segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Sardinhas com chantilly

Confesso que não sou admiradora literária da Margarida Rebelo Pinto, mas admito que, de vez em quando, lhe passam laivos de uma lucidez devastadora e com os quais me ponho já em lógica de acordo. A propósito da minha tendência para ter amigos, no masculino, e poucos, no feminino, parece que afinal o mesmo ocorre com ela e que é tendencialmente mais comum. Vou conhecendo mais umas quantas que mantém "uma espécie de harém casto que é gerido com sabedoria e amizade." Mas isto só acontece com determinado tipo de mulheres. Geralmente independentes, pouco feitas à duplicidade das práticas conjugais e resistentes a impulsos e jugos masculinos. Têm uma vida profissional cheia e são pouco dadas à vocação doméstica. O harém inclui relações antigas que se foram convertendo em amizades, fraternidades e cumplicidades que nunca pisaram o risco interfronteiriço entre os sexos.
E porque será que vamos preferindo ter amigos homens? Primeiro, porque, ao contrário do que acontece com os homens," têm mais dificuldade em encontrar um grupo coeso, a irmandade da qual os homens tanto se orgulham."
Somos, ao contrário do que se diz e pensa, mais individualistas e mais competitivas em termos afectivos do que os homens, e, por isso, acabamos por sentir mais a solidão. Os homens operam pela lógica de grupo, estão mais habituados à convivência (a jogar/a ver futebol), movimentam-se em bandos e, mesmo depois constituirem família, escapam com frequência para se juntarem, de novo, à manada - o seu porto seguro. As mulheres-mães, quando os filhos chegam, arrogam o (estúpido) mito de que são melhores do que os pais, abdicam do passado, das velhas amigas e reduzem-se a esse papel. Mas é uma pena que desconheçam a importância de ter amigos-homens, tipos com quem se mantém "uma amizade límpida e reparadora. Alguém que nos conhece bem, a quem não precisamos de fazer charme, que já nos viu chorar algumas vezes, que partilha as nossas vitórias e nos oferece ombro e companhia nos momentos mais áridos das nossas vidas." E enquanto os homens procuram o conforto em conversas curtas, ali algures entre a quarta e a quinta imperial, as mulheres preferem muitas vezes uma companhia masculina que lhes explique como funciona o cérebro masculino e nos faz sentir interessantes e atraentes, sem nos porem a mão na perna. "Os bons amigos homens são tão importantes na vida de uma mulher como um bom advogado, um bom contabilista ou um bom cabeleireiro. Sem eles, a nossa vida seria infinitamente mais difícil. Mas para que essa amizade não se estrague, há que separar as águas e deixar o sexo de fora." Acredito em sólidas e perpetuáveis amizades - a preto e branco - e não caio em modas de "amizades coloridas." Confesso que acho que "o tempo tende a esbater as cores" e que "há misturas que acabam quase sempre por correr mal." "É tão arriscado como experimentar sardinhas com chantilly." Diz. Parece-me bem a analogia. Até porque bem pode ser uma questão de fel-mel, ou amargo-doce.

Os 85 anos do Mário!

Concordo com o Miguel Sousa Tavares.
Na Quinta-feira, 17 de Dez, diz-nos que leu a entrevista de Mário Soares.
Este Velho do Restelo (creiam-me no melhor dos sentidos!) fez 85 anos.
Não o conheço. Aliás, da família, conheço a Olímpia, a sua (primeira) nora - de quem gosto muito, faço questão de deizar claro.
Mas voltando ao Miguel.
Admito, como ele, que Soares é único (embora tenha um fraquinho pelo Alegre, porque é poeta, um bom homem, e porque sim), que "teve uma vida fascinante e é um notável contador de histórias.", porque "mantém, intactas, essa fabulosa alegria de viver, curiosidade e optimismo que só encontramos em raros homens do poder", como Churchill.
Olhando o percurso político, a vida, e a coerência das ideias do Mário e a - "grande verdade é que ele destoa no oceano de mediocridade envolvente."
Soares é um "homem com um pacto de vida jamais traído com a liberdade - coisa tão rara em terra onde a liberdade sempre foi tão pouco estimada."
E vai que nos pomos a ler a entrevista e a ver os posts dos leitores. Chovem insultos, calúnias reaccionárias, mistura explosiva de ódio e de muita inveja.
E não posso deixar de concordar com o Miguel, gente assim, com tanto desprezo à flor da pele, "arrepiam de nojo. Que gente é esta? Que nação é esta que produz gente assim? Que, pela frente, calam, obedecem e curvam a espinha, e, por trás caluniam, insultam, inventam, e vomitam até à náusea essa tão antiga e fatal característica portuguesa: a inveja. Mais uma vez me convenço de que esse território do anonimato e da impunidade dos blogues e redes sociais foi inventado como uma luva para satisfazer a insaciável frustração desta gente. A inveja e a cobardia escorrem por ali como o mel em terra prometida. Pois que morram de indigestão de tanto prazer solitário!"
Temos dito!

Lisboa mais bonita - vista por um inglês!

O meu amigo Alexander Ellis, embaixador britânico, tem uma visão sobre as Dez coisas que melhoraram em Portugal nos últimos 15 anos.
Os portugueses são tão pessimistas que nem isso vêem. Acompanhemo-lo.Mortalidade nas estradas; as estatísticas não mentem - o número de mortes passou de 2000 em 1993 para 776 em 2008. O vinho; já era bom. Agora há mais variedade e inovação, mais oferta, experiências agradáveis e premiados. O mesmo aconteceu com o azeite. O mar; Lisboa, em 1994, era uma cidade de costas para o mar; poucos restaurantes e bares com vista para o mar. Hoje, esplanadas e surfistas por toda a parte. A zona da Expo; era horrível em 1994, só poluição, e ruínas de velhas instalações petrolíferas. Agora é uma zona urbana, cheia de museus e edifícios culturais, ciência e ... bares. Boa cerveja (aliás com o único bar que faz degustação de cervejas). A saúde; traduzido no aumento da esperança de vida, de cerca de 74 em 1993 para 78 anos em 2008. Os parques naturais; do Gerês a Monserrate ; mais limpo, melhor sinalizado, mais agradável. O cheiro. Menos fumo e com a probabilidade de a roupa ainda ter cheiro a perfume francês ado fim do dia. A inovação; com algumas das empresas mais importantes a investir no Reino Unido ; altíssima tecnologia, quadros dinâmicos e - o mais importante de tudo - vão sem medo. O metro de Lisboa. Mais limpo, rápido e acessível. E com estações mais bonitas (compare-se com as de Londres). As cores; Portugal tem e sempre teve cores naturais bonitas. Mas a minha memória de 1994 era o aspecto visual bastante cinzento das cidades, desde a roupa até aos carros. "Hoje há mais alegria - recordo um português que me disse, talvez com tristeza, que o país estava a tornar-se mais tropical. Em termos de imagem, parece-me um elogio!"

Não é bom ter amigos fantásticos?!

Esquemas e intrigas - autoria e co-autoria

A Presidência da República afirmou domingo que o relacionamento entre o chefe de Estado, Cavaco Silva, e o primeiro-ministro, José Sócrates, é do domínio do reservado e «não alimenta intrigas montadas para desviar as atenções».
Ou seja, Cavaco Silva «não alimenta intrigas montadas».
Vejamos o que há de verdade nisto.
Tudo a propósito da ausência de Sócrates na cerimónia de posse dos conselheiros de Estado, na quarta.O que deu (voltou a dar) origem a grandes especulações.
Uns dizem (Diário Económico, de sexta-feira) que se sentia o «incómodo de Belém» por o Primeiro ter «trocado uma reunião de Estado por uma reunião partidária», informando «poucas horas antes» o Presidente da República.
Depois (Expresso, de sábado), reiterava-se o «desagrado» do PR.
Parece que isso não foi verdade, e veio o gabinete do Primeiro dizer que este «Simplesmente» não conseguiu chegar a tempo. Em São Bento (DN), diz-se que Sócrates terá sugerido o adiamento por umas horas do encontro a dois [com Cavaco Silva], o que não terá sido possível por a agenda do PR não o permitir.
Uma coisa é certa. O PR não alimenta "esquemas" montados por outros, até porque já provou que é suficientemente inteligente para montar os seus.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O juiz decide ... rápido, se faz favor!

Meus caros, eis-me a falar-vos sobre a responsabilidade civil dos magistrados.
Aproveito as palavras de alguém que admiro e tempero-as como me aprouve.
Diz-se que, actualmente, ".. sempre que um juiz decide um caso relevante (ou com pessoas influentes) está a colocar em risco a sua casa, o carro, o colégio dos filhos e a sua tranquilidade. À dificuldade natural da decisão foi acrescentado um ruído desnecessário e eventualmente perturbador da mesma."
Após a entrada em vigor da Lei nº 67/2007, o juiz pode ver-se constrangido ao dever de indemnizar alguém (que "acusou") porque haverá gente que entende que ele cometeu um erro grave, que a solução podia ser outra - mais justa e adequada.
Se pego no caso, posso arranjar problemas? Quem vou chatear?
(recorde-se: o colégio, o carrito, o T4)
Se "isto é corrupção para acto lícito e já está prescrito?" "... que provas temos?" Se o Professor X acha que não temos, quem sou eu para dizer o contrário? - apesar de até o homem "médio" ver com evidência a necessidade de censura penal de uma determinada conduta?
Num caso judicial, o magistrado não esteve lá, não viu, não ouviu, limita-se às provas "possíveis" - às que lhe chegam às mãos.Imagine-se que "cristaliza" factos acusatórios. Vem o arguido com mil interpretações jurídicas, pareceres de uns e de outros, que, a preço de ouro, defendem que, às vezes, 2 e 2 são mais ou menos 4; quer dizer, admite-se que 2 e 2 sejam 4,3.
Mata-se a trabalhar para contraditar, sobrepõem-se as pilhas de processos, atrasam-se os despachos, estraga as estatísticas.
Independentemente de julgar bem ou mal, o que interessa é que decida rápido e ... bem, seja lá isso o que for, sob pena de, no final, o magistrado se ver a viver "debaixo da ponte.... só porque se armou em herói."
Mesmo que não se saiba para onde se vai, será que quer mesmo ir por aí? (Subscrevendo JOÃO MIGUEL GASPAR O CACHIMBO DE MAGRITTE)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Maria José Nogueira Pinto - a Pierrot

Maria José Nogueira Pinto é uma mulher de classe. Definitivamente. Mas há dias ... em que parece sentir-se "da sua classe" e não simplesmente "de classe".
Habituou-nos à sagacidade, à astúcia, à inteligência nivelada por cima, tudo isto optimizado por uma educação da "mais fina flor". Não nos esqueçamos que a flor, porém, é de estufa! Ninguém a toma por uma rosa selvagem, clandestinamente nascida num qualquer lugarejo. Sabemo-la de "raízes" (independentemente de apelidos e muito menos de questões nobiliárquicas). Mas é uma florzinha sem resistência ao menor golpe de espinho.
Depois de a sabermos objecto de desavendas e dada a suscitar "elevações" de humor(es) na sua bancada e a apoquentar os poderes consolidados do seu partido, vem agora a "florzinha" encher-se de ares de zé-povinho e ser vedeta em São Bento.
Parece que a sua bancada faz pantomínias e que as outras apenas são circences.
Em política, os vernizes estalam com a maior facilidade! E o verniz estalou!
Logo, na primeira audição da Comissão Parlamentar de Saúde - como serão a segunda, a terceira e por aí fora?! - saca da arma do insulto e desce ao cais (do Sodré) beneditino. Saca da arma do insulto (ainda que um mero insultozinho, coisita de nada). O facto de chamar ao deputado socialista Ricardo Gonçalves, "palhaço" nem seria algo de que se falasse, se a Maria José não nos parecesse ultimamente tão ... nervosa.
Minha querida, se a menina - dez anos a mais que eu, note-se - perde a classe, que é feito dos da "sua classe"?!
Se o PP já legitima ensaios de galhardetes ... com o PS, das duas uma: ou quem desdenha quer comprar ou a paixão está num impasse!
Creia, Maria José, que a pantomínia do seu partido nos leva a crer aspirar a um noivado com o circo e que a menina, lascado o verniz, parece mais um pierrot.
Ou mantenha a discrição oriental das pantomínias ou vista de vez o xadrez do dito, deixe que a lágrima lhe caia pelo abaixo e ... desabafe ... chore ... se quiser!
É que o pierrot mais não é que uma figura circense, simplesmente ... triste!
Por mim, apesar de não ser grande apreciadora da arte circense, prefiro ser palhaço um só dia do que pierrot toda a vida.
Não concorda?!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

RASGOS FEMININOS - AINDA URGEM E SE INSURGEM

Um tema sempre presente. O lugar da mulher na política. Melhor dizendo, o direito à palavra no feminino dentro do mundo político.
E aqui importa reter a imagem da República, lembrando Lisboa, regila, varina, mulher endiabrada, Severa feita som de Fado, este tornado Saudade. Aquela mulher desbravada, desgarrada, de peito entrevisto, entrecoberto, arregaçando a sua força, como da Natureza ela mesma se tratasse.
Que fez a República pelos Direitos da Mulher?
Desafiando a polémica, Carolina Beatriz Ângelo, médica, viúva e “chefe de família”, apresentou-se a votos nas primeiras eleições republicanas a 28 de Maio de 1911, fazendo valer as indefinições (omissões) da Lei. Seguindo a controvérsia provocada, faz-se aprovar, em 1913, a Lei Eleitoral da República, em que, pela primeira vez num texto legislativo, se determina expressamente a relevância do sexo para efeitos ... eleitorais: “são eleitores dos cargos políticos e administrativos todos os cidadãos portugueses do sexo masculino, maiores de 21 anos, ou que completem essa idade até ao termo das operações de recenseamento, que estejam no gozo dos seus direitos civis e políticos, saibam ler e escrever português e residam no território da República Portuguesa”.
Vai que o direito de voto foi dado às mulheres, ainda que precariamente, pela primeira vez, em 1931 sob o patrocínio legislativo do Estado Novo (lei nº 19:694 de 5 de Maio), restringido àquelas com frequência do curso dos Liceus. Em 1934 nas eleições legislativas foram eleitas pela primeira vez mulheres para a assembleia nacional: Domitília Hormizinda Miranda de Carvalho, Maria dos Santos Guardiola e Maria Cândida Pereira.
Era o princípio do fim! O fim do império masculino, aposto na cláusula de masculinidade. quando após o “incidente” Carolina Ângelo se tentou mostrar aos dirigentes da república a necessidade de clarificar algo que até aí lhes parecia por demais evidente: o carácter masculino da política portuguesa. Não que fosse preciso explicar às mulheres o lugar delas, mas já que algumas ousaram levantar a questão, era urgente esclarecê-la e, se possível, dilucidá-la (até apagá-la!). E daí que se aproveitasse a sessão inaugural da Assembleia Constituinte, em 19 de Junho de 1911, para deixar inequivoca e expressa a cláusula de masculinidade para a entrada no parlamento republicano. A partir daí, a legislação subsequente limitou-se a confirmar que as mulheres estavam excluídas do processo político, inibidas de pensar politicamente, ao menos em público.
Eis senão quando, em 1913, a República, talvez por ser mulher, se retrai, e retrocede, retirando o voto aos analfabetos e - no mesmo plano as qualificou - às mulheres.
“A República, na igualdade dos sexos, voltava sobre si mesma e à discriminação da mulher, anjo do lar”. Assim o dizem hoje João Távora e Carlos Bobone.
Mas a alma feminina é feita de rasgos e complexidade que a sintética e paragmática cabeça masculina tem dificuldades de perceber! E vai daí, outra vez, que, em 2010, quasi, as mulheres se insinuam, que esta coisa de ser mulher é muito mais séria do que os homens pensam, no poder, na política, no dinheiro, e, por fim, o tão e maior temido dos campos ancestrais de guerra: o lar! E volvidos uns tantos anos, agora que elas já votam - falta instigá-las a participar, a exporem-se, a desocuparem o segundo plano que tão (in)confortavelmente ocupavam ...
Agora que já a mulher vota, falta-lhe devotar-se à política, não por carreirismo, mas porque lhes cumpre, novamente, mudar. E, porque, para mudar, há que agir, e uma - apenas uma - dessas menifestações de mudança pode ser através da acção política.
Mudar o rumo ancestralmente traçado pelo masculino e elevar as vozes femininas ao púlpito de São Bento.
Rezemos, por isso, Senhor!
Valha-nos a República!