunca o visitou na cadeia. Cumpre o serviço militar como um mero desordeiro na Companhia Disciplinar de Penamacor. Não verga. Faz greve de fome. Debilitado, é posto em liberdade.Volta a ser preso, em 1940. Teima, na cadeia, em defender a tese de licenciatura. É autorizado. Apresenta--se na Faculdade de Direito com um tema ousado – ‘A Realidade Social do Aborto’. O júri é de respeito: Paulo Cunha, Cavaleiro Ferreira e Marcelo Caetano. Cunhal brilha frente aos catedráticos e figuras do regime, que não hesitam em classificá-lo com um distinto 19. Sai formado da cadeia. Mergulha outra vez na clandestinidade. Viaja pela URSS, Jugoslávia, Checoslováquia e França. Regressa a Portugal e é preso, em 25.Março.1949, no Luso. Responde no Tribunal Plenário. Ele próprio, auxiliado pelo pai, assegura a defesa: um violento ataque ao regime de Salazar com a declaração em que se afirmava “filho adoptivo do proletariado’. Foi para o Forte de Peniche. Devia ter terminado a pena em 1956, mas continuou preso até se evadir, com mais 9 dirigentes do partido, a 3 de Janeiro de 1961. Relaciona-se com Isaura Moreira, sua camarada, de quem teve uma filha, Ana Maria. Vai para Moscovo. Parte para Paris. A companheira e a filha ficam na Roménia. É em Paris que recebe a notícia do golpe de 25 de Abril de 1974. Salazar tinha morrido 4 anos antes.
O que os une.
Cunhal era uma criança frágil. Fez o ensino primário, em casa, com um perceptor. A mãe educou-o na religião católica. Homem determinado, disciplinado e austero. Manipulador e sedutor.- Nacionalista: lutou pela autonomia do Partido Comunista Português relativamente ao comunismo espanhol. Abominava o capitalismo.
Salazar cresce frágil, acanhado, tímido. Aprendeu as primeiras letras, em casa, com um funcionário da Câmara de Santa Comba Dão. Teve uma educação católica. Determinado, disciplinado e austero. Era um mestre na arte da manipulação e um sedutor. Era um nacionalista. Não gostava dos capitalistas e cuidou que Portugal não se tornasse um país industrializado.
O que os separa.
Cunhal tornou-se ateu muito cedo. Foi um intelectual estalinista: conhecia a verdade sobre as purgas que mataram milhões de opositores. Queria que Portugal se aliasse à União Soviética. Era mais chegado ao pai. Teve várias mulheres. Deixou uma filha e três netos. Desenhador de mérito, escreveu romances.
Salazar nunca abandonou os princípios católicos. Não seguiu nenhuma corrente política internacional, nem tinha um inspirador. Queria um país imperial fora da influência política europeia. Era mais chegado à mãe. Manteve casos esporádicos com mulheres. Não teve filhos. Raramente leu um romance e não se lhe conhece qualquer gosto especial pelas artes.
No programa Palavras Cruzadas, cruzaram-se opiniões de Jaime Nogueira Pinto e de Odete Santos, a propósito de ‘Os Grandes Portugueses’.
Perguntou-se ao primeiro.
Como imagina o país actual governado por Álvaro Cunhal? - Assustador. O que fez pelo país? - De bem, por Portugal, fez pouco. Pela URSS e pelo comunismo fez muito. Era um fanático?- Um fanático inteligente. Fanático quanto ao fim, inteligente quanto à estratégia e aos meios. Aponte-lhe 3 virtudes. - Coerência, coragem, determinação. E 3s defeitos. - Fundamentalismo comunista, disciplina soviética, indiferença. Como vai a História recordá-lo? - Um dos últimos “grandes comunistas” do Século XX. A que figura da História Universal o compara? - Lenine. O que teria sido ele se não tivesse optado pela política? - Artista plástico.
Depois, a Odete Santos.
Como imagina o país actual governado por Salazar? - "Não se embarca tirania/Neste batel divinal. (Gil Vicente – fala do anjo num dos autos das ‘Barcas’) O que fez pelo país? - Era uma vez um país/Onde entre o mar e a serra/Vivia o mais infeliz dos povos/À beira terra/Onde entre vinhas sobredos/ Vales socalcos searas/Serras atalhos veredas/Lezírias e praias claras/Um povo se debruçava/Como um vime de tristeza/Sobre um rio/Onde mirava/A sua própria pobreza. (Ary dos Santos) Era um fanático? - "A tiranos, pacientes/que a unhas e a dentes/nos tem as almas roídas/Para que é parouvelar? (Fala do lavrador no ‘Auto da Barca do Purgatório’ de Gil Vicente) Aponte-lhe 3 virtudes. E 3 defeitos. - Talvez falte um algarismo e se deva multiplicar cada 1 por 2. Para ter o ano da Besta (666). Assim o problema só pode ser resolvido por metade. Quanto aos defeitos! Ou será que as três virtudes são as públicas virtudes e os vícios secretos? (Será que teria de falar nos Ballets Rose?) Como vai a História recordá-lo?- Rataplã no escuro/São bruxas que dançam quando a noite dança/São unhas de nojo/São bicos de tojo/No tambor da esperança (Xácara das bruxas de Carlos de Oliveira) A que figura da História Universal o compara? - Resposta: sujeita a exame prévio e tapada com corrector, porque censurada. O que teria sido ele se não tivesse optado pela política? - O menino da resposta em "Professor: Quem manda? Menino de mão em riste: Salazar! Salazar! Salazar!"
Cunhal e Salazar.
Semelhanças: a coerência do percurso político. Duas coisas que hoje se desconhecem em política: coerência e percurso. Porque ambos implicam convicções e estruturas sólidas. E hoje apenas se pensa em carreiras e ai! de quem tiver alguma solidez moral ou espiritual. Por isso, naturalmente, não voltaremos a ter tão depressa homens e políticos assim! E se de Salazar ninguém (ou eu e outros como eu) tem saudades, já de Cunhal ...

Crimes financeiros, corrupção e ... Carnaval!

Os funcionários públicos, este ano, não vão ter aumentos este ano, porque o Governo assumiu “o compromisso de contenção até à correcção da situação de défice excessivo" como se lê no relatório do OE. O que significa que, pelo menos até 2013 – data assumida com Bruxelas para trazer o défice orçamental para valor igual ou inferior a 3% do PIB – os salários da função publica terão aumentos muito moderados.
Tem aqui de se fazer um link com a questão comentada (já lá iremos), de compensar os denunciadores de crimes financeiros.
Basta ler os últimos acórdãos do Tribunal da Relação de Lisboa (Processo Comum nº 5409/03.5 TDLSB do 2º Juízo, sobre abuso de informação privilegiada, Processo Comum nº 5409/03.5 TDLSB do 2º Juízo, sobre o mesmo crime, Processo Comum nº 10916/01.1TDLSB do 4º Juízo (2ª Secção), idem, e o Processo Comum nº 12421/01.7(A)TDLSB do 2º Juízo (3ª Secção) sobre o crime de manipulação de mercado), para se constatar que não é comum vir a lume a prática de crimes financeiros.
Pergunta que têm a ver as declarações do governador do Banco de Portugal sobre a oportunidade de não se aumentarem as remunerações dos funcionários com a denúncia de crimes financeiros. É que Vítor Constâncio, na conferência «Direito Sancionatório e Sistema Financeiro», defendeu que um denunciante de crimes económicos deve ter «compensações financeiras» caso a sua actuação resulte em benefícios económicos para o Estado, à semelhança do que se passa em outros países. «Defendo um direito de protecção às testemunhas colaborantes e aos que denunciam desde a origem a existência de ilícitos financeiros e penso que neste casos exige até uma compensação financeira, caso a denúncia resulte em benefícios financeiros para o Estado», disse. Estamos perante um ferveroso adepto da implantação de um autêntico regime corporativo anti-corrupção. Mas, se já nos mereceram alguns comentários uma eventual avalanche de prisões por causa da prática de ilícitos financeiros, até porque, como então dissémos, nos faltam instalações para fazer frente a uma tal hetacombe, também aqui vemos alguma dificuldade em perceber como dar conta deste tão grande recado com os escassos meios técnicos e humanos de que queixa permanentemente o nosso Procurador-Geral da República.
Lembramo-nos de um recente artigo na In Verbis, sobre Crimes financeiros, em que se dizia que o Ministério Público pecava, por impreparação para lidar com a criminalidade económica e financeira. Perante a Comissão Parlamentar de Orçamento e Finanças, Pinto Monteiro afirmou que o MP "não está preparado nem especializado para lidar com este crime", devido à sua complexidade. "Tenho 25 inspectores tributários a trabalhar na operação Furacão, mas também tenho dois milhões de documentos contabilísticos para investigar". O PGR, que foi ouvido pelos deputados a respeito do caso BPN, salientou a necessidade de uma maior articulação entre o MO e as entidades de supervisão (Banco de Portugal, Comissão do Mercado de Valores Mobiliários e Instituto de Seguros de Portugal), para lidar com a criminalidade económica e financeira. Segundo ele, os 4 processos relacionados com o BPN (2 inseridos na Operação Furacão e os restantes devem-se a queixas apresentadas pelo Governador do BP, Vítor Constâncio, bem como por Miguel Cadilhe, presidente da Sociedade Lusa de Negócios) já lhe dão que fazer. Ou seja, ainda não começou o Conselho de Prevenção da Corrupção a "descobrir" corruptos, ainda agora "a procissão vai no adro" e já Pinto Monteiro reclama que os homens que tem, com os meios que tem, são poucos.
O que tem a ver o não aumento dos funcionários públicos e as anunciadas compensações financeiras a quem denuncie a prática de crimes financeiros? Não deveria ter nada a ver. O dever de denúncia deste tipo de crimes tem a ver com cidadania. E não com "prémios" com expressão pecuniária. Porque parece assim oferecer-se o mesmo prémio ao criminoso e a quem o denuncia. Um prémio em "dinheiro". Cash! O que subverte o esquema (ou talvez não?!). A recompensa é a de se saber que se age bem e em abono do interesse público. Apenas e tão somente. Mais. Em assuntos de ilícitos financeiros deveria apenas estar presente um outro assunto: o de contrapor quem se serve do sistema com quem é fiel a princípios de ordem moral e democrática. E temos mesmo sérias dúvidas quanto a estes mecanismos aliciatórios, até porque, infelizmente, conhecemos bem a forma de estar de alguns que se dizem impolutos mas que se conhecem como homens-máscaras.
Figuras de Carnaval! Imperceptíveis. E (in)denunciáveis!

Rei, República e res (coisas) publicas!


Um comentário breve acerca das mais recentes declarações do Duque de Bragança, a propósito dos €10 milhões destinados às comemorações da República. Diz que «Podemos, e estou de acordo, prestar uma homenagem ao idealismo dos homens que fizeram a Revolução de 5 de Outubro, nomeadamente a Carbonária, que era um movimento terrorista da época, mas eram idealistas dispostos a dar a vida pelas suas causas. Os líderes republicanos que tinham um ideal merecem uma homenagem, mas 10 milhões de euros acho um pouco demais». D. Duarte falava à margem do VII Almoço de Reis, em Santarém, promovido pela Real Associação do Ribatejo e que se realizou depois de uma reunião da direcção nacional da Causa Real, presidida por Paulo Teixeira Pinto. Que diz a Causa Real vai tomar uma «posição pública» sobre o dia 31 de Janeiro (dia escolhido para o início das comemorações oficiais do centenário da República). (Mas que já se demarcou da iniciativa do PPM que quer propor um referendo para saber se os portugueses preferem a monarquia ou a república) «Não temos que nos associar a iniciativas do PPM. No limite, o PPM é que poderia ter que se associar a iniciativas da Causa Real», rematou. (Ah! Como faz falta à Republica homens destes! Veemência e força de atitude. O Paulo tem tudo para ser um grande republicano, convenhamos) Duarte Nuno tem a consciência de que a Constituição proíbe outro regime que não o republicano, pelo que, primeiro, seria necessário fazer convergir para a causa monárquica dois terços dos deputados da Assembleia da República para "expurgar" do texto constitucional o artigo que declara inalterável a forma republicana, propondo Duarte que o mesmo fosse substituído pela expressão «é inalterável a forma democrática de Governo».
Vá sonhando! Não quererá por acaso fazer a vontade aos adeptos da causa fascista e retirar também a menção a "democrática"? Meu caro, acaso desconhece que as casas europeias vivem hoje em clima de regime constitucional e democrático?! Por essas e por outras é que a República aconteceu! Ora, o meu discurso sobe de tom quando dou graças a Deus por Duarte não ter lido o DL 17/2008, de 29.Janeiro, que prevê a criação da Comissão Nacional, já nomeada por decreto presidencial, de 9 de Junho, e, para esta, uma dotação orçamental de €10 milhões. Mais preocupante ainda seria se Duarte Nuno analisasse a fundo essa nova entidade empresarial que dá pelo nome de "Frente Tejo". A sociedade que vai intervencionar obras de grande volumetria, como a reabilitação e requalificação urbana na zona da Baixa Pombalina (na área entre o Cais do Sodré, Ribeira das Naus e Santa Apolónia), a reocupação parcial dos edifícios da Praça do Comércio e a reabilitação dos quarteirões da Avenida Infante D. Henrique (entre o Campo das Cebolas e Santa Apolónia), a reabilitação urbana no espaço público da zona da Ajuda-Belém (a construção de um novo Museu dos Coches e o remate do Palácio Nacional da Ajuda). A nossa preocupação não vai, pois, para a despesa dos €10 milhões, questão de dimensão mais ou menos diminuta face à sua proporção com outras dotações do OE - E, mais, basta o Duarte pensar quanto tem custado à Casa de Bragança sustentar a causa monárquica! - preocupa-nos sim que, mais ou menos a talhe de foice, a coberto do espiríto das comerações, se faça um investimento de €145 milhões (€56 milhões para a Baixa e 89 milhões para Ajuda-Belém).
Não têm de se justificar com qualquer outro pretexto os investimentos públicos nesta zona. A cidade quer e merece. Mas convenhamos que a causa republicana não pode ficar comprometida com as medidas excepcionais atribuídas à Sociedade Frente Tejo (€5 milhões de dotação orçamental). Ajustes directos para ter as obras prontas a tempo das comemorações do centenário da República! Veremos em que dará! Não haverá trabalhos a mais? Derrapagens de custos e prazos!?
Precisaria a República de associar a sua causa a empreitadas de obras públicas deste porte? Temos dúvidas! Temos, aliás, muitas dúvidas!
Esperamos que, à conta da República não se pretendam transformar as "portas" da Cidade, que é a maravilhosa baixa pombalina noutra Expo.
Estaremos atentos, Duarte de Bragança, porque muito mais assertivos do que Vossa Excelência, nós, os Republicanos, sabemos fazer justos à Causa Republicana e à Causa Carbonária a que pertenceram os nossos avós (a quem até o senhor, apesar de lhes chamar terroristas sempre que pode, reconhece uma imensa coragem!) e nada nem ninguém nos silenciará se esta nossa Lisboa e o País por que lutamos sofrerem a pretexto da República.
Enfim, ficam teatros, exposições, conferências, recriações históricas e um concerto de Rui Veloso, Pedro Abrunhosa, Rui Reininho e Sérgio Godinho (já hoje= a marcar positivamente o início das comemorações dos 100 anos da República Portuguesa (o espectáculo "4 Vozes para 100 Anos da República" encerra, no Coliseu do Porto, às 22h00, o programa do primeiro dia da celebração do centenário da República), com destaque para a entrada livre na Fundação de Serralves. A companhia Seiva Trupe, às 15h30, no Teatro do Campo Alegre, abre as comemorações, com a apresentação de "A Glorificação do Porto pelo Fervor Patriótico", o espectáculo «três em um» começa com a conferência "O 31 de Janeiro e a Implantação da República", prossegue com Ecos do 31 de Janeiro, uma teatralização da revolta do 31 de Janeiro, e termina com a peça Eu Sou a Minha Própria Mulher. Às 17h30, no Museu Nacional da Imprensa, é inaugurada a exposição A República na Imprensa - do Porto a Lisboa e, uma hora mais tarde, a Praça da Liberdade e a Praça da Batalha transformam-se no palco da recriação histórica da revolta portuense do 31 de Janeiro. Às 21h30, o Ateneu Comercial do Porto recebe a conferência «Como Construir a República no Século XXI», numa iniciativa da Associação Cívica e Cultural 31 de Janeiro.
Porque, meu caro Duarte, este Povo tem mesmo de festejar se pensar que Vossa Excelência, querendo-se preocupar com as despesas públicas não viu por detrás do pano e não se apercebeu que outras despesas que a cobro da República vão a remate, sobretudo quando são obras públicas, carecem de ser acompanhadas de perto. Não vá esquecerem-se os espíritos livres que estiveram por detrás da implantação dessa grande senhora que foi (e que é) a República e que ainda hoje nos inspira de bandeira desfraldada, arremessada, contra o vento, em prol de grandes mares, profeta de outras marés, sempre pela Liberdade!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Perseguindo o Sonho!


"Navegar é preciso. Viver não é preciso.", citando Pedro Moreira "As Asas Do Desejo: Porque é preciso sonhar ", E-topia: Revista Electrónica de Estudos sobre a Utopia, n.º 6 (2007).
Não sei se é sonho se é utopia. Nem tive de ler o António Damásio (Erro de Descartes) para perceber que o desejo, tal como a capacidade de sonhar, é um dom humano . O que verdadeiramente nos separa dos outros seres. Não a razão mas o sonho. A voluntariedade de sonhar. Damásio evidencia que a forma como determinadas zonas do nosso cérebro controlam a capacidade de pensarmos no amanhã, nas nossas aspirações e projectos para lá do limiar do imediato, do hoje. A verdade é que deveríamos ter compreendido que a grande parte de nós, com a dificuldade que tem em se deixar levar pelos sonhos, em vez de os converter em futuro, cumprimo-los tão tardiamente que os mesmos chegam a ser não futuro mas passado. Esquecemo-nos que somos efémeros e tardamos a viver. E se tardarmos a sonhar, tardamos a viver. E, um dia, pode ser tarde demais. Existe o risco de, se nos limitarmos a procurar reescrever os erros de ontem, nos tornarmos autênticos Velhos do Restelo, na amargura do tempo ter já passado e de não termos embarcado na caravela do sonho. Porque pelo sonho é que vamos! Pelo sonho renascemos! Metamorfoseamo-nos! Porquê deixar que a caravela da vida parta sem descobrir a capacidade de ir mais além, de ter golpes de asa.
Vejam, de Wim Wenders, As Asas do Desejo (1987).
Cenário: Berlim do final dos anos 80. O guião, inspirado na poesia de Rilke e escrito em colaboração com Peter Handke, acompanha o dia-a-dia da Berlim do final da década, de uma humanidade desiludida que vagueia cinzenta pelas cicatrizes do Pósguerra. Esta situação é-nos relatada do ponto de vista de dois anjos – Cassiel e Damien – visíveis apenas por crianças e incapazes de qualquer contacto físico com o mundo humano. A sua visão é a preto e branco. Em contraponto, recorre ao longo do filme a narração em voz-off de um poema de Handke, Song Of Childhood. Esta canção da infância recorda o que depressa esquecemos, esse ponto comum a todo o ser humano, por mais diferente que a sua experiência de vida seja: a criança é o sonhador perfeito. É capaz dessa proeza de olhar um riacho como um rio, um rio como uma torrente e uma poça como um oceano. Encara o futuro como um território de possibilidade total, a sua construção do mundo não encontra terrenos demarcados pelas barragens da negação. Recordar as proezas da nossa infância não constitui um exercício inútil de nostalgia mas uma proeza maior.
Esta capacidade primeira de sonhar, de encarar o futuro com optimismo, é o fruir primeiro do impulso utópico. “Imagination is more important than knowledge”, assim é citado Einstein por Federico Mayor em Attempting The Impossible. Não é a utopia o reflexo máximo da vontade humana de ir mais além? O conhecimento só pode conceber a chave para um futuro melhor quando aliado pela imaginação, quando carregado pelas asas desse desejo. Na ausência dele, torna-se uma prisão, estagna o Homem na realidade cinzenta da Berlim de Wenders. É particularmente comovente a imagem de um idoso que procura a Potsdamer Platz de tempos idos, recordando-a num cenário de ruína, ao lado do Muro. Este olhar para o passado nas ruínas do presente serve de metáfora para expressar a perda da oportunidade de reclamar o paraíso quando o homem perde a capacidade de sonhar e olhar para um futuro melhor. Ao retratar o Homem nos dois extremos da sua existência – Infância e Velhice – o filme traça o arco dessa perda. O mundo da infância, presente através da recorrência do poema, denuncia a insuficiência e alienação do mundo adulto na sobreposição da narração às imagens. Desta forma, é identificado com o mundo dos Anjos, na medida em que ambos têm capacidade de sonhar: a Criança com o Futuro e os Anjos com a existência material. Ao metaforizar a Infância num poema, sem concretizar através de uma personagem esta reflexão, Wenders iguala-a à neutralidade observadora dos Anjos. Assim, ambos olham o Homem com esperança e espanto. Recorrentemente, os dois anjos partilham os pensamentos que recolheram na sua observação, maravilhados com a beleza de momentos que passam totalmente despercebidos aos humanos. A admiração que passa por eles é cândida e, de certa forma, infantil aos olhos do espectador. Uma Humanidade sem sonho vive destituída e empobrecida. Sem sonho não há beleza ou felicidade. Os que não sonham vivem desligados do pulsar que somente anima os que sonham. Alienados do melhor que o ser humano é capaz de produzir, sem conceder sentido à sua existência. Os Anjos, por sua vez, estão em contacto com a maravilha da poesia, da invocação da cor, do sabor, do sentimento. Não é ausente neles a resposta a essa invocação: surge o sonho, o desejo de as experimentar na sua plenitude. Quando um dos anjos decide abdicar da sua condição, abraçando a mortalidade, fá-lo por crença na capacidade humana de sonhar. O mundo ganha então cor a seus olhos, ganha significado e esperança porque só na condição de morto é que faz sentido olhar-se com esperança para o futuro, mesmo que inatingível: “Sei agora o que nenhum anjo sabe”, diz o anjo caído no final do filme. O desejo é então o que confere sentido à existência humana no filme de Wenders.
Se a um mundo de fronteiras, de limitações sociais, políticas e económicas, respondemos com o mundo das fronteiras auto-impostas e da alienação, não somos mais do que uma versão a preto e branco da humanidade.
A resposta de Asas do Desejo sobre a origem do desejo passa pela afirmação de que, mais do que inato, o sonho é o sentido mais nobre da existência humana. Wenders defende a necessidade de manter intacta, em homem, a vontade de transcender os limites de criança. O sonho para além da idade.
Vivemos tempos historicamente tensos, um pouco semelhantes ao tempo político que deu origem à obra de Wim Wenders: os choques culturais, a “Guerra Nuclear”. E há, de facto, uma lição a retirar: Obras como as Asas do Desejo são fundamentais e vitais porque, ao responderem no sentido do Sonho e do Desejo, nos devolvem a esperança na hipótese de um amanhã melhor e ao alcance do Homem. Como diz o poema de Handke: “When the child was a child (…) it had, on every mountaintop, the longing for a greater mountain yet, and in every city, the longing for an even greater city, and that still is so (...)”.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Grandes amores! Histórias e Cinemas.

Nada mais relaxante do que acabar o dia a ver um filme de amor. Ah! O Amor! Culturas diferentes, gente diferente, diferentes forma de amar. O amor assume roupagens dessemelhantes, conforme os povos, as raças, as histórias, os géneros, os feitios e os defeitos.
No lugar, foi a Grécia. Tomavam-no por agápe, filía e eros. O amor que Deus teria para com suas criaturas e estas deveriam ter para com ele seria o agápe -- o amor espiritual, o mais puro e nobre. Filía seria próximo do amor entre membros de uma família: Filadélfia seria amor fraterno (filia) entre (adelfoi) irmãos. E Eros o amor com cheiros, modos e todos os outros componentes sexuais, "eróticos" ou "erotizados".
A História deixou-nos grandes histórias de amor, romances que invejamos, apesar de sofridos, atormentados, ou simplesmente felizes e extasiados.
Os gregos, com tendência para a tragédia. Quis que Vênus, a deusa da beleza e do amor, perdesse prematuramente Adônis, morto por um javali. Quis que Orfeu, preferisse descer aos infernos, em busca de Eurídice. Quis que Édipo se apaixonasse pela mãe, Jocasta. Menelau teve melhor sorte porque, embora perdendo Helena, que se apaixonou por Páris, se reinventou como homem e se revelou herói, conquistando Tróia e Helena. Ulisses conheceu o amor fiel em Penélope (que se fingiu empenhada em tecer uma tela e se comprometeu a escolher um pretendente assim que a terminasse mas que trabalhava de dia e a desmanchava à noite, para nunca a acabar), até que Ulisses, dado como morto em batalha, volta para Penélope, que o esperou, sem mácula. Pigmaleão esculpe uma estátua (Galatéia) e apaixona-se perdidamente por ela. E Marco António, que sai de Roma para aniquilar a tida por megera, que se deitara com Júlio César, e ao ver Cleópatra foi tomado de paixão e se rendeu aos seus encantos. E Sansão, que, perdido de amores por Dalila, deixou que cortasse as suas longas melenas e perdeu a sua proverbial omnipotência.
Henrique VIII que se via como um romântico, foi-o de forma estranha com, tantas quantas se sabe mais as que não se sabe, várias mulheres e passado o efémero fogo da paixão o único jogo erótico com que se prazenteava era o de as decapitar. Até com Anna Bolena! E Lord Nelson, que fez espalhar pelo exército napoleónico as cartas das traições de Josefina, sucumbiu a Lady Hamilton, cujo marido, Sir William Hamilton, lha entregou como oferta de agradecimento.
E o Duque e da Duquesa de Windsor. Ele, Rei Eduardo VIII de Inglaterra. Ela, Wallis Simpson, uma norte-americana divorciada e de beleza muito duvidosa. Por causa dela Eduardo abdicou do trono. Como Ricardo III, que, em desespero, disse durante uma guerra que trocaria seu reino por um cavalo, trocando afinal a sua coroa por uma boa noite. E, como nos contos de fada, viveu feliz pelo resto da vida ao lado da mulher escolhida.
E Perón e Evita. Ela, actriz obscura de segunda categoria, do tipo chorus line. Ele, o futuro ditador, como dote, transforma-a na primeira-dama da Argentina e num dos maiores mitos do século.
E Onassis e Maria Callas, que mesmo depois dele se ter casado com a “rainha americana” - Jacqueline Kennedy, nunca perdeu de vista a sua diva.
Um dos maiores compositores clássicos do mundo, Frédéric Chopin teve um caso tempestuoso com George Sand – aquela que, no século XIX, lançou a moda das calças para a mulher. Chamou-lhe Amandine Aurore Dupin, quando se vestiu de romancista, adoptou o nome e as atitudes masculinas - fumava charutos e dava opiniões escandalosas. Assumindo um lado mais feminino do que Madame George Sand, e nesse cruzar de almas, apesar das brigas violentas, viveram juntos durante nove anos e tiveram uma filha.
E Eleonora Duse e Gabriel D'Annunzio. Com fantásticos enlaces, lances e desenlaces dramáticos. Em que Duse sofreu à exaustão pelo poeta e lhe perdoou os devaneios da juventude. Para provar que o relacionamento entre duas pessoas extraordinariamente inteligentes e cultas tem tudo para se transformar em obra de arte.
Mas terá sido com Jean-Paul Sartre (ele, só o criador do existencialismo) e Simone de Beauvoir (ela, só a primeira feminista militante) que se conheceu uma das maiores histórias de amor. Os dois, na procura de um equilíbrio em que ao amor fosse permitido sobreviver, esculpiram publicamente as bases para o primeiro casamento aberto e mantiveram-se unidos até que a morte (de Sartre) os separou.
O grande escândalo sexual do final do século passado ficou por conta de Oscar Wilde e Lord Alfred Douglas. Wilde, cujo mais adorado fait-divers era o de chamar escandalosamente a atenção, apaixonou-se pelo jovem Lord e exibia-o em todos os lugares, chocando de raiva a puritana sociedade inglesa da época, a ponto de ser condenado à prisão (na Inglaterra de então a homossexualidade era crime), o que lhe valeu um passaporte para a posteridade.
E Wagner, que assume um romance público com Ludwig II, Rei da Baviera. Wagner não deixou a esposa, mas foi o jovem monarca que o protegeu e ajudou nos problemas financeiros.
Rimbaud foi um jovem poeta-maldito que, logo ao chegar a Paris, formou par romântico com o já consagrado Verlaine. Muitos anos mais velho, Verlaine era bem casado e homem de família, mas larga a estabilidade do lar para viver uma alucinante ligação com Rimbaud e tudo acabou … num tiro. Não houve morte, mas ficou ferida tão avassaladora paixão.
No capítulo dos casais estranhos, no topo está o formado por Nijinsky e o seu cruel empresário, Sergei Diaghilev. Foi Diaghilev que contribuiu para enlouquecer Nijinsky, tornando a sua carreira tão grandiosa e … curta.
A escritora Gertrude Stein amou perdidamente Alice B. Toklas. Viveram juntas a vida inteira, como um casal tradicional, em que a fidelidade era ponto de honra. E porque o modelo era estranho demais para os Estados Unidos, Gertrude escolheu para residir Paris, assumiu a sua gordura, a sua fealdade e o seu lesbianismo, dava festas memoráveis, cujos freqüentadores eram a fina flor da intelectualidade da época (como Ernest Hemingway e Scott Fitzgerald). E foi feliz até Alice morrer.
E Gertrude Stein/Alice B. Toklas, e para Jean Cocteau e o actor Jean Marais, também foi Paris a pátria dos seus amores públicos, duradouros, e levemente escandalosos.
E como esquecer Romeu e Julieta? Que ficaram o símbolo do amor absoluto e morreram um pelo outro. E outros personagens de Shakespeare. Hamlet, o Príncipe da Dinamarca, cuja Ofélia enlouqueceu de paixão, face à apatia do príncipe que amava mais o reino que … a ela. E Othelo e Desdemona. O mouro de Veneza não suportou a suspeita levantada por Iago, que dizia que Desdêmona o traía e estrangulou a mulher. Othelo é a espada do ciúme. E Fausto e Margarida. Ou o amor do soldado Don José pela cigana Carmen, tão volúvel que não resistia a oferecer-se de bandeja a todos os homens que lhe passavam ao lado não deixando outra alternativa a Don José senão matá-la.
Casal trágico e romântico é o da Dama das Camélias: Marguerite Gauthier e Armand Duval. A Dama das Camélias, afinal descoberta uma prostituta de luxo morre tuberculosa e deixa Armand inconsolável.
E Cyrano de Bergerac, que por causa da sua fealdade, embora apaixonado pela bela Roxanne, não deixa que ela o veja e ama-a por correspondência, conseguindo que Roxanne o amasse pelas cartas. Um amor epistolar.
Victor Hugo imortaliza o amor de Quasímodo, o Corcunda de Notre Dame, por Esmeralda, uma cigana que ele esconde na famosa Catedral de Paris.
E Scarlet O'Hara e Rett Butler de “E o Vento Levou”? A orgulhosa beldade do Sul dos Estados Unidos e o aventureiro, envolvidos em apaixonados beijos e olhares.
Tennessee Williams cria a solitária e neurótica Blanche Du Bois de “Um Comboio Chamado Desejo”, que vive uma devastadora atracção pelo cunhado - o rude Stanley Kowalski.
Tarzan e Jane formam um casal muito especial, com uma vida fastidiosamente saudável, em que a prática de actos amorosos (nunca explícitos) era secundada pelas paisagens paradisíacas.
E os “pares” como Clark Gable/Carole Lombard, Spencer Tracy/Katherine Hepburn, Humphrey Bogart/ Lauren Bacall, Elizabeth Taylor/Richard Burton, casais possuidores de uma química explosiva nas telas e que se apaixonaram na vida real.
O ídolo dos filmes de gangsters, o indestrutível Humphrey Bogart mal começa a filmar “Uma Aventura na Martinica” apaixona-se forazmente por Lauren Bacall. Bogart passara dos 40 anos e a actriz tinha 19. E as ardentes cenas teatrais de amor acabaram em realidade.
E sobre Elizabeth Taylor e Richard Burton? Que, entre filmes (Cleopatra, Gente Muito Importante, Adeus às Ilusões, A Megera Domada ....), casavam, divorciavam, com brigas homéricas, cheios de alcool, drogas e café preto, que se tornaram conhecidos por destruir toda a mobilia dos quartos dos hotéis de cinco estrelas em que se hospedavam, mas nunca deixaram de se amar furiosamente. E tudo terminou apenas porque o Além chamou Burton!
Fogo, chama, lume. Incendeie-se o coração, que mais vale amar um só dia que desamar toda a vida! Porque, afinal, reconheça-se, a vida é para ser vivida.

Corrupção e ... Queijo limiano, sem dúvida!

Acabei de ler a Studia Iuridica 56 - O Crime de Colarinho Branco (Da origem do conceito e sua relevância criminológica à questão da desigualdade na administração da Justiça Penal), de Cláudia Maria Cruz Santos. O termo “crime do colarinho branco” (White-Collar Crime) surgiu em 1939, num discurso de Edwin Sutherland, na American Sociological Association, e remete para o crime cometido por uma pessoa respeitável e de elevado estatuto social ou económico, no exercício das suas funções ou cargo. O aumento do desemprego nos países desenvolvidos aponta para um nível acima dos 10% até ao final de 2010, o que pode levar ao aumento dos crimes de "colarinho branco", segundo um estudo da seguradora inglesa Hiscox.
Ora, o Conselho de Prevenção da Corrupção (CPC), criado para detectar e prevenir riscos de corrupção activa e passiva, de criminalidade económica e financeira, de branqueamento de capitais, de tráfico de influência, de apropriação ilegítima de bens públicos, de administração danosa, de peculato, de participação económica em negócio e de abuso de poder ou violação de dever de segredo. Das suas competências faz, igualmente, parte a recolha e processamento de informações de modo a identificar as áreas mais vulneráveis à penetração dessas práticas. Foi criado pela Lei n.º 54/2008, 4.Set., e é liderado pelo presidente do Tribunal de Contas (TC), Guilherme de Oliveira Martins, integrando ainda o Director-Geral do TC, 3 Inspectores-Gerais (Finanças, Obras Públicas e Administração Local), 1 magistrado do Ministério Público designado pelo Conselho Superior da Magistratura, 1 advogado nomeado pelo Conselho Geral da Ordem dos Advogados e uma personalidade de mérito.
O CPC realizou um estudo abrangendo organismos e serviços da Administração Pública e concluiu que mais de metade das 700 entidades públicas ouvidas revelaram falhas. Um número significativo de organismos não negoceia formalmente os termos dos respectivos contratos, nem sequer elabora as minutas nem os anexos. Há uma tendência para atribuir a gabinetes externos o acompanhamento da execução dos contratos, sobretudo, os de empreitadas de obras públicas, confirmando a falta de uma cultura em procedimentos de follow-up, cuja principal consequência é a tão falada derrapagem de custos e prazos contratuais. O inquérito mostrou ainda que o preço e a qualidade dos bens ou serviços são somente avaliados à posteriori (quando o são), que os conflitos de interesse não são declarados e que não há uma cultura anti-corrupção nos serviços. Constataram-se falhas na atribuição de benefícios públicos, sem se fundamentarem as decisões que os concedem nem se estabelecerem regras quanto à sua utilização. O que levou o CPC a conceder um prazo de 90 dias aos organismos públicos para que façam um plano de gestão de riscos de corrupção e infracções e a designar um responsável e a pedir aos organismos de inspecção que controlem a aplicação destas medidas, avisando que fará inspecções sistemáticas às entidades gestores de dinheiros públicos. "Uma fonte do Conselho de Prevenção da Corrupção disse à TSF que este é o primeiro passo de uma grande revolução." Conclui a notícia. Ficamos à espera que estejam concluídos os 90 dias e que o dito plano seja implementado. E ficamos também à espera dessa "grande revolução". Esperemos sentados!
Aprovado o OE/2010 repara-se que a conclusão da avaliação da revisão penal de 2007, o reforço dos meios da investigação criminal e o desenvolvimento de Planos de Gestão de Riscos de Corrupção são prioridades assumidas na área da Justiça. Segundo o relatório preliminar do OE, o Governo vai «reforçar os meios tecnológicos da investigação criminal, através da implementação da Aplicação para Gestão do Inquérito-Crime e de plataformas colaborativas com órgãos de polícia criminal», e reforçar o investimento nos meios de cooperação judiciária internacional (EUROJUST, EUROPOL e INTERPOL), dando particular importância para a colaboração entre polícias no combate à criminalidade organizada, ao crime económico-financeiro e à corrupção.
Estão, pois, confirmados grandes investimentos na criação de conselhos, na realização de inquéritos e na implementação de outros mecanismos que se julgam expeditos para acabar com um problema que nos custa a todos e que só favorece alguns. O que nos dá a maior legitimidade para aguardar resultados e evidências. E, pelos vistos, lá pelo fim do ano, muita gente pode vir a ser indiciada e dessa gente, provavelmente, alguma (pelo menos) será condenada e acabará por ter de passar a ver o sol aos quadradinhos.
O que nos preocupa. À semelhança do que aconteceu para a (re)construção do parque escolar, este pode, também, ser um bom pretexto para ajustes directos e mais obras. Com a condenação maçica de tanta gente as prisões que existem serão menos que poucas e, seguramente, podem ter condições de habitabilidade e conforto insuficientes. Até porque é gente que está habituada a ver os seus colarinhos impecavelmente brancos! Seria até o caso de invocar a al. c) do nº 1 do artigo 24º do DL nº 18/2008, de 29 de Janeiro (Código dos Contratos Públicos): a "urgência imperiosa". Imagine-se que chegamos ao fim do ano sem prisões adequadas! Seria uma pena ter de deixar de prender os corruptos apenas por ter falta de instalações para os instalar convenientemente. Tanto mais que isso os tornaria em sem-abrigo e o que o menos queremos é aumentar o número de gente a viver nas ruas. Aliás, até estranho que uma boa fatia do OE não tenha já ficado reservada para a construção do dito alojamento. Porque será que se esqueceram disso? Uma questão de corrupção e de ... queijo limiano. Claro está!

Motivação e reconhecimento - A Chave do Sucesso!

O I publicou um artigo sobre o ranking e/ou uma "Receita para trabalhadores felizes: sinceridade e formação", da autoria de Patricia Silva Alves com Nuno Aguiar. Fala das "Melhores Empresas para Trabalhar". Dá conta que "Numa altura em que até o edifício da Casa Branca desvalorizou 15,6 milhões de euros num ano, o melhor vendedor da RE/MAX em Portugal facturou, em média, 35 mil euros mensais em 2009. A empresa cresceu em ano de crise - 16% em volume de negócios e facturação - e os trabalhadores ganharam com isso."A nossa remuneração varia de acordo com os resultados: se a empresa cresce, o ordenado dos colaboradores também", explica o presidente.
Na listagem feita pela Exame e pela Heidrick & Struggles desde 2006, a RE/MAX subiu pela 1ª vez ao topo do ranking destronando a Microsoft. "Este ano apostámos numa política de reconhecimento do trabalho e na formação", explica Manuel Alvarez. Preparar os trabalhadores para a nova conjuntura - "devem saber que os bancos estão a cortar no crédito", exemplifica Alvarez - e reconhecer o mérito, são algumas estratégias.
Também para a Microsoft Portugal, a crise abalou as estratégias de recursos humanos. "Apostámos numa comunicação transparente sobre a evolução do negócio com os nossos colaboradores", conta Patrícia Fernandes, e esta política deu frutos. "Este ano não correu maravilhosamente; os trabalhadores não estão eufóricos, mas a infra-estrutura do barco e o casco estão bem oleados e protegidos. Por isso vamos passar a tempestade", sintetiza.
Entre as premiadas nesta categoria está também o Grupo Lena, em 5º lugar. Com 5 áreas de negócio tão distintas como a comunicação, construção, ambiente e energia, turismo e serviços e automóveis, Margarida Oliveira explica a fórmula do sucesso: "Trabalhadores motivados são mais produtivos". Formação, progressão na carreira e acções de team building são algumas das estratégias prosseguidas.
Não mudar a estratégia durante a turbulência foi também a opção estratégica da Urbanos, a 1ª classificada do ranking das Médias Empresas. "Num ano de crise em que as empresas cortaram nos benefícios e iniciativas relacionadas com os recursos humanos, nós não cortámos em nada", defende André Borralho. E não cortar em nada é continuar a apostar na Academia Urbanos, "uma espécie de universidade corporativa" e nos eventos da empresa.
Já na categoria de Pequenas e Microempresas, a Safira, que ficou em 1º lugar, aposta na expansão. "Temos mantido aumentos salariais em toda a pirâmide da hierarquia e este ano contratámos 64 pessoas", explica Cátia Monteiro. Na base da estratégia de empresa está a aposta no team building: "No início de cada ano temos um dia fora da empresa para explicar aos trabalhadores a estratégia da empresa e apostamos numa comunicação pouco formal, de porta aberta".
A chave para fazer um bom trabalho, para obter bons resultados finais, está, pois, nos homens da estrutura. Do topo à base. Motivar e recompensar, algo que não existe, de todo, na Função Pública, em que todos os critérios valem para a ascensão, à excepção da competência (salvo honrosas excepções) e existe, muito pouco, na privada.
Em Dezembro do ano passado, depois de em Setembro ter pedido exoneração do Tribunal de Contas, e abandonado de vez a Administração Pública, concebi, juntamente com o meu irmão, Bruno, com menos quinze anos que eu, um projecto empresarial sob o modelo de bord consulting, em que sou Chairman e CEO, e ele, Vice-Chairman. Para além de ter um cord business que abarca a consultoria e a auditoria de contratos públicos e a fiscalização de obras públicas, a par da gestão e administração de negócios, propõe-se implementar e desenvolver uma filosofia de parcerias com entidades públicas e privadas em áreas transversais como o desenvolvimento sustentável e a cultura. Indagava-se muito a minha mãe porque razão eu e ele tanto nos retirávamos para falar e articular as perspectivas de ambos, já que o criei desde que nasceu. Era uma questão de liderança coaching. E estranhava ainda que eu fosse militante PS e ele PSD. Expliquei-lhe que as empresas devem ser transversais às opções políticas de cada um e que as chefias, que, no caso, somos os dois, têm de entrar em sintonia de cima para baixo. Começámos a escolher parceiros, privilegiando o círculo de afectos e de conhecimentos. Cimentámos amizades. E de cada vez que se contrata alguém ou se enceta uma parceria com alguém, temos o cuidado de explicar a filosofia do projecto e de cativar os outros para algo que gostamos todos sintam como um pouco de si. Uma empresa é uma engrenagem que só funciona quando todos, do topo à base, se sentem envolvidos e seduzidos por aquela que deve ser uma causa comum: o sucesso. A REGIS LABORE, International Consulting, está agora a preparar a logística necessária para os avanços a que se propõe. Numa lógica de parceria e de interactividade com agentes e pessoas. E sobretudo, como uma cartilha de aprendizagem contínua, em que todos os envolvidos ganham ou perdem, em conjunto.
Foi uma idéia de passar para a vida privada os ensinamentos de tudo o que vi acontecer de menos bom à minha volta na função pública. Desmotivação, desaprendizagem, ascensão de incompetentes, fugida de talentos, não têm lugar - ou não devem ter lugar - em qualquer projecto que depende das pessoas. E todos dependem delas e da sua capacidade de entrega ao mesmo projecto. Boas lideranças existem afinal, se, quando, e na estrita medida em que quem está à frente de um projecto, tem a capacidade e o discernimento para pensar com os outros, para os outros e em prol dos outros. E continuam a ser, infelizmente, poucos. Muito poucos!