terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Jorge Coelho e Uma Questão de Honra

Em Abril de 2008, Jorge Coelho abandona a carreira política e entra a fundo no mundo empresarial, assumindo a presidência executiva do grupo Mota-Engil. Luís Parreirão, é um dos actuais administradores do mesmo grupo. Agora, o ex-ministro do Equipamento Social e o ex-secretário de Estado das Obras Públicas foram ouvidos pelas autoridades na investigação judicial e constituidos arguidos no caso da transferência de verbas para o Centro Nacional de Exposições e Mercados Agrícolas (CNEMA), em Santarém. A PJ, ao que diz, recebeu de um organismo público "alegados" indícios de "supostos" artifícios jurídico-financeiros sob o financiamento do CNEMA. JC emitiu, entretanto, um comunicado em que confirmou ter recebido, através do primeiro-ministro, um pedido para "ajudar a resolver um problema que existia" entre a Estradas de Portugal, a Câmara de Santarém e o CNEMA, mas que não acompanhou o desenvolvimento do caso e, por isso, diz que no processo não consta qualquer assinatura sua. Em causa está um protocolo, assinado em 2000, entre a EP e o CNEMA, em que o governo se comprometia a pagar cerca de €4,5 milhões à CSantarém pela compra de parte da circular interna (construída pelo município). Dessa verba, a autarquia transferiria €3,3 milhões para o CNEMA. O dinheiro parece não ter chegado ao destino e a autarquia entregou, em alternativa, um terreno que veio a ser valorizado com a aprovação de um plano de pormenor, mas o mesmo, por sucessivos problemas, acabou por ser hipotecado. José Miguel Noras (PS), presidente da Câmara à data, contestou os termos do acordo, alegando que as verbas recebidas eram da autarquia.
Francisco Moita Flores, actual presidente da Câmara, escreveu ao Ministério Público afirmando que não entregará qualquer verba até que estejam concluídas as investigações. O mesmo diz-se surpreendido com o envolvimento dos dois antigos governantes no processo e assegura que irá requerer a constituição da autarquia como assistente. "Ainda hoje [ontem] vou jantar com o advogado, porque a câmara é a maior interessada em que tudo seja apurado", "Alguém meteu políticos do governo central para deitar fumo em vez de fazer brasas. Não posso deixar descentrar isto do que é essencial." Sem esperar pela conclusão das investigações e, a não ser que Moita Flores saiba mais do que diz saber, sentenciou.
Conhecem-se os possíveis efeitos que um processo destes pode ter na honra de alguém. Mais quando se é político. E mais ainda quando foi uma "fonte ligada ao processo" que disse - da PJ ou do MP - , que não há qualquer indício de corrupção ou de enriquecimento ilícito, mas apenas dúvidas sobre a regularidade do procedimento adoptado para financiar a actividade do CNEMA, através da Estradas de Portugal.
Vale lembrar o artigo "Uma questão de honra", de 16 de Novembro último, de Mário Crespo, na IN VERBIS, em que evoca Mark Felt. Formado em Direito pela Univ. de Georgetown. Alta patente da marinha dos Estados Unidos. Com missões complexas no Pentágono e na CIA. Na guerra do Vietname serviu no Conselho Nacional de Segurança de Henry Kissinger. Acabou como Director Adjunto do equivalente americano à nossa Polícia Judiciária. Durante vários anos foi Director Geral interino do FBI. Foi nesse período que Mark Felt se tornou no "Garganta Funda." Muito se escreveu sobre as motivações de um alto funcionário do aparelho judiciário americano na quebra do segredo de justiça no Watergate. O curriculum de Felt impunha-lhe e o instinto recomendava-lhe que mantivesse a orientação clássica de reserva total sobre assuntos do Estado. Hoje é consensual que Mark Felt denunciou a traição presidencial de Nixon por uma razão. "Para ele, militar e jurista, acabar com o saque da democracia americana era uma questão de honra. Pôr fim a uma presidência corrupta e totalitária era um imperativo constitucional. Felt começou a orientar em segredo os repórteres do Washington Post quando constatou que todo o aparelho de estado americano tinha sido capturado na teia tecida pela Casa Branca de Nixon e que, com as provas a serem destruídas, os assaltos ao multipartidarismo ficariam impunes. A única saída era delegar poder na opinião pública para forçar os vários ramos executivos a cumprir as suas obrigações constitucionais."
Repete-se, a não ser que MF ache que a situação é idêntica e que apenas a opinião pública pode julgar mais um caso político, talvez fosse preferível deixar aos tribunais o que a eles pertence e à política o que lhe cabe. MF tem, nesta matéria, uma obrigação reforçada. É um homem das lides judiciárias e não é propriamente um leigo em matéria de justiça.
Antes de continuar a deitar por terra uma imagem que lhe deu tanto trabalho a criar, talvez fosse recomendável a leitura do acórdão nº 0078643 de Tribunal da Relação de Lisboa, de 13 Maio 1998, que diz "I - Nem o direito à honra, nem a liberdade de imprensa e de expressão (como os demais direitos fundamentais), são direitos absolutos; mediante critérios de proporcionalidade, hão-de limitar-se reciprocamente para que possam coexistir no mesmo ordenamento jurídico. II - O político ou membro do Governo, como "figuras públicas" que são, sem terem de se sujeitar ao impulso, têm, no entanto, de suportar uma exposição à discussão e critica pública maior do que as pessoas privadas; - o que, por regra, conduz a uma acentuada redução da dignidade penal e da carência de tutela penal da honra."
Não posso estar mais de acordo com Paulo Pinto de Albuquerque, que, a 5 de Junho último, no DNOpinião, dizia "Assim, a liberdade de expressão deixa de ser o bastião defensivo da democracia, ela transforma-se no elemento mais corrosivo da própria democracia, atingindo a torto e a direito os políticos, incluindo o mais elevado magistrado da Nação. Esta forma de proceder tem um efeito nefasto previsível, que é o de promover os discursos extremistas e demagógicos. A promoção da demagogia é, aliás, facilmente constatável na sociedade portuguesa, pululando as insinuações e acusações contra os políticos no discurso de alguns responsáveis da sociedade civil e até de certas organizações profissionais. Mais grave ainda: as suspeitas infundadas atiradas para a praça pública alimentam objectivamente a descrença do cidadão comum nas instituições democráticas. Estas suspeitas são por vezes transmitidas de forma directa e descarada, outras vezes de maneira subliminar e difusa, mas quase sempre são lançadas para o público através de "frases assassinas", como um grande jornalista da CNN, Anderson Cooper, já lhes chamou. Estas suspeitas têm um efeito demolidor da autoridade moral e da credibilidade política da figura do visado. É bem verdade que uma carreira impoluta de longos anos de serviço à causa pública pode ser facilmente desbaratada por uma dessas frases assassinas, cujo dano nem a mais choruda indemnização verdadeiramente repara. Depois de lançada, a nódoa é quase sempre irreparável aos olhos do cidadão comum. Como queremos ter os cidadãos a votar e a intervir na vida política se a imagem dos políticos transmitida diariamente é a de gente interesseira e perversa, como se todos os políticos se medissem pelo mais baixo estalão ético? Em suma, a realidade mostra que chegou a hora de repensar os limites da liberdade de expressão, porque os limites esfumam-se quando se trata de sindicar a vida dos políticos. É imperioso repor as coisas nos seu lugar próprio, o que se consegue com a devida contenção e bom senso. É necessário relembrar esta verdade lapalissiana de que não há democracia sem políticos e sem partidos políticos. E que os políticos têm tanto direito à honra como tem o cidadão comum. O escrutínio da vida dos políticos pela imprensa e pelo cidadão comum não pode ser um meio instrumental para maltratar e denegrir infundadamente pessoas com funções políticas, que são gente de carne e osso como todos nós, cidadãos comuns. E que, como nós, também se sentem quando alguém injustamente lhes atira à cara insinuações e suspeitas."
Recomendo, pois, a Moita Flores que sossegue, no seu montinho, e veja o filme "A Few Good Men" (1992), (UMA QUESTÃO DE HONRA), que, além de juntar grandes talentos do ecrã (Jack Nicholson, Tom Cruise e Demi Moore), trata muitíssimo bem estas questões ... de honra. Porque afinal é disso mesmo que se trata. De honra. Da honra dos outros que temos de prezar tanto quanto a nossa. E disto devia Moita Flores - e, provavelmente, todos os que estão em cargos públicos, porque "quem anda à chuva molha-se" - lembrar-se antes de falar. Sobretudo porque, quem sabe se um dia, o feitiço não se volta contra o feiticeiro. E os outros falarão, então, com a mesma imprudência, sobre ele, também.

domingo, 24 de janeiro de 2010

O País Formal e o País Real

Manuel Monteiro, líder do PND, publicou um artigo interessantissimo no Sol de 12, em que compara a situação actual com a vivida em Maio de 1926, quando se pôs fim à 1.ª República. Portugal vivia uma época de crise. "Financeira, económica e política. O desemprego, associado a uma degradação das instituições, evidenciava dois países: o formal e o real." O país formal estava "corroído pela mesquinhez, pelos interesses egoístas de grupos partidários; o segundo estava distante dos políticos, descrente face ao presente e nada confiante com o futuro." Os republicanos sérios sentiram-se impotentes com a "voracidade das intrigas e da pequena política. E num dia, fruto dos erros cometidos, o regime caiu. Caiu com o aplauso da população que se colocou ao lado dos revoltosos." Os problemas iam para além do défice e pagavam-se elevados juros ao estrangeiro. Os problemas resultavam pela credibilidade perdida quanto à Justiça e pelo abismo entre o povo e os seus representantes.
84 anos volvidos, vê Manuel Monteiro grandes semelhanças nas situações. Faltando-nos tão bons cronistas como então, na escassez do brilho, da inteligência e da qualidade que os caracterizaram, parece que os actuais homens do jornalismo "sentados nas suas ‘cátedras’ de petulância, cheios da sua imensa pequenez, culpam o que se passa lá fora para justificar o que de errado voltámos a fazer cá dentro."
Ora, entende o Manuel que a História se repete. "Sem as especiarias da Índia, o ouro do Brasil e o dinheiro da CEE, voltámos ao que éramos. Pobres e cheios de deficiências estruturais, mas com a leveza de espírito característica dos incautos. Mudou alguma coisa? É certo que sim. Temos mais auto-estradas, mais periferia e muitos subsídio-dependentes. É ainda certo que temos pessoas e profissionais de inquestionável qualidade, apesar de se contarem pelos dedos das mãos as possibilidades de êxito que alcançam numa sociedade, como a portuguesa, que cultiva e sustenta a mediocridade. Ser medíocre, mediano, poucochinho, é condição base para progredir e para sobreviver." Ainda bem que o Manuel me entende. Há quanto tempo me ouvem dizer isto?
"Não há agricultura, nem pescas? Não possuímos indústria? Mas que relevância têm estas coisas menores, perante a pujança dos estádios, dos corruptos e das obras públicas desnecessárias? Diante de tamanha grandeza interessará para alguma coisa o estado deplorável a que chegámos?
Para o país formal não, contudo há ainda quem se interesse. Será uma minoria? Talvez. Uma minoria que não se conforma e uma minoria que não faz depender a razão das suas preocupações e ideias da quantidade volátil dos espectadores do circo. Até porque, como em todos os circos, esses espectadores só aplaudem enquanto tiverem entretenimento e pão. E o entretenimento pode continuar, mas o pão vai escassear."
Nem mais. É a diferença entre o país formal e o país real. Como então.

Letizia e ... os saltos altos!

Porque se há-de estranhar o meu interesse por monarquias e dinastias? Não será por ser um dos fundadores da Academia de Estudos Laicos e Republicanos, ou por descender de carbonários e republicanos assumidos, que não preencho uma parte do meu imaginário romântico com histórias de princípes e princesas. Embora não siga os comentários que sobre eles fazem as revistas "do coração". Que são tudo menos "de coração". Porque sobrevivem assumindo-se como alcoviteiras da contemporaneidade, descurando o quão normal são as suas vidas, o quão comuns são as suas preocupações, para lá das obrigações (e direitos, também) acrescidad, decorrentes da sua natureza específica (a real).
As mais actuais dão conta de que Juan Ignacio Balada, um empresário multimilionário com fortes convicções monárquicas, que morreu no passado mês de Novembro, decidiu deixar a sua fortuna à Família Real espanhola. De acordo com o testamento do filantropo espanhol, metade dos seus bens destinam-se à criação de uma fundação benéfica, que será presidida pelo príncipe Felipe, enquanto que a outra metade ficará para os príncipes das Astúrias, bem como aos oito netos dos reis Juan Carlos e Sofía de Espanha. O casal mais famoso da realeza espanhola exibiu reforçados sorrisos depois da notícia. Como qualquer um de nós faria.
Merece destaque o facto de Letizia e Felipe comparecerem nos actos oficiais sempre de mãos dadas. O que é interpretado como uma imagem de cumplicidade de que apenas nos privaram nas breves crises conjugais que já viveram e não conseguiram disfarçar. Retirando a célebre crise conjugal que protagonizaram no início das férias de Verão - quando teve a primeira discussão entre ambos - , ou de Letizia para Filipe (porque há quem afirme que a personalidade da princesa é mais atrita a estas manifestações de afectos e desafectos), no Clube Náutico de Palma de Maiorca. Após a discussão constataram que Letizia surgia de semblante triste "com um olhar perdido", tal como supõem que os olhares mais românticos e as mãos dadas são sinal que "as dúvidas e os desentendimentos entre os dois terão sido finalmente ultrapassados." Descobrem que, afinal, "os príncipes das Astúrias continuam em sintonia e tão apaixonados como no dia em que se conheceram". A troca de sorrisos, os olhares cúmplices, os abraços ternurentos, assim como a postura serena e segura demonstrada por Letizia durante os três dias que passaram nas Astúrias, não lhes deixa margens para dúvidas. Ou seja, se discutem fazem birra, amuam, indispõem-se e, quando fazem as pazes, desfazem-se em carinhos e miminhos. O mesmo que faria qualquer outro casal, naquela fase do contrato de matrimónio. Até das oscilações de texturas, cores e feitios do guarda-roupa da princesa retiram conclusões. Por se sentir confortável e acolhida na sua terra natal, Letizia desfilou confiante com um guarda-roupa que, apesar de investir nas cores escuras, denota um novo estilo, mais descontraído e jovial. Como qualquer uma de nós faz na fase da (re)conciliação.
" A troca de olhares cúmplices com Felipe "voltou a ser uma constante, evidenciando o clima de reconciliação entre o casal. " Depois de pazes feitas. O mais normal possível.
Até a cerimónia de entrega dos Prémios Príncipes das Astúrias (em que a princesa se fez tapar por um trapinho de Felipe Varela e usou conjuntos entre o patchwork azul-marinho e preto, bordado com lantejoulas, fitas de cetim, missangas e fio de prata, conjugados com um cardigã de lã e seda e sapatos e uma mala Magrit) foi matéria jornalística. E às cores dos modelitos atribuiu-se natureza de confissão tarapêutica. Acho normal, outra vez.
"E agora, talvez para continuar a agradar ao marido, a princesa parece também ter recuperado a boa relação que teve em tempos com a sogra." Mais um sinal de absoluta normalidade. Está bem com o marido, fica bem com a sogra, zanga-se com o marido e a sogra paga as favas. Muito parecido com as cenas idiotas que todas já tivémos vontade de fazer. "Elementar, meu caro Watson!" Os reis e os príncipes das Astúrias foram recentemente anfitriões de um jantar de gala dado em honra do presidente da Hungria e da mulher, Laszló e Erzsébet Sólyom, e, na ocasião, voltou a ser visível a cumplicidade de Letizia com a sogra. Ainda bem. Mas parece-me que pretender que acontecesse qualquer outra coisa (como não se falarem ou se antagonizarem) seria esperar demais quando o peso do protocolo é, consabidamente, excessivo. É certo que a mulher do príncipe Felipe que prima, habitualmente, pela simpatia e boa disposição, às vezes se descuida com umas caretas, mas sempre comedidas.
Depois, não se esqueçam que Letizia, agora, tem mais razões para sorrir. Porque, de cada vez que sorri, sorri com menos dez anos. E isto, sem dúvida, é mais que motivo para qualquer mulher sorrir! Um sorriso "intervencionado" por Christian Chams (que já "intervencionou" Sharon Stone, Demi Moore, Madonna, George Clooney, Nicolas Sarkozy, e a Rania da Jordânia), é um grande sorriso.
Dizem que a princesa tem uma patologia por sapatos. Mas quantas de nós não tem uma dessas patologias?
E resumem-se os factos a cirurgias, moda, humores para com o marido e respectiva mãe, e, gravíssimo, a obsessão por sapatos (especialmente, altos!). Eis o que descobrem os jornalistas do coração sobre a mulher que protagoniza a princesa da vizinha Espanha. Factos absolutamente comuns. E quando falam dela só percebemos que não falam de uma mulher comum porque é uma princesa. Senão ...

Inteligência, Palavra e Políticos

Todos sentimos a falta de um político com uma boa oratória. Com o dom da palavra. A capacidade de magnetizar os outros, de aglutinar multidões. O que distingue os homens da palavra é hoje conhecida como a manifestação de um determinado tipo de inteligência: a verbal e/ou linguística.
A ideia foi lançada por HOWARD GARDNER, pelo seu conceito de inteligência como faculdade de entender, compreender, conhecer, juízo, discernimento, capacidade de se adaptar, de conviver. Constitui potencial biopsicológico não especificamente humano, mas que em seres humanos assume uma dimensão inefável. Uma capacidade para resolver problemas e criar idéias/produtos válidos. É a inteligência que dá sentido ao que vemos e à vida que temos e que nos leva a uma conversa interior, em que resgatamos arquivos e memórias, criamos capacidade de raciocínio, fixamos objetivos e inventamos saídas para o mais entroncado dos problemas. Antever portões em vez de janelas. Aprender a pensar, possuir vontade para o fazer, criar e usar símbolos e, graças a eles, empreender nos sonhos, intentar conquistas, fazer surgir o mito, a linguagem, a arte e a ciência. Somos quem somos porque lembramo-nos das coisas que nos são próprias e nos emocionamos, e a inteligência faz com que cada ser humano seja um ser único e compreenda plenamente o significado dessa individualidade.
A TEORIA DAS INTELIGÊNCIAS MÚLTIPLAS DE GARDNER, psicólogo da Universidade de Harvard, de 1983, desvenda em "As Estruturas da Mente", partindo de uma noção comum de inteligência, o potencial que cada um e mede-o com instrumentos verbais padronizados (como os testes de Q.I.). O conceito de inteligência é por ele definido com a capacidade de resolver problemas ou de criar produtos valorizados num cenário cultural específico, tomado como uma referência científica a evidências biológicas e antropológicas. O psicólogo introduziu oito critérios distintos para conteudizar o conceito de inteligência e propôs sete competências humanas, mais tarde elevadas para oito e nove. De entre estes, uma releva para compreender porque uns se elevam pela palavra e porque outros nada fazem com elas. Não é a espacial (a habilidade para manipular formas ou objectos mentalmente e, a partir das percepções iniciais, criar tensão, equilíbrio e composição, numa representação visual ou espacial. É a inteligência dos artistas plásticos, dos engenheiros e dos arquitectos), não é a lógico-matemática (que se refere à habilidade para resolver problemas ou criar produtos através do uso de parte ou de todo o corpo, para usar a coordenação física desporto, artes cénicas ou plásticas, porque controla os movimentos do corpo e permite manipular os objectos com destreza), não é só a cinestésica (a habilidade para entender e responder adequadamente aos humores, temperamentos, motivações e desejos dos outros, constata-se nos psicoterapeutas, professores, políticos e apreende-se, inclusive, com técnica de vendas), não é só a interpessoal (habilidade para ter acesso a sentimentos, sonhos e idéias, para os discriminar e para lançar mão deles na solução dos problemas pessoais. Esta é a inteligência mais pessoal de todas, e observa-se através dos sistemas simbólicos das outras inteligências, ou seja, através de manifestações linguisticas, musicais ou cinestésicas), não é só a musical (capacidade em adquirir, compreender e dominar as expressões da linguagem colocando em acção a semântica e a beleza na construção da sintaxe. Pertence a escritores, romancistas, jornalistas, conferencistas e poetas. Expressa-se nas pessoas que cultuam a palavra e a construção de idéias verbais ou escritas. Consiste na capacidade de pensar com palavras e de usar a linguagem para expressar e avaliar significados complexos), mas é, sobretudo, a linguística (São duas as principais áreas corticais responsáveis pela linguagem. A área de Wernicke (lobo temporal do hemisfério esquerdo) é responsável pelo entendimento da linguagem e a organização das palavras. A área de Broca (giro pós-central do hemisfério esquerdo) cuida da articulação da fala, da produção da linguagem expressiva. Ainda contribuem para a linguagem a região têmporo-ocipto-parietal responsável pela organização gramatical e o hemisfério direito para criar o ritmo, entonação e fluxo da fala. (SPRINGER; DEUTSCH, 1993. p. 184-186). A área do cérebro, chamada Centro de Broca, é responsável pela produção de sentenças gramaticais. T.S.Eliot - o poeta, o crítico, o ensaísta, o dramaturgo - encarna uma das mais estranhas e poderosas permanências literárias de nossa época. Estranha, porque foi o escritor contemporâneo que mais conscientemente buscou, na tradição cultural do passado, o sentido de um tempo presente que, por estar em vias de o ser, fosse também futuro; poderosa, porque sua obra, a um só tempo clássica e moderna, revolucionária e reacionária, realista e metafísica, está na própria raiz que informa e conforma a mentalidade poética de nossos dias, tendo exercido fecunda e duradoura influência sobre todas as gerações que se formaram a partir de 1930 - Poesia , de T.S. Eliot, traduzido do original Collected Poems 1909-1962 , Editora Nova Fronteira, 1981 - "(...) Sigamos então, tu e eu, Enquanto o poente no céu se estende Como um paciente anestesiado sobre a mesa; Sigamos por certas ruas quase ermas, Através dos sussurrantes refúgios De noites indormidas em hotéis baratos, Ao lado de botequins onde a serragem Às conchas das ostras se entrelaça: Ruas que se alongam como um tedioso argumento Cujo insidioso intento É atrair-te a uma angustiante questão . . . Oh, não perguntes: Qual?“ Sigamos a cumprir nossa visita... (...)". Também Clarice Lispector - romancista, poetisa, cronista, contista, jornalista, - uma das personalidades mais excêntricas da literatura brasileira, de naturalidade ucraniana, deixou o seu nome marcado na literatura com a publicação de Perto do Coração Selvagem (1944), Água Viva (1973), A hora da Estrela (1977), contos como Laços de Família (1960), livros infantis como O Mistério do Coelho Pensante (1967), A Mulher que Matou os Peixes (1968). Uma obra eclética, em sua maioria, densa, de cunho existencialista, com estilo elíptico e fragmentário. "Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. (...) DÁ-ME TUA MÃO (...) Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois factos existe um facto, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.". Ainda Carlos Drummond de Andrade "Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida. Se os olhares se cruzarem e, neste momento,houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu. Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante, e os olhos se encherem d’água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês. (...) NÃO DEIXE O AMOR PASSAR (...) Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Deus te mandou um presente: O Amor. Por isso, preste atenção nos sinais - não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: O AMOR.“ Ah, o Amor!...se Ouvíssemos os Santos Poetas, não O Perderíamos,tão logo víssemos os sinas...". Francisco Buarque de Holanda, compositor, escritor, dramaturgo, cantor, com Roda Viva, Calabar, Gota D’Água, Estorvo, Beijamim, Budapeste, Construção, Cálice, Vai Passar, a Banda, Atrás da Porta, Mulheres de Atenas "Pai, afasta de mim esse cálice Pai, afasta de mim esse cálice Pai, afasta de mim esse cálice De vinho tinto de sangue Como beber dessa bebida amarga Tragar a dor, engolir a labuta Mesmo calada a boca, resta o peito Silêncio na cidade não se escuta De que me vale ser filho da santa Melhor seria ser filho da outra Outra realidade menos morta Tanta mentira, tanta força bruta(...) CÁLICE Como é difícil acordar calado Se na calada da noite eu me dano Quero lançar um grito desumano Que é uma maneira de ser escutado Esse silêncio todo me atordoa Atordoado eu permaneço atento Na arquibancada pra a qualquer momento Ver emergir o monstro da lagoa (...) De muito gorda a porca já não anda De muito usada a faca já não corta Como é difícil, pai, abrir a porta Essa palavra presa na garganta Esse pileque homérico no mundo De que adianta ter boa vontade Mesmo calado o peito, resta a cuca Dos bêbados do centro da cidade (...) Talvez o mundo não seja pequeno Nem seja a vida um fato consumado Quero inventar o meu próprio pecado Quero morrer do meu próprio veneno Quero perder de vez tua cabeça Minha cabeça perder teu juízo Quero cheirar fumaça de óleo diesel Me embriagar até que alguém me esqueça."
Não era absolutamente devastadora uma voz destas no Parlamento?

A minha mãe e as palavras

A minha mãe é um paradoxo. Uma das pessoas mais espertas que já vi. Porém, enquanto que, até há pouco tempo, parecia uma serpente a encantar os demais, falando, nada dizendo, e inquirindo, sem perguntar, agora está desbocada. Diz o que quer, pergunta o que quer e da forma mais clara e intrépida que encontra, enfim, é um tsunami. Dou comigo a pregar sermões, a fazer recomendações, a chamar-lhe incauta, a acautelar as eventuais consequências que a sua insensatez pode desencadear nos outros.
O dom da palavra é o que lhe vai faltando, contraposto com uma cadeia sucessiva de vocábulos, alguns relâmpagos, uns quantos trovões. Ou seja, muito gostava eu que ela entendesse que tudo se pode dizer ... nada se dizendo. Mas a palavra, com o poder que lhe reconhecemos (diz o Manuel Alegre que é uma arma - e isso é inequivocamente verdade), apenas se converte, somente atinge, em talento, quando apurada, tratada, cuidada.
Seja uma palavra doce ou amarga, o dom da palavra, sinónimo de inteligência verbal, sobre que escreverei algumas coisitas em breve, (dom, do latim donu, significa presente, dádiva, dotes naturais, mérito, merecimento, privilégio, poder, faculdade, condão, aptidão) é mel ou fel, dependendo de como se diz, do quanto que se diz, do quando se diz. Em suma, tempo, modo e lugar têm de ser levados em conta quando se fala com os outros e para os outros.
Como se acha sempre muito sabedora de coisas biblícas, explico à minha mãe a palavra a partir das palavras e episódios do Livro.
Salomão dizia que “a palavra branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira.” E evoco Jeremias! O "profeta das lamentações"! - Confesso que sinto uma especial simpatia por ele e que me sinto identificada com ele em inúmeras situações - É o profeta que se sente impotente, incapaz, sem saída, que até de vez em quando, se revolta por ter aquela dura missão, mas continua, continua sempre. Porque o faz? Talvez a leitura, Jer 1,4-10, nos elucide. Quando Deus lhe comunicou a sua missão, o profeta, estupefacto, parece ter achado que Deus se enganara na porta (claro que isto só é crível para quem acredita que Deus que tudo vê conhece a residência de cada um dos seus devotos), que Deus não sabia o que dizia. Responde-Lhe que não é a pessoa apropriada para missão tão grandiosa… que não se sentia capaz. O que Jeremias queria dizer era que temia não ter o dom da Palavra.
Já dizia o Padre António Vieira que dá Deus o dom da fala a todos os homens, mas a alguns somente o da palavra. Porque os tontos falam (donde, não é à míngua de inteligência que há quem não fale); e falam igualmente os néscios (pelo que ao falar não faz falta o entendimento); e falam ainda os brutos (pelo que ainda que aos homens falte a sensibilidade, sendo mudos não o serão por causa disso). Mas aquela especial habilidade com as palavras é um exercício continuado de inteligência, entendimento e sensibilidade. Inteligência, para saber o que convém ser dito; entendimento, para discernir como se deve dizê-lo; e sensibilidade, para escolher o momento oportuno em que o ouvinte seja disposto a ouvir. O dom da palavra pode mesmo abrir os ouvidos que teimam em estar fechados ou fechar os ouvidos que sempre estão abertos. Porque há o que deve ser ouvido, e há quem não queira ouvir; e há o que não convém que seja ouvido, e abunda quem queira ouvir. Daí a força da Palavra.
Ora, eu, que, com a idade, passei a medir as palavras, a perceber e antever as suas nuances e matizes, só tenho que agradecer à minha mãe ter-me cedido a capacidade que outrora tinha no uso das mesmas. E admito que procuro o dom da palavra.
Recordo a história do sultão sonhou que tinha, de repente, perdido todos os dentes. Acordou assustado e chamou para que interpretasse o sonho.“Que desgraça, Senhor!” –exclamou o sábio.”Cada dente caído representa a perda de um parente de Vossa Majestade!”.“Mas que insolente” –gritou o sultão. “Como se atreve a dizer tal coisa?!” Então, chamou os guardas e mandou que lhe dessem cem chicotadas. E mandou que chamassem outro sábio para interpretar o mesmo sonho. O outro sábio chegou e disse: “Senhor, uma grande felicidade vos está reservada! O sonho indica que ireis viver mais que todos os vossos parentes!”. A fisionomia do sultão iluminou-se e ele mandou dar cem moedas de ouro ao sábio. Quando este saía do palácio um cortesão perguntou ao sábio: “Como é possível? A interpretação que você fez foi à mesma do seu colega; no entanto, ele levou chicotadas e você moedas de ouro!”.“Lembre-se sempre” – respondeu o sábio. “Tudo depende da maneira de dizer as coisas, e esse é um dos grandes desafios da Humanidade. É daí que vem a felicidade ou a desgraça; a paz ou a guerra. A verdade deve ser dita sempre, não resta a menor dúvida, mas a forma como ela é dita, é que faz a grande diferença”.
E esta é uma grande verdade, mãe!

Ao menino com sindrome de Asperger - uma tia ao lado

Um dos meus maiores amigos enfrenta um problema humano que me sensibiliza especialmente. Depois de estranhar o comportamento do filho durante anos consecutivos sem obter uma explicação racional-científica para o facto, uma visita a uma fundação americana patrocinada por um outro meu amigo que se dedica ao estudo de várias "doenças" ainda pouco tratadas pela Medicina, no foro da psiquiatria, psicologia e da neurologia, desvendou o problema. O menino sofre do síndrome de Asperger. Inconsolável, cai numa depressão, absorvido pela nostalgia e pela tristeza, sem compreender as atitudes do filho. Trata-se de um sintoma que tem "amaldiçoado" aqueles que temos considerado os maiores génios da humanidade. De Einstein a Newton, de Van Gogh a Bill Gates, a obsessão e isolamento, que são os mais evidentes sinais desta doença, fez com que estes se tivessem sido notabilizado nas várias áreas. O comportamento de Bill Gates, dono da Microsoft e inventor do Windows, não passa despercebido nas reuniões: Balança-se mecanicamente para a frente e para trás na cadeira e faz o mesmo nos aviões. Não gosta de manter contacto olhos nos olhos e tem pouca habilidade social. (Thinking in Pictures, do médico norte-americano Temple Grandin, especialista em síndrome de Asperger).
Estes são outros dos sintomas da síndrome de Asperger. Fundamentalmente, é um problema de comunicação. Que leva a que, desde crianças, estas pessoas se foquem numa determinada área das artes ou das ciências e se tornem obsessivos. Uma fuga ao mundo com o qual têm dificuldade de interagir. São crianças inteligentes que dominam a linguagem e o vocabulário, mas que não os conseguem exteriorizar no contexto social.
Um dos casos mais extremos de Asperger será o do pintor holandês Vincent Van Gogh. Nascido em 1853, só vendeu um quadro em toda a vida. Em criança gostava de ficar sozinho e tinha dificuldade em relacionar-se. Os acessos de raiva eram frequentes e parecia estar sempre noutro mundo. Só descobriu o talento para a arte aos 27 anos e suicidou-se em 1890 sem ter conseguido cumprir o que se lhe pedia enquanto homem nessa época: constituir família e subsistir sozinho.
Outro é o de Albert Einstein, que só começou a falar aos três anos de idade (o que não o impediu de formular a teoria da Relatividade e de se tornar um génio, como relata a autora Illana Katz, no livro In a World of His Own: A Storybook About Albert Einstein, em que afirma que o alemão "era um solitário sem amigos que tinha receio de multidões"). Até aos sete anos repetia frases para si próprio. Em adulto, as suas aulas eram confusas e absorvia-se tanto nos problemas da física que esquecia o mundo à sua volta.
O estudo da vida destes homens, absolutamente invulgares e destacados da mediania, fez, contudo, que Glen Elliott, psiquiatra da Universidade de São Francisco (EUA), cheguasse a outras conclusões. Prevenindo que a solidão destes génios, por vezes confundidas com uma espécie particular de autismo, terá outras explicações. Como no caso do físico alemão, sobre o qual diz: "A impaciência com a lentidão intelectual dos outros, narcisismo e paixão por uma missão de vida pode tornar os indivíduos isolados e de difícil interacção." Até porque, segundo relatos da época, Einstein tinha bom sentido de humor, algo difícil de encontrar em alguém com avançado estado da síndrome de Asperger.
A mente humana é um Universo ainda com muito por explicar e a circunstância de se ter um ente querido com determinada patologia assusta-nos. Mas, julgo que essa tem de ser vista e sentida, não como uma "anormalidade", mas sim como gente "especial" - e neste caso, há quem defenda que excepcional - que carece da nossa melhor compreensão e sensibilidade. Até porque é dentro desta gente diferente que sobressaem os grandes homens e os grandes génios da Humanidade. E ter um entre mãos pode ser, sem dúvida, uma tarefa hérculea, senão mesmo, estóica. Nada na vida é a preto e branco, e, o que pode parecer um problema pode até vir a revelar-se uma benção. Assim, saibam os "normais" descobrir a chave para ajudar estes pequenos grandes homens a encontrarem a normalidade possível sem perder as potencialidades da sua excepcionalidade!

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Taxistas e Salazar - memória sem memórias!

Vinha hoje de táxi e lá voltou o motorista a despropósito a apregoar a grandeza de António de Oliveira Salazar - não sei porquê, mas constato que esta é uma paixão frequente nesta classe - ora, mais uma vez movendo moinhos de vento, tentei explicar-lhe que as minhas memórias do antes do 25 são bem diferentes. Lembrei-me inclusive que assinei a Petição contra a construção do Museu, e dei comigo a tentar convencer o dito da bondade da minha ideia. Dividi a questão em factos, Direito Constitucional, Lei Ordinária e Conclusões. Expliquei-lhe que:
- Salazar dirigiu o regime fascista e, por meio século, retirou ao povo português os mais elementares direitos de expressão, informação e participação democrática;
- que a Câmara Municipal de Santa Comba Dão, através de uma empresa municipal criada para o efeito - cujo objecto adiante discutirei - pretende homenagear Salazar, erguendo-lhe um Museu do "Estado Novo”, ali mesmo na casa do ditador;
- que a Câmara ratificara a decisão do seu Presidente, de aceitar a proposta de doação que lhe havia sido feita pelo Sr. Rui Salazar de Lucena e Melo, dos documentos, livros e objectos de que é legítimo dono e possuidor e que pertenciam aos eu tio-avô, António Oliveira Salazar;
- que apreciara a proposta apresentada pelo referido de doar à mesma a parte que detém nos prédios urbanos inscritos na matriz predial da freguesia do Vimieiro, sob os artigos 311º, 312º e 340º, solicitando em troca uma pensão vitalícia de 1.250,00€;
- que a Câmara fizera baixar aquela proposta aos serviços jurídicos para que elaborado um estudo sobre a hipótese de legalização de aceitação dessa doação, e ao gabinete técnico para proceder a uma avaliação patrimonial da oferta, para uma negociação face á contrapartida exigida;
- que existe uma escritura pública lavrada pela Srª Notaria privativa da Câmara Municipal de Santa Comba Dão, nos termos da qual o Sr. Rui Salazar de Lucena e Melo declarou doar ao Município de Santa Comba Dão, representado pelo seu Presidente da Câmara, que declarou aceitar tal doação, 1/3 indiviso dos prédios urbanos sitos na freguesia do Vimieiro, inscritos na matriz sob os artigos 311, 312 e 340. Mais declarou o doador que fez aquela doação sem qualquer reserva ou encargo;
- que existe um contrato denominado de “Doação de Bens Móveis”, outorgado pelo Sr. Rui Salazar de Lucena e Melo e pelo Sr. Presidente da Câmara, em representação do Município de Santa Comba Dão, nos termos do qual aquele declara doar a este e este declara aceitar tal doação de 567 fichas apensas em 2 dossiês: livros, jornais, revistas, mapas e ainda 833 páginas que compõem sete cadernos filatélicos, numismático, medalhista, objectos vários, revistas, jornais e outros documentos, os quais se destinam a um futuro museu que será administrado por uma sociedade que deverá iniciar as suas funções até final de 2007, obrigando-se o Município a garantir um lugar remunerado para o doador, o dito Sr. Rui Salazar de Lucena e Melo, na futura sociedade, no montante anual de 24.000,00€, a pagar em duodécimos de 2.000,00€ mensais, actualizáveis anualmente por aplicação do índice do preço ao consumidor, sem habitação.
Posto perante esta evidência, o taxista nem pestanejou. Que era normal! E depois quantos assassinos da descolonização não tinham tais regalias.
Insisti.
- Que para o preâmbulo da Constituição da República dizia que “a 25 de Abril o Movimento das Forças Armadas, coroando a longa resistência do povo português e interpretando os seus sentimentos profundos, derrubou o regime fascista. Libertar Portugal da ditadura, da opressão e do colonialismo representou uma transformação revolucionária e o início de uma viragem histórica da sociedade portuguesa.”
- Que, na afirmação desse processo de libertação, o legislador deixara plasmado no nº 4 do art. 46º que “não são consentidas organizações que perfilhem a ideologia fascista”.
Mais.
- Que a Lei Ordinária, pela Lei nº 64/78, no seu art. 1º afirma que “são proibidas as organizações que perfilhem a ideologia fascista” e que o nº 1 do art. 2º considera que "existe uma organização sempre que se verifique qualquer concertação ou conjugação de vontades ou esforços e, nos termos do nº 1 do art. 3º, que perfilham a ideologia fascista as organizações que pela sua actuação pretendam difundir a exaltação das personalidades mais representativas do regime fascista."
Expliquei ainda mais.
- Que o art. 940º do Código Civil tem por doação "o contrato pelo qual uma pessoa, por espírito de liberalidade e à custa do seu património, dispõe gratuitamente de uma coisa em benefício do outro contraente”. E que a doação o não era por não ser gratuita mas implicar a contrapartida de uma remuneração certa e permanente.
Bem fui aduzindo a meu favor que está longe de ter sido demonstrado que este espólio tenha efectivamente alguma relevância para o estudo da pessoa do ditador, pelo que se temia que o mesmo apenas servisse para local de encontro de excursionismo revivalista da extrema direita nacional e internacional, para exaltação da personalidade mais representativa do regime fascista: o ditador António de Oliveira Salazar.
Fiz-lhe ainda ver que, enquanto a minha geração vivesse me arrepiava a mera ideia de com dinheiros públicos se pagar aquela pensão, quando a de Salgueiro Maia e Humberto Delgado tardaram, e que continuavam a existir ocultos ideiais fascistas e salazaristas, e que estes eram perigosos, perniciosos. Em suma, de evitar. Fui lembrando o que se passa na Áustria, em França ou na Holanda. E até defendi que, a fazer-se, era um “Museu da Resistência”, que homenageasse o povo e as dores que aquele período, naquela pessoa, lhe quis infligir, e lhe infligiu.
Constatando a renitência do motorista em aderir à minha causa estóica, lembrei-me do Livro de Leitura da 3ª Classe, que evocava heróis nacionais e os dividia em duas categorias principais: heróis fundadores ou restauradores da nação e os que corajosamente defenderam a pátria - D. Afonso Henriques, Deladeu Martins, o Alcaide de Castelo Faria e D. João II juntamente com o Condestável; depois, os que contribuiram para a expansão de Portugal no mundo - o Infante D.Henrique, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral e Afonso de Albuquerque.
Mesmo distantes no tempo, estas personagens comungam de coragem ou de capacidade de comando. E é esta unidade, capaz de elidir a circunstância histórica, que os torna heróis nacionais, figuras atemporais. Refere-se a ‘fundação’ da nação - séc. XII/XIII - a que se associam tanto os episódios marcantes da defesa dessa nacionalidade, como o episódio da sua refundação (séc. XVII). "
O que tem isto a ver com Salazar? O facto de muitos insistirem em ver nele mais que um chefe político, a expressão reconhecível do herói revivicado. Mas isso prende-se com o marketing da sua política de refundação da nação, que o elegia redentor de uma nação desgovernada e esquecida da sua ‘alma’. O seu apelo a valores intemporais ligados à tradição e ao Fado. As suas “grandes certezas” (Salazar, 1935: XXIII), Deus, Pátria, família, autoridade (cf. Salazar, 1937: 30). A que se junta a profecia, tão frequente nos mitos de fundação, evidente quando o Cardeal Cerejeira associa Salazar a Fátima: “E eis o milagre de Fátima. Tu estás-lhe associado: estavas no pensamento de Deus quando a Santíssima Virgem preparou a nossa Salvação” (cit. in Nogueira, 1980: 49).
A imitação de Salazar, tal como a de Hitler e a de Franco, aos gestos históricos dos heróis que fundaram ou refundaram a nação - Afonso Henriques ou o Condestável - e dos que protagonizaram a expansão de Portugal no mundo - Infante D. Henrique ou Vasco da Gama. A imitação destes gestos era, mesmo, a única caracterização de Salazar (1940, inauguração das Comemorações Centenárias: “Através de séculos e gerações mantivemos sempre vivo o mesmo espírito e, coexistindo com a identidade territorial e a identidade nacional mais perfeita da Europa, uma das maiores vocações de universalismo cristão” (Salazar, 1943: 257).
E a imitação vai à caricatura, à sua evocação de Afonso Henriques. Salazar julga-se a expressão dessa encarnação (veja-se um postal ilustrado, editado durante o Estado Novo e onde a fusão das duas personagens é plenamente assumida: o corpo de Afonso Henriques, com as armas e a pose guerreira, completa-se com a cara de Salazar, enquanto as legendas explicitam as mensagens que importa guardar: no escudo “Tudo pela Nação, nada contra a Nação”, em cima escreve-se “Salazar - Salvador da Pátria” e na base, como que sustentando aquela representação, exclama-se “Ditosa Pátria que tais filhos tem”).
Mas a memória do povo é curta. E costumo dizer que só evoca Salazar quem se sentava à mesa e não quem a servia. Mas não é verdade. Porque este taxista, a mãe deste taxista, por certo, servia à mesa e não se sentava nela. Mas ele não se lembra. Com certeza. De certeza. Porque ou tem memória curta ou a mãe nunca falava, Com ninguém. Nem com ele. Porque era mais uma das bocas silenciadas, dos ouvidos surdos. E ele lamentavelmente não tem memória, apenas porque ninguém, atempadamente, lhe introduziu os dados. Os dados da verdade. E o saudosismo dum tempo em que nada deixou saudade apoderou-se deste homem. Como um fado. Um fado triste. E só. Muito só.