sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Recado para a oposição (em tempos de República) - estudem a biografia de Ávila (duque d'Ávila)

A propósito da falta de boa vontade demonstrada pela oposição em convergir com o Governo para aprovação do Orçamento, evidenciando uma postura de desprezo pelo bem-estar nacional e colocando o País sob o risco na não-governabilidade e consequente dissolução do Parlamento, medida que a ninguém servirá nem sequer aos próprios, lembrei-me de deixar algumas referências.
Primeiro, que infelizmente se constata que, em Política parecem ser precisas apenas duas qualidades: sinceridade e sagacidade. Sinceridade de político, é manter a palavra empenhada, custe o que custar. E sagacidade é nunca empenhar a palavra, custe o que custar. De que serve a oposição clamar a sua preocupação com o desemprego, a inflacção, a crise, em geral, se depois expõem o País a uma situação irresolúvel e altamente, devastadoramente, dispendiosa para o erário público?
Segundo, recomenda-se que os supostos preocupados políticos se lembrem de outros tempos, outros homens, que esqueceram as discrepâncias políticas e abraçaram o interesse nacional como causa.
Sendo eu fundadora da Academia de Estudos Laicos e Republicanos, estranhar-se-á que a figura de referência seja para ... um monárquico.
Trata-se da interessantíssima biografia de António José de Ávila, duque de Ávila e Bolama, agora passada a tese de doutoramento.
Diga-se já que foi um plebeu que chegou a duque, o que justificará o meu à-vontade.
Foi «egrégio estadista», com uma avassaladora «força da sua vontade», um «constante amor ao trabalho», um «formosíssimo talento» e uma «indiscutível probidade», «um dos nomes mais aureolados de luz na história da política portuguesa».
E - uma qualidade que faz tanta falta - um dos melhores parlamentares que por São Bento passara, senhor de «uma argumentação por vezes irrefutável» e «verdadeiramente invencível»
sempre que defendia, na tribuna, «uma causa justa». Foi «um lutador inquebrantável», «um argumentador de primeira força», um «medianeiro entre os partidos de combate».
Dizia sobre si «Tenho pura a consciência, e só segundo ela votarei; não me animam paixões, nem
de amizade nem de ódio, porque dentro desta sala, ponho de parte todas as personalidades e só me lembro do meu dever; só tenho em vista que sou deputado na nação portuguesa.» Pregava ser "necessário a todo o custo acabar com uma cisão que nos dividia, e cicatrizar quanto se pudesse, as profundas feridas das nossas dissensões". Foi «um ponto de apoio ao mecanismo das
instituições», sempre que nestas ocorriam «desequilíbrios violentos».
Sem nada fazer para isso, gerou-se à sua volta um movimento (o avilismo) que funcionava como "uma engrenagem suplementar, uma roda sobresselente para acudir a acidentes de percurso, uma espécie de tiers-parti, cuja magreza de efectivos era largamente compensada pela posição de charneira que normalmente desempenhava". Logo ele, que afirmava «Pela minha parte, nunca tive a louca pretensão de ter um partido meu. Contento-me em pertencer ao partido dos homens que querem sinceramente o bem do seu país." «Não tem querido formar partido, porque para isso tinha de criar clientela, para o que é necessário algumas vezes desatender à lei, o que repugna ao seu carácter: o seu partido é portanto o da nação, e por isso apoia os actos de todos os ministros que considera úteis à nação, e reprova todos os que lhe julga adversos." Confirmava ser um homem para todas as causas, desde que elas servissem a pátria, o rei, a liberdade e o progresso. Um dia, em conversa com Teles de Vasconcelos, semanas depois de ter abandonado a sua última Presidência do Conselho, em 1878, confidenciou-lhe: «Que lhe parece, Teles? Vocês alarmam o país com os seus projectos; eu sou chamado para fazer serenar os ânimos; e quando tudo está apaziguado e sereno, intimam-me para deixar o poder. Parece que sou o bombeiro que vem apagar os incêndios que vocês atearam.» Estaria sempre onde a pátria o quisesse. «Primeiro, que desejava a união universal em volta da coroa e o progresso económico do país; segundo, que era com imenso sacrifício que se via obrigado a tomar sobre si a tremenda responsabilidade de intervir nos negócios públicos; terceiro, que suspirava pelo dia em que o aliviassem de semelhante fardo; quarto, que se resignava a ele [ao fardo] para evitar males indescritíveis e fatais; quinto, que não tinha ambições, e que o não movia qualquer apetite de cargos, honras ou benesses."
Manuel de Arriaga resumia assim a sua personalidade:«Os homens que nascem sobre aqueles penedos, nascem livres, e jamais podem ser cobardes."
Enfim há sempre quem nos obrigue a reflectir: em tempos de monarquia existiam homens assim e na República, onde estão eles?

LIÇÕES DE POLÍTICA - O DUQUE D'AVILA

Disse que em Política são necessárias duas qualidades: sinceridade e sagacidade. Sinceridade de político, é manter a palavra empenhada, custe o que custar. E a sagacidade é nunca empenhar a palavra, custe o que custar. Foi o Duque de Ávila. Gente de boa casta!
Um plebeu que chegou a duque, que foi "até onde é possível ir num país monárquico».
Foi «egrégio estadista» e emprestou à vida pública a «força da sua vontade», o «constante amor ao trabalho», o «formosíssimo talento» e a «indiscutível probidade». Características raras!
Foi «positivamente», um «mantenedor social», uma «força de coesão», de «união entre o passado e o presente», um «conservador enérgico», um «conservador extremo», um «lutador indomável» e um «orador eloquentíssimo». Raro, muito raro!
Podia até ser irascível, ter uma certa falta de prudência e circunspecção, mas tudo se lhe perdoa hoje, feita a História, por causa do «afincado amor ao estudo e ao trabalho», o «desvelo e interesse pelo serviço do Estado» e a «sólida probidade», compondo o retrato de um «orador fluente e bom argumentador, mais veemente e nervoso na réplica do que na invectiva». Uma raridade!
Na política, em geral, e nas finanças, em particular, «tinha opiniões suas, ideias próprias e orientação pessoal» — e «defendia-as numa exposição tão nítida e emparedava-as em tão sólidas deduções que para o vencer era preciso fugir da discussão para a agressão». Com Silva Carvalho e Fontes Pereira de Melo, Ávila completa a troika dos maiores especialistas em finanças públicas do século XIX português. A França tivera Turgot e Quesnay; Portugal tinha António José de Ávila. Mente e qualidade de trabalho raros!
Uma vida marcada pelo «zelo», pela «insaciável avidez de investigar, de saber, de aperfeiçoar-se», uma «fronte espaçosa, gesto sobranceiro, olhar impávido, palavra fácil e incisiva, período seco, nervoso e cortante», ao serviço do «rigor lógico», da «coerência nas deduções», da «habilidade prática», da «ciência dos factos», de uma «clareza metódica e implacável». Gente desta casta é rara!
Diz-se que tinha a «inestimável virtude política» de, no calor de uma discussão, «sacrificar até a própria conveniência à necessidade de dizer o que sente». Qualidade rara!
O segredo de Ávila foi, o que deveria ser o de todos os que sobem na vida e na consideração pública a pulso: estudo, trabalho e dedicação. Todos lhe reconheciam a tenacidade, a pontualidade e o carácter «consciencioso» que punha em qualquer tarefa. Coisas de gente rara!
Tudo isto aliado a uma sua outra faceta: a do diplomata paciente, hábil negociador de bastidores, com que firmou créditos sempre que ocupou a pasta ministerial dos Negócios Estrangeiros.
A profissão de fé que fez no parlamento em 1834 acompanhou-o durante toda a vida: «Tenho pura a consciência, e só segundo ela votarei; não me animam paixões, nem de amizade nem de ódio, porque dentro desta sala, ponho de parte todas as personalidades e só me lembro do meu dever; só tenho em vista que sou deputado na nação portuguesa" - terá o País acabado com esta casta?
Muitos disseram que «o Sr. Marquês de Bolama é o tartufo que afivela todas as máscaras, é o catavento que volta a todas as direcções, é o barro que recebe todas as formas», ou que era o homem «de todas as situações, de todos os princípios, de todas as ideias, de todos os partidos [...] capaz de estar hoje em Sião e amanhã em Babilónia». Pouco lhe importavam tais critícas, os tempos não eram já propícios a intransigências sectárias, e impunham a adopção de um modus vivendi tolerante, cujo segredo era convidar todos e com todos colaborar, sem inquirir donde vinham. Ele «era de todos os grupos e não era de nenhum»: nele não existiam «incompatibilidades políticas», na medida em que também não existiam «compromissos» duráveis. Tanto se prestava a ser governo como a ser oposição, sustentáculo de governos alheios ou oposição à oposição.
Ávila era incontornável e, por isso, indispensável. Ao longo de décadas, Ávila foi a prova viva de que, em política, se morre e ressuscita tantas vezes quantas as que o talento de cada um permite. Assim, a alma seja grande! E se pertença a esta rara casta! É um exemplo quase que remoto, mas serve para nos recordar que acima do que cada um gostaria de fazer está o que cada um deve fazer! Que pena que haja poucos que lhes sigam os passos! Recorde-se a História. Soubéssemos ser "todos por um". Esse "um" é PORTUGAL!

Novos pecados capitais

Dando conta que o mundo, em certas coisas, parece ir de mal a pior, o Papa Bento XVI, provavelmente depois de trocar algumas impressões a propósito com um seu superior hierárquico, veio revelar os novos 6 pecados capitais, o que se compreende dado que os sete até agora vigentes foram fixados no século XVI - preguiça, orgulho, gula, luxúria, avareza, cólera e inveja - e, portanto, a precisar de revisão e interpretação actualística. Temos agora treze pecados capitais. «Se ontem o pecado tinha uma dimensão individualista, hoje possui uma ressonância principalmente social devido ao fenómeno da globalização», afirmou o Monsenhor Gianfranco Girotti, um dos responsáveis pelas questões de consciência da Igreja Católica (e eu ignorante a pensar que cada um de nós era responsável pela sua própria consciência fiquei agora a saber que o Vaticano delega estas preocupações neste Monsenhor: compreendi. Afinal, a Igreja é uma pessoa colectiva e, portanto, havia de ter alguém que se responsabilizasse pela sua própria consciência, o que, convenhamos, deve ser tarefa esgotante e fustigadora).
Mas as preocupações da Igreja em "actualizar" os pecados mortais e "renovar" a lista de situações que, sem arrependimento ou confissão, condenam a alma humana ao fogo eterno do inferno, tem muito mais a ver com um recente fenómeno que muito a preocupa: a diminuição das confissões. O que apenas podemos compreender por causa do aumento de psicólogos, psicoterapeutas e esta mania de querer que os amigos nos oiçam! Isto é, encontrámos novas formas de exorcizar os nossos demónios!
De qualquer forma, a partir de agora, consumir drogas (ansiolíticos, antidepressivos, chá preto, café e tabaco também?), poluir o ambiente (deitar lixo ou cuspir para o chão, não reciclar, andar de automóvel, viajar de avião, também?), praticar qualquer acto que gere desigualdade social (não dar preferência nas filas a grávidas e idosos, preferir secretárias a secretários ou motoristas a motoristas, ter empregada doméstica em vez de empregado doméstivo, um acto omissivo de um Governo que não legisle, também?), ser pedófilo (que nem comento porque o mero facto de andarem por aí livremente a confessar-se já é demasiado arrepiante!) ou praticar o aborto (que também não comento, porque pôr quem o pratica em pé de igualdade é já, de per si, demasiado atroz!) e praticar actos de manipulação genética (pelo que a Elsa Raposo vai ter de se confessar por ter feito inseminação e escolhido o sexo do feto, se bem que até entendo que deve ter mais uma série de pecados por que se confessar!) passam a constar da lista de novos pecados que podem custar o descanso eterno e que obrigam à redenção pela confissão. Ou confessa-se quem os pratica ou vai direitinho para o Inferno! Acho bem! Só pena que o segredo da confissão aqui cubra o que os padres vão ouvir, porque se pudessem colaborar com a justiça denunciando estes crimes seria muito mais interessante!
Depois de nos alertar para estes pecados que recentemente lhe foram comunicados por quem de Direito, Monsenhor Girotti denunciou, com grande preocupação, a crise que afecta o confessionário, citando o exemplo que vem de Itália, onde, actualmente, 60% dos fiéis não se confessam. Preocupava-me mais a avalanche de confissões a que todos estes pecados dariam azo, enchendo confessionários, abarrotando igrejas, que, in extremis, denunciaria uma outra crise: a falta de vocações para novos padres!

O direito ao ócio criativo

Sinto-me mais ou menos sozinha nesta luta pelo direito ao sossego. Ao dolce faire niente. Umas largas horas por semana em casa a cogitar, a enredar, a arquitectar, sobre a vida. Sem mais. Acham-me hiperactiva, neurótica pelo trabalho, workaholic. Mas quem me conhece bem sabe que regateio uns momentos de paz, a sós, e como me acuso por cada minuto desperdiçado. Embora apesar de me dedicar, com afinco, ao que (re)faço, também sou incansável a reservar o espaço e o tempo para mim. Depois de ter enveredado pela actividade autónoma, julgam estranha esta minha aversão em arranjar um espaço fora de casa para estabelecer um escritório. Não é assim tão estranha. Não me vergo facilmente ao dogma de que um criativo tem de se sediar logisticamente fora de casa para produzir. Ter escritório, ir ao escritório. Não me parecem assim tão fundamentais. Posso trabalhar em qualquer lado. E até posso trabalhar em casa. Criar é um acto e um gesto a-local. Portanto, em casa também se cria, como noutro lado qualquer. Até para executar não tenho necessariamente de abandonar o canto reservado e pessoal dos meus livros e apontamentos. Da poltrona. Da sala. Produzir, se implicar trabalhar em equipa, pode exigi-lo. A solo, não sei porquê. Teimo nesta ideia que, como sou uma espécie híbrida entre o género criativo e o executivo, ora tenho de ir ora posso estar.
Trabalhar com relógio de ponto não é um imperativo! É uma regra. Tão-só. (aparelhozinho mais insignificante e trabalhador que me afastou definitivamente da Administração Pública!)


Estou naquela onda de defender, ferverosamente, o ócio criativo. É um conceito de Domenico De Masi, em livro - que recomendo - sobre a sociedade pós-industrial, o desenvolvimento sem emprego, a globalização, a criatividade e o tempo livre. Partindo da insatisfação com o modelo social centrado na idolatria do trabalho, o sociólogo italiano propõe um novo modelo de sociedade baseado na simultaneidade entre trabalho, estudo e lazer, no qual os indivíduos são educados a privilegiar a satisfação de necessidades radicais, como a introspecção, a amizade, o amor, as actividades lúdicas e a convivência. Segundo De Masi, sendo verdade que o ócio corre o risco de se tornar em violência, neurose, vício e preguiça, é também verdade que se pode elevar para a arte, a criatividade e a liberdade.


Desde Setembro que estou livre dos laços que me ligavam ao Tribunal de Contas! E Deus sabe como isso me tem feito bem. Como me vi medrar! Como me redescobri! Foi enfim provavelmente o maior - ou o primeiro dos ... - acto de lucidez da minha vida! Curiosamente, muitos interpretaram-no como prova de insanidade! Confirmei que é naquele precioso tempo que chamamos de "livre" que mais estamos ocupados. Retidos para pensar, filosofar, explorar qualidades, optimizá-las e exponenciá-las. Por isso Domenico entende que o ócio criativo é uma ferramenta para o aprimoramento, o aperfeiçoamento, pessoal fora do trabalho. Trata-se de uma das mais belas teorias, que nos impele para o reconhecimento da necessidade de nos compormos como indíviduos, de nos recompormos como seres sociais. Como diz Domenico - "A criatividade não é só ideias, é unir fantasias com concretizações". Saber aproveitar o tempo livre é construir um mundo novo à nossa volta, no qual nos arrogamos ao direito de exercitar o corpo e a mente, reencontrarmos os amigos, a família e reinventaremos a colectividade. Sendo o tempo o nosso bem mais precioso é reconfortante pensar que esta, que é uma conversa vulgar, é tema da tese deste professor de Sociologia do Trabalho, Director da Faculdade da Ciência de Comunicação da Universidade "La Sapienza" de Roma. Ao fim e ao cabo, temperamo-nos com a ideia de que também os académicos pensam nisto! O que não admira, porque, entre devaneios de ócio e não ócio, é que nasceu a filosofia! E para quem não perceba que um consultor e um cidadão consciente atinge a sua melhor perfomance se, de vez em quando, parar, passo a explicar, corroborando o professor, porque é que não é de todo inconciliável o ócio criativo com o estudo, o trabalho e a diversão. Antes de mais, isso consegue-se com uma grande paixão pela vida, com um profundo gosto pelo trabalho. É um paradoxo? Não. O que está em causa é o tradicional modelo de trabalho. Conheço imensa gente que desperdiça tempo a fazer coisa nenhuma e que nem sequer estuda, se actualiza, se aperfeiçoa. Ou seja, que são maus profissionais! Quanta gente fica todo o dia no empregozinho falando sobre isto e mais sobre aquilo, jogando no computador, pensando em nada. No fim do dia, até tem créditos no relógio do ponto! Se produziu? Nem sempre. A capacidade de alienação continua a ser um mecanismo de defesa para quem não gosta do que faz, porque não gosta da vida, porque não gosta de si!


Reencaminhando-nos para a filosofia, o momento e o lugar ficam na Grécia, no tempo em que tinha 40 mil habitantes e cerca de 80 grandes génios (Sócrates, Platão, Aristóteles...) É óbvio que se dispara com o argumento de que tal apenas foi possível porque havia escravos à disposição ( 8/pessoa), mas será bom não olvidar que grande parte da força braçal foi substituída pela tecnologia e que o uso de toda a tralha de electrodomésticos e equipamento que existe nas nossas casas equivale ao trabalho de 33 escravos.


Resta o problema de que, com o ócio criativo vem também a introspeção, a meditação, a reflexão, a autocrítica, e há muito boa gente que, ao olhar para dentro, não gosta do que vê. Problema deles. Como diz a Vera "Temos pena!"

Lisboa, Paris, Bucelas ... e Vale de Cavalos

A cidade assedia-me. O trabalho devora-me. Os interesses, negócios e compromissos prendem-me às raízes urbanas, e cada vez é mais difícil aproveitar as longas horas prazenteiras do meu refúgio rural. E tenho pena! Agora, que criei o meu projecto empresarial, com um vice-chairman que me apara algumas ausências, más disposições e outras maleitas, próprias de quem tem dificuldade em acreditar - mesmo - que o dia dura o que dura, e que me ampara na parte logística e operativa, tenho o direito e o dever de saborear, de degustar, o infinito verde daquela casa, os sabores do Chão-do-Prado e do Retiro do Raposo, em Bucelas, cantinhos deliciosos, em que o tempo pára e o mundo também.
Sou uma querosiana por devoção e sou Touro. Ribatejana dos sete costados. Não sei se será bem isso que explica este amor à terra, o cheiro de terra molhada, a falta que o verde me faz!
O que o Eça tem que me arrebata, que me resgata, é a descrição, a força do seu poder descritivo, sobre a ruralidade do País, os cheiros e os sabores nacionais. Tal como ele, também para mim, Paris é uma segunda mãe, e de vez em quando, as saudades de Paris desassossegam-me. Mas é no cantinho do que há de mais rural e campestre que me refaço e recrio. Lá fora, rapidamente me assoma, como no Eça mordaz, a «seca» das comodidades da ultima moda, no caso do Eça era o 202 dos Champs-Elisées. Lá onde ele degustava «diversas águas engarrafadas, ostras clássicas, de Marennes, sopa de alcachofras, ovas de carpa, frangos e túberas, filetes de veado macerado em Xerez com geleia de noz e laranjas geladas com éter» até receber a carta do procurador Silvério sobre as terras de Tormes anunciando que devido a uma tempestade, a capela onde repousavam os «preciosos restos» dos antepassados de Jacinto fora arrastada pela força das águas e das terras e com ela «as respeitáveis relíquias». Que ele «já recolhera os despojos com todo o respeito e lhes dera uma morada provisória e pedia instruções a Jacinto quanto à reconstrução da capela».
E, tal como eu quando recordo o meu avô, homem em que me inspiro quando a vida se arma em cretina e me pretende devorar o coração e alma, experimento maravilhosos ensaios de loucura, recordo Vale de Cavalos, a ida à leiteira, de leiteirinha na mão, os biscoitos, o chouriço - que, segundo a minha avó, era "o fim do mundo" - as filhozes acabadinhas de fazer, a sopa de couves com feijão, as fataças a saltar nas límpidas águas do Tejo, depois cozidas, com batatinhas, ah! que saudades, também naquele momento, em que apelaram à alma do Jacinto, e ele acordou para o passado e juntamente com ele, todos os Jacintos seus antepassados.


Jacinto, até aí concentrado e absorvido pelo mundanismo de Paris, vê como relâmpagos a imagem das suas origens, a sua corda sensível vibra de respeito pelos antepassados, aqueles que o contemplaram com a fortuna que lhe permitia a opulência da Cidade-Luz. E começa a embirrar com tudo e com nada, A aborrecer-se. A impacientar-se com aqueles mil aparelhos, a que até aí achava serem da maior serventia, e objecto de maravilha, como materialização da técnica e da civilização. As informações supérfluas, que até aí considerara culturais, passam a irritá-lo. O pó a incomodá-lo. Até Paris, vista do alto do Sacré Coeur, lhe parecia cinzenta. Enfim, do centro da cultura, do progresso e da intelectualidade, Paris converte-se n'«uma seca». E Jacinto cai numa prostração desoladora e num pessimismo irritado. Isola-se dos amigos e conhecidos. Tudo o aborrece. Toda a sua postura «é como a de um boi inconsciente que marcha sobre a canga e o aguilhão, os jornais saturam-no, na sua rica biblioteca não encontra nada que lhe interesse ler, aos criados recomenda que àqueles que o procuram os informe que não está em Paris, que abalou para o campo, que abalou para Marselha, que morreu».
A lembrança de Portugal continua a roêlo e a dominá-lo e no fim de um inverno escuro e pessimista Jacinto assomou à porta do quarto de Zé Fernandes e dispara como um tiro: «Vou partir para Tormes». Sai por ali desbravado e, ao chegar, troca a água da fonte pelas águas engarrafadas, «atirou pulos aos ramos copados de uma cerejeira carregada de cerejas», apeteceram-lhe as alfaces que viu na horta, percorreu os milharais com pasmo e admirou os vetustos carvalhos plantados pelos seus antepassados, aquietou-se a comer a boa galinha que «o nosso Melchior nos assa no espeto», com pedaços de fígado e moela. No primeiro jantarinho, ficou «estarrecido com a mesa encostada ao muro enegrecido, coberta por uma toalha de estopa, duas velas de sebo em castiçais de lata, grossos pratos de louça amarela, colheres de estanho, garfos de ferro, os copos de um vidro áspero que ainda conservavam a cor roxa do vinho, uma malga atestada de azeitonas pretas». E, ao sentir a comida a caminho, «esfregou energicamente com a ponta da toalha o garfo negro e a fosca colher», apareceu a sopa a fumegar, «desconfiado provou o caldo que era de galinha e rescendia». Provou, arregalou os olhos e sorrindo gostou. Ali se fez a conversão do nosso Jacinto ao meio rural. Três vezes comeu a perfumada sopa com fígado e moela e depois atirou-se ao arroz de favas - a pobre comida dos jornaleiros das suas propriedades. Lembra-se que em Paris abominava as favas, mas aqui provou e gostou. Destas sim. Destas favas «nem em Paris». Lançou-se como um lobo a um «louro frango» acompanhado da salada que tanto lhe tinha apetecido no quintal. Tudo «divino». E o vinho?! O vinho de Tormes, «um vinho fresco esperto e seivoso» caia de alto «duma bojuda infusa». Era afinal verdade o que o Zé Fernandes de Guiães lhe dissera, que em Paris «O senhor padece de fartura». Vai até à sala de jantar do Primo Basílio, o lisboeta. Uma criada diz: «Está a sopa na mesa». Há travessas de doce. Há creme crestado a ferro de engomar. Mais m prato de ovos queimados e a aletria com as iniciais do Conselheiro desenhadas a canela. A sopa está quente e tem longos canudos brancos e moles de macarrão. E, o cozido («o cozidinho»). Mais o arroz e o paio escarlate. A travessa de perna de vitela assada. O pão e os vinhos e as conversas sobre gulodices, receitas e proezas de lambarice…..
Ah! Estou, qual Jacinto estarrecido, a precisar tanto verde, do vinho de Bucelas - um branco fresco, de colheita tardia, talvez - o pão quente - do adoçicado da Esmeralda ao saloio da Mafalda - do pote atabafado daquela ao coelho de cabidela desta.
Lisboa, às vezes, cansa e devora, e o apelo daquela casa, na beira da velha fontaínha, rodeada de um imenso verde a perder de vista, sem vislumbre de alma humana, apossa-se de mim. Prometo. Ao primeiro vagar hei-de ir para lá.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Politicamente correcto - As coisas pelos nomes!

Agora que, por fim e inesperadamente, decidi filiar-me, e que até posso fazer uma ou outra incursão política, devia começar a preocupar-me em assumir atitudes "politicamente correctas". Abraçar a actividade política - ou utilizando uma linguagem revisitante de Abril, a acção política - exige acomodamento ao status comportamental reinante. Se bem que o que me fascine na Política é a Política com maiúscula, não a politiquice.
Assumo, pois, que uma das primeiras lições é, provavelmente, dado o meu mau feitio, a maior e a mais difícil de aprender: ser politicamente correcta. O que exigia que aprendesse a sê-lo! O que não quero fazer! Afinal, agora que me livrei da minha ligação ancestral (desde 90) à Administração Pública, estou livre (sempre fui livre, mas efectivamente obrigaram-me - e obriguei-me - a conter a minha irreverência) para ... ser livre!
Vejamos o que é ser Politicamente Correcto. Trata-se de aparentar um comportamento conforme ao socialmente estabelecido. Pensar de acordo com o status dominante. Não se pense que a expressão se circunscreve à política, ela alarga-se e alcança as atitudes mais dispares, desde o puritanismo à censura, ao dogmatismo, à ditadura das minorias. Uma das razões, a principal razão, em tempos de ditadura, em que os homens livres, ou o livre pensamento constitui não só a maior ameaça, mas sim A ameaça, estar e ser politicamente correcto significa actuar segundo as regras da moral burguesa. O que significa que aqueles tremendos disparates que impingiram aos nossos avós, via cultura salazarista, são muito - às vezes demasiado - semelhantes aos que, nos dias de hoje, nos querem imbuir. Provavelmente com a única diferença de que hoje, ao contrário de outrora, o politicamente correcto antes preocupava-se mais com o comportamento, com as atitudes sociais, e menos com a política ou o pensamento. Dantes, o politicamente correcto era absolutamente totalitário, ocupava selvaticamente o que o ser humano tem de mais seu: o pensamento.
Apregoam os eternos adeptos do "saber viver" o politicamente correcto como se nele se concentrassem todas as virtudes: prega a igualdade, o respeito pelo próximo, o anti-racismo, a tolerância para com todas as crenças políticas e religiosas. De facto, este é quase uma religião total, vai da moral ao comportamento, da política à sociologia, até às ciências da comunicação ... Para o politicamente correcto só há uma verdade: a sua. O politicamente correcto defende a tolerância ... mas apenas para o que é a sua verdade. O que opera como se cada ser perfeito - cada ser politicamente correcto - vive num universo igualmente perfeito. Até nos denominados assuntos fracturantes, para se ser politicamente correcto basta cumprir umas quantas penitências. Aos brancos, cabe assumir a sua co-culpa original na absentia, na escravatura, nos genocídios, no extermínio das espécies e nos maus tratos aos animais, etc..
Especificamente, as mulheres brancas costumam manifestar um grau inferior de culpa, porque embora exibam nos seus percursos individuais os mesmos pecados originais que todas as outras, se fazem valer da atenuante de terem sido vítimas de três mil anos de civilização judaico-cristã. Até para se ser uma mulher comum, para se manter politicamente correcta, somos obrigadas a ter o maior cuidado: a maquilhagem foi testada em animais? Fora as peles e outros tecidos oriundos de animais! Reciclem-se os restos do almoço e do jantar!
Pior é o politicamente correcto da linguagem anti-xenófoba. Não é politicamente correcto gostar de touradas. Temos de ser contra a morte dos animais! Mas atenção apenas quando morrem às mãos dos homens. Já é uma morte politicamente correcta se o boi (ou a vaca) for abatida num matadouro que obedeça às regras sanitárias de acordo com a legislação nacional e comunitária, sob a ditadura da ASAE - de resto, uma das entidades oficiais politicamente correctas - na discrição do local, e se nos for servida num prato sob a forma de bife. Quem não se lembra das manifestações de massas que os arautos do politicamente correcto organizaram em Barrancos?
Do ponto de vista da assimilação cultural, ser politicamente correcto significa para o vulgo ter a pretensão de ver as culturas que nos são desconhecidas com os mesmos olhos com que vemos a nossa. Politicamente quem mais defendeu a descriminalização do aborto foi quem conseguiu adiar que o Parlamento legislasse condenando a excisão do clítoris nas comunidades imigrantes.
Igualmente quando se julgam as ditaduras, o politicamente correcto tende a considerar as terceiro-mundistas, ou que se invoquem do anti-capitalismo ou do anti-americanismo, como boas e em qualificar os regimes democráticos que se lhes opõem de imperialistas e opressores.
O politicamente correcto assumiu um papel que relegou os qualificativos caseiros para as calêndulas, substituindo-os por vocábulos mais "normalizados", "civilizados", eufemismos urbanos. Proibiram-se determinadas nomenclaturas e olha-se em viés quem persiste em usá-las. Passámos de contínuo a auxiliar de acção educativa, de criadas a mulheres a dias e depois a empregadas domésticas, de varredores a técnicos de limpeza e jardinagem, etc.. E há ainda umas quantas categorias para as quais se torna cada vez mais difícil encontrar no léxico comum uma denominação politicamente correcta, como no caso dos homossexuais. Restam os circunlóquios.
Bom. Pergunta o amigo como resistir a esta avalanche de vocábulos "refinados" que pretendemos ostentar como indício - o único?! - de civilização.
Deixe que lhe diga. Resista ao atropelo. Arrogue-se o direito de ser irreverente. Não adira ao movimento dos que "adaptam" às exigências do status quo, com medo de ser diferentes, e de pagar, bem caro, por essa(s) diferença(s). Faça uma desintoxicação, encare o politicamente correcto com a mesma frontalidade com que enfrentou a Gripe A, evite-se a contaminação maciça. Primeiro remédio: consciencialize-se de que o politicamente correcto é uma linguagem verbal, gestual e corporal e resista-lhe! Segundo: torne-se um feroz adepto da renúncia às terminologias politicamente correctas e aos movimentos e ideologias que as apoiam.
Credo, criaturas, chamem - reivindiquem o intemporal direito - as coisas pelos nomes!

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Histórias de mulheres brilhantes - para todos


Uma nota para a disponibilização online do livro “Women in Science”, pela Comissão Europeia. Biografias de mulheres europeias que se notabilizaram na história da Ciência, um guia das “heroínas da ciência europeia”.
A abertura do livro é do Comissário Europeu para a Ciência e Investigação, Janez Potočnik, lembrando como as mulheres foram afastadas da vida científica, embora isso não signifique que seja um mundo de homens: “Ao longo dos séculos, as mulheres conseguiram superar a marginalização e notabilizaram-se nos campos que foram escolhendo, com contribuições vitais para o conhecimento humano”. É uma celebração das "mulheres cientistas através da história”. O livro não lista todas as mulheres cientistas da história e opta por não incluir nenhuma que ainda esteja viva, antes prefere dedicar-se a cobrir uma parte da sua história, desde o tempo dos gregos até à actualidade. Em suma, um retrato da história da emancipação feminina, desde a Idade Média, quando a Ciência e muitos outros campos eram quase exclusivamente para os homens, até ao século XIX e XX, em que, supostamente, as mulheres chegaram ao reconhecimento da igualdade e à equidade.Na introdução do livro, uma menção para “a paridade legal”, um objectivo sempre presente e vivo, e em que a Europa não é inocente. As mulheres ainda são muitas vezes discriminadas em vários domínios da investigação, particularmente nas chamadas Hard Sciences e nos postos de liderança. Mas esta “É uma situação que não pode prosseguir”.
O comissário Janez Potočnik dá algumas palavras de satisfação para o facto de as mulheres se encontrarem no topo da investigação científica e serem reconhecidas, incluindo com uma dúzia de prémios Nobel, mas chama a atenção para a necessidade de a Europa continuar o “bom trabalho” e impôr definitivamente as mulheres na vida científica, porque “as mulheres merecem e a ciência beneficia”.O livro é também uma forma de “comemorar o 10.º aniversário das acções europeias em matéria de mulheres na ciência, com a primeira Comunicação da Comissão publicada em 1999 com a promessa de melhorar a situação das mulheres no mundo dos «homens»”. E, a propósito, ênfase para o livro "A Paixão de Descartes", história de amor e de sabedoria, de humor e ironia, em que se misturam cartas de há trezentos anos com e-mails do século XXI, esconjuros para atrair amantes hesitantes e esboços de histórias tão antigas e belas como lençóis de linho.«Um livro para quem gosta de se deixar seduzir pelas palavras, que as palavras, se forem bem escolhidas e a alma estiver no ponto, podem prolongar o prazer como afrodisíacos e acalmar a dor como analgésicos. Um felicíssimo encadeamento de acontecimentos desde o século XVII até aos dias de hoje.», segundo o Semanário Económico. «Um notável romance que mistura a contemporaneidade – uma estudante de Descartes – com o tempo em que se insere a acção da pesquisa. Através do filósofo francês, a autora fala-nos do Século das Luzes e de mulheres brilhantes.», segundo a Elle. «Uma obra intensa e memorável que dá voz ao espírito rebelde e ao desejo de liberdade das mulheres.», segundo o El País.
E se se interessa mesmo pela(s) história(s) da(s) mulher(es) leia ainda A Coragem de Camila, Querido Frank e O Toque de Midas. Coisas para mulheres e homens com manifesto fair-play.